Luis Felipe Miguel
Os militares que chegaram ao poder com o golpe de 1964 se diziam a favor da democracia. Não acho que fosse só hipocrisia. Muitos deles de fato queriam um sistema em que o poder fosse legitimado pelo voto popular, desde que as alternativas disponíveis fossem todas condizentes com a manutenção das hierarquias sociais vigentes. Uma "democracia" peculiar, mas que queria receber o nome de democracia.
(O general Geisel chamou de "democracia relativa". O coronel Erasmo Dias, de "democracia autoritária". O professor Vélez Rodríguez, de "regime democrático de força".)
A repressão feroz contra o movimento operário e as organizações da esquerda visavam eliminar do cenário aqueles que tinham potencial para perturbar a ordem almejada. Cassações de mandatos e outras interferências na representação política formal sinalizavam os limites que deveriam ser interiorizados para que a "democracia" pudesse vigorar.
Os militares deixaram o governo em 1985, mas seu projeto triunfou. O debate político no Brasil pós-ditadura foi, na média, bem mais circunscrito do que no Brasil pré-1964. Novas pautas ganharam destaque, mas o componente anticapitalista e antiimperialista foi domesticado. Quando o PT chegou ao poder, em 2003, seu programa estava muitos furos abaixo das "reformas de base" pregadas por João Goulart.
Outras circunstâncias colaboraram - o avanço do neoliberalismo, a vitória estadunidense na Guerra Fria. Mas o esforço repressivo do regime não pode ser deixado de fora da conta. A urgência do combate à ditadura fez com que boa parte da esquerda sufocasse seu próprio discurso para não comprometer a necessária aliança com os vastos setores liberais e conservadores que foram passando para a oposição, seja porque não gostaram da nova ordem quando a conheceram, seja porque julgavam que ela estava se tornando desnecessária.
Desde a produção do golpe de 2016, vivemos uma ofensiva para uma restrição ainda maior do espaço do politicamente possível no Brasil. As circunstâncias são diversas, mas, se alguém duvida do potencial de violência do processo que estamos vivendo, sugiro que olhe para a cara do sujeito que senta na cadeira de presidente da República. Temos um líder político na cadeia, temos um deputado eleito no exílio, temos o assassinato de lideranças do campo popular, temos o crescimento da truculência policial, temos instituições judiciárias a serviço do arbítrio.
Tal como antes, há uma pressão forte para que a esquerda apague seu diferencial em nome de alianças amplas. Há um incentivo grande para que a oposição fique concentrada nos aspectos mais bizarros do bolsonarismo - sua incompetência e ignorância colossais, sua obsessão com moinhos de vento, sua brutalidade, sua falta de modos à mesa. Contra isso, reunimos sim um arco amplo. Até Fernando Henrique e a Folha de S. Paulo ficam do nosso lado.
Mas o embate, digamos, entre trogloditas e pós-trogloditas não é o único, nem possui, como diriam nossos amigos cartesianos, uma primazia lexicográfica sobre os outros. A oposição à esquerda não pode deixar de ser esquerda para se diluir na oposição. Se o preço para vencer Bolsonaro for a aceitação de uma reforma previdenciária contrária à classe trabalhadora e às mulheres, da redução do investimento social do Estado e da seletividade do Poder Judiciário, uma submissão maior aos interesses estadunidenses ou o abandono da defesa da universidade pública e gratuita - bom, se for isso, não é uma vitória, é uma derrota.
Marcar essas distâncias em relação a outros opositores ao bolsonarismo não é "fogo amigo". É afirmar a particularidade e a relevância das posições políticas à esquerda no debate público e recusar o emparedamento delas, que o neomacartismo tupiniquim em vigor quer levar a cabo,
Sim, eu quero um governo que busque ter os pés na realidade, que seja capaz de sustentar um debate público sobre suas políticas, que não pense em matar seus adversários, que tenha projetos e metas. Mas não é só isso. Também quero - para dizer sinteticamente - o fim do capitalismo, do patriarcado e da Rede Globo. Uma ordem "democrática" em que essa possibilidade esteja afastada de antemão não basta.

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