Sylvia Moretzsohn
Comparar as colunas do Janio de Freitas e da ombudsman na Folha de hoje é ter a dimensão precisa do fosso que existe entre o jornalismo como ele deve ser e o jornalismo de conveniência. O que explica, por tabela, uma das razões essenciais para o afastamento do público.
Janio é conhecido pelo rigor e pela contundência. Por orientar suas análises pelos princípios elementares do jornalismo, que, como ele escreveu certa vez, jamais autorizam um articulista a ir além do que os fatos lhe permitem.
Pois hoje ele escreve um de seus textos mais vigorosos sobre a Lava Jato e, em especial, sobre Moro: "O grande impune". Conclui, com todas as letras: "Sérgio Moro é o maior e mais grave caso de impunidade do Brasil".
Já a ombudsman, num texto que anuncia uma autocrítica da Folha (sobre a cobertura da Lava Jato), diz que o conteúdo das conversas reveladas pelo Intercept "pôs em dúvida a imparcialidade do então juiz e hoje ministro da Justiça".
Então é assim: tudo está absolutamente escancarado (e já estava evidente mesmo antes da revelação dessas conversas), mas a ombudsman ainda tem dúvida.
Em seguida, escreve:
"O forte apoio da população à operação e a heroicização dos líderes da Lava Jato de certa forma inibiram abordagens mais críticas aos métodos da operação, incluídos os exageros nas buscas e apreensões, as conduções coercitivas desnecessárias e as prisões por tempo indeterminado."
A ombudsman, naturalmente, nem desconfia quem produziu esse forte apoio popular, nem quem promoveu Moro e seus meninos de preto a heróis nacionais. A imprensa, coitada, nada tem a ver com isso, aliás, pelo contrário, é vítima de tudo isso e nem pôde cumprir adequadamente seu papel, diante da ira santa das multidões, que brotou das entranhas delas mesmas.
Em suma, dois textos exemplares neste domingo. Se eu ainda estivesse na ativa (mas, afinal, não estou?), seriam a base da minha próxima conversa com os alunos.

Moro não é mais aquele o que fazer com ele
ResponderExcluir