O capitalismo sul-coreano, um breve fio
Fernando L'Ouverture
Uma amiga de SP acabou de dizer que para entender "Parasita", não precisa conhecer o capitalismo sul-coreano. Basta apenas abrir a janela e ver o caos da cidade - remetendo à icônica cena da enchente que o filme apresenta.
Eu concordo. Mas conhecer um pouquinho mais do capitalismo sul-coreano é importante. Até porque, há espantosas semelhanças na história da Coreia do Sul com o Brasil.
Entre 1963 e 1979, o país esteve sob governo do general Park Chung-Hee, num regime militar ditatorial.
Antes dele, a instabilidade política, a influência americana e a ausência de democracia eram constantes. De fato, até o assassinato de Park, era possível dizer que não havia democracia na Coreia do Sul, sendo um dos regimes mais corruptos e violentos do Extremo Oriente.
Quando Park é assassinado, em 1979, contudo, o regime não caiu de imediato. No ano seguinte, em 1980, estudantes protestam contra a ditadura exigindo o seu fim e acabam sendo reprimidos no "Massacre de Gwangju". Até hoje não há cifras precisas sobre o número de mortos...
A solução que o regime encontrou foi, por meio de voto indireto de um colégio eleitoral, eleger um outro militar Chun Doo-hwan, que teria mandato de sete anos e poderia fazer apontamentos indiretos burlando o sistema eleitoral.
Na prática, a ditadura perdurou até 1987.
Somente a partir de 1988 (ó a coincidência) que o regime sul-coreano mudou, de fato, para uma democracia liberal direta - ainda que o candidato eleito, Roh Tae-woo fosse ele também um militar.
1988 foi o ano que o regime, de fato, se abriu para o mundo. Quem é mais velhinho deve lembrar que Seul sediou as olimpíadas naquele ano, anunciando a nova fase política do país. Foi a última olimpíada da Guerra Fria e, ainda que com alguns boicotes, foi considerada um sucesso.
A economia sul-coreana dava cada vez mais passos largos. O protecionismo dos anos da ditadura estava sendo abandonado e as grandes empresas começaram a emergir com capacidade de competir em mercados como Taiwan e Singapura.
Os chamados "Chaebol" (재벌).
Assim como o capitalismo japonês se valeu de um sistema dual de proteção interna e crescimento de "gigantes nacionais", os sul-coreanos aplicaram a mesma fórmula. E em 1988, pela primeira vez, a Nissan conseguiu eleger uma bancada na Assembleia Nacional do país.
Políticas do tipo "too big to fail" foram rapidamente implementadas, com abundância de crédito vindo do Estado para as grandes empresas - que por sua vez foram engolindo as menores no mercado.
Geralmente se fala que o neoliberalismo só teve início na Coreia a partir de 1997 mas não é bem assim. Antes disso, as regulações financeiras praticamente se dissiparam e havia praticamente um regime dual de trabalho no país, com as grandes empresas do "Chaebol" tendo um regime próprio e "flexível".
Quando a crise de 1997 estoura, a Coreia do Sul sente forte o impacto, mas o receituário do FMI foi de manter a desregulação financeira. O resultado foi um empoderamento ainda maior dos Chaebol. E com isso, as regulações trabalhistas foram minguando ainda mais.
O Estado sul-coreano, na sua política de campeões nacionais, deixou essas empresas como Hyundai, Samsung e LG crescerem indeterminadamente. A crise, como era de se esperar, arrebentou financeiras menores às quais o Estado sul-coreano se recusou a resgatar.
Essa combinação entre campões nacionais e desregulamentação financeira foi muito bem sucedida na Coreia do Sul, mas seus impactos são tão danosos quanto no Brasil. Segundo Max Balhorn, 25,4% dos sul-coreanos eram autônomos em 2017.
A tendência é que o número cresça, claro. Ao mesmo tempo que as campeãs nacionais vão bem.
Essa combinação entre neoliberalismo e o desenvolvimentismo focando em campeões nacionais é a história do capitalismo sul-coreano hoje e que o filme de Bong Joon-hon capta tão bem.
A Coreia do Sul virou um modelo para muitos dos liberais brasileiros, mas a verdade é que o liberalismo lá é relativo, pois o Estado intervém constantemente para manter a competitividade das "chaebol". Na verdade, o Estado sul-coreano é controlado pelas "chaebol".
No filme, sabem como isso aparece? Com a história de Geun-sae, que toda noite antes de dormir louva a história do CEO, dono da casa, o sr. Park. Os "chaebol" são vendidos como pequenos empresários que prosperaram com o trabalho duro.
Nada mais distante da realidade. Cada vez mais cidades como Seul se gentrificam e se tornam espaços segregados, onde as famílias ricas têm acesso a investimentos de saneamento e urbanidade, enquanto nas periferias alagamentos, enchentes e violência são recorrentes.
O fio, que era para ser breve, se alonga demais. Eu não quis ficar apontando aqui todas as semelhanças com a história recente brasileira, mas elas são relativamente fáceis de construir - nem precisa de muita imaginação.
O que é mais aterrador, contudo, é que o filme deixa muito claro que a história, que é uma história sul-coreana, passou a ter um alcance universal. Esse é o capitalismo hoje, mais do que nunca. A guetificação dos ricos se acentuou num plano nunca antes visto e o Estado foi efetivamente sequestrado por eles.
Alguém pode dizer: sempre foi assim. Mas a verdade é que numa perspectiva marxiana, o desenvolvimento do capitalismo foi reduzindo as diferenças, de tal forma que assim como Hollywood se viu em Seul, Seul também se vê em São Paulo.
Felipe Augusto Machado
Ao meu ver, as diferenças entre as trajetórias da Coreia do Sul e do Brasil são maiores do que as semelhanças, e ajudam a explicar os distintos estágios de desenvolvimento
A questão é que a correlação de forças entre Estado e Chaebols se alterou bastante ao longo do tempo.
No início, o Estado coreano conseguia disciplinar as estratégias dos Chaebols, pois administrava o comércio exterior e os fluxos de capital, com foco na industrialização e na segurança nacional
Teve até ameaças de prisão para alinhá-los aos Planos (Kim; Park, 2013).
Já no início dos anos 80, os Chaebols haviam crescido tanto que começaram a se rebelar contra a liderança estatal
Nesse contexto, iniciaram-se os primeiros movimentos pela desregulamentação econômica (Amsden, 1989; Studwell, 2013).
A capacidade do Estado de liderar o desenvolvimento começava a se reduzir
O poder dos Chaebols cresceu tanto que, em 1996, sua Associação chegou a preparar um Relatório defendendo a extinção de todos os Ministérios, exceto Defesa e Relações Exteriores (Studwell, 2013)
No Brasil, a chamada política dos campeões nacionais ocorreu em contexto completamente distinto.
Para começar, não houve coesão política em torno do objetivo de industrializar ou de dominar tecnologias estratégicas (vide "Programas para Consolidar e Expandir a Liderança" da PDP).
E, mesmo se houvesse, o poder de barganha do Estado pós-Consenso de Washington era muito inferior ao que o Estado coreano tinha.
As diferenças importam, pois só um deles atingiu a renda alta. E, apesar dos problemas apontados em “Parasita”, nossa desigualdade é de outra magnitude:
Felipe Augusto Machado
Ao meu ver, as diferenças entre as trajetórias da Coreia do Sul e do Brasil são maiores do que as semelhanças, e ajudam a explicar os distintos estágios de desenvolvimento
A questão é que a correlação de forças entre Estado e Chaebols se alterou bastante ao longo do tempo.
No início, o Estado coreano conseguia disciplinar as estratégias dos Chaebols, pois administrava o comércio exterior e os fluxos de capital, com foco na industrialização e na segurança nacional
Teve até ameaças de prisão para alinhá-los aos Planos (Kim; Park, 2013).
Já no início dos anos 80, os Chaebols haviam crescido tanto que começaram a se rebelar contra a liderança estatal
Nesse contexto, iniciaram-se os primeiros movimentos pela desregulamentação econômica (Amsden, 1989; Studwell, 2013).
A capacidade do Estado de liderar o desenvolvimento começava a se reduzir
O poder dos Chaebols cresceu tanto que, em 1996, sua Associação chegou a preparar um Relatório defendendo a extinção de todos os Ministérios, exceto Defesa e Relações Exteriores (Studwell, 2013)
No Brasil, a chamada política dos campeões nacionais ocorreu em contexto completamente distinto.
Para começar, não houve coesão política em torno do objetivo de industrializar ou de dominar tecnologias estratégicas (vide "Programas para Consolidar e Expandir a Liderança" da PDP).
E, mesmo se houvesse, o poder de barganha do Estado pós-Consenso de Washington era muito inferior ao que o Estado coreano tinha.
As diferenças importam, pois só um deles atingiu a renda alta. E, apesar dos problemas apontados em “Parasita”, nossa desigualdade é de outra magnitude:



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