segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Decisão de Trump retira status de país em desenvolvimento do Brasil


Decisão da Casa Branca retira status de país em desenvolvimento do Brasil

Jamil Chade
Medida tem como objetivo reduzir a capacidade de economias emergentes de subsidiar suas exportações. Além do Brasil, mais de 20 países foram afetados.
Uma decisão publicada nesta segunda-feira pela Casa Branca retira o Brasil e cerca de 20 outros países da lista das economias que contam com certos privilégios por seu status de país em desenvolvimento. Com a mudança, o governo de Donald Trump ganha maior margem para aplicar barreiras comerciais a produtos brasileiros, indianos e chineses, caso comprovem que esses bens são subsidiados acima de um teto.

Diplomatas brasileiros admitiram que estão avaliando o anúncio, que se limita a tratar especificamente de temas relacionados com investigações contra práticas comerciais consideradas como injustas. Procurado, o Itamaraty ainda não deu uma resposta oficial sobre a posição do governo e nem se havia sido informado pela Casa Branca sobre o anúncio que seria feito.

No caso do Brasil, uma negociação entre Trump e o Planalto em 2019 indicou que o governo de Jair Bolsonaro estava disposto a abrir mão de seu status de país em desenvolvimento para futuras negociações na OMC. Isso ocorreria em troca do apoio da Casa Branca para a adesão do Brasil na OCDE.

Mas tal acordo não previa a questão de imposição de barreiras comerciais.

Numa nota técnica, o governo Trump anunciou que estava reduzindo o número de países em desenvolvimento que poderia receber privilégios e não ver barreiras sendo erguidas contra seus produtos.

Uma barreira comercial, pelas regras da OMC, pode apenas ser aplicada pelos EUA se a investigação mostrar que os subsídios dados por um país a um produto ultrapassou um certo percentual. Washington, porém, insiste que tal regra deve existir apenas para os países mais pobres. Para as grandes economias emergentes, o critério não pode ser o mesmo e a imposição de uma barreira deve seguir as mesmas normas que para países ricos.

Na prática, Trump passa a exigir que os subsídios dados por China, Brasil ou Índia sigam os mesmos critérios que ele aplica para Alemanha ou Japão.

Na metodologia revista, abre-se a possibilidade para que o governo americano puna exportações estrangeiras de países que, até então, eram relativamente protegidos por terem um status de economia em desenvolvimento.

Para a Casa Branca, porém, a lista anterior datava de 1998 e, portanto, era "obsoleta". Um dos novos aspectos avaliados pelo governo Trump é a presença de uma economia no G-20, como é o caso do Brasil.

"O G20 é um fórum de cooperação econômica internacional, que reúne grandes economias e representantes de grandes instituições internacionais, tais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional", diz a nota da Casa Branca. "Dado o significado econômico global do G20, e o peso econômico coletivo dos seus membros (que representa uma grande parte da produção e comércio econômico global), a adesão ao G20 indica que um país é desenvolvido", considera o governo americano.

Assim, Argentina, Brasil, Índia, Indonésia e África do Sul "não são elegíveis" para manter certos privilégios que impediam o governo americano a abrir investigações contra produtos desses países.

A Casa Branca admite que tomou essa decisão, mesmo sabendo que a renda per capita desses países é baixa.

Ainda que o Brasil possa ser afetado, a nova lista visa principalmente retirar qualquer privilégio comercial da China. Assim como a economia brasileira, os chineses se apresentam na OMC como um país em desenvolvimento.

Na prática, as regras permitem que países em desenvolvimento tenham um maior tempo para abrir suas economias e manter certas proteções. A meta é de dar espaço para o combate à pobreza.

Trump, porém, vem alertando que foram justamente essas regras que permitiram que a China pudesse se desenvolver e passar a ameaçar a produção americana. Enquanto isso, resguardaria seu status de "economia em desenvolvimento".

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