Alceu Castilho
Hans River encarnou tanto a violência que é difícil não falar de Hans River. Ocorre que o rapaz é apenas um instrumento. Ele não trataria parlamentares de forma tão debochada se não estivesse blindado por gente mais graúda.
Foram inúmeras as vezes em que ele afrontou os entrevistadores. Alguns poucos anos atrás teria saído preso. Hans River e os "vocês" de sua fala não teriam sido tolerados. Ele foi tolerado e estimulado porque tudo ali era uma farsa.
Não falo apenas da forma como ele balbuciou a calúnia contra a jornalista da Folha. Piscando muito e olhando para o lado, hesitando ao pronunciar a palavra "sexo". (A psicologia comportamental tem lá seus defeitos, mas ajuda a entender alguns gestos recorrentes.)
O Congresso potencializou sua condição de cenário para bufões e bufonas. Quem acredita naquelas manifestações histriônicas pode muito bem acreditar em mamadeira de piroca. Só que havia uma narrativa ensaiada ali. Em torno da proteção ao nome Bolsonaro.
O mesmo Hans River que falava de sexo desconhecia o nome de Eduardo Bolsonaro. "Não ligo". Carla Zambelli (já caluniada ali por motivos sordidamente similares) dava risadinha e o presidente da mesa aceitava cada afronta de Hans River como se ele fosse um decano da casa.
E mesmo os deputados da oposição estavam cheios de dedos para falar com Hans River, intimidados por Hans River. Ou seja, intimidados pela máquina acionada em torno de Hans River, o que estava por trás. Pela pantomina, pelo massacre embutido na pantomina.
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Tudo vai muito além das fake news. É falso o tom da CPI, toda a liturgia foi distorcida. E é a partir dessa constatação elementar que precisamos questionar a participação "democrática" nessa farsa. Porque qualquer participação estúpida da oposição apenas a legitimará.
Qualquer participação que não seja no sentido de se deplorar essa distorção, essa marcha paralela engatada no Congresso, estará formalmente corroborando o deboche e a violência. Automaticamente crucificando a repórter caluniada e atacando a imprensa.
Note-se que eles atacam a Folha e a imprensa, assim como o chefe dos mímicos ataca os jornalistas em frente do Palácio do Planalto. A ordem é essa: oferecer à farsa alguma espécie de legitimidade, em meio a essa sensação líquida de coerência que move os fanáticos.
O ódio é contra as mulheres e contra o jornalismo e contra a civilização. Participar dessa burundanga como se fosse um tribunal sisudo significa bancar a estratégia dos palhaços. Algo muito menos sério do que os antigos votos em Cacarecos, no tempo em que se podia votar em Cacarecos.
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O que fazer, como cidadãos e como jornalistas solidários à repórter atacada? Atacar a burundanga, a farsa, essa revolução histriônica do baixo clero. Questionar a essência circense (não queiram associar circo apenas a algo positivo) dessa violência política.
Tudo menos jogar com as arminhas do adversário. Como se fosse razoável ir a um duelo onde o adversário vai com uma torta envenenada e você, todo bem intencionado, invocando noções de honra, com uma flor. Como se fosse razoável fazer política a partir de regras viciadas.
O que os deputados da oposição estão dispostos a fazer neste exato momento? Argumentar com o Coringa durante uma gargalhada? Chamar cada um daqueles canalhas ao pé do ouvido para uma peroração aristotélica, enquanto eles incendeiam o teatro?
A luta pela civilização precisa se basear nas ilhotas que sobraram dessa civilização. Eu parei há alguns parágrafos de falar em Hans River porque me parece que apenas navegar em narrativas do mundo paralelo significa entrar na fila dos abraços de afogados.

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