O sr. Luís Fernando Serra, embaixador do Brasil na França, tem como uma de suas obsessões reclamar da preocupação dos franceses com o caso Marielle Franco.
Segundo reportagem publicada há poucos dias, ele enviou cartas a lideranças políticas exigindo que deem mais atenção à morte de Celso Daniel e à facada de Juiz de Fora.
Um governo tão incomodado com uma execução política? Sei não. Para mim cheira a confissão de culpa.
E que tipo de embaixador toma para si a tarefa de acobertar um assassinato?
A diplomacia bolsonariana é cheia de troços estranhos, mas Serra, não custa lembrar, é diplomata de carreira.
Assim como Ernesto, o desvairado. E o rapaz que publicou na Folha de ontem um artigo incrível insinuando que Steven Levitsky, o cientista político estadunidense que é responsável pela mais famosa leitura liberal da crise da democracia representativa, é trotskista.
E muitos outros.
Fala-se muito da boa formação do pessoal do Itamarati. Não discordo. Mas tem algo de errado num sistema que permite a esse tipo de gente prosperar.
Faz muitos anos, dei aulas no Instituto Rio Branco. Não foi uma experiência inteiramente gratificante, por motivos que não cabe expor aqui, tanto é que preferi romper o contrato após dois semestres.
Os estudantes em geral tinham boa bagagem intelectual, embora nem sempre manifestassem grande interesse por uma disciplina - teoria política - que a alguns parecia distante da atividade profissional que estavam iniciando.
Havia, isso sim, uma competição desenfreada de todos contra todos. Em muitos, uma preocupação obsessiva com notas - eles são ranqueados pelas médias obtidas no curso e isso tem repercussão no início da carreira.
Para o professor, é muito chato. Enquanto na universidade uma diferença de um ou dois pontos na nota pode não significar nada, já que leva à mesma menção e no final o que importa é obter o diploma, no Rio Branco cada décimo tem que ser pesado.
É um ranqueamento por diferenças que são em si irrelevantes e que pouco ou nada dizem sobre o potencial de cada um. E o mesmo continua nos primeiros muitos anos da carreira, quando os diplomatas exercem funções burocráticas em geral muito aquém de sua capacidade e sobem em grande medida graças à avaliação de superiores imediatos.
A tentação do puxa-saquismo é grande. Os mais fracos sucumbem.
Acho que esse é um dos problemas. Muitos dos debiloides alucinados do Itamarati não são nem debiloides, nem alucinados. São oportunistas, amorais, que viram uma oportunidade com a chegada do neofascismo ao poder.
Na medida em que muita gente não aceita fazer o trabalho sujo do governo, os que aceitam têm uma chance de subir.
Em suma: o preparo técnico não garante o caráter de ninguém.

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