quarta-feira, 11 de março de 2020

As praias artificiais do ultraliberalismo se fantasiam em cima de abismos de opressão


Por trás do falso paraíso turístico de Dubai, violência patriarcal começa a surgir

Marcelo Coelho

Gente fina é outra coisa. Veja, por exemplo, a delicadeza e a cortesia que regem o mundo das corridas de cavalo. Um bilionário de fama internacional, fanático pela criação de puros-sangues, estava interessado em comprar o belíssimo Highland Glen, animal que pertencia à rainha Elizabeth da Inglaterra.

Ciente de que o cavalo tinha temperamento difícil, a rainha achou que seria pouco ético vendê-lo.

Gentilmente, ofereceu-o de presente ao bilionário. O qual, com perfeito “savoir-faire”, retribuiu mais tarde, enviando quatro excelentes potros para o haras de Sua Majestade.

O bilionário, que é um grande proprietário de terras no Reino Unido, passa agora por um período de estranhamento com a casa de Windsor.

Não mais será visto, com sua cartolinha preta, cara amarrada e barba de Zé do Caixão, no camarote especial da rainha nas competições turfísticas.

Trata-se do xeique Mohammed al Maktoum, vice-presidente e primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos. É dono da Emirates, reputada companhia aérea, e de tudo o que você imaginar em Dubai, como aquele lindo hotel que parece um barco a vela, o Burj Al-Arab, e aquelas praias artificiais imitando o desenho de uma palmeira.

Aos 70 anos, o xeique Mohammed enfrenta algumas sérias acusações na Justiça britânica. Sequestrou duas próprias filhas, e não é impossível que venha a se vingar também de uma de suas mulheres, que fugiu faz pouco tempo do país.

A história, das mais odiosas, apareceu na Folha na semana passada, e vale relembrá-la enquanto ainda se comemora o Dia Internacional da Mulher.

Primeiro, foi a princesa Shamsa, que aos 19 anos aproveitou umas férias da família na Inglaterra para dar uma escapadela; estava passeando em Cambridge quando quatro homenzarrões a agarraram.

Provavelmente dopada, foi posta num helicóptero, mandada para a França e daí para Dubai.

Isso foi há 20 anos; Shamsa nunca mais foi vista.

A segunda filha do xeique, Latifa, também tentou a sorte. Primeiro, em 2002, quis cruzar a fronteira de seu pequeno país; não tinha a menor ideia de como se faz isso. Foi pega, posta numa cela escura, sem saber por quantos dias, e surrada regularmente.

Com o tempo, o xeique a perdoou. Tornou-se campeã de equitação e gostava de praticar kitesurfe. Sem dúvida, esses esportes lhe davam alguma sensação de liberdade.

Latifa acabou contatando em segredo um ex-espião francês, Hervé Jaubert. A fuga foi planejada longamente. O francês tinha um iate.

Uma amiga da princesa levou-a de carro até o porto.

Latifa gravou um vídeo comemorando sua libertação iminente. É possível encontrá-lo no site da BBC News. A jovem estava maravilhada: pela primeira vez na vida, podia se sentar no banco da frente do carro, enquanto a amiga dirige.

O iate zarpa de Dubai e se aproxima de Goa. Uma embarcação indiana aparece; marmanjos de metralhadora agarram a princesa Latifa e —num lance de cinismo genial—, afirmam que estão salvando a moça de seu “sequestrador” francês.

Como o xeique conseguiu achar a filha no iate? Os Emirados Árabes, informa a BBC, compraram tecnologia de espionagem israelense. Localizam seu celular, mesmo quando está desligado.

A indústria do turismo tem suas modas —e, enquanto o coronavírus toma conta da Europa, a publicidade em torno de Dubai continua a pleno vapor.

Nunca tive o menor interesse naquele shopping-center montado em cima de praias artificiais. Mesmo se tivesse, evitaria. Nunca se sabe o que pode acontecer num país autocrático.

No ano de 2017, uma cidadã inglesa procurou a polícia de Dubai; tinha sido estuprada por um grupo de compatriotas seus, num hotel. Foi presa na hora: a lei local considera crime que uma mulher faça sexo fora do casamento.

O site Visit Dubai é um primor. A atriz Gwyneth Paltrow e outras duas amigas aparecem se divertindo num filmete publicitário. Uma jovem muçulmana de patins lhes propõe uma visita à discoteca. Zoe Saldana passeia de moto sozinha no deserto; a gasolina acaba, dois cavalheiros de barba a ajudam gentilmente.

O país quer se fazer de moderno. Mas a modernidade é apenas um luxo, um passaporte para os privilégios da elite — que não vive sem brutalidade, preconceito e violência. Não apenas em Dubai, as praias artificiais do ultraliberalismo se fantasiam em cima de abismos de opressão.

Marcelo Coelho
Membro do Conselho Editorial da Folha, autor dos romances “Jantando com Melvin” e “Noturno”. É mestre em sociologia pela USP.

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