A ideia de contratar Padilha para dirigir a série é, francamente, desastrosa. Desastrosa. Marielle era uma importante ativista de esquerda, integrante de um partido que sempre marcou posição sobre a Lava-Jato e Moro.
Padilha dirigiu O Mecanismo. "Ah, mas Padilha reviu sua posição".
Não interessa. (E não acredito.) Bem antes e depois de O Mecanismo, Padilha ajudou a demonizar a esquerda e a endeusar Moro e a Lava-Jato.
E, vale lembrar, Moro foi visto (com razão) pela família de Marielle como empecilho às investigações.
Simplesmente não dá para conciliar o perfil de Padilha com o de Marielle. Já elogiei trabalhos do diretor anteriores e posteriores a O Mecanismo (fui um dos poucos que defenderam seu Sete Dias em Entebbe), mas colocá-lo na série é inaceitável.
Por outro lado, condenar Antonia Pellegrino por ter a iniciativa (com aprovação da família de Marielle) para produzir uma série sobre a vida da vereadora é algo ridículo. Se ela tem condições, influência e pode viabilizar o projeto, atacá-la por fazê-lo é miopia.
MAS
Aí vem a questão central: como feminista ativa que é, faltou a Antonia Pellegrino a percepção fundamental de colocar em prática a ideia da representatividade que corretamente prega ao falar sobre as mulheres em posições de poder.
E ela se colocou numa situação ainda mais delicada ao falar um absurdo sem tamanho neste tweet.
Cometeu o mesmo erro que as produtoras do longa "Loop" no Festival de Brasília quando disseram que não havia diretorAs de fotografia no país.
1) Se não há um "Spike Lee brasileiro" é por pura falta de oportunidade. Que ela poderia dar como produtora de um projeto como este. Spike Lee fez três longas até "virar" Spike Lee em Faça a Coisa Certa. Uma produtora com influência pode ajudar nisso.
2) Podemos não ter um "Spike Lee brasileiro", mas temos um Gabriel Martins. Um André Novais. Uma Sabrina Fidalgo, que arrebentou no último Festival de Brasília. Aliás, a última edição do festival foi uma comprovação de como temos, SIM, cineastas negras(os) fabulosos à disposição.
E se houvesse alguma dificuldade para encontrar profissionais negras(os) para preencher a equipe da série sobre Marielle (e não deveria haver), bastaria entrar em contato com a Associação das(os) Profissionais do Audiovisual Negro (APAN).
Sim, há uma associação! Seria facílimo.


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