Fernando Horta
Numa das muitas análises equivocadas sobre o que aconteceu no Brasil desde 2013 houve quem dissesse, com todas as letras, que "a esquerda" tinha abdicado da pauta da segurança pública e que isso teria deixado a população revoltada, querendo punição e punitivismo. A este sentimento Bolsonaro e o fascismo seriam a resposta.
Uma bobagem sem tamanho.
Primeiro, porque a esquerda nunca abdicou de nada. Segurança pública é função primordial de estados e municípios e não federal. Mesmo assim, o governo federal se envolveu diretamente no assunto, já que a melhor política de segurança pública é emprego, educação pública universal e o combate à fome.
Segundo, porque o caso do ataque a Drauzio Varella é a mais recente das evidências da indigência moral que impera no Brasil. Lembrem-se dos casos da mãe que foi linchada por um site ter dito que ela era suspeita de bruxaria e mortes de crianças. Lembrem-se do caso do menino negro amarrado e espancado num poste. Nos casos das assassinatos de crianças por seguranças de estabelecimentos comerciais.
Há que se entender que no Brasil usa-se a "segurança pública" como desculpa para cometer violência racial e de classe. Por isso a PM criminosa que temos ainda se sustenta.
Não foi a esquerda que abdicou das pautas da segurança pública, foi esta esquerda que não aceitou endossar a visão racista e punitivista de segurança pública e, por isso também, sofreu o golpe.
O brasileiro que votou em Bolsonaro tem déficit educacional, déficit civilizatório e um enorme buraco moral na sua formação. A vontade de exercer e legitimizar a violência de classe e de raça apenas encontra na imoralidade das nossas instituições policiais um meio de atingir o objetivo cruel e desumano do espancamento, do encarceramento ou mesmo do assassinato daqueles que esta parte da sociedade entende por "Párias sociais".
O cinismo e a crueldade usam o "respeito à lei" para satisfazer seus próprios anseios sádicos. E é só.
O "capitão Nascimento" não virou herói porque "combatia o crime", mas porque espancava, torturava e matava "o outro lado".

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