domingo, 8 de março de 2020

Spike Lee e comparações esdrúxulas


Silvio Almeida

Atenção: racismo estrutural é um conceito cuja aplicação resulta em responsabilidade e não pode ser usado como desculpa para ser irresponsável. Segue o fio sobre racismo, Spike Lee e comparações esdrúxulas.

Pensar o racismo como estrutural é tirá-lo do campo da culpa (e da desculpa) e tratá-lo na dimensão da responsabilidade política. É uma forma de "desnaturalizar" o racismo, compreendendo-o como parte da história e dos conflitos políticos.

Ao tomar consciência da dimensão estrutural do racismo, a responsabilidade dos indivíduos e das instituições aumenta e não diminui. Agora, cada um vai ter que pensar qual o seu papel na reprodução de uma sociedade racista. 

Perguntas para brancos e não-brancos: "em uma sociedade constituída pelo signo da raça, qual o meu lugar? De que modo eu naturalizo essa sociedade?" E a mais importante: "como posso agir para desnaturalizar o racismo?". 

Uma vez em contato com a ideia de que o racismo é estrutural, não há saída: é preciso assumir uma postura ética e politicamente responsável quanto ao lugar que ocupamos em um mundo racializado. 

A força do conceito de "racismo estrutural" está também em revelar as artimanhas e sutilezas do racismo. Para ser "normal" o racismo tem que apagar a história e as relações de poder que o conformam. 

Falar de Spike Lee como se sua trajetória não estivesse conectada a uma longa tradição do cinema negro americano, e este à luta antirracista e ao Movimento pelos Direitos Civis, é uma artimanha que reforça o processo de ocultação da história e da política por trás do racismo. 

A estratégia de referir-se a "negros únicos" é também um modo de naturalização do racismo na medida em que passa a impressão de que, em regra, brancos estão "mais bem preparados" e os "negros talentosos" são exceção. 

Este é um dos modos pelo qual se normaliza a crueldade do racismo. Exige-se que negros estejam imediatamente prontos, ao passo que brancos, em regra, têm a oportunidade de errar e aprender com os próprios erros, como qualquer SER CONSIDERADO HUMANO. 

A tragédia do racismo, especialmente nos chamados países "periféricos", faz com que a mentalidade colonizada dos brancos destes locais se considerem tão excepcionais a ponto de se sentirem no direito de exigir dos negros o que eles, brancos, não podem entregar.  

Se AINDA não há entre nós negros um Spike Lee, Jordan Peele ou Ava DuVernay, acreditem: entre vocês não há um Coppolla, Robert Towne, Stanley Kubrick, Orson Wells ou Agnès Varda. É o racismo que os coloca nesta fantasia que só o antirracismo (e o anticolonialismo) pode tirar. 

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