sexta-feira, 13 de setembro de 2019

O choque irrecuperável da Física Quântica nas Ciências Humanas


Panthro Samah

Quando a Física Quântica começou a ser desenvolvida, a abordagem probabilística caiu como uma bomba. Mas nas Ciências Humanas.

Vamos por partes: Na física clássica, existe um caráter determinístico nos experimentos. Se você sabe a velocidade média de um trem saindo de uma estação e sabe a distância entre duas estações, pode determinar o tempo que ele levará para ir de uma estação a outra. O resultado dos seus cálculos será tão preciso quanto mais precisas forem as suas medidas, correto?

Errado. Mas era o que todo mundo acreditava na época. O problema é que as medidas foram de fato ficando mais precisas à medida que novas tecnologias de medição eram desenvolvidas. E essas tecnologias permitiram observar fenômenos que antes não eram percebidos. Uma mudança de modelo na Física.

Até aí, ok. Mudanças de modelo acontecem com frequência e ninguém liga muito pra isso na Física, porque sabem como as coisas funcionam. A ciência é como uma pessoa numa sala escura, tateando um objeto e tentando descobrir do que se trata. Você faz suposições, testa e, se o resultado dos testes não suportar as suas idéias, bem, suas idéias estavam erradas.

O que não significa que a ciência não saiba nada. A ciência sabe o resultado de todos os testes que foram feitos. Hoje, se você calcular a velocidade do trem vai saber quando ele chegará na próxima estação da mesma forma que antes. A Física quântica não destruiu a Física clássica, porque a ciência não funciona assim. Todos os experimentos da Física clássica continuam existindo. E qualquer teoria que venha depois precisa dar conta de explicar não apenas o novo efeito com todos os efeitos que foram observados antes.

Por isso que a Física clássica continua sendo utilizada e ensinada: Não é que a Física quântica não seja real. É que para as aplicações onde a Física quântica consegue gerar uma aproximação razoável, ela é suficiente. Lembra quando o professor falava no colégio para calcular um corpo caindo e ignorar a resistência do ar? Porque se o movimento for numa velocidade baixa e a distância da queda não for tão grande, o efeito da resistência do ar vai alterar muito pouco o resultado. Então seria como você dizer que o negócio custou 10 reais e não 9,99. Dependendo do grau de precisão que você quer, é o suficiente.

Pois o efeito quântico que mais bagunçou a cabeça das pessoas é a impossibilidade do determinismo. Isso significa que, em um sistema quântico, é impossível se conhecer todas as variáveis necessárias para prever seu comportamento. Imagine eu não soubesse de onde partiu o trem do problema anterior. E se eu tentasse descobrir de onde ele partiu, imediatamente a velocidade dele mudasse. Eu nunca conseguiria determinar quanto tempo ele levaria para chegar na estação. Esse efeito é muito pequeno, de forma que se eu não preciso de muita precisão, não faz diferença. Mas a precisão absoluta é simplesmente impossível. Jamais teríamos como determinar a posição de todos os trens do mundo e prever todo o universo. E agora eu estou usando trem no sentido mineirês.

Do ponto de vista da Ciência, isso é irrelevante. O método científico nunca se aplicou para tudo que existe e sempre foi uma tentativa de se aproximar da Verdade. Ele não é acender a luz, é tatear na escuridão. O que se descobriu foi que algumas questões não teriam resposta definitiva nunca. Ok, existe tanto que ainda não se conhece e que é possível ser conhecido que não faz grande diferença.

Para a Filosofia, especialmente a Filosofia da Ciência, porém isso foi um choque irrecuperável. Porque, vejam bem, existiam correntes filosóficas que propunham que a religião era uma tentativa de explicar o mundo e as relações humanas, mas que ela seria substituída pela Ciência. Só que a ciência nunca prometeu isso. Era só uma crença das pessoas. E por conta dessa mistura de crença com ciência, quando se descobriu que existiam pontos da realidade que não seriam explicados pela Ciência, começou uma gigantesca crise de fé, que hoje beira à loucura.

Durante centenas de anos duas correntes filosóficas se pegaram na porrada em cima de uma única questão: Como podemos determinar o que é real? Os idealistas acreditavam que os nossos sentidos são falhos, portanto só podemos chegar á verdade através da mente (ou Deus). Todo o universo pode ser uma grande alucinação e só poderíamos perceber isso através da análise da razão. O "Penso, logo existo" do Descartes é só o começo de uma tentativa racionalista de tentar determinar o que é real no mundo. Se eu penso, eu existo. Não posso afirmar que não estou na Matrix e que todo mundo não é uma construção mental. Mas se eu penso, devo existir. Na verdade, outros filósofos mostraram que nem isso eu posso afirmar com certeza, mas foi só pra fazer uma ligação com um conceito popular pra vocês entenderam qual é a piração dos idealistas (dos quais os racionalistas são um subgrupo). O mundo dos sentidos é uma ilusão.

Os empiristas, por outro lado, acreditavam que a nossa mente pode nos iludir, já que existem pessoas loucas, que a realidade é um consenso e que só podemos chegar até ela através dos nossos sentidos. Não posso afirmar que uma outra pessoa tem sentimentos, a menos que eu consiga de alguma forma observar esses sentimentos. Se você me disser que falou com Deus, eu posso dizer que isso é verdade para você, mas não posso afirmar que seja uma realidade objetiva, porque não tenho nenhuma medição de Deus, não tenho nenhuma observação de Deus. O mundo da mente admite qualquer coisa, mas apenas a realidade dos sentidos é compartilhada por todas as pessoas. Idéias são fantasias que só possuem utilidade quando comparadas com os fatos.

O método científico nasceu do empirismo e é completamente alinhado com ele. Uma teoria pode ser linda, mas se ela não explica os fatos experimentados, ela deve ser abandonada. Por essa razão, tanto faz se Einstein achava que "Deus não jogava dados". Ele nunca foi capaz de provar algum erro nos modelos propostos por Niels Bohr. Por isso que Bohr estava certo e Einstein errado. O melhor que ele pôde fazer foi dizer que achava a ideia perturbadora. Porque é mesmo. Mas até aí o universo não liga pros seus sentimentos.

O problema é que esse debate era entre cientistas, gente que está acostumada a saber como a ciência funciona e quais suas limitações em responder a questão de como funciona o mundo. Pro grande público e isso influi os filósofos, só ficou a incerteza do que é possível ser conhecido. A ciência pode estar errada! A religião não nos deu respostas, mas a ciência também não pode dar! Não podemos confiar na nossa razão nem nos nossos sentidos, não podemos confiar em nada!!

E foi essa piração que acabou levando a esse novo abandono do empirismo. Tudo que você percebe com os seus sentidos é falho, então vamos acreditar de novo só nas idéias. E daí surge essa exacerbação do fundamentalismo religioso (como se houvesse uma oposição entre religião e ciência) e esse vácuo de crenças. E eu tenho que ver mesmo gente inteligente defendendo que "não é possível ter certeza de nada". Jura, gente? Esse é só o estado natural do ser humano. O resto são as ferramentas que desenvolvemos para chegar ao conhecimento. Continuamos no escuro e vamos continuar pra sempre. Mas eu continuo achando que tatear é melhor do que ficar tentando adivinhar sem se mexer, paralisado pela ideia de não saber o que tem ao nosso redor.

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