terça-feira, 24 de setembro de 2019

O homem é o escorpião do homem


Alceu Castilho

Dei entrevista ao Yahoo sobre FHC. Em formato de pingue-pongue: perguntas e respostas. Foi a primeira vez, à exceção de CartaCapital, que o livro "O Protegido" ganhou repercussão na chamada grande imprensa.

Isso permite observarmos a repercussão em um público diferente, em meio a milhares de compartilhamentos na página do Yahoo Notícias. E as constatações não são nada animadoras.

A maior parte dos novos comentários define FHC como comunista. Ele é citado como representante do Foro de São Paulo.Teria sido um preparador de terreno para o Lula. "Farinha do mesmo saco" do presidente preso em Curitiba.

Ou seja, continuamos a viver um fenômeno preocupante: uma enorme fatia da sociedade não consegue digerir uma entrevista. Quanto mais um livro. Assistem à partida de pingue-pongue com uma bola de futebol americano na mão.

Não é nem falta de digestão, falta mesmo o mínimo de degustação. A gente costuma dizer que os títulos nas redes sociais são lidos e compartilhados como memes. Talvez seja menos que isso. Cada nome dispara um gatilho.

Dessa forma, massas inteiras veem as palavras "FHC" e "fazendeiro" e apenas concluem que "ele roubou". Não é isso que está escrito no livro, a história é bem mais complexa, mas vivemos a era da evasão do ramerrão.

Esse ramerrame ranheta, esse ar estúpido de eu-já-sabia, onde cada não-leitor orgulha-se profundamente de não ter lido e veicula - eu diria vomita mesmo - suas velhas convicções ignorantes com pose sabichona.

"O Protegido" é uma reportagem - evidentemente crítica - sobre a face agrária de um ex-presidente muitíssimo importante. Diante da barbárie dos comentários, sinceramente? Dá vontade de defendê-lo.

Porque em meio às críticas (isso acontece também em certos setores da esquerda...) aparecem ataques grotescos à idade do político. A evasão dos incontinentes nas redes sociais nos oferece um espetáculo de corrosão absoluta das liturgias.

Como se Bolsonaro e Witzel fossem capazes de diluir em cada post alheio - depois da vergonha alheia temos a psicopatia alheia - seus vocabulários e ideias regressivos, rumo a uma espécie de pedrada elemental, um grunhido.

E claro que não estou a falar somente de FHC. Estou falando disso porque sou o autor do livro tal. Tudo isso vale para o discurso da Greta Thunberg na ONU ou para as notícias sobre o assassinato de Agatha Felix.

A face social de cada um desses grunhidos é a explosão da violência. Cada brasileiro que não ouve (manipulado por alguns psicopatas capazes de entender muito bem) compõe a tessitura dessa forca coletiva. ((Sem cedilha, revisor.))

Destinada a beneficiar os verdadeiros espertalhões, os donos do poder e do capital. Como se cada um esses escorpiões sabidinhos picasse militarmente cada sapo durante a travessia inglória, sob o comando dos Donos do Pântano.

Todos com ar de quem já viu tudo, a contribuir candidamente (ou hobbesianamente) para que os Donos do Pântano, esses expansionistas, devorem todos, incluídos os sapos e os pântanos.

O homem é o escorpião do homem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário