Bolsonaro usou um pronunciamento oficial sobre o coronavírus para elogiar a convocação de atos a seu favor. Em vez de falar à nação, voltou a discursar para a claqueBernardo Mello Franco
Demorou, mas parece que a ficha caiu. Dois dias depois de chamara epidemiado coronavírus de“fantasia”, Jair Bolsonaro apareceu de máscara no rosto. Apesar de todos os alertas, o presidente só passou a levara ameaça a sério depois que a doença bateu à sua porta.
O caso de Fabio Wajngarten ilustra os riscos de travar um aguerra permanente com os fatos. Na quarta, a colunista Mônica Bergamo informou que o secretário de Comunicação Social havia se submetido ao teste do vírus. Ele sabia que a notícia era verdadeira, mas preferiu iludir a opinião pública e atacar o jornalismo profissional.
“Em que pese a banda podre da imprensa já ter falado absurdos sobre a minha religião, minha família e minha empresa, agora falam da minha saúde. Mas estou bem, não precisarei de abraços do Drauzio Varella”, escreveu, usando o nome do médico para fazer militância política.
Horas depois do tuíte, confirmou-se que o secretário está mesmo com o coronavírus. Ele ainda pode ter transmitido a doença a dois chefes de Estado. Além de viajar com Bolsonaro, participou de jantar com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Wajngarten foi atendido num dos melhores hospitais do país e não apresenta sintomas graves da doença. Espero que ele se recupere logo. Também torço para que aproveite o período de isolamento para refletir sobre os erros da comunicação do governo.
Sob o comando do publicitário, a Secom tem confundido o interesse público com os interesses do presidente. Na terça, o órgão usou seu perfil oficial para divulgar as manifestações bolsonaristas convocadas para o dia 15. A prática contaria o princípio constitucional da impessoalidade, e seus responsáveis podem responder por improbidade administrativa.
Ontem Bolsonaro teve uma chance de mudar o tom em pronunciamento na TV. Preferiu usar o espaço para tratar dos protestos a seu favor. O presidente sugeriu que os atos fossem cancelados, o que já havia sido feito por grupos que o apoiam. Aproveitou para chamá-los de “espontâneos e legítimos”, apesar do patrocínio oficial e da pauta antidemocrática. Em vez de falar à nação, o presidente voltou a discursar para a claque.
Bolsonaro só passou a levar o coronavírus a sério depois que a doença bateu à sua porta. Mesmo assim, preferiu dedicar o pronunciamento oficial na TV à claque governista

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