O Fantástico de domingo propôs uma definição de fascismo redutora, restrita à Itália e calcada na imagem de Mussolini: se não fosse ali e ele não tivesse nascido, o fascismo não existiria. Bobagem.
O fascismo foi um tufão que varreu a Europa, com variantes locais. Mussolini terá sido, no máximo, um precursor.
O nazismo, por exemplo, é a forma que o fascismo em nações de cultura anglo-germânica, como os Estados Unidos, a Inglaterra ou a Alemanha, com forte viés antissemita – diferente em ênfase, por exemplo, do salazarismo, que é o fascismo português, ou do franquismo espanhol.
No final da década de 1930 e início dos anos 1940, o fascismo era uma doutrina vitoriosa. Mesmo em países europeus que mantinham aparência democrática e pluralidade partidária, tinha o apoio de boa parte da classe dominante, temerosa de uma insurreição das massas sob liderança dos comunistas.
Na França, a consolidação de idealismos políticos, como os de Charles Maurras e Jean Sorel, convergia para o capitulacionismo e, pois, para a república de Vichy. O governo de Pétain não foi resultado apenas da fragilidade das convicções do velho marechal; nenhuma empresa jornalística, por exemplo, sobreviveria à redemocratização.
Na Inglaterra, uma fração do Partido Conservador, simpatizante de Hitler, apostava na capacidade alemã de domar a União Soviética e isso certamente levou ao acordo de Munique, em 1938, que pemitiu a ocupação da Tcheco-Eslováquia. Winston Churchill representava outra corrente, vinculada à ainda poderosa City, que temia, com toda razão, a retórica nazista contra os “banqueiros judeus”.
O fascismo europeu aconteceu – ou assumiu protagonismo – em decorrência da Primeira Guerra Mundial, que marcou o fim da “paz inglesa”, mantida à custa de prolongada recessão econômica e da diáspora de populações excedentes europeias, exportadas para os outros continentes. No período, os Estados Unidos assumiram o controle de boa parte da economia global, mas de maneira tão incompetente que conduziria ao craque de 1929.
Os movimentos socialistas – anarquistas, comunistas – prosperaram e, com eles, o temor das burguesias nacionais. A depressão dos anos 1930 fortaleceu o nacionalismo xenófobo; na Alemanha, ele teve raízes próprias das condições humilhantes do tratado que pôs fim à Primeira Guerra e nas constantes intervenções estrangeiras da década de 1920. A República de Weimar, com sua generosa constituição social-democrática, foi derrotada exatamente pela conjugação dessa frustração nacional com a economia em depressão pós-1929.
No caso dos Estados Unidos, em que a tradição de racismo e segregação consolidou-se ao longo do Século XIX com o genocídio das grandes nações indígenas e a preservação do segregacionismo após o fim da escravatura, o nazismo esteve em voga nos anos 1930, combatendo o New Deal de Roosevelt. Após a Segunda Guerra, renasceu no macartismo, consolidou-se na política de expansão militar e moldou relações internas de um estado policial que finge não ser.

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