Queremos que procurem o Queiroz, e façam isto com bastante barulho, não que o encontrem.Por Luis Fernando Veríssimo
Mort. Ed Mort. Detetive particular. É o que se lê na porta do meu escri (o “tório” eu subloco) numa galeria de Copacabana. Divido meu espaço com 17 baratas e um ratão albino. O ratão às vezes desaparece, mas sempre volta, por isso eu o chamo de Voltaire. Minhas frases são curtas como o cano do meu 38. O 38 está empenhado, mas ninguém saca um tíquete de casa de penhores do bolso com a minha rapidez. Mort. Ed Mort.
A Patricia Pillar e eu estávamos tendo uma conversa agradável, sobre a Lua e os ministros, como diria o Machado de Assis, quando o ruído de alguém abrindo a porta me acordou. Entrou um homem. Odeio quando isso acontece. Pelo penteado, alguém do governo. Terceiro escalão, mas com vista para o mar. Perguntou:
— Mort? Ed Mort?
— Não — respondi. — Gianecchini. Reynaldo Gianecchini.
— Mas na porta está escrito...
— É parte do meu disfarce. O que você quer, já que interrompeu minha sesta?
— Você ouviu falar no Queiroz?
— Queiroz, o Desaparecido? Sim.
— Queremos que você o procure. Estamos dispostos a lhe pagar o que for preciso para procurar o Queiroz. Contrate quem você quiser. Busquem em toda parte. Armários, bueiros, canos, porões, matagais, o Brasil de ponta a ponta. Subam todos os morros. Queremos mostrar para a nação que estamos empenhados em encontrar o Queiroz, e não em escondê-lo para que não conte tudo o que sabe, como dizem.
— E o que fazemos com o Queiroz quando o encontrarmos? — perguntei, caprichando no pronome dada a solenidade do momento.
— Quem falou em encontrar? Queremos que procurem o Queiroz, e façam isto com bastante barulho, não que o encontrem. Pela sua reputação, ninguém é mais indicado para não encontrar o Queiroz do que você, Mort. A pátria precisa das suas trapalhadas.
Olhei em volta para ver se o Voltaire estava registrando aquilo. Trapalhadas, ahn? Decidi não só não aceitar o que me ofereciam em dólares para não encontrar o Queiroz como começar uma investigação séria sobre quem mandou matar Marielle, para saberem com quem estavam lidando. Assim que terminasse a sesta.

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