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quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

A caixinha

‘Presidente, o senhor usaria armas nucleares contra a Rússia e o Congresso?’
Discute-se a melhor maneira de punir o presidente Trump por ter incitado a invasão do Congresso e criado as cenas de caos que os americanos não vão esquecer tão cedo. Ele poderia ser processado ou impichado (de novo). Estou escrevendo antes da escolha do castigo. A última notícia que se tem é que Trump estaria trancado no seu quarto na Casa Branca, recusando-se a receber assistentes, amigos e parentes. Do lado de fora da porta, teria se formado uma espécie de comitê que tenta convencê-lo a se entregar ou pelo menos a conversar. Trump resiste. A qualquer tentativa de comunicação, ele começa a cantar. Convites para saírem todos dali e irem jogar golfe também são ignorados. Trump só respondeu quando perguntaram se ele precisava de alguma coisa.

— Preciso de mais quatro anos de governo.

— Mas o senhor perdeu as eleições.

— Invenção da imprensa sem caráter. Se eu tivesse contado os votos, teria vencido.

— O senhor não precisa de mais nada mesmo? Algo para os cabelos? Tintura? Armação?

— Tenho tudo que eu preciso, obrigado. Inclusive a caixinha...

— A caixinha?

— A caixinha. Com os dois botões. Um dispara foguetes contra a Rússia, o outro dispara foguetes contra o Congresso americano.

A revelação de que Trump tem a caixinha dentro do quarto fechado provoca uma correria dentro da Casa Branca. Ele tem a caixinha! Ele tem a caixinha! Ele não tem a caixinha! Alguém viu a caixinha? Perguntam para ele:

— Presidente, o senhor usaria armas nucleares contra a Rússia e o Congresso?

— Se me provocarem...

domingo, 10 de janeiro de 2021

Americanamente


Trump tinha instruído seus seguidores a marchar pela Avenida Pennsylvania, que vai da Casa Branca até o Capitólio, mas não se lembrara de avisar a multidão a não entrar no Capitólio, o que a multidão fez com grande facilidade
Não foi, assim, uma queda da Bastilha, muito menos a invasão do Palácio de Inverno do tzar pelos bolcheviques. Mas foi histórico, americanamente histórico. A maioria dos que entraram à força no Capitólio, onde o poder legislativo se reunia para oficializar a vitória do Biden e a derrota do Trump, era formada por uma mistura de trumpistas iludidos, trumpistas inocentes carregando os filhos, garotada a fim de quebrar tudo e o que lá eles chamam de “red necks”, pescoços vermelhos, uma categoria de caipiras de bunda grande. Trump tinha instruído seus seguidores a marchar pela Avenida Pennsylvania, que vai da Casa Branca até o Capitólio, mas não se lembrara de avisar a multidão a não entrar no Capitólio, o que a multidão fez com grande facilidade.

O Capitólio era surpreendentemente aberto e vulnerável. Qualquer um podia entrar, qualquer um podia assistir a sessões do senado e da câmara ou andar pelos seus corredores. História pessoal: eu cursava um “high school” em Washington e (crianças, tapem os ouvidos) odiava estudar. Decidi, por minha conta, que aprenderia mais fora da escola do que na escola. Passei a frequentar o Congresso, principalmente seu departamento de revistas estrangeiras, e muito andei pelo seu interior sem que me interpelassem. Também frequentava o centro de Washington, onde um dia, por fatalidade, encontrei minha mãe e a Clarice Lispector. Até hoje não sei como expliquei o que eu estava fazendo tão longe da escola.

Das tantas cenas do Capitólio ocupado que vimos as mais impressionantes eram as de confronto entre os guardas do prédio e os invasores, muito mais numerosos. A Segurança do Capitólio por certo mudou desde a minha adolescência, quando a nação temia um ataque nuclear da União Soviética, mas ninguém sonhava com uma cena como a de uma multidão americana acuando guardas americanos. O que o episódio tem de histórico, além do ineditismo – mas as tomadas da Bastilha e do Palácio de Inverno também foram inéditas – é essa reversão de civilidade, a volta de uma incivilidade, ausente desde a guerra da secessão.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Cabelos azuis

Verissimo

Cabelos pretos significavam que o personagem era negro ou latino

Quando as histórias em quadrinhos começaram a ser impressas a cores, notou-se que seus heróis ou tinham cabelos loiros ou, estranhamente, cabelos azuis. Vez que outra aparecia alguém de cabelo preto nas historinhas coloridas, mas era raro. O comum era o azul.

Não me lembro de, garoto, dar muita atenção ao fato. Era natural que, além dos seus poderes, os super- heróis também pudessem escolher a cor dos seus cabelos, inclusive o azul, por que não? Só anos mais tarde me dei conta: cabelos pretos significavam que o personagem era negro ou latino; amarelo ou azul, que o personagem era indiscutivelmente branco. Naquele tempo, na América, a distinção racial era importante. Continua sendo, mas confesso que sei pouco sobre o que os super-heróis de hoje têm na cabeça, e de que cor. Talvez ainda seja o azul.

Corte rápido. Li que, no Ano Novo, o céu de Trancoso, na Bahia, se encheu de aviões particulares querendo descer, a ponto de criar um problema para as autoridades da Aeronáutica. Que, sem entender de hierarquia social e da lista da “Forbes”, não sabia a quem dar prioridade para o pouso. Felizmente não houve uma tragédia, que eliminaria boa parte do PIB nacional. O pessoal chegava a Trancoso para se divertir em várias aglomerações, e quem aparecia com máscara era vaiado e chamado de maricas. As festas atravessaram a noite de ano-bom, e qualquer um podia entrar, desde que mostrasse prova de ter sonegado impostos no ano que acabava e de saber a senha da elite brasileira. Que — isto pouca gente sabe — é “cabelos azuis”.

A senha não significa que a elite brasileira tenha cabelos permanentemente azuis que a identificam e garantem seus privilégios. Os cabelos azuis do código dos ricos significam o mesmo que significavam nas histórias em quadrinhos: são fronteiras bem definidas e intransponíveis de classe. E, se você protestar que essas fronteiras protegem uma elite criminosa na sua inconsciência, vai ver é por inveja das festas que eles dão. Sem falar nos aviões particulares.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Le Carré

Pelo menos três dos seus livros são modelos de roteirização
John le Carré escrevia livros de espionagem para quem não queria ser visto lendo livros de espionagem, para quem fazia questão de ostentar seu gosto pelos prazeres do gênero, sem discriminação, ou para quem simplesmente buscava boa literatura popular, de qualquer gênero. Teve a sorte de ser o exemplo mais bem-sucedido da tradição anglo-saxônica de autores superiores produzindo para um grande público — gente como Eric Ambler, Len Deighton e, acima de todos, Graham Greene — sem sacrificar a qualidade literária. A sorte, ou a competência de Le Carré, foi reunir os três públicos num só mercado, que — a partir do primeiro sucesso, “O espião que saiu do frio”, incluindo as adaptações para o cinema — nunca parou de crescer e render.

A qualidade literária da obra de Le Carré é indiscutível. Pelo menos três dos seus livros — “O espião que saiu do frio”, “A guerra no espelho” e “A vingança de Smiley” — são modelos de roteirização e caracterização de personagens. O Smiley do título é George Smiley, fiel servidor do serviço secreto da rainha, baixinho, gordinho, de óculos, obviamente traído pela mulher, um perfeito anti-James Bond . Smiley trava uma espécie de guerra fria particular com Karla, chefe do serviço secreto soviético. Não aposte contra os gordinhos.

David Cornwell, o verdadeiro nome de Le Carré, teve uma infância difícil. Apanhava do pai, um notório trambiqueiro, e foi abandonado pela mãe. No governo, trabalhou como espião de segunda categoria, sem muitos riscos, mas aproveitou a experiência para adotar o jargão e dar autenticidade ao mundo que retrataria em “O espião que saiu do frio”. Le Carré descreveu como ninguém, no seu primeiro livro de sucesso, o clima de crise no país e no seu serviço de inteligência, com as revelações sobre espiões nas altas rodas do reino, e de traidores como Kim Philby entre a nobreza. De certa forma, em todos os livros que publicaria depois, Le Carré abordaria o dilema da traição, de indivíduos tendo que definir suas relações com um Estado opressor e intratável como um pai violento.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

O ataque dos maricas



Não fica claro, no discurso, se trata-se apenas de quem tem medo de morrer
O FBI, a CIA e outros órgãos da inteligência americana têm tido dificuldade em entender os relatórios que recebem dos seus agentes no Brasil. Discursos e manifestações do presidente brasileiro são monitorados regularmente, mas, de uns tempos para cá, isso tornou-se uma tarefa problemática. Para começar, ninguém parece saber quem realmente é o presidente do Brasil e faz as declarações que intrigam os agentes americanos. Há quem diga que o presidente é Hamilton Mourão, outros dizem que é Paulo Guedes, outros têm certeza de que é José Simão, e ainda outros sustentam (a opção menos provável) que é Jair Bolsonaro ou um dos seus filhos. O jeito é monitorar todos ao mesmo tempo. O objetivo é detectar e prevenir qualquer ameaça à segurança dos Estados Unidos.

Uma recente fala presidencial de improviso aumentou a confusão. Os termos do pronunciamento ainda estão sendo estudados. Eles podem indicar que o Brasil prepara-se para invadir os Estados Unidos e:

a) manter o Trump no poder, cercando a Casa Branca e repelindo qualquer tentativa de retirá-lo de lá a cusparadas — o que explicaria a críptica referência à saliva transformando-se em pólvora, no discurso do presidente;

b) sequestrar o Biden, disfarçá-lo com uma peruca loira, soltá-lo no meio de uma manifestação contra o racismo e correr atrás dele gritando “É o Trump! Pega! Pega!”.

Os analistas americanos também tentam decifrar o sentido da palavra “maricas”. Não fica claro, no discurso, se “maricas” é apenas quem tem medo de morrer e, portanto, é um desprezível, ou se o presidente estava fazendo uma ameaça velada aos americanos, avisando que brasileiros maricas podem ter medo de morrer e horror a baratas, mas não os desafiem, eles podem ser ferozes. Os americanos decidem que um ataque dos maricas virá e preparam suas defesas. A segurança nas fronteiras é reforçada. Todos devem ficar atentos a grupos barulhentos que lotam os aeroportos . São os maricas que chegam.

domingo, 8 de novembro de 2020

Faltou a maquininha

Luis Fernando Verissimo 

Desde que adotou a maquininha de votar, o Brasil se transformou num modelo de pleitos organizados, inclusive para os Estados Unidos, onde,como se sabe,o processo eleitoral é confuso e demorado 

De quatro em quatro anos, uma democracia demonstra ao resto do mundo como deve ser o processo eleitoral num regime presidencialista, para a admiração de todos. A eleição do presidente do grande país se dá rapidamente e sem maiores problemas, e o resultado raramente é contestado. Desde que adotou a maquininha de votar, o Brasil se transformou num modelo de pleitos organizados, inclusive para os Estados Unidos, onde, como se sabe, o processo eleitoral é confuso e demorado, e não existe nada parecido com a maquininha brasileira que dá o resultado da eleição no mesmo dia. Apesar de alguns descrentes ainda desconfiarem da sua precisão – e da pós-eleição muitas vezes acidentada, com repetidos impeachments desfazendo o seu trabalho – a maquininha tem sido um sucesso. E o Brasil um exemplo para o resto do mundo.

Por que o método americano é tão primitivo? Culpa, antes de mais nada, dos fundadores da pátria, que se reuniram para redigir a primeira constituição republicana da História e uma declaração dos direitos humanos que antecedeu a da Revolução Francesa, mas que se vivessem na França, na época, fariam parte da aristocracia, progressista, mas assustada com o povão, que chamavam de “a classe perigosa”. Os fundadores tinham consciência do que estavam inaugurando depois da independência da Inglaterra, mas também sabiam dos seus direitos como donos de terras e de escravos, e trataram de protegê-los. Uma das maneiras de proteger seus direitos senhoriais foi a invenção do colégio eleitoral, feito especificamente para barrar demagogos e aventureiros que pretendessem chegar ao poder, já prevendo o Trump e com medo do povão.

Os 13 Estados que formavam o novo país se juntaram para fazer os Estados Unidos, mas não descuidaram da sua própria independência. A liga federativa foi mais forte do que qualquer sentimento nacionalista e os Estados mantiveram sua autonomia até hoje. (A grande crise da federação foi a guerra civil entre Estados fiéis à união e Estados do sul, ou da confederação, cujas bandeiras rebeldes ainda tremulam.) O resultado de tudo isso é que o processo eleitoral lá deles fica cada vez mais complicado.

Enfim, faltou a maquininha.

domingo, 1 de novembro de 2020

A lógica do Carlito

Luis Fernando Veríssimo

Uma vez levaram o Carlito, com seus seis ou sete anos de idade, para assistir a uma ópera. Ele voltou do teatro entusiasmadíssimo, impaciente para contar a cena da ópera que mais o impressionara

Carlos Eduardo Martins, o Carlito, era filho da tia Lucinda, irmã da minha mãe, e do Justino Martins. Filho único, era um pouco mais moço do que eu. Não chegamos a conviver muito, mas me lembro dele como um primo movimentado e engraçado. “Vivo” talvez fosse o adjetivo que melhor o descreveria.

Uma vez levaram o Carlito, com seus seis ou sete anos de idade, para assistir a uma ópera. Ele voltou do teatro entusiasmadíssimo, impaciente para contar a cena da ópera que mais o impressionara.

– O cara teve tanta sorte que morreu no cemitério!

Era preciso meditar um pouco – escondendo o riso – sobre o relato do Carlito. Ele tinha a sua lógica. O cara morrer no cemitério e ser enterrado ali mesmo eliminava várias etapas do ritual fúnebre, inclusive o transporte do corpo para o cemitério. Era prático, era rápido, dispensava intermediários e certamente custava menos que um enterro convencional. O Carlito estava certo. A sorte do cara!

Durante muito tempo, na nossa casa, a lógica do Carlito foi lembrada. Tudo na vida, afinal, depende do ponto de vista e, do ponto de vista de vista do morto, morrer no cemitério era um grande negócio.

O Carlito só tinha uma queixa. O cara que morria no cemitério, demonstrando grande senso de oportunidade, morria traspassado por uma espada, mas não sem antes cantar uma longa ária, prostrado no chão. E o Carlito duvidava que alguém traspassado por uma espada tivesse força, sem falar em pulmões, para cantar uma música inteira, ainda mais naquele volume. Não era lógico.

O Carlito, minha irmã Clarissa e eu, ainda crianças, resolvemos publicar um jornal para circulação interna na casa. Aliás, circulação restrita: o jornal de uma folha só era colado na parede ao lado da privada, e “saía” uma vez por semana, com comentários sobre acontecimentos domésticos e nacionais, críticas ao comportamento dos mais velhos, dicas de filmes, charges e, vez por outra, protestos contra a mesmice da comida e sugestões de menus mais criativos com variações de fast-food. O nome do jornal, O Patentino, precisava ser explicado para visitantes de fora do Estado que, por acaso, sentassem na privada sem nada para ler. Durante muito tempo, privadas importadas, suponho, da Inglaterra pelo Rio Grande do Sul traziam o número da patente do vaso, e deduziu-se que “patent” era o seu nome, de fantasia, não o seu número de registro. O Patentino não viveu o suficiente para esclarecer o próprio engano. Éramos crianças.

Lá está, no expediente: Editor responsável, eu. Secretária, Clarissa. Repórter, Carlito. Que time. O Carlito morreu num acidente de carro, no Rio, por volta dos anos 70, sem nenhuma lógica. Tinha pouco mais de trinta anos.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Linguiça

Luis Fernando Verissimo 

Para o Brasil ser um circo, só faltam os palhaços. Somos nós 

Minha avó Ema usava uma expressão que nunca chegamos a decifrar exatamente, embora seu sentido fosse claro: “Pendura na linguiça”. Uma notícia sem importância, uma informação absolutamente inútil, uma fofoca irredimível? Pendura na linguiça. De onde a vó Ema tirara a linguiça, de que lembrança de um remoto passado rural ela trouxera a frase pronta, ninguém sabia — acho que nem ela. Mas a frase foi adotada pela família. O destino do que era falso ou irrelevante era ser pendurado numa linguiça, na companhia presumível de tudo o que tradicionalmente enche as linguiças.

Grande parte do discurso público ouvido no Brasil não merece outra coisa além de ser pendurado na linguiça. Não se trata de fake news fabricada especificamente para confundir, ou da retórica vazia do discurso político, facilmente caricaturável, nem do folclore instantâneo do mal explicado dinheiro entre as nádegas. Trata-se do discurso oficial, ou pseudo-oficial, do governo, da língua com a qual o poder se comunica e se desnuda, e expõe sua mediocridade. A língua de um governo de generais de fatiota, comandados por um capitão e seus filhos, e dividido em facções que não se entendem só pode ser a língua do caos disfarçado. Pior do que isso é quando o próprio capitão parece ter um gosto pelo caos.

Para um dos seus musicais de sucesso na Broadway, o compositor americano Stephen Sondheim escreveu uma canção em que uma veterana atriz lamenta que sua vida acabou como um circo vazio, sem público, sem brilho, sem amor, sem nada. E ela canta “Que entrem os palhaços”, pois só faltam palhaços para que o cenário da sua tristeza volte a ser um circo. O mesmo melancólico fim nos espera num Brasil que cada vez mais se parece com um circo falido. Para ser um circo, só faltam os palhaços. Onde estão os palhaços? Não é preciso procurá-los. Os palhaços somos nós.

domingo, 25 de outubro de 2020

A lenda do bode velho

Luis Fernando Verissimo

Um jovem nobre pode ter uma aparência nada agradável à luz de de um lampião

Uma jovem pobre de grande beleza atraiu a atenção de um jovem nobre que passeava entre as tendas do bazar sobre o seu flamante cavalo, atropelando pessoas e cachorros, pois não conseguia tirar os olhos da jovem.

- Preciso ter essa mulher – pensou o jovem nobre. – E esta noite.

O jovem nobre deu ordens a sua equipe. Era para descobrirem o nome da moça, seu endereço, a situação financeira da sua família, seus hábitos, seus gostos, se era virgem e se tinha namorado.

De posse destes dados, o jovem nobre bateu na porta da modesta casa onde a moça morava com a família e foi recebido pelo seu pai, que o convidou para entrar, sentar-se e conversar, enquanto a mãe ficava perto para não perder nada da conversa e eventualmente servir um licor. O jovem se apresentou:

– Sou o primogênito dos vinte e quatro filhos do sultão e o favorito dele, e dizem que sou o mais bonito. Vi sua filha no bazar e fiquei encantado.

– A Jenifer?

– Tem outra?

– Jeni, a mais velha.

– É a Jenifer. Quero dormir com ela,

– O...qu-que?

– Se possível, esta noite. Para começar.

– Você quer casar com a Jenifer, é isso?

– Casar, talvez depois, dependendo de como correrem as coisas esta noite. Estou disposto a pagar o que o senhor pedir. Sem esquecer que a Jenifer estará dormindo com um nobre. Com um deus. Vá lá, um semideus. Sou o primeiro na lista de sucessão do meu pai. Eu sou o poder. O senhor precisa me ver em cima de um cavalo, e sem máscara.

Acertadas as contas, passaram a acertar os detalhes. Jenifer dormiria com o nobre sempre no escuro. Assim, se preservaria um mínimo da honra da família. Mas não contavam com a Jeni e sua inveja. Foi Jeni quem lembrou a lenda, que talvez não fosse lenda, sobre o primogênito do sultão se transformar num bode velho sempre que fazia sexo. Só havia uma maneira de descobrir se a lenda era verdadeira: na primeira oportunidade que teve, Jenifer levou um lampião para a cama e esperou o jovem nobre dormir antes de iluminar seu rosto. Quando viu que estava na cama com um bode velho, deu um grito e saiu correndo, pensando “é preciso mudar as leis da sucessão!”

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

"Buttocks" e cueca

De vexame em vexame, nos convencemos de que o Brasil não tem mais graça

Luis Fernando Verissimo

O jornal “Guardian”, da Inglaterra, deu a notícia com precisão anatômica: o senador Chico Rodrigues estava com dinheiro entre seus “buttocks”, nádegas. A imprensa brasileira preferiu localizar o inusitado cofre do senador numa vaga “cueca”, que abrange as nádegas mas, desculpe, não vai tão fundo. Ou o “Guardian” tem informantes que ninguém mais tem sobre os hábitos do senador, ou está querendo nos anarquizar — ou precisa explicar seu noticiário exclusivo. Ou então o que deve ser estudado é a opção da imprensa nacional pela cueca em vez dos mais desmoralizantes “buttocks”. Por que escolheram a menos desmoralizante?

Minha interpretação é que com o dinheiro escondido nos fundilhos do senador chegamos a uma espécie de limite de tolerância com nós mesmos. Não nos aguentamos mais. De vexame em vexame, culminando, desculpe, com a história do dinheiro entre os “buttocks” ou na cueca, nos convencemos de que o Brasil não tem mais graça. Não somos mais nem folclóricos, o folclore que nos redimia amargou. Ficamos grotescos, reduzidos às peculiaridades que nos caracterizavam quando éramos simpáticos e hoje só divertem o mundo.

Chargistas e humoristas não receberam ordens para maneirar quando afundam, desculpe, no assunto, claro. Estão apenas fazendo o que fazem muito bem, e dinheiro entre “buttocks” ou na cueca do vice-líder no Senado de um governo que iria acabar com a corrupção é um assunto irresistível demais, e as piadas não acabam. Mas imagino que o sentimento que predomina até entre os mais acerbos críticos desse governo é o de tristeza. Uma tristeza imensa, continental, amazônica. O que fizeram do Brasil! Aquele país tão promissor, que fim levou? Para onde o levaram?

Eu acho que os vexames começaram junto com o governo Bolsonaro, quando o presidente recém-eleito comentou que um dos seus filhos poderia ser o embaixador brasileiro em Washington — e ninguém reagiu. Tínhamos ali uma medida do homem e uma oportunidade de chamá-lo para a realidade, mas ninguém reagiu. Depois ficou tarde e multiplicaram-se os vexames.

domingo, 18 de outubro de 2020

Pode acontecer


Luis Fernando Verissimo

Estamos num daqueles períodos da História em que tudo que pode acontecer, acontecerá. Prepare-se para o próximo meteorito

Um dia, nós ainda vamos rir de tudo isto – histericamente.

Estamos num daqueles períodos da História em que tudo que pode acontecer, acontecerá. Prepare-se para o próximo meteorito. Nos Estados Unidos, estão falando seriamente na possibilidade do Trump perder a próxima eleição presidencial e se recusar a entregar o poder. Argumentos racionais contrários a esta possibilidade, resumidos na frase “Ele não é louco”, ignoram um fato evidente: ele é louco. Ou pelo menos já cometeu tantas loucuras no cargo que mais uma, a última, não fará diferença, e ainda dará uma espécie de coerência à sua demência.

O que pode acontecer:

– Vamos lá, sr. Presidente?

– Aonde?

– À posse do novo presidente. Sua limusine está esperando.

– Não posso ir. Estou muito ocupado.

– Mas senhor...

– E outra coisa. Que história é essa de novo presidente? Até eu passar por aquela porta do Salão Oval, o presidente sou eu. E não pretendo sair daqui tão cedo. Temos que deter esse impostor, o Biden.

– O Biden ganhou a eleição, senhor.

– Um detalhe. Precisamos impedir que a nação seja entregue a um velho de cabelos brancos com cara de farmacêutico aposentado, depois de quatro anos com meu bronzeado e meus cabelos dourados. Me dê as suas algemas.

– O quê?

– Suas algemas. Vocês do serviço secreto não carregam algemas? Me dê as suas.

– O que o senhor vai... Presidente!

– Pronto. Estou preso à minha mesa. Agora ninguém me tira daqui. Nem o Putin, pedindo com jeito. Quem quiser me levar, tem que levar minha mesa junto! Pode dispensar a limusine.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Rambos da milícia


Rambos


Luis Fernando Verissimo

A pose é conhecida. Modelo “Rambo”, anos 80. Pernas abertas, para que não se duvide de que são machos. O rifle automático em evidência, atravessado na frente do corpo. Há outras armas, semiescondidas. Pistola, punhal, granadas — e tudo dentro da lei. Eles podem se deixar fotografar prontos para ser o Sylvester Stallone dos seus sonhos porque nada do que carregam, inclusive lança-foguetes, é proibido. Tudo pode ser comprado em qualquer loja de armas dos Estados Unidos, onde o único limite é a validade dos cartões de crédito.

Grupos de extrema-direita estão se preparando para o confronto, que dizem inevitável, com seus inimigos esquerdistas, judeus e negros, estes mobilizados por repetidos exemplos de violência racista da polícia sob pretexto de manter a ordem. O grupo que pretendia sequestrar uma governadora progressista e ocupar a sede do seu governo anunciou que seu objetivo era provocar uma guerra civil. Não ajudou o presidente Trump pedir, paternalmente, paciência para os extremistas da direita, deixando claro com que lado simpatiza. O que torna a atual situação nos Estados Unidos mais grave do que jamais foi são estas duas novidades: pela primeira vez a ameaça de uma guerra civil moderna sai da retórica para a ação — mesmo que anunciada e iniciada por Rambos de fantasia —, e um presidente americano moderno não disfarça por quem torceria na nova guerra.

Enquanto isso, a mosca que passeou pelo cabelo do Pence no debate dos dois candidatos a vice-presidente teve seus cinco minutos de fama e desapareceu sem deixar nome e endereço, o que permitiria que se desenvolvesse alguma tese a seu respeito, ou apenas a conhecêssemos melhor. Ela simbolizaria a pretensão humana reduzida ao absurdo de um ínfimo detalhe — o binômio mosca preta/cabelo branco— atrair mais atenção do que o próprio debate ou apenas uma falha na dedetização do local? A mosca acabou sendo a estrela do evento. Voltou para seu anonimato. Mas pelo menos voltou com uma aventura para contar.

domingo, 11 de outubro de 2020

A população da China

Luis Fernando Verissimo

Faz parte do folclore da família a vez em que eu, com meus 9 ou dez anos de idade, tive que me levantar na sala de aula e responder a uma pergunta da professora. Hoje, eu entendo que a pergunta (de geografia) fora normal e nenhuma intenção malévola a motivara, mas na hora não tive dúvida de que a professora a escolhera especificamente para me arrasar. Vi a fúria brilhar nos seus olhos, juro que ouvi a sua gargalhada de bruxa – coitada da dona Ilka – e senti que se organizava entre meus colegas de aula uma vaia impiedosa, fosse qual fosse minha resposta.

– Senhor Verissimo, qual é a população da China?

A população da China! Como eu ia saber a população da China? Quem sabia a população da China? De onde eu poderia tirar a população da China? Eu obviamente perdera aula em que tinham aprendido qual era a população da China. E agora? Fazer o quê?

As opções:

Fugir. Tentar chegar na porta antes da dona Ilka – que, na sua condição de bruxa, voaria até a porta e barraria meu caminho. Fingir que me dirigia para a porta mas mudar rapidamente de rumo, enganando a dona Ilka, e me atirar pela janela. A vantagem desta opção seria que eu provavelmente quebraria alguma coisa na queda pela janela, causando grande preocupação em todos, que trocariam o desprezo por mim e minha ignorância pela pena, me visitariam no hospital, etc. e esqueceriam a população da China.

Negociar. Pedir para falar em particular com a professora. Inventar uma história de privações e tragédias na família que me impediam de estudar, daí minha pouca informação sobre a população da China. Chorar um pouco.

Radicalizar. Pedir para falar em particular com a professora – e sequestrar a professora!

No fim, optei pela simplificação.

– Senhor Verissimo, qual é a população da China?

Respondi:

– Numerosa.

*

Me lembrei desta história porque soubemos uma do nosso neto, com oito anos. A professora perguntou quando a letra “O”, em final de palavra, tem som de “U”. Resposta dele, fiel a uma tradição da família:

– De vez em quando.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Os tetos


Verissimo 

De repente a palavra ‘presencial’ ganhou notoriedade 

Cada era com seu vocabulário. De repente a palavra “presencial” ganhou uma notoriedade que antes não tinha. Presencial: significando na presença física de, em contraste com a ausência de, ou com a presença apenas virtual de. Uma palavra de muitos sentidos, perfeita para esta era de dissimulações, que só vendo, tocando e cheirando para crer.

Outra expressão que deve sua existência à era surgiu no mundo rarefeito do jargão econômico. Inventada, até onde eu sei, pelo ministro Paulo Guedes, que se sai melhor fazendo frases do que dirigindo a Economia. Guedes chama de “fura-teto” quem quer ultrapassar os limites da responsabilidade fiscal e se declara um defensor da inteireza do teto, ameaçada por gastadores com seus sonhos igualitários irrealistas. Em todo lugar em que os “fura-tetos” são demonizados, o capitalismo se penitencia, se penitencia, mas não muda. No fundo, o que se discute não é a defesa do sacrossanto teto, mas sua utilidade nos rituais de falsa penitência com que o capital protege sua alma junto com seus lucros, enquanto o sonho é eternamente adiado.

O livro “O capital no século XXI” é um tijolo de 700 paginas que seu autor, Thomas Piketty, atirou contra a confortável certeza de que é só dar tempo ao capital que ele se reformará sozinho, provando com estatísticas e gráficos (e sabendo-se o que se sabe do prontuário do capitalismo) que o milagre é improvável, e afundando no processo de ilusões social-democratas. Há pouco saiu outro tijolo do Piketty, este com mais de mil páginas, intitulado “Capital e ideologia”. Quem teve preparo físico para enfrentar o novo livro, como o economista Paulo Gurgel Valente, que fez uma valiosa leitura crítica, gostou do que leu, principalmente porque “Capital e ideologia” é mais abrangente do que o livro anterior, cobrindo mais história, geografia e economia — apesar de dar pouca atenção ao Brasil.

Piketty não tem problema em contrariar a ortodoxia marxista, mas deixa claro que é um “fura-teto” convicto. Sabe que pertence a uma minoria: pode contar nos dedos da mão invisível do mercado que os neoliberais tanto gostam de citar a quantidade de economistas do seu lado. Mas é um aliado precioso. Pelos seus tijolaços certeiros.

domingo, 4 de outubro de 2020

Criação




E Deus viu que precisava criar uma distração para o homem, que ameaçava anarquizar sua obra
Deus criou o céu e a terra e tudo que continham, embora diga que o rinoceronte não foi ele. E criou o homem, e chamou o homem de Adão, mas o homem não gostou e disse que preferia se chamar Heitor. E Deus viu que tinha criado um problema.

– A criação é minha e sou eu que dou nome a todas as coisas – disse Deus. E acrescentou: – Menos ao rinoceronte, que eu não sei de onde saiu.

– Fred.

– O que?

– Fred. É o nome do rinoceronte.

E Deus viu que precisava criar uma distração para o homem, que ameaçava anarquizar sua obra, e logo no primeiro dia. E, como já tinha criado o Tempo, Deus criou o Passatempo. Uma mulher, que apresentou ao homem.

– Esta é Eva.

– Elvira – corrigiu a mulher.

– Elvira – suspirou Deus.

*

É preciso dizer que Deus era da velha guarda, que só sabe pensar em mulher como passatempo, ou serva, do homem. E Deus não demorou a descobrir que a mulher era pior do que o homem. Mais opiniática (mudou o nome de tudo, inclusive do Fred, que chamou de Brogadão) e mandona (trocou o nome do homem umas cinco vezes, até decidir que seria Fofice e pronto). E Deus concluiu que, em vez de criar uma solução, criara outro problema.

Era preciso controlar Eva, ou Elvira, ou que nome ela mesmo se dera, antes que ela abrisse uma rede de butiques e acabasse banindo Deus do Éden e tomando o poder. Deus chamou o homem para uma conversa homem a homem. Bolara um plano: convenceriam a mulher a provar a fruta da Árvore do Saber, de onde ela tiraria varias ideias para seus empreendimentos, e a fruta estaria envenenada. Fim da mulher. O que o homem achava do plano?

– Não sei... – disse o homem.

– Como não sabe? Nos livraríamos dela. Isto aqui voltaria a ser um paraíso.

– Ela me chama de Fofice. Entende? De noite, na cama. “Vem, Fofice”. E pede pra eu chamá-la de “sweetie”, que é docinho em inglês. Entende? Docinho, Deus.

E Deus desistiu. Fez a sua mala e emigrou para o Leste do Éden.

domingo, 27 de setembro de 2020

Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória


Volta

Luis Fernando Verissimo

O ideal seria reverter o tempo e fazê-lo andar para trás como fez o Super-homem para salvar a Lois Lane, no filme

Há um consenso entre cientistas do mundo inteiro de que coisas como o aquecimento global e os desastres ecológicos, que se repetem e hoje ameaçam a sobrevivência da humanidade, se devem ao que deixou de ser feito, preventivamente, no passado, quando medidas para impedir o pior ainda fariam uma diferença. O ideal seria reverter o tempo e fazê-lo andar para trás como fez o Super-homem para salvar a Lois Lane, no filme. O Super-homem usaria seu poder de comandar o tempo para voltar ao passado e salvar a humanidade. 

Procuraram o Super-homem.

*

O Super-homem está decadente. Trabalha num circo, onde todas as noites chega voando e entra pelo teto, cantando. Engordou. Diz, rindo, que seus bíceps agora estão na sua cintura. Pergunta o que querem dele e anuncia que faz aniversários de crianças, inauguração de shoppings ou, se preferirem, combina com o Batman e os dois encenam uma luta. Ou convidam o Hulk para lutar também, só tendo que esperar até conseguirem irritá-lo com cócegas e ele ficar verde e violento. 

Mas não é nada disso que querem do Super-homem.

– Aquilo que você fez para a Lois Lane, Super...

– Por favor, não diga esse nome na minha frente.

– Vocês brigaram?

– Depois que ela me traiu com o Homem de Ferro, brigamos.

– Sentimos muito.

– Ela me traiu com o Capitão América também. Com o Flash. E, agora estou me lembrando, até com o Homem-Formiga.

– Certo. Mas o que queremos de você é aquilo que fez para a... Para ela.

– Refresque a minha memória.

– Ela estava em perigo e você fez o tempo retroceder para salvá-la. Nós queremos voltar no tempo e fazer tudo que deixamos de fazer, no passado, para evitar que o mundo chegasse a este estado. Nós precisamos de mais tempo, Super!

– Mas vocês acreditaram naquela cena? Era tudo fake. Tudo efeitos especiais. Cinema, pô! Infelizmente, não posso ajudá-los. Só posso dar um conselho. Tentem fazer agora e no futuro o que não fizeram no passado, para salvar a humanidade. 

– Tá bom...

– E como é, não querem ficar para me ver levantar um elefante?

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Geração lemingue

 

Luis Fernando Verissimo 

2020 vai ser lembrado como o ano em que se revelou a vocação para lemingue de toda uma geração

Sabe lemingue? É aquele bicho que migra em bandos na direção do mar atrás de um líder, qualquer líder, e, quando o líder se atira no mar, se atira junto e morre. Ninguém entende bem essa propensão do lemingue ao suicídio coletivo, mas está no seu DNA, impossível discuti-la. O lemingue é descrito como um pequeno roedor de cauda curta e cor amarelada, mas essa é sua descrição zoológica. Para nosso efeito, ele é uma pessoa jovem que gosta de aglomeração e para a qual o suicídio coletivo é apenas mais um programa com a turma.

Me lembrei de um episódio contado pelo Mino Carta. Num cinema do Bixiga, em São Paulo , passa um documentário sobre a vida animal e seus horrores, inclusive cenas sangrentas de pobres gazelas sendo trituradas por bichos mais ferozes do que elas. É quando se ouve uma voz com indisfarçável sotaque do Bixiga, de alguém que provavelmente entrou num cinema pela primeira vez na vida e diz “Que mentalidade!”. É o comentário que merece a estranha compulsão dos lemingues. Que mentalidade!

2020 vai ser lembrado como o ano em que se revelou a vocação para lemingue de toda uma geração. Uma insuspeitada vontade de seguir o contemporâneo que passar por perto com claros sinais de que vai se matar e de ir atrás dele com todo o bando para morrer também. O que mais impressiona nos bandos que enchem as praias a caminho do mar e as calçadas dos bares é sua alegria. Sem máscaras e sem distância um do outro.

Os lemingues estão nas ruas. Se há mesmo uma crise internacional, uma pandemia viral que grassa no planeta sem controle à vista, o problema não é deles. Afinal, que crise internacional é essa em que o presidente de um dos países supostamente mais afetados por ela não acredita nas medidas recomendadas para detê-la? Bolsonaro & Filhos se comportam como se ele também fosse um lemingue, jovem e sem compromisso com a realidade. Que mentalidade!

domingo, 20 de setembro de 2020

As baleias estão atacando



Os animais estão agindo de um modo estranho, nas costas da Espanha e de Portugal. As baleias se projetam contra barcos de qualquer tamanho. O que significa a agressão das baleias?
É assim que acaba o mundo, não com um estouro, mas com o encontro das queimadas do Pantanal e da Califórnia sobre nossas cabeças, não com um gemido, mas com o contágio terminal de todos nós, não com uma revoada de diabos, como no Apocalipse, mas com uma praga de gafanhotos.

Não quero aumentar a aflição de ninguém, mas li que as baleias estão agindo de um modo estranho, nas costas da Espanha e de Portugal. As baleias estão atacando os barcos. Os pescadores nunca viram nada parecido. As baleias se projetam contra barcos de qualquer tamanho. Barcos de pescadores, barcos de passeio, todos os tipos de barcos. Como se quisessem expulsá-los da água.

O que significa a agressão das baleias?

Elas atacam em bando. Parecem obedecer a um comando único. Seu comportamento já está afetando o trabalho dos pescadores e espalhando o medo na região.

Especula-se que as baleias têm consciência do próprio tamanho – só perdem para o elefante em volume – e da sua potência, e que sejam uma espécie de guarda avançada, mas guarda avançada do quê? Seja o que for, estão atacando.

Elas estão claramente revoltadas. Alguma coisa provocou sua revolta inédita. Já houve quem se lembrasse do filme Os Pássaros, do Hitchcock, que é sobre as ações inexplicadas de pássaros. No fim do filme, o comportamento dos pássaros permanece inexplicado. Cada espectador sai do cinema com sua própria interpretação do que viu, ou com sua própria perplexidade. Pássaros atacando pessoas representariam uma distorção da Natureza, um mundo retorcido em que tudo perdeu o sentido, ou trocou de sentido.

Hitchcock fez uma raridade, uma história de terror sem vilões, de terror sem nome e sem culpa. Ou então foi um visionário, o primeiro da sua espécie – a dos profetas do caos – a enxergar o que nos espera num mundo que perdeu o sentido. Hitchcock talvez pensasse em fazer outro filme premonitório, sobre um terror que não aparece, desta vez quem sabe um vírus, mas morrido antes.

As baleias, como os pássaros do Hitchcock, estão fazendo o que não se espera delas, o que é o terror na sua forma mais assustadora. Enfim, as baleias estão atacando. E vá tentar negociar com baleias. É como tentar negociar com vírus.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Qualquer um

Luis Fernando Verissimo

A nomeação por Richard Nixon de um notório medíocre para a Suprema Corte americana foi defendida com o argumento de que a mediocridade também precisava ser representada num governo. Presumivelmente por modéstia, Nixon não se escalou entre os medíocres representativos. Poderia ter se autodefinido como um exemplo extremo do que uma democracia tem de admirável, a oportunidade, pelo menos teórica, que oferece a qualquer um de chegar à Presidência da República. É verdade que o mesmo exemplo serve para o que uma democracia tem de mais perigoso, a oportunidade que oferece a qualquer um — mesmo um Nixon, um Trump ou, meu Deus, um Bolsonaro & Filhos — de chegar à Presidência da República. Faça um teste. Se pergunte o que você prefere, o velho ideal ciceroniano de uma casta preparada para o poder, à prova de qualquer medíocre e com o direito divino de governar, mas dada a injustiças e calhordices como toda aristocracia, ou o ideal democrático da igualdade de oportunidades, pelo menos teórica, com o risco de eleger qualquer um.

O mesmo Nixon, noutro contexto, falando sobre a economia americana na sua época, soltou uma frase surpreendente: “Somos todos keynesianos, agora”. A era Nixon, que terminou com sua renúncia depois do escândalo Watergate, não teve nada a ver com Keynes, que defendia a interferência do Estado na economia e pregava a responsabilização social da política financeira internacional desde o fim da Segunda Guerra Mundial — o que leva a crer que Nixon leu os livros errados, ou se preparava para aderir a Keynes quando foi derrubado. Hoje a era Nixon é vista como uma espécie de antessala da era cuja frase-tema foi dita não por um economista ou um político, mas pelo Michael Douglas no papel de Gordon Gekko, a fera de Wall Street no filme do mesmo nome, do Oliver Stone. A frase é: “Greed is good” (Ganância é bom). É a ganância desenfreada que move a era dos trilionários e gerentes de fundos sem escrúpulos e agita o sono sem descanso de Keynes.