quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Falas do presidente não são meras diatribes de moleque, elas são inconstitucionais

Abjuração

Eugênio Bucci

No dia primeiro de janeiro de 2019, em sessão solene do Congresso Nacional, o presidente da República enunciou de própria voz o compromisso sem o qual não poderia assumir nem exercer o cargo: “Prometo manter, defender e cumprir a Constituição”. O presidente está sob juramento. Apesar disso, dia sim, outro também, grita palavras insultuosas para atentar contra a essência da Constituição que prometeu manter, defender e cumprir. O presidente é uma abjuração ambulante e muita gente finge que nada existe de anormal nesse quadro.

Em ostensivo repúdio ao compromisso que firmou com a Nação e com a ordem jurídica, diante dos olhos de todos nós e de representantes de outros países, o cidadão que está no mais alto posto da República não apenas não defende os valores essenciais da Lei Maior, como não se furta a agredi-la rotineiramente. Muita gente releva os desaforos presidenciais como se não passassem de distúrbios psíquicos de uma personalidade acometida por surtos de incontinência verbal, mas o fato é que o Brasil vem sendo governado por alguém que vive de metralhar declarações infamantes contra o que há de mais precioso e pétreo na Carta de 1988.

Não, não se trata de uma opinião. Isso é fato, não uma versão valorativa e impressionista. O presidente da República não cumpre o juramento que fez à Nação. A pergunta é: isso pode? Até quando ou até que limite uma democracia pode conviver com algo assim? Até onde a democracia resistirá?

Antes de responder, não há de ser ocioso relembrar o óbvio. Como existe muita gente, muita gente mesmo, simulando ver normalidade quando olha para a avalanche de absurdos que conspiram contra as garantias fundamentais, é legítimo e necessário esclarecer os fatos e dar os nomes devidos ao que se passa.

O primeiro ponto é recordar que há um consenso sobre o qual se assenta a Constituição de 1988. Gastamos mais tempo falando das imperfeições da Carta, que são numerosas. Reclamamos a toda hora das contradições e dos anacronismos

que existem nela e, por descuido ou apressamento, não valorizamos devidamente que, por baixo de incongruências e asperezas, existe, sim, um consenso valioso e insubstituível que percorre a integralidade do texto. Esse consenso é a vontade nacional de erigir um Estado alicerçado na cidadania, na dignidade da pessoa humana, no pluralismo político, na erradicação da pobreza e dos preconceitos de origem, raça, sexo, cor ou idade, na prevalência dos direitos humanos, na defesa da paz e na cooperação entre os povos para o progresso da humanidade.

Em resumo, a Constituição de 1988 é produto de um consenso que se corporifica na recusa unânime e categórica à censura, à tortura e à ditadura. É claro que muito se pode mudar na Constituição que aí está. Só o que não se pode mudar é seu fundamento essencial (seu espírito primordial). A volta da tortura, da ditadura, da censura, assim como a volta da escravidão, é inaceitável. A Carta de 1988 encarna e dá consequências jurídicas e políticas ao repúdio ao arbítrio e à violência, em favor dos direitos humanos, da liberdade e da democracia.

O nosso problema é que sempre que acha uma brecha, e mesmo quando não acha, o presidente sai por aí aos berros elogiando torturadores notórios (chamou a um deles de “herói nacional”), estimulando a censura a filmes e obras de arte, investindo contra órgãos de imprensa, xingando empresas de comunicação, intimidando jornalistas, nominalmente, e distribuindo agressões no plano das relações internacionais (dia desses enalteceu a tortura e a morte do brigadeiro Alberto Bachelet pela ditadura chilena, em 1973, alegando que o golpe de Pinochet teria livrado o Chile de se converter “numa Cuba”).

É inacreditável como tantos ainda não emitem sinais de incômodo. Para esses, tudo se resume ao estilo falastrão de uma autoridade mal-educada, como se as bravatas fossem um “mal menor” num país que “precisa de reformas”. É realmente inacreditável e alarmante. Temos de parar com tergiversações. Essas falas do presidente da República não são meras diatribes de moleque. Elas são, numa palavra, inconstitucionais. Não podem ser aceitas ou toleradas, pois ferem a normalidade democrática.

Tentemos pensar por analogias. O que aconteceria na Alemanha se de repente Angela Merkel desse para glorificar a memória de Hitler? Como a sociedade civil alemã reagiria se a chanceler declarasse que o nazismo serviu para evitar que os comunistas tomassem o poder? Ela certamente cairia. Na Alemanha o repúdio ao nazismo e ao holocausto é a origem essencial da democracia. Por isso, em seus pronunciamentos Angela Merkel defende a liberdade e os direitos humanos. No Brasil a origem essencial da democracia está no repúdio à ditadura militar, à censura e à tortura como prática de Estado. Acontecer que o presidente brasileiro, em vez de manter e defender a democracia, não se cansa de fazer apologia de torturadores e ditadores. Até quando vamos fazer de conta que isso é normal?

Muita gente especula se há cálculo nos impropérios inconstitucionais do presidente: ele faz o que faz (fala o que fala) por despreparo ou por estratégia? A verdade é que pouco importa, embora não existam indícios confiáveis de que o personagem em tela disponha de habilidades de enxadrista político. O que importa é que, de fato, o mandatário segue à risca uma cartilha belicosa, xenófoba, homofóbica, militarista, antipolítica, anti-intelectual, anticientífica e dada a exacerbações de fundamentalismos religiosos moralistas. Essa cartilha, que é também hipernacionalista, embora preste vassalagem a uma única potência estrangeira, preconiza a transformação do Estado numa delegacia de polícia política.

Ora, o nome dessa cartilha é fascismo. De propósito ou por instinto, não faz diferença, o discurso violento que está no poder ataca a democracia porque prefere outro modelo: um tipo amesquinhado de fascismo. Mesmo assim, muita gente acredita que está tudo direito.

Falas do presidente não são meras diatribes de moleque, elas são inconstitucionais

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