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quinta-feira, 22 de abril de 2021

A democracia neste cemitério chamado Brasil já está em pleno desmanche


O golpe em gerúndio

Eugênio Bucci

Uns dizem que o presidente da República é tão despreparado, tão destrambelhado, tão desmiolado e tão desqualificado que não consegue organizar nem mesmo uma quartelada. Dizem que, por aqui, não virá golpe de Estado nenhum. Chance zero. Despreocupados, até reconhecem que o Palácio do Planalto nutre seus delírios com rupturas institucionais, mas desprezam categoricamente a hipótese. Asseguram que não há competência instalada para tanto. Quem planejaria um golpe?, perguntam. Quem montaria a estratégia? O Pazuello? Dão risada. Aparentando segurança e calma, estão certos de que as instituições resistirão até 2022 e o presidente, esse tal que segue no posto, será derrotado nas urnas. Falar em impeachment agora é perda de tempo, desperdício de energia.

Esses uns não são poucos. Gente graúda da oposição está com eles. Esses uns, na verdade, são uns e outros. Dão as cartas. Não há muito que se possa fazer. Só nos resta torcer para que uns e outros estejam certos. Tomara que o avião aguente. No mais, ainda é possível bater panelas, além de levantar o dedo e balbuciar “veja bem”. É disso que trata este artigo: veja bem.

Talvez seja verdade que não virá nenhum golpe de arromba por aí. Oxalá seja verdade. Talvez não nos espere, no calendário próximo, um golpe desses que se deixam fotografar, com tanques de guerra fechando a Rua da Consolação e caças dando rasante na capital federal. Por outro lado, veja bem, é ainda mais verdade que vem vindo, já faz um tempo, um golpe menos espetaculoso, um golpe em processo, um golpe por antecipação, um golpe de cada dia que nos dão hoje, assim como nos deram ontem e anteontem. Enquanto o golpe retumbante não chega, outro golpe vai se adensando, vai se alastrando, vai nos consumindo – em surdo gerúndio.

E vai avançando. Existem bandidos que vêm comemorando sem maiores histrionices: “Está tudo sendo dominado”. A bandidagem aderiu ao gerúndio. Para que o improvável leitor visualize o que se vem passando, é mais ou menos como arrancar do chão toda a flora e toda a fauna na Amazônia. Isso não acontece assim, de uma hora para outra, num repente – vem aos poucos, num acontecendo. Uns milhares de quilômetros quadrados, ou redondos, são incinerados hoje, outros, amanhã, até que a gente vai descobrir que não há mais florestas a proteger.

Algo parecido se vai dando com a democracia brasileira. Enquanto uns e outros pensam que vão comer o bolsonarismo pelas bordas, o bolsonarismo está comendo o Estado por dentro. Enquanto uns e outros se divertem postando piadinhas contra o ministro que falou que passaria com a boiada da desregulamentação ambiental, os boiadeiros do apocalipse ateiam fogo nos fundamentos das instituições democráticas.

Não obstante, uns e outros dizem que as instituições funcionam “normalmente”. “Normalmente” como, cara-pálida? A democracia deste cemitério congestionado chamado Brasil não está mais sob ameaça: já está em pleno desmanche, só estão ficando de pé as fachadas. Por enquanto. O cientista político e professor da USP André Singer vem apontando, também no gerúndio, o descomunal desmantelamento, mas uns e outros não ligam. Em recente entrevista ao site Opera Mundi, Singer afirmou que está em curso “um processo incremental, tão gradual que a sociedade não percebe o que está acontecendo”. No gerúndio.

Exemplos? Ora, todos. Intervenções brandas e brutas na Polícia Federal seguem se acumulando. De quantos escândalos mais você precisa para começar a franzir o cenho? Perseguições ideológicas contra setores da cultura, dentro e fora do Estado: isso por acaso faz parte da “normalidade” democrática? Olhemos para a devastação da ciência, para o seletivo torniquete orçamentário que vai desativando o sustento da educação, para a metamorfose macabra que fez do Ministério da Saúde uma usina de estatísticas sobre cadáveres. Olhemos para o extermínio das melhores tradições diplomáticas do Itamaraty. Estamos imersos num gerúndio massacrante, que vai dizimando até carreiras de Estado, como a dos fiscais que se acreditavam investidos do poder de vigiar crimes contra o meio ambiente.

Quantos anos serão necessários para reconstruir o Brasil, para reflorestar a terra ardente, para reavivar os instrumentos institucionais que fazem uma democracia funcionar? Quanto trabalho teremos de empenhar para cada dia de estrago implementado intencionalmente por esse governo? Quantas vidas teremos de pagar?

Enquanto isso, os fundamentos continuam despencando. No início da semana, a organização internacional Repórteres sem Fronteiras divulgou mais uma pesquisa sobre a liberdade de imprensa. Pela primeira vez, o Brasil figura na chamada “zona vermelha”, onde o trabalho de jornalistas é considerado “difícil”. No mesmo grupo estão Nicarágua, Turquia, Rússia e Filipinas. Também isso não aconteceu de um dia para o outro, foi produto de um longo e árduo trabalho dos golpeantes em gerúndio. Enquanto o estrago se vai expandindo, vai ficando mais “difícil” encontrar jornalistas que possam investigar e contar o que está acontecendo. Em gerúndio, em gerúndio, em gerúndio.

*Jornalista, é professor da ECA-USP

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Doria corta investimentos em Ciência e aumenta em publicidade


A propaganda, a ciência, o imbróglio e o ano novo

Eugênio Bucci

Fapesp corre o risco de perder 30% de sua verba e Bandeirantes aumenta a de publicidade em 70% 

No gran finale de 2020, o governo paulista deu um jeito de aumentar os recursos para fazer propaganda de si mesmo e, na outra ponta, deu outro jeito para, em plena pandemia, ameaçar o orçamento da ciência. O ano que começou mal termina muito pior.

Nos derradeiros ajustes da Lei Orçamentária Anual (LOA), na Assembleia Legislativa, o Palácio dos Bandeirantes conseguiu incluir uma elevação de 69% na sua verba publicitária (como noticiou este jornal na primeira página, dia 20, com reportagem de Brenda Zacharias). O montante, que ficou na casa dos R$ 90,7 milhões em 2020, saltará para R$ 153,2 milhões no exercício de 2021.

Na mesma LOA aparece um corte de 30% na receita da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A entidade tradicionalmente conta com 1% da receita tributária do Estado. Em 2021 poderá ficar com apenas 0,7%. Traduzindo em graúdos, estamos falando de meio bilhão de reais a menos.

Por enquanto, dinheiro ainda não foi retirado, de fato, mas a Fapesp corre o risco de perdê-lo. O corte aparece no texto final da LOA (publicado no Diário Oficial de ontem), com todos os números e vírgulas, mas talvez não venha a ser efetivado. Mas como assim?, há de se perguntar o improvável leitor. Se a lei manda cortar, como é que podemos ter a expectativa de que o corte talvez não se consume?

Para entender o capcioso imbróglio, pelo qual o malfeito se insinua enquanto finge não ser o que é, precisamos conhecer um pouco mais desse novo gênero artístico-orçamentário de dissimulação, tão em voga na política: a técnica legislativa de ordenar uma coisa e, ato contínuo, ordenar o seu contrário.

A mesma LOA que corta “descorta”. Numa das inumeráveis tabelas que a acompanham, consta um valor para o orçamento da Fapesp que equivale claramente à redução de 30% de suas receitas. Para isso a LOA se apoia lógica que prevaleceu nas emendas à Constituição federal que preveem a Desvinculação de Receitas da União (conhecida pela sigla de DRU) e a Desvinculação de Receitas de Estados e Municípios (Drem). Essas desvinculações constitucionais permitiram que as chamadas “receitas vinculadas”, tanto na União como nos Estados e nos municípios, fossem diminuídas. Logo, se a Drem valer para a Fapesp, ela perderá um terço do tamanho que tem hoje.

Acontece que o destino ainda não está selado, pois, como já foi dito, a mesma LOA que corta “descorta”. Em seu artigo 11, ela manda cumprir o que está escrito no artigo 271 da Constituição estadual de São Paulo – e esse artigo, o 271, determina de forma expressa, inequívoca, a destinação de 1% da receita tributária do Estado à Fapesp.

Em resumo, a LOA paulista para o ano de 2021 é uma contradição em termos, um oxímoro legislativo. Em suas previsões numéricas, impõe o corte da Fapesp. Em seu artigo 11, impede o corte da Fapesp.

O que vai acontecer? As apreensões estão lançadas. Há juristas que entendem que o orçamento da Fapesp não provém de uma receita “vinculada”, como as outras, e, portanto, a Drem não se aplica a ela. Mas há os que dizem que a Drem, um dispositivo da Constituição federal, deve prevalecer sobre as Constituições estaduais.

Não vai ser fácil. Só o que se sabe até agora, com segurança, é que o futuro da ciência paulista, que já era ruim, piorou um pouco mais. É a primeira vez que um ataque tão frontal contra os recursos da Fapesp ganha forma de lei. As forças tecnocráticas que, no curso de vários governos tucanos paulistas, vêm se articulando contra a pesquisa e contra a universidade pública marcaram seu tento, desfecharam sua pirraça e instalaram no horizonte próximo essa incerteza cabulosa.

A integridade da Fapesp nunca esteve tão vulnerável. Para o ano que vem, a manutenção de seu orçamento normal vai depender da assinatura do governador do Estado, a quem cabe expedir, por decreto, os termos da execução orçamentária. Quando for pagar as pesquisas que financia, muitas delas sobre tratamentos contra a covid-19, no Instituto Butantan e em outras instituições, precisará contar com a boa vontade do chefe do Executivo – que assegurou, publicamente, mais de uma vez, que não implementará corte algum.

Podemos acreditar nele? Em nota divulgada agora em dezembro, a instituição diz que sim: “A Drem não será aplicada à Fapesp em 2021 e há um compromisso claro do Governador João Doria e do Vice-governador Rodrigo Garcia, que também não será aplicada nos próximos anos”. Ao que se sabe, essa confiança na palavra do político em questão não tem bases científicas, mas é o que temos para o réveillon. Se cortes vierem, só vai restar aos dirigentes da Fapesp entrar na Justiça, o que trará mais desgastes e mais incertezas.

De sua parte, o mesmo Palácio dos Bandeirantes, que alega falta de recursos para fragilizar o financiamento da ciência e do conhecimento, não vê obstáculos para majorar em 70% a sua verba publicitária. É que estamos em tempos de pandemia e, você sabe, o poder acredita que a propaganda salvará vidas – de governantes.

Feliz ano novo.


*Jornalista, é professor da ECA-USP

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Os terraplanistas sentem-se humilhados diante do saber e respondem com insultos


A Terra plana, assim cantou José Miguel Wisnik 


No dia 10 de setembro perdemos o astrofísico brasileiro João Steiner. Tinha 70 anos de idade. Professor titular do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, foi também diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da mesma universidade e coordenou a participação brasileira na construção do Telescópio Gigante de Magalhães, o maior já feito até hoje, que será inaugurado em 2024, nos Andes chilenos.

Sorriso acolhedor, cabelos brancos, longos, por vezes indisciplinados, João tinha o physique du rôle do gênio bonachão, um tipo meio cinematográfico. Não havia na USP ninguém mais desarmado e menos arrogante do que ele. Membro da World Academy of Sciences, foi uma das maiores autoridades do mundo em buracos negros, mas não botava banca. Amava a ciência e a humanidade.

Uma vez, almoçando com um colega menos graduado no restaurante que fica atrás da Faculdade de Economia, na Cidade Universitária, ouviu uma pergunta que o desconcertou: qual era a sua opinião sobre o fato de um astronauta ser ministro da Ciência e da Tecnologia no Brasil? João sabia perfeitamente do descalabro e da incultura que começavam a se instalar no poder, mas, discreto por estilo e convicção, não se prestava a alaridos panfletários. Serenamente, pousou as duas mãos sobre a mesa, uma de cada lado do prato, e achou um ângulo de escape onde só havia más notícias: “Pelo menos ele sabe que a Terra é redonda”. A inteligência de João Steiner era assim, sempre nos presenteava com um pouco de bom humor.


No ano de 194 antes de Cristo perdemos Eratóstenes de Cirene, matemático e bibliotecário da Biblioteca de Alexandria. Tinha 82 anos de idade e deve ter sido um cara interessante, ele também. Medindo longas distâncias em passos e aplicando fórmulas trigonométricas, realizou um cálculo quase inacreditável. A cosmologia nascente já tinha percebido a esfericidade da Terra (Platão fala disso no Fédon), mas Eratóstenes quis saber o tamanho exato da circunferência do nosso planeta. De acordo com as contas que fez, a medida (convertida ao sistema métrico atual) seria de 39.700 quilômetros. Pelos números que conhecemos hoje, o grande bibliotecário errou por míseros 308 quilômetros, para menos, mas acertou no fundamental: deu um chega pra lá na chatice e na platitude.

O nosso problema é que, apesar dele, a chatice e a platitude não desistiram. Haja boçalidade! O discurso terraplanista angaria adeptos fervorosos, que primam pela rabugice enfurecida, ressentida, invejosa, destrutiva. Quando dão curso à conversa de que a Terra é plana, não pretendem dizer a verdade, escarnecem da verdade, apenas celebram seu rito bestial de afrontar a cultura e o espírito. Sentem-se humilhados diante do saber e respondem com insultos. Tomados por ódios pestilentos, marcham como autômatos para implantar sua igualdade na estupidez e sua unidade na servidão. Aí estão eles, em toda parte, a bordo de sua indústria de calúnias, prestando serviços voluntários aos delírios conspiratórios mais estapafúrdios. Dizem que ninguém foi à Lua, que vacina chinesa faz mal à saúde, que o nazismo era de esquerda, que o novo coronavírus é comunista, que Osama bin Laden não morreu e que Barack Obama não é americano, mas um muçulmano disfarçado e protegido pela máfia de pedófilos do Partido Democrata. O descalabro e a incultura não arredam pé do poder.

E então? De onde tirar bom humor? O que fazer?

No dia 27 de outubro, agora mesmo, na semana passada, o crítico literário, professor, poeta e compositor José Miguel Wisnik deu sua resposta para essas perguntas. O que fazer? Ora, cantar. Wisnik lançou um single no YouTube em que interpreta sua nova composição: A Terra plana. No título, que fique bem redondo, a palavra “plana” entra não como adjetivo, mas como verbo. A Terra, segundo o poeta, vai planando pelo cosmo, é isso. A letra cuida de explicar: “(...) entre rastros luminosos de corpos distantes (...) a Terra plana (...) redondamente certa (...) no universo deserto, curvo e dilatado sem planos nem enganos”.

A esta altura de tantas baixezas, a poesia não vai ensinar a ninguém o que Eratóstenes já tinha calculado, mas ao menos nos ajuda a dissolver a ignorância que incinera a imaginação. Quantos incêndios, quantas cinzas, quantas mortes... Queimaram a biblioteca de Alexandria, queimaram mulheres, cientistas, livros, florestas, e ainda queimam. Mesmo assim, canta Wisnik, “a Terra simplesmente plana carregando o peso da ganância que a maltrata”. A gente escuta e também plana com esse hino leve para um tempo de chumbo. A pegada é de passeata musical. No início da canção entram vozes de crianças repetindo uma palavra de ordem: “A Terra não é plana, a Terra não é chata”. Uma percussão fina ajuda. No piano, a nota si, sozinha, marca o compasso.

E lá vai a Terra, planando, flanando, “sem um chão que não seja o seu, sem um chão que não seja o céu”. O céu é o chão. Quando a gente olha para o alto, pensa que ele é azul. Quando, lá do alto, o astronauta contemplou a nossa redondice, viu que azul era ela. Até quando? Azuis eram os olhos de João Steiner.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

No Brasil, o passado é imprevisível



Uma trilha sonora para um Brasil pandêmico


O presidente está mais para lobisomem de filme de Mazzaropi do que para Duce...

O presidente da República está em plena Revolta da Vacina. Tem ciúme da vacina. Tem ciúme de quem a tem e mais ciúme ainda de quem a terá. O presidente se descabela e se rebela. Homem do seu tempo, vive com ardor o ano de 1904. Quer atirar cadeiras nos mata-mosquitos de Oswaldo Cruz, mas o sanitarista, mau brasileiro, impatriótico, sumiu de cena antes que terminasse o ano da desgraça e não mais se voluntaria a receber desaforos.

O presidente, resoluto, impoluto e estulto, não desiste. Não abre mão da revolta. Na falta do Cruz, dispara perdigotos contra o Instituto Butantan. A vacina que se cuide. Estão pensando o quê?

A fúria presidencial, impetuosa, pomposa e prosa, é máscula, mas dança conforme a cançoneta: “Anda o povo acelerado/ com horror à palmatória/ por causa dessa lambança/ da vacina obrigatória”. Na voz do cantor Mário Pinheiro, os versos ressequidos arranham o mármore do Palácio do Planalto. Raiva da vacina. Ódio febril e varonil.

E o que virá depois? Inútil tentar descobrir. No Brasil, o passado é imprevisível (abraço, Pedro Malan).

...

Autoridades da Casa Branca visitam o palácio. A presidente do EximBank, o Banco de Exportação e Importação dos EUA, e o ministro da Economia daqui mesmo assinam um memorando que pode render empréstimos de até US$ 1 bilhão para o Brasil. Em troca, apoios auriverdes à cruzada de Washington para afugentar do mercado as tecnologias e empresas chinesas na implantação do 5G. Ao lado do presidente, o conselheiro de segurança nacional dos Estados Unidos participa da cerimônia.

Pensa o improvável leitor que essa solenidade foi anteontem, certo? Pois pensa errado. Outra vez, estamos mergulhados no interminável passado imprevisível. Ao fundo, Juca Chaves e um violãozinho se infiltram pelo ar-condicionado: “Hoje em dia o meu Brasil/ é uma país independente/ dentre as coisas que nós temos/ vê-se até dois presidentes./ (...) Um do sul, outro do norte/ que governam muito bem/ só que o norte é bem mais forte e governa o sul também (...)”.

Se fôssemos um pouco mais briosos – e irônicos –, iríamos de Assis Valente, o mais valente de todos e todas. Iríamos de Brasil Pandeiro. Celebraríamos malandramente que “o Tio Sam anda querendo conhecer a nossa batucada”. Festejaríamos desconfiados que “na Casa Branca já tocou a batucada de ioiô e iaiá”.

Depois disso, a gente brasileira abriria mão da malícia. Alguém desfilaria de bananas na cabeça – Carmem Miranda que nos acuda – e sacaria da manga do paletó, ou do decote, a carta ufanista que faz do samba o Rei Momo da cultura pátria, o símbolo brasileiro por excelência. Se não tiver samba, vai de rumba mesmo. Zé Carioca de mãos dadas a Mickey Mouse, Getúlio Vargas em bombachas. Se faltar a rumba, volte o samba-exaltação na veia, Ary Barroso na cabeça, “mulato inzoneiro” no meio da testa, hino nacional em feitio de batucada, jamais de oração. “Ai, essas fontes murmurantes”, coitado do jornalismo. Ai, esses vazamentos trepidantes. Ai, esse passado alucinante.

...

A TV Brasil exibiu com exclusividade um jogo do escrete canarinho. Consta que o narrador deu de mandar um abraço para o presidente do sul, o que deixou em estado de alerta máximo a vigilância democrática. Com toda a razão, embora não seja de hoje que as emissoras estatais botam banca e montam palanque para as “otoridade” se derramarem nos elogios recíprocos, fazendo campanha eleitoral fora de temporada. Não, não é de hoje. O cacoete da autopromoção em microfones públicos é antigo: é do passado.

O presidente prometera acabar com a EBC, a estatal que controla a TV Brasil, mas não era para acreditar. Não dava para acreditar. A facção de extrema direita que ganhou as eleições se julga a portadora da verdade e como confunde verdade com propaganda não pode viver sem propaganda. Ficaria sem verdade. Por isso jamais jogará fora um equipamento como a EBC, prontinho para ser repaginado em usina de verdades absolutas.

O que nos salva, agora, é que a facção de extrema direita que aí está não tem competência nem para ser fascista. Não é pra valer. Não tem compromisso com a coerência. Na TV Brasil, o presidente está mais para lobisomem de filmes de Mazzaropi (reprisados todos os dias) do que para Duce ou técnico de futebol. O seu fascismo é pastiche. Anauê paranauê. O fascismo termina no colo do Centrão, que quando o mercado favorece é direitão, mas não é bobo, não.

Um surdo pequeno bate o compasso. O presidente chuta a causa autoritária para escanteio e se enturma na patota do dinheiro na cueca, mais velha que a Revolta da Vacina. Entra a cuíca, que não é cueca, para entrecortar o balanço com agudos miúdos. Que samba bom. A voz macia de Blecaute estufa os alto-falantes estatais. De terno claro, camisa branca sem gravata, ginga natural, ele manda ver: “Ô, que samba bom/ ô, que coisa louca/ eu também tô aí/ tô aí, que é que há/ também tô nessa boca”.

*Jornalista, é professor da ECA-USP

quinta-feira, 21 de maio de 2020

A pandemia da ignorância


Eugênio Bucci
O remédio de que dispomos contra ela responde pelo nome de impeachment
Para falar das coisas prementes, vamos começar por um diagnóstico antigo: “Hoje, a maioria dos homens está doente, como que de uma epidemia, em função das falsas crenças a respeito do mundo, e o mal se agrava porque, por imitação, transmitem o mal uns aos outros, como carneiros”. Essas palavras foram mandadas gravar em pedras na cidade de Enoanda, na Capadócia (atual território da Turquia), por um certo Diógenes, no século 2.º desta era. Seguidor dos ensinamentos do filósofo grego Epicuro (341-270 a.C.), Diógenes fez essas e outras inscrições em nome de seu mestre, para quem a filosofia teria o poder de nos curar. Epicuro via na ignorância um terrível mal da humanidade e nisso concordava com outros sábios gregos.

A ignorância é um mal que mata. Se alguém ainda duvida, que olhe para o Brasil. Em nosso país ficaram escancarados os nexos entre a estupidez e o fracasso no combate à pandemia da covid-19. Se quisermos olhar o mesmo fato por um ângulo invertido, diremos que estão mais do que patentes os nexos entre o conhecimento e o sucesso contra a pandemia. Países onde as autoridades evitam espalhafatos e ancoram suas decisões na ciência têm se saído melhor. Nesses lugares distantes, os governos agem com o que se pode chamar de bom senso: as decisões são pautadas na razão, nas evidências científicas, e, não menos importante, a sociedade compreende o que as autoridades falam. A comunicação honesta e séria deve ser concebida como uma dimensão integrante da razão. Onde as autoridades alopram, predominam os surtos cloroquínicos, as mortes se avolumam e ninguém entende nada.

Na televisão, os sepultamentos com retroescavadeira conferem aos funerais um aspecto de manobras de terraplanagem. Loucura desgrenhada. Embora o atestado de óbito registre covid-19, não há mais como fingir que a burrice governamental não seja uma assassina pior. A ignorância causa a mortandade – ou o morticínio. As provas estão aí. Se o novo coronavírus não se vê a olho nu, as engrenagens internas da irresponsabilidade estulta do presidente da República estão mais do que expostas. Todo mundo vê, todo mundo sabe, mesmo os que não sabem o que fazem ao apoiá-lo, como “carneiros” celerados, em transes dominicais.

O presidente é um avatar do fascismo digital, com o detalhe de que, em lugar de um comando pensante em outra dimensão de si mesmo, tem as instruções de seus atos vindas de um lugar fora de si. Que ele pareça um ser fora de si é mero detalhe. O que não é detalhe é a lógica irracional (mas, ainda assim, lógica) a que ele obedece, como um personagem desses videogames em que os contendores se engalfinham pelas redes digitais. O presidente é um autômato teleguiado pela dinâmica das redes sociais. Ele e seus aduladores vivem a fantasia tecnológica de uma guerra permanente contra os direitos, a democracia, a modernidade e a civilização. E em tempos de pandemia essa brincadeira de criançonas psicóticas mata gente a uma taxa de mais de mil por dia.

Os brasileiros estão morrendo não só de covid-19, morrem porque lhes foi inoculada a doença da ignorância apatetada do presidente da República. Estamos morrendo de bolsonarite. No inferno das UTIs precárias, das UTIs inexistentes, dos cemitérios revirados do avesso pelas motoniveladoras, a nossa maior tragédia não é que Bolsonaro seja fascista (o que ele é, embora não saiba o que quer dizer esse adjetivo), a tragédia maior é que nele a idiotia militante (e fascista) assume a forma de uma política pública de genocídio a céu aberto.

Diante da vala comum a que este governo nos vai reduzindo, os juristas ajuizados (são poucos) trabalham para localizar elementos probatórios de crime de responsabilidade onde grassa a irresponsabilidade mais desarvorada e mais tanática. Trata-se de dar um jeito de montar um pedido de impeachment com começo, meio e fim que force o sujeito a sair de lá. Não é de descartar a hipótese de que, apavorado, ele renuncie. (O Centrão não será resistência, pois vai com quem dá mais e quando perceber que o governo não tem mais o que dar pulará fora.)

O impeachment ganhou a força de um imperativo moral, um dever cívico, uma questão de sobrevivência, uma agenda de saúde pública e uma mobilização para evitar a morte pública da coisa pública, das vidas brasileiras e, se você quiser, também da economia nacional. Esse é o compromisso inadiável dos que acordaram para a urgência de construir uma unidade antifascista (uma frente) para estancar o genocídio. O remédio de que dispomos contra a epidemia da ignorância responde pelo nome de impeachment.

O antídoto é mais simples do que o tetrafármaco prescrito por Epicuro: “Não há que temer a morte, não há que temer os deuses, a dor se pode suportar, a felicidade se pode alcançar”. O impeachment é mais fácil de usar do que a ataraxia (imperturbabilidade da alma). Impeachment na veia. Aviemos logo a receita.

P.S. – Este artigo foi escrito em memória do filósofo José Américo Motta Pessanha (1932-1993), que tanto ensinou sobre Epicuro e sobre liberdade.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

O presidente da República é a cereja podre do bolo infecto


A indústria ilegal de ‘fake news’ por trás dos atos pró-ditadura

Motor do bolsonarismo, ou essa indústria vem à luz, ou a treva cobrirá o resto
Na terça-feira o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de inquérito para investigar as manifestações pró-ditadura militar realizadas no domingo. É preciso investigar.

É preciso investigar o horror. Domingo foi um dia de horror. Usando a Bandeira Nacional como capa de Zorro por cima de trajes que imitam fardas militares de camuflagem, os circunstantes exigiram medidas exótico-totalitárias, como o fechamento do Congresso e do próprio STF. Contra o horror, o pedido de investigação foi protocolado na segunda-feira, dia 20, pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, que cumpriu seu dever funcional. O Brasil precisa identificar a indústria que está por trás desse pesadelo que vai virando realidade.

Todos sabemos que o presidente da República é a cereja podre do bolo infecto. Vestindo uma camisa vermelho-chavista, ele compareceu ao ato em Brasília e discursou diante de faixas que pediam “intervenção militar já”. Ao estrelar a matinê lúgubre, o governante antigoverno segue sua tournê como animador de auditórios macabros e de macabros de auditório.

Não obstante, o próprio Bolsonaro não figura como alvo do inquérito. Isso significa que, ao menos por agora, não será oficialmente reconhecido o que já é ululantemente público: que o chefe de Estado patrocina, com seus garganteios perdigotários, a histeria golpista da extrema direita brasileira. Deixemos isso de lado – por enquanto. Não há de ser nada.

O que mais conta, neste momento, não é investigar o óbvio comprometimento presidencial, mas descobrir quem atua, e como, no backstage das vivandeiras machistas. O decisivo, agora, é saber com que dinheiro, por meio de que engrenagens de comunicação e com que logística esse movimento se tornou uma empresa bem administrada. Quem financia esse circo que, enquanto bate palmas para aquele tal que deu de declarar “eu sou, realmente, a Constituição”, trabalha para implodir a Constituição federal? Quem gerencia a estratégia? Onde estão os cérebros por detrás dos descerebrados? Estão fora do Brasil?

Se não quiser virar geleia, a República precisa decifrar o enigma. Para piorar as coisas, pouca gente ajuda. O presidente da República e as milícias, num coro afinadíssimo, sabotam as políticas sanitárias, chantageando o povo pela reabertura de seus comércios, e ninguém faz nada. As oposições entraram em quarentena moral. É inacreditável. A passividade e a desarticulação das oposições estarrecem. É nesse deserto desolador que a iniciativa de Augusto Aras desponta como o único gesto sério contra o golpismo que bate bumbo. Viva Augusto Aras. Fora ele, só o que temos para protestar contra o anacrônico fascismo vintage são as frases balbuciadas do neoestadista Rodrigo Maia e – ah, sim – a decisão tomada pelo ministro Alexandre de Moraes.

Os três pelo menos agiram. Perceberam que não adianta pedir “paciência histórica” e esperar que as instituições tomem as providências. Ora, as instituições são vertebradas por pessoas e, se essas pessoas não agirem com coragem, não haverá como barrar o arbítrio. As pessoas que vertebram as instituições têm de se mexer e, para isso, precisam do clamor organizado das oposições. Ou é isso, ou os fascistinhas de WhatsApp vão levar a melhor.

Os fascistinhas de WhatsApp só não levarão a melhor se os crimes sobre os quais se apoiam forem desmascarados. É aí que entram as fake news. Se quisermos de fato desvendar a máquina do golpismo, teremos de entender o nexo entre a indústria clandestina das fake news e o bolsonarismo. Não basta seguir o dinheiro. É preciso seguir as fake news.

Em sua decisão, Alexandre de Moraes apontou o rumo. Determinou que se apurem a “existência de organizações e esquemas de financiamento de manifestações contra a democracia e a divulgação em massa de mensagens atentatórias ao regime republicano, bem como as suas formas de gerenciamento, liderança, organização e propagação que visam lesar ou expor a perigo de lesão os direitos fundamentais, a independência dos Poderes instituídos e ao estado democrático de direito, trazendo como consequência o nefasto manto do arbítrio e da ditadura”. Nada mais justo.

Agora, finalmente, as fake news entraram na mira certa. Elas são produto de uma indústria organizada, profissionalizada, tecnologicamente bem equipada, que opera por meio de negócios ilícitos e de relações de trabalho clandestinas. Essa indústria, que é criminosa na forma e no conteúdo – como são, não por acaso, as próprias fake news –, turbina a propaganda de ódio e promove a fúria inconstitucional, antidemocrática e antirrepublicana. Essa indústria politiza o debate sobre medicamentos, bombardeia a credibilidade da imprensa, calunia as instituições, desacredita a ciência, enxovalha a universidade, demoniza a arte e fomenta o fanatismo. Ela convence os malucos – alguns dos quais em altos cargos públicos – de que incêndios na Amazônia não existem e de que o vírus é fabricado em aulas de marxismo cultural. Essa indústria milionária é o motor do bolsonarismo. Ou ela vem à luz, ou a treva cobrirá o resto.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

É preciso chamar os atos criminosos pelo nome justo


Se não nomear as atitudes do presidente, a imprensa vai desinformar o público

Eugênio Bucci*
Convocação indevida de ato público escancarou o prenúncio de uma crise institucional
Está no Gênesis: a incumbência de dar nome aos seres vivos foi transmitida ao homem por ninguém menos que Deus. De lá para cá, a briga não parou mais. Definir como se deve chamar cada uma das coisas deste mundo virou uma disputa interminável. Cientistas concorrem para saber qual deles vai designar a nova estrela ou o novo vírus. Locutores esportivos competem para dar o melhor apelido ao jogador de futebol que brilha na temporada. Marqueteiros duelam nas licitações para ganhar o direito de “criar” as marcas publicitárias dos programas de governo (no nosso tempo, toda política pública tem nome de sabonete, ou quase isso).

No meio dos turbilhões vernaculares para batizar isso e aquilo, o repórter é apenas um a mais – mas esse um a mais não pode faltar. Não se espera dele que saia por aí inventando os substantivos da língua corrente, mas o repórter – como, de resto, toda a imprensa – tem o dever de chamar cada coisa e cada personagem pelo nome devido. Se não fizer isso, vai desinformar a sociedade. Se quiser mesmo noticiar os acontecimentos com clareza e com objetividade, o jornalismo precisa saber nomeá-los.

Um exemplo? Está na mão. O que aconteceria se, em lugar da palavra “motim”, os jornais, as rádios, as emissoras de TV e os sites noticiosos na internet resolvessem usar a palavra “greve” para se referir ao assalto contra a ordem pública que vem sendo perpetrado por policiais cearenses? Aquilo não é uma “greve”. É um motim. Se os jornais começassem a chamar aquele levante armado de “greve” – palavra que aparece na legislação democrática como um direito do trabalhador – desorientariam os leitores, ouvintes e telespectadores. Estes não entenderiam nada de nada e poderiam até achar que os criminosos amotinados, com o rosto coberto por balaclavas, atirando em pessoas desarmadas, não passam de assalariados explorados exercendo seu direito de não trabalhar. Em resumo, se chamasse de “greve” o motim do Ceará, a imprensa prestaria um desserviço à sociedade e faria propaganda, ainda que involuntária, a favor dos amotinados.

Simples, não? Na verdade, não é tão simples assim. Quando se trata de cobrir os atos do atual presidente da República, a tarefa de dar nome às coisas se complica um pouco. Nesse ponto, temos tido dificuldades. Há dois dias o chefe de governo distribuiu pessoalmente, por meio de seu telefone celular, convocações para um ato público que pretende ameaçar os representantes dos Poderes Legislativo e Judiciário.

A intimidação virulenta já começou. Está na rua. Num vídeo divulgado pelos organizadores do ato, uma música dos Titãs, O Pulso, serve de plataforma para a agressão das autoridades. Aproveitando-se da letra, que arrola um inventário copioso de doenças, o vídeo exibe uma sucessão de fotografias de deputados, senadores, governadores e ministros do Supremo, associando cada rosto a uma enfermidade. Em termos rudimentares e imorais, a peça “xinga” as autoridades de “doentes”. Em seguida, enuncia a mensagem de que para resolver os problemas do Brasil é preciso extirpar do País todos os focos de “moléstias”. Não há dúvida: o ato convocado pelo presidente da República é, sob todos os ângulos, uma investida odiosa e golpista contra as instituições democráticas e as pessoas que legitimamente as representam. A intenção dos organizadores é desacreditar o Estado e pavimentar o caminho espúrio para que o presidente avance na direção de uma ditadura.

O uso da canção dos Titãs foi indevido. Dois dos três autores da música, Arnaldo Antunes e Tony Bellotto, repudiaram publicamente o uso que a extrema direita fez dela (o terceiro autor, Marcelo Fromer, está morto). O uso de símbolos militares também é indevido. Há oficiais protestando contra a pregação de que as Forças Armadas devem tomar o poder dos políticos. Tudo aí é indevido.

A convocação – indevida – desse ato público escancarou o prenúncio de uma crise institucional. É claro que todo mundo tem o direito de ir às ruas para gritar o que quiser. As pessoas têm o direito até de pedir por uma ditadura militar. Birutice faz parte. Agora, quanto ao presidente da República, que jurou solenemente respeitar, manter e cumprir a Constituição, esse aí não tem o direito de se engajar a plenos pulmões no fanatismo golpista. A lei obriga-o a defender a ordem constitucional. Se não observar a obrigação que lhe cabe, o mandatário ficará exposto a um processo que lhe pode custar o cargo.

O curioso é que o presidente, pronunciando seus impropérios inconstitucionais, vai se fingindo de “normal”. Força os limites, dia após dia. Quebra o decoro, faz apologia de torturadores, chama o povo para atacar o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal e age como um chefe de motim. Ele se situa fora do campo democrático, atenta contra os símbolos mais caros da democracia – isso é um fato – e setores da imprensa ainda parecem acreditar que tudo está “normal”.

As redações precisam refletir. Dar o nome justo a cada coisa – e a cada agente público – vai se tornando urgente e indispensável.

* Eugênio Bucci é jornalista e professor da ECA-USP

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Mentiras, mais mentiras e rock’n roll


O poder que se instalou na Esplanada sabe que seu sucesso depende do fracasso da verdade

Eugênio Bucci


Ao longo desta semana, como em todas as semanas anteriores, o governo pôs no ar o seu show de mentiras escalafobéticas para, de novo, sucatear o estatuto da verdade, blasfemar contra a História, destruir o bom senso, promover a ignorância, banalizar o desrespeito aos fatos e desacreditar a imprensa. O roteiro é sempre igual. Na superfície, no jogo das aparências, entram em cena as mentiras canastronas, meio carnavalescas, que servem de factoides para bagunçar o debate público. Aí, as inverdades parecem meros acessos de loucura inconsequente e ridícula, mas são mais do que isso: são uma cortina de fumaça para uma operação subterrânea de minar as bases da cultura democrática, que já está muito debilitada no Brasil.

Nas profundas, no esgoto do bolsonarismo, o que existe é uma densa e betuminosa mentira essencial que instila o ódio contra todos os que podem verificar a verdade dos fatos, sejam os cientistas que detectam incêndio na floresta, sejam os professores que, dentro das universidades, ousam pensar criticamente, sejam os jornalistas, principalmente os jornalistas, cuja profissão consiste em investigar os acontecimentos e desmontar as mentiras oficiais.

O autoritarismo que se vai estruturando entre nós pode ser definido como o império da mentira e toda semana, uma depois da outra, temos as provas desse fato atroz e trucidante. Desta vez o protagonista da velha e repetida encenação, o mestre de cerimônias do show horripilante de mentiras, foi o novo presidente da Funarte, o maestro Dante Mantovani. Na superfície barulhenta, ele enunciou as mentiras canastronas. Nos subterrâneos da propaganda, pôs em marcha a mentira essencial, declarando uma vez mais a guerra de extermínio contra os verificadores da verdade factual.

Há dois ou três dias os brasileiros ficaram sabendo que Mantovani costuma declarar estultices em suas redes sociais. Exemplo: “O rock ativa a droga que ativa o sexo que ativa a indústria do aborto”. O que pode haver de mais destrambelhado? Ao mesmo tempo, o que pode haver de mais afinado com o estilo bolsonarista de bater boca? A sanha moralista é tão desmesurada que a gente tem a sensação de que, na cabeça do presidente da Funarte, os efeitos satânicos do rock atravessam o passado e o futuro, exatamente como o demo que o faz arregalar os olhos. O sujeito parece crer que, já na era de Hamurabi, todas as técnicas de interrupção da gravidez foram projetadas por essa gente cabeluda que começou a tanger a guitarra elétrica somente em meados do século 20.

Ainda no capítulo das alucinações lisérgico-reacionárias, dessas que o governo põe em circulação para desorientar o público e os pauteiros dos jornais, o maestro profissional repaginado em ordenador de despesas deu de confundir Lennon & McCartney com Lenin & Marx e assegurou que “na esfera da música popular, vieram os Beatles, para combater o capitalismo e implantar a maravilhosa sociedade comunista.” Lucy, in the sky, manda lembranças.

Mas, atenção, esse tipo de psicodélica macabra que explode na superfície é apenas metade da invencionice sistemática operada pelo bolsonarismo. A outra metade, menos espalhafatosa, é mais insidiosa. A outra metade se dissemina pelos porões imaginários dos ativistas que morrem de saudade da ditadura e toma por alvo não as bandas de heavy metal ou as canções melosas dos garotos de Liverpool, mas os institutos democráticos incumbidos de apurar os fatos, como os cientistas do Inpe e os repórteres dos jornais independentes. Por baixo das mentiras canastronas da superfície alastra-se a mentira essencial e betuminosa do poder, escalada para revogar a História e tirar do horizonte qualquer forma de registro da realidade. Aí está a vertente mais ameaçadora pela qual o governo golpeia a sociedade.

Mantovani espelha-se diligentemente em seus superiores, que já proclamaram que o nazismo era de esquerda, e afirma que o fascismo também é de esquerda. Para quê? Para reescrever a História, invertendo seus sinais. Quanto apregoa que as fake news não passam de uma invenção dos globalistas, interessados em ampliar o poder da imprensa no mundo inteiro, quer achincalhar os jornalistas profissionais. E isso funciona. De tanto insistir no ponto, os bolsonaristas estão conseguindo enfraquecer os jornais.

O poder que se instalou na Esplanada sabe que seu sucesso depende do fracasso da verdade factual. É um poder viciado nessa droga pesada chamada mentira. Seu veneno mais letal não é a intolerância, não é o seu jeito miliciano de ser, não é a incompetência crônica no trato com a política. O seu pior veneno é sua mentira essencial, que prescreve censura e violência para resolver os problemas da democracia. O presidente da República, em pessoa, já vem ensaiando investidas cada vez mais concretas contra a liberdade de expressão. E não vai parar por aí. Vai aumentar a dose. Para ele, é questão de vida ou morte. Se a mentira vencer, ele fica. Se sua máscara cair, ele cai junto, pois sua identidade se transfundiu em sua máscara.

Enganam-se os liberais de boa vontade que dizem não haver lógica nos discursos alucinatórios das autoridades federais, obcecadas pelas drogas, pelo sexo, pelo rock abortivo e pelos comunistas infiltrados no show business. Há mais do que delírio e despreparo nos despautérios do governo: há a coerência da mentira e da fraude. Isso quer dizer que existe, sim, um nexo de consequência entre a teoria do rock abortogênico e a causa maior de acabar com a imprensa.

O governo pode bater cabeça feito um lobisomem rolando a ribanceira, mas sabe muito bem o que quer destroçar. Sabe que um país onde vigora a liberdade de imprensa está mais protegido contra a mentira. Sabe que não basta levar um ou outro jornal à falência. Sabe que precisa ter a seus pés um povo incapaz de buscar a diferença entre o que é verdade e o que é mentira. É nessa trilha que o governo avança.

O poder que se instalou na Esplanada sabe que seu sucesso depende do fracasso da verdade

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Imprensa, objetividade e militância


Eugênio Bucci

A objetividade na imprensa é possível? A pergunta é velha, mas de uns dois ou três anos para cá ganhou notas de um nervosismo inédito – ou de cinismo reles. A interrogação está na ordem do dia. É sensato esperar que uma reportagem nos dê uma cobertura fiel, veraz, precisa, justa, desapaixonada sobre o que faz e diz o presidente da República? Pode-se esperar do texto elaborado por uma redação profissional a correspondência confiável entre as palavras e os fatos?

O tema nunca foi simples. Agora, desde que líderes falastrões e autoritários se viram alçados ao poder em países democráticos, ficou mais complicado. Como reportar objetivamente os acontecimentos da política quando o mandatário ofende a objetividade com suas palavras infundadas? Como reportar os discursos oficiais que induzem a erro? Quando o governante não é zeloso na observância dos fatos, ou mesmo quando ele mente, como registrar sua fala com isenção, mas sem ingenuidade? Como a imprensa pode adotar uma postura que seja ao mesmo tempo serena e vigilante?

Para quem não tem familiaridade com os dilemas das empresas jornalísticas, essas indagações podem soar tolas ou mesmo vazias, mas, acredite, são indagações mortais. Se um jornal é dócil e solícito a um governante áspero e insensível, vai passar por sabujo e se desmoralizar. Mas se um jornal deixa de registrar o que se passa para enxovalhar a autoridade, sem senso de proporção, vai se desviar para o proselitismo e perderá credibilidade. Qual a justa medida? Onde está o critério?

As dúvidas estão na mesa. A imprensa passa por ameaças que jogam sombras sobre o futuro. Enquanto perde mercado e anunciantes para as plataformas sociais, enquanto perde sustentabilidade econômica, é alvo de bombardeios reiterados e pesados de governantes que não têm apreço pela verdade factual. Isso em vários países. Economicamente fragilizada, a imprensa se vê politicamente sitiada. E aí? Como manter a objetividade diante de poderes que são ostensivamente contrários ao trabalho dos jornalistas?

Não por acaso, perguntas como essas voltam à pauta em algumas das melhores redações do mundo. Aqui, no Brasil, há pouco mais de um mês, no dia 31 de agosto, editorial do Estado com o título de Desafio jornalístico enfrentou o mal-estar e se perguntou: “Como ser objetivo diante de reiteradas declarações presidenciais mentirosas, cínicas ou que se prestam a confundir?”. Se o presidente proclama teses fraudulentas, como proceder? As respostas não são automáticas, é claro, mas o editorial soube extrair do impasse uma recomendação sóbria: “Se o veículo que reproduz a declaração presidencial sabe se tratar de uma falsidade ou de uma tentativa de manipulação, deveria deixar esse fato explícito para o leitor”.

Desde agosto, quando o editorial foi publicado, a coisa só piorou. O “desafio jornalístico”, na verdade, é um desafio histórico de grande envergadura. A liberdade de informar, de se expressar e de opinar convive com restrições que se imaginavam extintas. Nos nossos dias, a manutenção dessa instituição chamada imprensa, que só foi inventada para fiscalizar o poder e para fazer soar o alarme quando há desvios, precisa ser defendida. Demanda cuidados.

No meio da barulheira de certas redes sociais mais extremadas, que se comprazem em xingar de “comunistas” alguns dos maiores órgãos de imprensa do Brasil, a pressão cresce. As massas virtuais deslocaram-se para bolsões de fanatismo onde os fatos não têm valor algum. Nos polos mais à direita, os que levantam um senão contra o líder populista ultraconservador são hostilizados. Veículos de comunicação temem perder audiências. Ser crítico do poder não sai de graça. As multidões raivosas procuram uma mídia que se entregue ao sensacionalismo fascistizante e adote preconceitos no lugar da verdade factual. Na internet, nas bancas de revistas e no rádio pipocam os comunicadores do ódio que pegam carona na histeria autoritária na tentativa de arregimentar plateias e faturar na publicidade. Uns se deram mal, outros se dão bem. Com seus flancos abertos, os órgãos de imprensa mais sérios sentem na carne o sinal destes tempos de sombra: ser objetivo tornou-se um negócio de risco.

Isso mesmo: negócio de risco. Ser objetivo requer ser crítico e ser crítico significa dissentir. Ser objetivo, nesta hora, exige independência de pensamento para compreender a natureza das forças que avançam e recuam nos fluxos e contrafluxos da esfera pública. A técnica jornalística sozinha não resolverá o impasse. Ao lado dela, o pensamento precisa elaborar o critério da cobertura. É nessa medida que a crise das redações, hoje, mais do que uma crise econômica ou tecnológica é uma crise de pensamento. Para cobrir bem é preciso pensar bem – com independência.

A objetividade, embora exija equilíbrio e ponderação, não é um ponto equidistante entre o elogio da ditadura (uma mentira essencial e bruta) e o cultivo da democracia. Se pretendemos primar pela objetividade, é preciso registrar, objetivamente, o fato singelo de que as mentalidades agora instaladas no poder promovem medidas censórias e preconceituosas, deixando claro que não têm compromisso com o campo democrático. Investigar e reportar esse fato não é fazer militância partidária. Ao contrário, é uma exigência da objetividade. Quem não pertence ao campo democrático não entende por que a imprensa precisa existir – e por isso lhe dá combate sem trégua. Logo, a imprensa objetiva deve informar o público sobre as razões – objetivas e subjetivas – pelas quais vem sofrendo tantos ataques do poder. Fechar os olhos para esse fato, isso, sim, é adotar uma postura militante – a paradoxal militância por passividade.

Se na barulheira das redes sociais ultraconservadoras a democracia é causa minoritária, o papel da imprensa – que tem o dever da objetividade – é navegar na contramão. Nem que seja por instinto de sobrevivência.

Liberdade de informar e de opinar convive com restrições que se imaginavam extintas.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Falas do presidente não são meras diatribes de moleque, elas são inconstitucionais

Abjuração

Eugênio Bucci

No dia primeiro de janeiro de 2019, em sessão solene do Congresso Nacional, o presidente da República enunciou de própria voz o compromisso sem o qual não poderia assumir nem exercer o cargo: “Prometo manter, defender e cumprir a Constituição”. O presidente está sob juramento. Apesar disso, dia sim, outro também, grita palavras insultuosas para atentar contra a essência da Constituição que prometeu manter, defender e cumprir. O presidente é uma abjuração ambulante e muita gente finge que nada existe de anormal nesse quadro.

Em ostensivo repúdio ao compromisso que firmou com a Nação e com a ordem jurídica, diante dos olhos de todos nós e de representantes de outros países, o cidadão que está no mais alto posto da República não apenas não defende os valores essenciais da Lei Maior, como não se furta a agredi-la rotineiramente. Muita gente releva os desaforos presidenciais como se não passassem de distúrbios psíquicos de uma personalidade acometida por surtos de incontinência verbal, mas o fato é que o Brasil vem sendo governado por alguém que vive de metralhar declarações infamantes contra o que há de mais precioso e pétreo na Carta de 1988.

Não, não se trata de uma opinião. Isso é fato, não uma versão valorativa e impressionista. O presidente da República não cumpre o juramento que fez à Nação. A pergunta é: isso pode? Até quando ou até que limite uma democracia pode conviver com algo assim? Até onde a democracia resistirá?

Antes de responder, não há de ser ocioso relembrar o óbvio. Como existe muita gente, muita gente mesmo, simulando ver normalidade quando olha para a avalanche de absurdos que conspiram contra as garantias fundamentais, é legítimo e necessário esclarecer os fatos e dar os nomes devidos ao que se passa.

O primeiro ponto é recordar que há um consenso sobre o qual se assenta a Constituição de 1988. Gastamos mais tempo falando das imperfeições da Carta, que são numerosas. Reclamamos a toda hora das contradições e dos anacronismos

que existem nela e, por descuido ou apressamento, não valorizamos devidamente que, por baixo de incongruências e asperezas, existe, sim, um consenso valioso e insubstituível que percorre a integralidade do texto. Esse consenso é a vontade nacional de erigir um Estado alicerçado na cidadania, na dignidade da pessoa humana, no pluralismo político, na erradicação da pobreza e dos preconceitos de origem, raça, sexo, cor ou idade, na prevalência dos direitos humanos, na defesa da paz e na cooperação entre os povos para o progresso da humanidade.

Em resumo, a Constituição de 1988 é produto de um consenso que se corporifica na recusa unânime e categórica à censura, à tortura e à ditadura. É claro que muito se pode mudar na Constituição que aí está. Só o que não se pode mudar é seu fundamento essencial (seu espírito primordial). A volta da tortura, da ditadura, da censura, assim como a volta da escravidão, é inaceitável. A Carta de 1988 encarna e dá consequências jurídicas e políticas ao repúdio ao arbítrio e à violência, em favor dos direitos humanos, da liberdade e da democracia.

O nosso problema é que sempre que acha uma brecha, e mesmo quando não acha, o presidente sai por aí aos berros elogiando torturadores notórios (chamou a um deles de “herói nacional”), estimulando a censura a filmes e obras de arte, investindo contra órgãos de imprensa, xingando empresas de comunicação, intimidando jornalistas, nominalmente, e distribuindo agressões no plano das relações internacionais (dia desses enalteceu a tortura e a morte do brigadeiro Alberto Bachelet pela ditadura chilena, em 1973, alegando que o golpe de Pinochet teria livrado o Chile de se converter “numa Cuba”).

É inacreditável como tantos ainda não emitem sinais de incômodo. Para esses, tudo se resume ao estilo falastrão de uma autoridade mal-educada, como se as bravatas fossem um “mal menor” num país que “precisa de reformas”. É realmente inacreditável e alarmante. Temos de parar com tergiversações. Essas falas do presidente da República não são meras diatribes de moleque. Elas são, numa palavra, inconstitucionais. Não podem ser aceitas ou toleradas, pois ferem a normalidade democrática.

Tentemos pensar por analogias. O que aconteceria na Alemanha se de repente Angela Merkel desse para glorificar a memória de Hitler? Como a sociedade civil alemã reagiria se a chanceler declarasse que o nazismo serviu para evitar que os comunistas tomassem o poder? Ela certamente cairia. Na Alemanha o repúdio ao nazismo e ao holocausto é a origem essencial da democracia. Por isso, em seus pronunciamentos Angela Merkel defende a liberdade e os direitos humanos. No Brasil a origem essencial da democracia está no repúdio à ditadura militar, à censura e à tortura como prática de Estado. Acontecer que o presidente brasileiro, em vez de manter e defender a democracia, não se cansa de fazer apologia de torturadores e ditadores. Até quando vamos fazer de conta que isso é normal?

Muita gente especula se há cálculo nos impropérios inconstitucionais do presidente: ele faz o que faz (fala o que fala) por despreparo ou por estratégia? A verdade é que pouco importa, embora não existam indícios confiáveis de que o personagem em tela disponha de habilidades de enxadrista político. O que importa é que, de fato, o mandatário segue à risca uma cartilha belicosa, xenófoba, homofóbica, militarista, antipolítica, anti-intelectual, anticientífica e dada a exacerbações de fundamentalismos religiosos moralistas. Essa cartilha, que é também hipernacionalista, embora preste vassalagem a uma única potência estrangeira, preconiza a transformação do Estado numa delegacia de polícia política.

Ora, o nome dessa cartilha é fascismo. De propósito ou por instinto, não faz diferença, o discurso violento que está no poder ataca a democracia porque prefere outro modelo: um tipo amesquinhado de fascismo. Mesmo assim, muita gente acredita que está tudo direito.

Falas do presidente não são meras diatribes de moleque, elas são inconstitucionais

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Por que repórteres não são receptadores

Notícias que abalam o poder resultam de inconfidência, traição, desvio funcional...
Eugênio Bucci

No dia 31 de julho, uma quarta-feira, o presidente Jair Bolsonaro, comparou a atividade de repórter ao crime de receptação previsto no Código Penal: “Não podemos concordar que o jornalista, entre aspas, pegue um material criminoso e bote pra fora. É igual ao cara que é acusado do crime de receptação. Não posso pegar um carro que é roubado e vender para você”.

O pretexto do comentário presidencial foi a série de reportagens sobre a conduta de membros do Ministério Público Federal, no âmbito da Operação Lava Jato em Curitiba, que vem revelando indícios de parcialidade e falta de transparência. O caso é tão grave que há dois dias o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) decidiu reabrir um processo de apuração contra o coordenador da força-tarefa em Curitiba, Deltan Dallagnol.

Como se sabe, as reportagens lideradas pela equipe do Intercept – algumas das quais publicadas em primeira mão em órgãos tradicionais da imprensa brasileira, como Folha de S.Paulo e Veja, em parceria com o site – são baseadas em conversas mantidas via aplicativo de celular pelas autoridades. É isso que deixa o presidente de cabelo em pé. Para ele, a obtenção dessas conversas pelos jornalistas é “receptação”. Está errado.

Sabemos todos que os diálogos eram guardados em segredo pelos circunstantes. Quem os capturou pode ter cometido crime (artigo 154-A do Código Penal), mas o caso ainda vai a julgamento. O que o presidente parece não entender – e muitos o acompanham nessa incompreensão grave – é que, mesmo tendo havido crime na captura do material, não há nem houve crime no trabalho dos jornalistas que, de posse dele, checaram sua veracidade, comprovaram seu notório interesse público e decidiram publicá-lo.

É claro que jornalistas não se podem associar de forma nenhuma à prática de crime, assim como não podem financiar quem pratica ilícitos para buscar qualquer tipo de informação. Mas podem, sim, receber informações que, na origem, foram recolhidas de forma inadequada, irregular ou criminosa. Mais ainda: se a informação for veraz e de interesse público, os profissionais da imprensa têm não apenas o direito, mas o dever (ético, não legal) de publicá-la.

Todas – absolutamente todas – as notícias que abalam o poder resultam de alguma espécie de inconfidência, traição, desvio funcional ou ato falho. Sempre há alguém que contou ou entregou o que não deveria contar ou entregar. Em 2016 a repórter Débora Bergamasco teve acesso aos termos iniciais da delação premiada do então senador Delcídio do Amaral. Sua matéria foi capa da revista Isto é. O que fez o governo da época? Respondeu às acusações de Delcídio? Não, reclamou do “vazamento”. A pressão sobre a jornalista foi massacrante. Mas esse é apenas mais um exemplo entre milhares – é sempre assim.

Todas as notícias relevantes – sem exceção – brotam de uma falha no sistema que opera o poder: alguém furta um documento e o passa adiante; alguém bebe mais do que devia e comenta o que não devia; um ministro se envaidece do que sabe e quer dar uma de importante na frente de repórteres. Uma das vantagens das democracias sobre as ditaduras está nas garantias que as primeiras dão aos jornalistas, que podem publicar o que “vazou” e não poderia ter “vazado”. As democracias só são eficientes em controlar o poder porque o poder falha e, falhando, deixa ver onde os abusos foram cometidos. Logo, se a imprensa não puder publicar informações de origem suspeita, a imprensa não poderá mais fiscalizar o poder. A imprensa terá morrido.

Tudo isso é óbvio? Sim, é obvio até demais. Não obstante, temos de repetir o óbvio, temos de esmiuçá-lo, para que a incompreensão do presidente Jair Bolsonaro e de outros brasileiros não venha a enfraquecer ainda mais a nossa cultura democrática. Dizer que reportagem equivale à receptação criminosa é o mesmo que dizer que a informação de interesse público é passível de ser propriedade privada de alguém. Tratase de um absurdo completo.

A hermenêutica presidencial tem como ponto de partida uma constatação que até tem sentido: se alguém se apropria ilegalmente do conteúdo do celular alheio (um hacker, hipoteticamente), esse alguém só pode ser um ladrão. Até aí, o raciocínio procede. O problema surge no passo seguinte. Segundo disse o presidente, se esse alguém (o hacker ladrão) repassa os dados a outra pessoa, essa outra pessoa só pode ser um receptador. É aqui que a lógica vai para o espaço.

O crime de receptação é previsto no artigo 180 do Código Penal: “Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime”. Acontece que a informação de interesse público (note-se bem: não se trata de qualquer informação, como a informação comercial, mas de um tipo específico de informação, a que se reveste de claro interesse público) não é uma “coisa” que seja “patrimônio” de um particular. Ao contrário: por ser de interesse público, essa informação pertence, por direito, ao público. Se um particular a esconde num celular de uso privado, esse particular é que está subtraindo do público o que é do público.

Em outras palavras, quem subtrai do público a informação de interesse público impede que o público tome conhecimento do que é seu direito saber. Simples e tautológico assim. O jornalista que dá ao público a informação de interesse público que estava indevidamente escondida do público não rouba nada de ninguém, apenas devolve ao público o que era do público por direito.

É por isso que os governantes democráticos não intimidam jornalistas. A ordem democrática não quer controlar os jornalistas porque sabe que sem eles os abusos do poder é que podem sair de controle. Jornalistas que noticiam informações de interesse público não praticam crime, mas cumprem seu dever. Quem esconde essas informações do público, esses, sim, podem estar agindo de forma criminosa. É preciso ficar de olho e não se deixar confundir.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O poder contra a liberdade

Eugênio Bucci
Jornalistas têm, sim, o direito de receber e publicar informações obtidas ilegalmente
Os ataques do presidente da República a reportagens que apontam suspeitas de conduta indevida em trocas de mensagens entre membros do Ministério Público Federal e representantes do Judiciário por ocasião do julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostram um sinal – mais um – da mentalidade antidemocrática no poder. No sábado, o chefe de Estado afirmou que o jornalista Glenn Greenwald – o principal repórter na série de revelações que flagram os protagonistas da condenação do presidente Lula, no bojo da Operação Lava Jato, em conversas, no mínimo, impróprias – poderia “pegara uma cana aqui, no Brasil”. A frase é um despautério. É também esdrúxula, estapafúrdia e extravagante, pois o presidente, que não exerce cargo em chefatura de polícia nem enverga toga, não tem incumbência nem atribuição para tomar decisões judiciais.

Está em marcha mais uma saraivada de ataques – infundados – à imprensa, à liberdade de expressão e ao direito à informação, de que todo cidadão é titular. Os fundamentos da democracia correm perigo. Fiquemos atentos.

As reportagens que enfureceram o Planalto – pois o então juiz da Lava Jato, Sergio Moro, é hoje ministro da Justiça, representando o papel de lastro moral do Planalto – começaram a ser publicadas pelo Intercept, site jornalístico de Greenwald. Os diálogos reproduzidos apontaram indícios de direcionamento indevido do Ministério Público pelo Poder Judiciário e falta de imparcialidade do juiz. Em seguida, em parcerias com a redação do Intercept, outros órgãos de imprensa, como a revista Veja e o jornal Folha de S.Paulo, entraram na história e veicularam novas notícias. Todas bombásticas e péssimas para o ministro da Justiça.

A reação inicial dos que tiveram seus diálogos vazados reforçou a impressão geral de que o material é autêntico. As autoridades flagradas não disseram que os registros são falsos, apenas levantaram a hipótese de que alguns trechos poderiam ter sido “editados”. Enquanto isso, repórteres de outras redações confirmavam que reconheciam nas transcrições mensagens que eles, repórteres, efetivamente trocaram com as autoridades implicadas no escândalo. Mais provas se somaram para atestar a veracidade das reportagens.

O governo, acuado, contra-atacou com uma operação policial espetaculosa – na linha de muitas daquelas que marcaram a Operação Lava Jato – para prender os hackers que teriam abastecido as reportagens. A intenção é jogar no descrédito as revelações feitas até aqui pelos repórteres e que, se confirmadas, apontam vícios de partidarismo na sentença que condenou o ex-presidente Lula.

Ao alardear que haveria um hacker no meio do caminho do Intercept, o governo pretende desacreditar o trabalho jornalístico realizado até agora. Cabem aqui duas perguntas. A primeira: se ficar provado que o material em que se baseiam as reportagens foi obtido de modo ilegal, as revelações das reportagens deverão ser descartadas pela opinião pública? A segunda, de escopo mais geral: a origem ilícita de uma informação invalida o conteúdo de uma apuração jornalística?

A resposta é não. Não para a primeira pergunta e não para a segunda. O jornalismo se abastece das fissuras que se abrem no poder. Recolhe as notícias das inconfidências, dos lapsos, dos atos falhos, das traições e de falhas de segurança nos sistemas que guardam sigilos de operações confidenciais. Uma notícia é, sempre, a publicação de um dado que deveria ter ficado escondido em algum lugar (do poder). E é só assim que a imprensa funciona como um serviço público de fiscalização do poder na democracia. Funciona porque alguém no poder erra ou se trai – e porque a democracia garante aos jornalistas o direito publicar o que obtêm de boa-fé e que seja de interesse público. Portanto, uma informação de origem suspeita pode ter valor jornalístico.

Jornalistas, por evidente, não dispõem de autorização para praticar crimes: não podem contratar arapongas para ouvir telefonemas alheios, nem podem violar as fronteiras da privacidade de quem quer que seja. Mas jornalistas têm, sim, licença para receber informações que, lá atrás, podem ter sido obtidas ilegalmente. Não é só. Depois de avaliar que essas são de interesse público e depois de checar a veracidade dos relatos, jornalistas têm, mais que o direito, o dever de publicá-las – para o bem do Estado de Direito. A cultura política no Brasil tem enorme dificuldade de entender essa questão, mas é assim que é.

Em 2009 este jornal deu um furo de reportagem noticiando que as provas do Enem daquele ano tinham vazado. A revelação só foi possível porque a repórter Renata Cafardo viu as questões roubadas. Em 1974 o então presidente americano Richard Nixon teve de renunciar em consequência do escândalo de Watergate, o qual só se tornou conhecido porque dois jovens repórteres do jornal The Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein, investigaram a história. A fonte primordial de Woodward, identificada algumas décadas depois, era William Mark Felt, o número dois do FBI na época, que estava falando o que não podia nem devia. Em 1971 documentos do Pentágono (Pentagon papers) dando conta da irresponsabilidade do governo americano de seguir com a Guerra do Vietnã foram entregues à imprensa por Daniel Ellsberg, que tinha trabalhado para o governo e não poderia contar o que contou.

O fato de Felt e Ellsberg terem traído seus chefes não invalidou o que as reportagens mostraram. O fato de haver, talvez, um hacker no meio do caminho das reportagens sobre os diálogos impróprios da Lava Jato não torna o escândalo menos escandaloso. Se houve invasão ilegal dos celulares dos procuradores, isso, claro, deve ser investigado pela polícia, mas as conversas suspeitíssimas agora noticiadas continuam sendo de interesse público. As autoridades ainda devem explicação. Querer calar a imprensa ou intimidar jornalistas – que têm direito constitucional ao sigilo da fonte – são condutas inaceitáveis que traem tentações autoritárias.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

O metrô comunista e os pesadelos governistas

Eugênio Bucci
Nas escadas rolantes, placas conclamam: ‘Deixe a esquerda livre’. Entendeu?
No domingo, um general ministro subiu num caminhão de som em Brasília e deu de esbravejar contra os “esquerdopatas”. É um soldado em missão. Não dará trégua. Para ele, os males do Brasil são muita esquerda, não muita saúva. Seus colegas de primeiro escalão concordam. Houve um que declarou que, no Brasil, os banqueiros são comunistas. Sabe como é, ficam lá com o capital para cima e para baixo, isso sem falar nos que insistem em usar vermelho na propaganda. No Brasil, crê o ministro, o capital financeiro filiou-se ao Komintern.

O governo está de olho. Diariamente, autoridades amaldiçoam as “ditaduras de esquerda” nas universidades públicas – e, nota de rodapé, nas particulares idem, ibidem. O chanceler anunciou em vídeo uma descoberta teórica na mesma frequência metal: o nazismo era de esquerda. Isso mesmo. Como tudo o que há de ruim na face da Terra há de ser de esquerda, aquele tal de Hitler só podia mesmo ser comunista. E não só Hitler. O mosquito da dengue anda em via de ser declarado “comunista”, bem como os radares de trânsito, as árvores, os índios e os ecologistas. Esquerdopatas. Gays, jornalistas, fiscais do Ibama e artigos da Constituição que dificultam o liberou geral das armas de fogo: comunistas de uma figa.

Ninguém aqui vai contestar a clarividência cívica das saneadoras crenças governamentais. Nada contra a sacralidade messiânica da missão maior de livrar o País do comunismo. E Deus acima de tudo – pois Deus, o governo intui, é capitalista até o último fio de cabelo branco.

Assim sendo, nada a opor quanto a isso. A incumbência de não deixar que o comunismo tome conta da nação desprotegida é por demais onerosa e exigente. Dedicados a essa causa maiúscula durante as 24 horas do dia, o chefe do governo e seus subalternos mal têm tempo de cuidar de reformas ou de estagnações econômicas, esses detalhes desimportantes. É compreensível. O comunismo dá muito trabalho, ele e seus filhotes malévolos, como a “ideologia de gênero” e o limite de pontos na carteira de motorista. A trabalheira do governo é imensa. Não sobra energia para mais nada.

Só o que poderíamos ponderar – e isso com o devido respeito, sem “balbúrdia” – é que esse termo, “esquerdopata”, carece de precisão científica e de bom gosto. Em lugar de esquerdopatia, seria menos abstrusa a palavra “esquerdofrenia”, como teria preferido um jornalista que, sorte dele, já morreu. Mas como o general do caminhão adotou a terminologia menos psiquiátrica, deixemos para lá os pruridos filológicos ou estéticos. Concedamos um desconto a ele.

O general não tem tempo a perder com firulas, cônscio da magnitude do combate que trava. Só os tolos acreditam que o “perigo vermelho” perdeu gás com a queda do Muro de Berlim. A cúpula da Esplanada dos Ministérios não é boba. Sabe que a frase de Karl Marx e Friedrich Engels (esses aí, esquerdopatésimos) dando conta de que o “fantasma do comunismo” rondava a Europa hoje se aplica ao Brasil. É preciso exterminar o fantasma. A esquerdolatria está em toda parte, é uma praga. Nossos governantes vão lá, resolvem a situação numa frente e, quando ninguém espera, eis que a esquerdogênese se insurge em outro flanco. É uma guerra permanente, inclemente, demente.

Os comunistas – como este governo percebeu, para sorte e salvação dos brasileiros – conseguiram se infiltrar em quase todas as instituições. No ensino médio, professores esquerdológicos doutrinam adolescentes incautos para transformá-los em “idiotas úteis” que são contra o porte de armas e não querem bater em homossexuais. No ensino fundamental, grassa o “paulo-freirismo”, que devora a alma das criancinhas. A alfabetização de adultos, então, é uma usina de comunistóides. Os ministros, com ou sem patente, olham para a terra devastada, erguem a cabeça heroica e tomam coragem: é muito por fazer.

A caça aos comunistas está só no começo. Nossos bravos governantes não vacilam. Ainda não desenharam uma estratégia para atacar o metrô, mas é questão de tempo. A contaminação comunista nas áreas de circulação do metrô é notória e acintosa. Numa cidade como São Paulo, os cerca de 8 milhões de passageiros que por lá trafegam são submetidos a doutrinações e lavagens cerebrais em todo o trajeto, desde a entrada das estações até as portas dos vagões. Nas escadas rolantes, plaquinhas conclamam a multidão: “Deixe a esquerda livre”.

Entendeu agora? É óbvio que isso vai formando – subliminarmente, como sabem os governistas – legiões de comuno-agentes. A mensagem “deixe a esquerda livre” inculca nas mentes distraídas a esquerdofilia. É preciso acabar com isso já, antes que o esquerdoteísmo se aposse do espírito do presidente da República.

Não é só. Os brasileiros esperam, sôfregos, que medidas saneadoras estejam em estudo para mudar o lado da aliança de casamento. Atualmente, a aliança de noivado na mão direita induz os “idiotas úteis” a pensarem que a direita é provisória e a esquerda, sim, é que é definitiva. Que urjam as providências, drásticas. Perto desse tema de altíssima e periculosa gravidade, a crise na Casa Civil é fichinha e as derrotas no Congresso Nacional, irrelevantes.

Também o sistema de ultrapassagem nas rodovias há de estar em reexame nos bastidores sacrossantos do Dnit. Esse negócio de ultrapassar pela esquerda é coisa de comunista. O Brasil verde e amarelo adotará a matriz inglesa, pois o governo vem de descobrir que na Inglaterra, berço do liberalismo, é só pela direita que se avança. Sabe também que, embora o automóvel tenha sido inventado um pouquinho depois da Magna Carta, é a conformação de mão e contramão, com o motorista à direita, que predispõe o povo a não votar em gente esquerdopatológica.

Fica faltando o coração, que bate do lado esquerdo do peito. Os generais e os ministros ainda não decidiram o que fazer com ele.

* Eugênio Bucci é jornalista, professor da ECA-USP

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Será tragédia? Ou será chanchada?


Eugênio Bucci
Bolsonaro está mais para Oscarito ou Mazzaropi do que para Creonte ou Mussolini
O Estado de S.Paulo

“O inimigo avança.” Na tradução de Millôr Fernandes, essa é a frase final de Antígona, a tragédia que Sófocles escreveu há 25 séculos para nos alertar, em vão, sobre os riscos da tirania. A toda hora o rei Creonte usa a ameaça do exército rival para justificar seus abusos contra sua própria gente. É um usurpador. Chantageia os habitantes de Tebas dizendo que se ele, Creonte, não estiver no trono, a cidade cairá nas mãos dos tenebrosos invasores estrangeiros. Se os tebanos não o seguirem e não lhe obedecerem, farão o jogo das tropas que, do lado de fora dos muros da cidade, esperam a melhor oportunidade para destruí-la. Com esse tipo de paranoia conspiratória, domina seu povo pelo medo, até que, ao final, tudo desmorona – enquanto “o inimigo avança”.

Antígona nos ensina que a personagem essencial de toda tirania não é o tirano propriamente, mas o inimigo, o tal que “avança”. É bem verdade que, no caso de Tebas, esse inimigo era real e iminente, embora não fosse tão apavorante como Creonte o descrevia. Em tiranias mais presentes, o inimigo não tem existência factual; é apenas uma construção retórica para emprestar uma legitimidade fraudulenta ao regime arbitrário. No nazismo, os judeus foram postos nesse lugar de inimigo retórico; no stalinismo, o mesmo papel coube aos trotskistas. A propaganda oficial transformava pessoas indefesas – judeus e trotskistas – em oponentes de poderes incomensuráveis, capazes das atrocidades mais indizíveis. A partir daí, a perfídia do totalitarismo consistiu em dizimar seres humanos frágeis como se fossem a encarnação das piores entidades do inferno. Hitler e Stalin aterrorizavam a população e ainda posavam de vítimas, de mártires abnegados dispostos a se sacrificar e morrer pela pátria. Os dois sabiam que jamais se estabeleceriam se não tivessem inimigos retóricos para justificar a si próprios. Sabiam que precisavam inventar a personagem central de toda tirania: o inimigo.

A lição de Sófocles deveria ser relembrada todos os dias. Se você quiser se indagar com o risco de tiranias, não se preocupe em identificar o aspirante ao cargo de tirano. Antes comece procurando pelo inimigo retórico que uns e outros estão construindo com seus discursos histéricos. Por esse critério (infalível), você verá que no mundo de hoje não faltam caudilhos mais ou menos consolidados que, com suas cruzadas contra opositores mais ou menos fictícios, acarretam tragédias maiores ou menores. Quanto ao Brasil, ao menos por enquanto, não temos um tirano instalado, temos um arremedo de algo desse naipe: um presidente que não desiste de ser candidato a ditador. E então? O que representa essa figura? Para onde aponta o destino do nosso país?

O que sabemos até agora é que para alcançar seu objetivo o candidato a ditador tenta a toda hora bestializar a figura daqueles que elegeu como seus inimigos retóricos preferenciais: os políticos, os professores, os gays, os artistas, os jornalistas e um ou outro ministro do Supremo Tribunal Federal. Ele sabe que precisa de um bloco de inimigos. Presentemente, deu de reclamar que lhe faltam instrumentos de mando. Queixa-se da ingovernabilidade nacional. Pleiteia, sem dizer que pleiteia, poderes para combater essa gente inútil: os políticos, que, segundo ele, só praticam a corrupção; os professores, que fazem lavagem cerebral na cabeça da juventude para desencaminhá-la com doutrinas comunistas; os gays, que conspurcam as bases da família tradicional; os artistas, que – onde já se viu? – querem liberdade; os jornalistas, que apuram os fatos; e, por fim, certos magistrados que ficam aí resistindo e se recusam a mandar prender todos os anteriores de uma vez por todas.

Olhando as coisas por esse ângulo, o risco da tirania ronda também esta terra em que se plantando tudo dá. O presidente candidato a ditador ostenta traços de bonapartismo explícito: nele transparecem o desejo incontido de atropelar os outros Poderes e a obsessão de forjar um laço direto com as massas, passando por cima das mediações institucionais (basta ver as manifestações de rua que ele mandou convocar para o próximo domingo, cuja pauta beira a inconstitucionalidade). O sujeito também carrega traços fascistas: sua pregação desmesuradamente fálica acerca de pistolas e virilidades, além de obscena, é mussoliniana, assim como são mussolinianos os elogios que se tecem no seu entorno a agrupamentos armados fora do comando do Estado. Diante de tais evidências, só se pode concluir que a democracia está sitiada e a tragédia se avizinha.

Acontece que há também um forte componente paródico no personagem em pauta. Com o devido respeito, a estampa de Jair Bolsonaro tem um quê de burlesco. Falta-lhe o carisma, que requer dons pessoais extraordinários. No fundo – cada vez mais gente pressente –, ele está mais para Oscarito ou Mazzaropi do que para Creonte ou Mussolini. Seus apoiadores começam a debandar, menos por divergência ideológica e mais por se envergonharem das doses incomensuráveis de pastiche-pastelão. Muitos de seus eleitores já se furtam a comparecer às passeatas de domingo, não porque tenham desistido das convicções autoritárias, mas porque ainda lhes resta um pingo de senso de ridículo.

Visto por aí, o cenário não é de tragédia, mas de chanchada da Atlântida. Por esse ângulo, o problema de Bolsonaro não é seu liberalismo fajuto, não são os modos ferozes, não é a bancarrota da economia, não é o despreparo pedestre ou a incapacidade para depreender o significado da palavra nova-iorquino. O seu problema é mais embaixo – e mais baixo. Ele parece estar à frente de um mandato que, por não ter tido condições de se fazer levar a sério, talvez não logre se levar a cabo. Se for isso mesmo, a Nação terá perdido tempo e saúde não com um populista de direita, mas com uma piada asquerosa, regurgitada, sobre a qual o inimigo (real ou retórico) não avança porque se dobra de rir.

Ou será mesmo tragédia?

* Eugênio Bucci é jornalista e professor da ECA-USP.