Luis Fernando Verissimo reflete sobre meio século de carreira como cronista
O livro faz uma retrospectiva de 50 anos de sua produção de crônicas. Assim, é possível dizer que o Brasil sempre foi um prato cheio para um cronista ou houve um tempo específico em que o desafio foi maior?
Eu ainda peguei o fim da censura, quando certos assuntos e até certos nomes eram proibidos de ser citados na imprensa, como o Estadão sabe muito bem. Precisava ter sempre um texto de reserva, sobre o sexo dos anjos, para substituir o eventualmente censurado, ou recorrer a metáforas ou mensagens cifradas para driblar o censor, na esperança de que o leitor entendesse. Havia quem dissesse que a obrigação de escrever na entrelinhas estimulava a criatividade. Mas escrever nas entrelinhas não era um desafio, era uma chateação.
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Diálogos invejáveis são um diferencial em seus textos. Para isso, basta ter um bom ouvido ou muita leitura? Ou nada disso?
É difícil escrever diálogos em português. Em inglês, por exemplo, o corriqueiro não soa falso. Alguém já disse que para um diálogo em inglês parecer natural basta acrescentar um “fucking” a cada frase. Mas é verdade que, até há pouco tempo, nos livros do Hemingway, por exemplo, o palavrão era substituído por (“obscenity”). No caso do diálogo em português, o “natural” não funciona. Já se disse que, em português, pronome no lugar certo é elitismo.
Há vários anos, textos falsamente atribuídos a você circulam na internet, o que o torna uma vítima antiga das hoje chamadas fake news. No atual contexto, há alguma possibilidade de fake news serem engraçadas?
Há “fake news” engraçadas, você estranha que o autor verdadeiro não queira aparecer, ou prefira se esconder sob um pseudônimo conhecido. Mas geralmente as “fakes” são ruins. Como não há como evitá-las, o jeito é se resignar e aceitá-las, com o risco de um dia ser processado por calúnia ou difamação.
É difícil fazer humor neste momento em que se diz que o aquecimento global é marxista e a Terra é plana? A competição ficou mais acirrada?
Pois é. Triplicou o volume de coisas que as pessoas estão dispostas a acreditar, começando por filósofos astrólogos e mitos a cavalo. É verdade que as religiões prepararam as pessoas a acreditar no inacreditável.
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Na crônica Vi, você aproveita a chegada de seus 80 anos para elencar fatos memoráveis que viu com os próprios olhos, desde um homem pisar na Lua pela primeira vez até “o implante de cabelo (funcionou com Renan Calheiros, ué)”. Agora, que ruma para os 84 anos, o que acrescentaria nessa lista?
A volta da Peste Negra, francamente, me pegou de surpresa. A volta do ioiô também.
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Em um exercício de futurologia, quando se fizer, daqui a 20 anos, um filme sobre o Brasil atual, como será?
Daqui a 20 anos, não existirão mais cinemas nem grandes telas de TV. Cada pessoa terá seu aparelhinho individual, no qual verá filmes sobre o Brasil de agora, e não acreditará.

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