Pra quem tá acusando a Warner e a HBO de fazer “revisionismo histórico” ao remover o clássico “...E o vento levou” de seu catálogo, está ignorando que o filme se tornou controverso exatamente por seu caráter revisionista sobre a Guerra da Secessão.
Antes de mais nada, quero dizer que “...E o Vento Levou” foi o primeiro filme que me fez chorar, aos 7 anos, porque não tem um final feliz. Mas eu era uma criança de sete anos e desconhecia o contexto daquele filme e do retrato que fazia sobre o Sul dos EUA.
Scarlet O’Hara continua sendo um dos maiores papeis femininos da história, assim como Rhett Butler e Mammy, mas Mammy, interpretada por Hattie McDaniel, é um retrato caricato e tosco do negro enquanto cordial selvagem.
Por isso não é de hoje que sua exibição tem sido cancelada em diversos cinemas do Sul dos Estados Unidos desde pelo menos 2017 quando começou o movimento #OscarsoWhite. https://t.co/8a3SG594Zm
— James Cimino 🇧🇷🇺🇸🇪🇸🇫🇷🇮🇹🏳️🌈🇺🇳 (@rei_da_selfie) June 10, 2020
E isso não é revisionismo histórico. É reparação histórica. Quem promove revisionismo histórico é o filme, ao mostra uma versão romantizada do Sul, de vítima da história. O Sul não foi a vítima da Guerra da Secessão. O Sul e seu racismo causaram a guerra.
A Guerra da Secessão, ou Guerra Civil Americana, começa em 1861 quando Abraham Lincoln é eleito com a proposta de acabar com a escravidão nos Estados Unidos. Lincoln era de família escravocrata, assim como a maioria dos Pais Fundadores da América.
Apenas o advogado John Adams, que depois da independência se tornaria o segundo presidente americano, e Benjamin Franklin não tinham escravos. O presidente Thomas Jefferson que escreveu a declaração de independência tinha não apenas escravos, como filhos bastardos com uma escrava.
Enfim, Lincoln era republicano e os republicanos eram abolicionistas porque queria trazer para o país a revolução industrial. Sociedades industriais não trabalham com escravidão, mas com trabalho assalariado, porque o escravo é muito caro.
E embora a narrativa sobre a abolição nos EUA e no Brasil seja romantizada e sempre mostrada como produto de um humanismo que se impôs, não foi nada disso. Ela acaba porque passou a não ser mais lucrativa.
O Sul dos Estados Unidos era predominantemente agrícola e não queria mudar sua matriz econômica, a plantation (monocultura do algodão e do tabaco), cuja mão de obra era escrava.
Inclusive já disse aqui e repito: a escravidão foi responsável pelo início da riqueza americana e alguns de seus elementos ainda existem em nossa sociedade, como por exemplo as cotas de vendas no comércio. Isso vem da plantation...os escravos tinha cotas de algodão a colher. Que não atingisse a cota tomava o número de libras faltantes em chibatadas. E quem cumprisse a cota, no dia seguinte receberia uma cota maior.
Lincoln ofereceu 7 anos para que os sulistas se adaptassem à nova matriz econômica, mas eles, cheios de empáfia, nacionalismo e muito racismo, se recusaram e resolveram declarar guerra contra o norte e contra seu presidente eleito.
E isso originou um dos conflitos mais sanguinários da história americana, que matou mais de 600 mil americanos. “...E o vento levou” faz um retrato romântico dos confederados, retratando-os como patriotas que se negam a respeitar as imposições do norte.
Portanto, meus amigos, a retirada desse clássico, que por sinal eu gosto muito, do catálogo da HBO Max para posteriormente inseri-lo de novo com todo esse contexto, não é revisionismo, mas reparação histórica. “...E o Vento Levou” não é um retrato histórico preciso.
O contexto em que foi produzido, no entanto, deve sim ser inserido de alguma forma na obra, por meio de mini doc por exemplo, exatamente para que o filme não seja usado como ferramenta de revisionismo.
Vejam, a Guerra da Secessão durou 4 anos. E ao fim desses quatro anos Lincoln foi reeleito e conseguiu fazer lobby para que o Congresso abolisse a escravidão. No entanto, um filho de um proprietário de escravos, o ator John Wilkes Oates, assassinou Lincoln.
Ele achava que se matasse Lincoln a abolição seria cancelada. Lincoln, portanto, não conseguiu cumprir seu projeto de reunificação da nação. Ele reunificou o território, mas as perdas do Sul na Guerra apenas aprofundaram suas cicatrizes.
E então os Estados sulistas resolveram que como não podiam cancelar uma emenda constitucional, iriam criar leis em seus parlamentos locais para manter a população negra segregada. Leis que impediam os negros de ir ao mesmo banheiro dos brancos, de ter propriedade, de votar eram proibidos de estudar nas mesmas escolas, os restaurantes eram segregados, o transporte público e isso perdurou até 1968, quando Martin Luther King Jr., que lutava pelo fim dessas leis, foi assassinado.
Ou seja, os reflexos dessa guerra permanecem até hoje na violência policial, porque apenas 50 anos atrás essa barbaridade toda era INSTITUCIONAL, PROMOVIDA COMO POLÍTICA DE ESTADO.
Então, gente, eu acho muito importante que “...E o Vento Levou” seja visto pelo que ele é e sob a luz do que foi e ainda é a história do racismo americano.
E não nos esqueçamos da pior história envolvendo esse filme, que é o Oscar de atriz coadjuvante para Hattie McDaniel, a Mammy, que nem sequer pôde se sentar com o elenco do filme durante à premiação por causa das leis de segregação racial.
Muitos negros a criticavam por aceitar papeis de empregada a vida toda. Ela uma vez respondeu: prefiro ganhar US$ 700 interpretando uma empregada a ganhar US$ 7 sendo uma (não lembro se esse era o valor, mas tá na Wikipedia).
Fato é que em 1939, os reflexos da Guerra Civil se encontravam na cerimônia de entrega dos prêmios da Academia. E perdurou até apenas 60 anos atrás.

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