José Eduardo Agualusa
Donald Trump anunciou nos últimos dias duas extraordinárias descobertas científicas.
Primeira: Se os EUA parassem de testar não haveria mais casos de covid-19 no país.
Segunda: Os cientistas americanos descobriram a vacina contra o HIV.
A primeira declaração pode ser considerada uma variação da frase irônica de Einstein, troçando da tese que na física quântica ficou conhecida como o Paradoxo do Gato de Schrödinger: “A lua só existe porque olhamos para ela.”
Na realidade que a física quântica estuda, a frase não é lida com ironia, mas como uma metáfora acertada. Sim, o Gato de Schrödinger pode estar vivo e morto ao mesmo tempo — só depende do olhar do observador.
Trump, portanto, não é mentiroso: é quântico. Ele sabe que as coisas só existem a partir do instante em que alguém as testemunha. Pensemos nas ruidosas manifestações que, na sequência do brutal assassinato de George Floyd, vêm despertando e agitando consciências em dezenas de cidades norte-americanas. Se o assassinato de Floyd não tivesse sido testemunhado, filmado, e depois difundido à escala global, nunca teria existido. Não teria existido a vasta indignação nacional e mundial, as centenas de manifestações, as dezenas de petições condenando a atuação das forças policiais e exigindo o fim do racismo estrutural.
O problema, para Donald Trump, não é a polícia assassinar sistematicamente cidadãos norte-americanos devido à cor da sua pele. O problema é que haja notícia de tais crimes.
A filosofia quântica de Trump é, de resto, muito popular. Também na última semana ouvimos o autoproclamado “Príncipe Imperial do Brasil”, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, declarar que não existe racismo no país. A tragédia, para o imperial personagem, são as pessoas que falam em racismo. Em Portugal, foi o dirigente do maior partido político da oposição, o social-democrata Rui Rio, a confirmar a inexistência de racismo na pátria de Luís de Camões. Para reforçar a sua tese não chegou a citar as endechas que o grande poeta dedicou a uma tal Bárbara — “Pretidão de amor / tão doce a figura / que a neve lhe jura / que trocara de cor” —, mas, em contrapartida, repetiu a tese quântica de que o racismo só existe porque há quem dele dê testemunho. Fiquei à espera que acrescentasse: “eu, por exemplo, nunca fui vítima de racismo”. Suspeito que a maior parte dos imigrantes brasileiros em Portugal sustentam opinião diferente.
Quanto à notícia de que cientistas norte-americanos descobriram a vacina contra o HIV, não foi ainda confirmada por nenhuma instituição de pesquisa. Porém, tanto quanto sei, também não foi formalmente desmentida.
Uma outra possibilidade — já que comecei por falar em física quântica —, é que Donald Trump pertença a um universo paralelo, quase idêntico ao nosso, mas onde não existe racismo, nem pessoas negras, os cientistas norte-americanos descobriram uma vacina contra o HIV e a hidroxicloroquina cura a atual pandemia de covid-19 — que, aliás, não existe.
Suspeito que Donald Trump irrompeu na nossa realidade, vindo desse universo paralelo, com o esplendor loiro de um furúnculo deflagrando na pele. Trump é um furúnculo alienígena. Cumprirá o seu ciclo bizarro e purulento e, em Novembro, retornará ao universo original. Estou rezando.

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