Vinícius Carvalho
Eu não quero morrer por causa de gente que está com saudade de shopping. Shopping que por si só já é algo deplorável e inútil. Eu quero mais é que todo mundo que esteja indo bater perna no shopping sem necessidade morra e que não ocupe os respiradores de gente que se cuidou e está precisando.
Inclusive se eu fosse político ou médico plantonista eu seria sangue frio à este ponto. No meu plantão, playboy chegando acidentado no racha ou promoter de festinha chegando com falta de ar por covid após promover festa e resenha secreta, jamais ocuparia espaço de mãe em trabalho de parto, de vítima de acidente de trabalho ou de um morador de rua vítima do sistema.
Eu não sou cristão, não tenho esses sentimentos e não opero nessa moral, eu sou materialista histórico. Para mim existe hierarquia moral nas coisas e nas pessoas. Eu não desejo o mal de ninguém, mas também não desejo o bem de quem não merece. Se naquela festa/aglomeração dos milicianos do Grajaú que espancaram a médica, entrasse alguém atirando em todo mundo, o meu batimento cardíaco não sofreria nenhuma alteração, por exemplo.
O coração de quem quer lutar o bom combate tem que bater na sola do pé. O sentimentalismo você deixa para a sua cremosa ou então ouvindo aquela música mela cueca do Whitesnake.
Você pode negar a ciência aqui dentro, você pode querer travar queda de braço narrativa. Mas, de acordo com aquele professor marxista arrogante pra cacete mas que uma vez disse algo muito certo, o Zé Paulo Netto, você não pode confundir o sentido que você próprio dá às coisas com as normas socialmente estabelecidas.
Ou seja, não adianta você chegar num restaurante e tentar pagar uma conta de 1000 reais com uma nota de 5 reais e dizer que aquilo ali não é apenas 5 reais, mas sim um conjunto de sentidos e valores que você mesmo dá àquele pedaço de papel.
O segurança vai te encaixotar de porrada.
Não dá para você parar no meio da BR-101 enquanto vem um caminhão na sua direção e você achar que não será atropelado porque aquele caminhão não é um caminhão, é apenas uma ideia movente, que a realidade é apenas uma construção do ponto de vista sociológico e uma reprodução da nossa consciência do ponto de vista físico.
Você vai virar tapete e o seu enterro será com o caixão fechado.
Portanto, é óbvio que a gente pode relativizar alguns aspectos da realidade. Mas a realidade material ainda assim será a realidade. Fome só é questão relativa para quem é monge budista ou algum iogue indiano.
Você pode negar a realidade, mas uma hora ela vai bater na sua porta. A não ser que você seja o Keith Richards, o que não é o caso.
Há duas semanas eu falava que o mundo em breve isolaria o Brasil numa espécie de cordão sanitário.
Como o nacionalismo é o último dos canalhas, vai ter canalha agora alegando que isso é "culpa do imperialismo europeu". Dessa vez não é não, é culpa nossa. 100%.
"Ah mas a França fez isso". Irmão, é materialidade bicho. O Brasil tem que sambar a diplomacia que está ao seu alcance. O Batoré jamais vai conseguir pegar a Ariana Grande, ora porra. O mundo é assim.
Se você fez pirraça com a sua mãe, dentro da sua casa, isso é um problema seu. O mundo não funciona assim. No mundo real as causas tem consequências.
Depois dos EUA, agora Europa. Em breve será África, Ásia e Oceania, aguardem...
Eu dizia por um cálculo simples, não adianta vocês quererem negar o isolamento. Bolsonaro está numa guerra insana contra os fatos e contra a ciência, o povo em grande parte vai embarcar, mas o Brasil não é um reality show, a conta vai chegar.
Tem gente com saudade de ir ao shopping? Tudo bem. Tem gente com saudade de jogos de futebol num país onde o epicentro da pandemia atingiu a curva platô? Tudo bem. Vocês sabem que estão errados, mas querem arrumar subterfúgios filosóficos para defender isso? Correto.
Mas o Brasil não é autossuficiente (seria se fosse uma nação socialista e tivesse atingido a soberania tecnológica, científica e econômica, mas estamos longe disso) vocês não terão como dissuadir os responsáveis pelo nosso isolamento.
Quando você quiser viajar, você não vai poder chegar no aeroporto e acusar o Macron e o Trump de comunistas safados ou de teóricos da conspiração. Você vai ter que ficar em casa.
Quando o remédio que você precisa estiver custando o triplo, por conta das dificuldades de importação e derretimento da moeda, você não vai poder acusar o mundo de conspiração e o Bolsonaro de vítima. Entende?
Quando você defende a sacanagem e a aglomeração usando o mesmo argumento do energúmeno do Mr. Catra (já foi tarde), o "deixa as pessoas", o "povo tá com saudade da rua, fazer o quê?", e os medicamentos faltarem na UPA de Santa Cruz, da Vila Kennedy ou de Itaguaí porque a licitação para importação de medicamentos e insumos básicos está travada, você não vai mandar o Seu Zé ir comprar no shopping. E mesmo que quisesse, lá não vai ter também.
E é aí a encruzilhada onde a realidade material entra em choque com a construção filosófica. É aí onde o "deixa as pessoas" se choca com o "fudeu, Bolsonaro estava errado e eu, mesmo tão inteligente, embarquei na dele"...
Agora, tem o pior de todos. Que é quem está usando a crise da covid-19 como uma grande oportunidade de produzir uma narrativa política a médio prazo, mesmo contra a ciência. Essa gente aí está sambando no caixão de 50 mil pessoas. Já até deixo aqui registrado, daqui a um ano quando rolar a caça às bruxas contra essas pessoas, eu já quero dizer-lhes que eu estarei no front dos inquisidores.

Nenhum comentário:
Postar um comentário