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| Colunista da Folha |
Faz muito tempo, escrevi um artigo sobre o Kitsch no discurso político. A tese era que os candidatos à liderança política muitas vezes fazem seu discurso parecer mais sofisticado do que de fato é, usando arranjos sintáticos inusuais e palavras pouco correntes, que o público não entende, mas aceita como sinais de distinção, de capacidade superior, de competência para o exercício do poder. Assim como o Kitsch artístico, na definição de Umberto Eco, incorpora signos que são socialmente reconhecidos como pertencentes à “verdadeira arte” e busca legitimação através deles, o Kitsch político incorpora signos de um debate sério e aprofundado, para legitimar o que não é mais do que demagogia eleitoral.
O texto ficou anos parado numa revista que o aprovou, mas não o publicou, e acabou vindo a público bem depois de ter sido escrito (http://www.scielo.br/pdf/rbcpol/n6/n6a08.pdf).
Hoje, a tese precisaria ser revista. O avanço do anti-intelectualismo reacionário faz com que o caminho para o sucesso político seja o contrário. É necessário extirpar qualquer sinal de inteligência, de reflexão, de conhecimento. Se o sujeito fala "talkei", pode vira presidente. Se fala "cu", está credenciado para a posição de rei-filósofo.
Mas o recurso ao Kitsch ainda sobrevive em alguns rincões. Tem um jornalista da Folha que é campeão. Defensor de um liberalismo primário, passeia por livros de divulgação científica para pinçar ilustrações que deem brilho a seus textos e revelem sua erudição quase wikipédica.
Hoje, criticando a proposta de Moro de redução do imposto sobre os cigarros, ele escreve: "Sim, o contrabando é um problema, e a curva de Lafer, uma realidade".
Pergunto: quantos de seus leitores estão familiarizados com a curva de Laffer (com dois ff, já que vem de Arthur Laffer)? A introdução dela no texto, sem qualquer explicação, serve unicamente ao propósito de mostrar como o articulista é sabido.
(Em tempo: a curva de Laffer diz que a elevação da carga tributária além de determinado ponto tem como resultado a redução da arrecadação total. Não foi Laffer quem a inventou; na verdade, ele mesmo reconhece que se baseou em Keynes. Mas ele contribuiu para torná-la um argumento simplista e dogmático para as políticas de redução da tributação preferidas pela direita. Segundo a lenda, o nome surgiu quando Laffer desenhou a curva num guardanapo para ninguém menos que Dick Cheney e Donald Rumsfeld, então assessores do governo Nixon. Depois disso, ele fez uma carreira de sucesso assessorando os presidentes Ronald Reagan e Donald Trump.)

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