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quarta-feira, 12 de maio de 2021

Pazuzu tenta fugir da CPI com Habeas Corpus do STF


Luis Felipe Miguel 

Pazuello quer escapar do depoimento à CPI - e a AGU prepara um pedido de habeas corpus para apresentar ao Supremo.

A justificativa é que, depondo como testemunha, ele ficaria impossibilitado de mentir ou omitir para não se incriminar.

Covarde, ignorante, subserviente, criminoso. Quanto mais um ex-ministro acumula estes adjetivos, mais ele vira ídolo e se credencia para disputar algum cargo no ano que vem.

É por isso que o bolsonarismo é um fenômeno difícil de ser compreendido.

Hoje tem Wajngarten na CPI, que promete revelações comprometedoras. Como as de ontem, do presidente da Anvisa, que optou por tentar limpar um pouco sua barra (sem nenhum trocadilho) mesmo às custas de queimar o governo genocida.

Um governo que já entendeu que nos trabalhos da CPI não se salva, seja porque a conduta criminosa na condução do enfrentamento à pandemia é realmente espantosa, seja porque sua articulação política é débil.

Preferiu agir de outra forma, colocando a PF contra Dias Toffoli. Serve tanto para animar a base quanto para forçar uma negociação.

Longe de mim colocar a mão no fogo por Toffoli, um dos mais mesquinhos ministros do Supremo. Mas é claro que a ação da PF é tudo, menos republicana.

É que os aparelhos do Estado hoje só funcionam com base em interesses circunstanciais. Isso que dá, quando um país decide que a Constituição não vigora mais.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Ernesto Araújo na CPI


Luis Felipe Miguel

Na quinta, Ernesto Araújo deve falar à CPI - caso não opte por se esconder como seu colega de ex-ministério, general Pazuello.

Fico curioso para ver o quanto ele vai avançar na sua própria agenda (com as fanfarronices que lhe garantem a posição de herói da extrema-direita alucinada e turbinam sua pretensão de se candidatar ao Congresso no ano que vem) e o quanto vai priorizar a defesa de Bolsonaro (com as desculpas, mentiras e "falhas de memória" usadas para proteger o governo).

O jornal de hoje traz documentos que provam que a prioridade do Itamarati sempre foi a aquisição do medicamento sabidamente ineficaz, nunca da vacina.

Mais de uma vez, em seu espetáculo diário de desinformação, Bolsonaro criticou quem condenava a cloroquina "sem dar alternativa".

É o tipo de argumento que revela o nível cognitivo de seus apoiadores. Se não existe remédio eficaz, fiquemos com o ineficaz...

Na verdade, porém, sempre teve alternativa.

A alternativa era isolamento social, uso de máscara, garantia de renda, fortalecimento do SUS. E a preparação do país para a vacinação que, sabia-se, chegaria em algum momento.

O governo federal boicotou zelosamente cada um destes elementos. É o grande responsável pela tragédia em curso no país.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Festa

 
Laerte ilustrando o sadismo próprio do mundo neoliberal (do qual o BBB, aliás, é exemplo eloquente).

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Paulo Jegues é um ministro singularmente incompetente, despreparado e insensível à realidade

Luis Felipe Miguel 

Guedes deixou, faz tempo, de ser "superministro". Mas, aferrado ao cargo, aceitou bem a nova situação. E continua cumprindo o papel ao qual estava destinado: é o talismã que faz com que a burguesia e seus porta-vozes não abandonem o governo, por mais criminoso e insano que ele se mostre.

Para dourar a pílula, insistem na balela de que Guedes representa uma ala "racional" ou mesmo "técnica" do governo. Um pobre banqueiro constrangido à convivência com milicianos e terraplanistas.

É uma lenda que não resiste a cinco minutos de observação de Guedes, um ministro da Economia singularmente incompetente, despreparado para o cargo e insensível à realidade.

Basta pinçar alguns highlights de sua performance na reunião do Conselho de Saúde Complementar, ontem.

Ele falou com liberdade porque não sabia que a reunião estava sendo transmitida pelas redes sociais do Ministério da Saúde. Então assumiu plenamente a teoria conspiratória preferida da extrema-direita, dizendo que "o chinês inventou o vírus".

Isso para louvar a eficácia superior das vacinas estadunidenses, porque "o americano tem cem anos de investimento em pesquisa". Inadvertidamente, confessou que seu projeto é de um Brasil para sempre atrasado - já que sua política econômica não dá nenhuma margem para investimento em pesquisa.

Aproveitou para, uma vez mais, defender o desmonte do sistema de saúde pública - em vez disso, seriam dados vouchers, para o pobre "ir no Einstein, se quiser".

A velha defesa a priori das virtudes do mercado, que, entre muitas outras coisas, ignora que o mercado opera por segmentação. Tenho uma ideia melhor: cobrar dos ricos os impostos que Guedes não quer cobrar e socializar todo o sistema hospitalar. Com isso irá ao Einstein não quem "quiser", mas quem precisar.

De quebra, anunciou que morrer jovem é ato de patriotismo (ele e seu chefe bem podiam dar o exemplo). Segundo Guedes, hoje “todo mundo quer viver 100 anos” e o orçamento do Estado não aguenta.

Nem é preciso qualquer comentário para descrever o tipo de visão que sustenta uma frase destas.

Mas o eterno Chicago boy pode ficar orgulhoso. O governo ao qual ele serve, adotando as políticas que ele patrocina, está promovendo a primeira redução da expectativa de vida dos brasileiros em décadas.

terça-feira, 27 de abril de 2021

A decadência de um país


Luis Felipe Miguel 

Duas breves notas e um excurso sobre a decadência de um país

Primeira nota: Não tenho, evidentemente, nenhum conhecimento especializado para julgar a decisão da Anvisa sobre a vacina russa. Mas como confiar nela?

A agência está tomada pelo bolsonarismo. É de desconfiar de uma decisão que agrada tanto à política genocida do Planalto, em seu embate com os governadores, e aos grandes laboratórios ocidentais.

A desmoralização da Anvisa é outros dos crimes do cara da casa de vidro contra a saúde pública brasileira.

Segunda nota: O juiz de primeira instância que decidiu ditar a composição da CPI da Covid é mais uma demonstração do vale tudo imperante no Brasil desde que começou o desmonte da Constituição de 1988.

A separação de poderes cedeu lugar à lei da selva, em que pode mais quem berra mais alto.

O Senado já decidiu que vai ignorar a "decisão judicial", o que no caso é óbvio, mas o impressionante é o juiz Charles Morais achar que podia não apenas recepcionar - ou o verbo é receptar? - a ação movida por Carla Zambelli, como conceder limitar.

O excurso: Na verdade, para saber que estamos vivendo num país esculhambado basta lembrar que Carla Zambelli é deputada - mais ainda, uma das pessoas fortes do Congresso...

segunda-feira, 26 de abril de 2021

O silêncio da cumplicidade

Luis Felipe Miguel

Ontem, em boa coluna, a ombudsman da Folha anotou seu estranhamento com o fato de que, exceto por duas colunas de opinião, o jornal ignorou a grave reportagem sobre o falecido Samuel Klein, publicada pela Agência Pública.

São fortíssimas as evidências de que o fundador das Casas Bahia mantinha um gigantesco esquema de pedofilia e foi responsável por violência contra muitas centenas de meninas. O filho, Saul Klein, que reportagem anterior de Mônica Bergamo revelou que está sendo processado pelo mesmo motivo, teria simplesmente herdado a estrutura montada pelo pai.

Era como um departamento extra das Casas Bahia, exclusivamente para gerir a pedofilia, com automóveis e helicópteros para transportar as vítimas, seguranças e advogados para amedrontá-las, agenciadoras, enfermeiras etc. Dezenas de processos foram encerrados com acordos de confidencialidade.

Acho difícil que tudo isso se destinasse apenas à satisfação da perversão do dono da empresa. Cheira a um "serviço" destinado a clientes importantes, o que também ajudaria a explicar a prolongada impunidade de algo que era de conhecimento de tanta gente. Mas estou apenas especulando.

Mas é de se perguntar o porquê do relativo silêncio da Folha. Longe de mim desculpar a mãe e a madrasta da menina Ketelen - nem tenho coragem de colocar por escrito o que desejo para elas. Mas por que o jornal faz uma cobertura tão extensa e mesmo, por vezes, sensacionalista do infanticídio cometido por duas ferradas e não julga que seus leitores devem ser informados de uma indústria de pedofilia comandada por empresários poderosos e bem relacionados na elite paulistana?

Tudo isso para observar outra ausência da cobertura da Folha, que quem sabe a ombudsman pode questionar no domingo que vem: o provável contato de milicianos com Bolsonaro ("o cara da casa de vidro", "Jair", "presidente"), logo após a morte de Adriano da Nóbrega. A reportagem do The Intercept Brasil deixa pouca margem para dúvidas.

Se não fosse pela coluna de Celso Rocha de Barros hoje, o caso teria passado completamente despercebido na Folha. A ausência, que a Folha compartilha com o Estadão e com O Globo, mostra a ambiguidade do "oposicionismo" da grande imprensa.

Talvez seja a má consciência. As conexões de Bolsonaro com o crime organizado eram bem conhecidas, mas os jornalões preferiram ocultá-las quando aderiram à sua candidatura à presidência.

Como bem lembrou Celso Rocha de Barros, a relação de Bolsonaro com as milícias é um elemento de enorme gravidade da conjuntura política.

Trata-se de um sujeito que, além de não ter nenhum apreço à democracia, morre de medo de deixar o cargo - porque sabe que, se a lei voltar a vigorar no país, seu lugar e o de seus familiares é a cadeia. E, como observa Adam Przeworski em seu (não muito bom) livro Why bother with elections?, governantes que sofrem riscos graves de punição não são muito propensos a aceitar a alternância no poder.

E esse sujeito é íntimo de grupos de facínoras armados, que penetram fortemente nas corporações policiais. Como isso pode ser legitimamente descartado do noticiário?

quarta-feira, 21 de abril de 2021

O pensamento único e a falta de pensamento

Luis Felipe Miguel

Um dos principais males que a grande imprensa causa à democracia é o estreitamento do debate econômico.

Dos "especialistas" ouvidos por jornais e telejornais aos comentaristas fixos, o que se vê é - com raríssimas exceções - a replicação de uma mesma posição, caracterizada pela naturalização do funcionamento do mercado, pelo fetiche do "equilíbrio fiscal" (a eterna analogia com a dona de casa) e por versões menos ou mais abertas da teoria do trickle down (o bom é os ricos ficarem cada vez mais ricos, porque a riqueza escorrerá de cima para baixo).

Cria-se uma falsa impressão de consenso - quando, na verdade, o debate é muito vivo e, muitas vezes, o único consenso, entre os cientistas econômicos respeitáveis, é contra as ideias que a mídia promove.

É uma visão da economia que se esforça ao máximo para desvinculá-la da vida das pessoas reais - daí a naturalidade com que empresários ou jornalistas opõem "CNPJs" a "CPFs". E, sobretudo, a crença absoluta em dogmas invulneráveis à experiência, que devem ser protegidos mesmo quando todo mundo já está vendo que eles nos conduzem à catástrofe.

Há economistas competentes que se dispõem a ser porta-vozes desta doutrina e assim se tornam estrelas na mídia. Há muitos outros bem menos competentes. Há os completamente incompetentes, mas que aprenderam a repetir a ladainha e também garantem seu espaço.

E há o herdeiro Helio Beltrão, que inacreditavelmente é titular de uma coluna semanal na Folha, na qual perpetra as maiores sandices.

Hoje, ele se dedica a postular que a Escola Austríaca - a corrente ultraliberal estreitamente associada ao fascismo e aos seus arredores, de Mussolini a Pinochet e a Bolsonaro - pratica uma ciência econômica "livre de juízo de valor", guiada exclusivamente pelos fatos!

Nem é preciso discutir a epistemologia primária do dublê de comentarista econômico e playboy faisandé. Basta perguntar em que "fatos" ele sustenta seu apoio às políticas genocidas de Guedes e Bolsonaro.

Dar uma coluna a Beltrão no caderno de economia é como dar espaço fixo para um terraplanista no caderno de ciências. Não informa o público e não acrescenta ao debate. Tenho a impressão que o objetivo da Folha, ao mantê-lo, é fazer com que, por contraste, o Samuel Pessôa pareça "ponderado" e "razoável"...



segunda-feira, 19 de abril de 2021

Lula é o centro, o PSOL tem que achar seu caminho à esquerda

Luis Felipe Miguel

A marca de 400 mil mortos será alcançada ainda neste mês, mas Bolsonaro continua bem.

Um ano depois da crise que levou à demissão de Moro, o "superministro" e "salvador da Pátria" que caiu sem nem arranhar a popularidade do governo, Bolsonaro tornou-se senhor da Polícia Federal. A blindagem em favor dele e de seu círculo mais próximo está cada vez mais forte.

Ele continua interessado em falar só para seu público cativo, aquele que acredita em tudo e para o qual (nas palavras de um de meus bolsomínions de referência) Bolsonaro é "um dos grandes heróis do mundo cristão". Dentro deste cercado, não existe revelação de CPI capaz de abalar a fidelidade ao mito.

Afinal, não é como se o comportamento criminoso do chefe de governo já não estivesse escancarado. E esse contingente, indiferente à morte, à miséria, à fome, à violência, à destruição, parece bastar para levá-lo ao segundo turno de 2022.

A oposição de direita, que apresenta a si mesmo como "centro", permanece à espera de um milagre.

João Doria, que seria o nome mais forte desse campo, é um sujeito notavelmente desagregador. Não é capaz de unir, muito menos empolgar, nem mesmo o PSDB - que sabe que a repetição do fiasco de 2018 (com a candidatura Alckmin) põe em risco sua posição como partido nacionalmente relevante.

Mandetta e Leite são factoides. Moro ficou no caminho. A candidatura de Huck é uma aposta de alto risco, com grande chance de fracassar - nem o marido de Angélica está convencido dela.

Ciro, o nome com maior potencial eleitoral do grupo, capaz de alcançar talvez uns 12%, também não é uma criatura fácil. E, tendo passado uma boa parte das últimas décadas tentando consolidar um espaço para si na centro-esquerda, ainda está mal enquadrado na nova posição.

O principal problema, no entanto, nem é a ausência de nome. É que, por mais que insistam no discurso dos "dois extremos" e afirmem que uma terceira via seria o caminho do meio, o centro já está ocupado.

Está ocupado por Lula.

O ex-presidente continua acenando com um caminho não traumático para restauração da democracia e da ordem constitucional, que acomode interesses e restaure as condições da disputa política civilizada sem excluir ninguém, evitando cuidadosamente assustar as classes dominantes.

O caminho para a candidatura de Lula ainda não está seguro, mas um novo golpe judiciário que o impeça de concorrer é mais difícil hoje. Não apenas a Lava Jato foi completamente desmoralizada como se erodiu o consenso em favor da manobra, na mídia, no judiciário e no empresariado.

A composição da chapa é delicada. Ainda que o ex-presidente esteja esbanjando energia, ele será quase um octogenário ao receber novamente a faixa presidencial em 2023. O nome do vice ganha peso extra nestas circunstâncias.

Na principal organização partidária à esquerda do PT, o PSOL, são vários os indícios de que um apoio à candidatura de Lula é possível.

A entrevista de Boulos à Folha de S. Paulo, na semana passada, é transparente. Mas - a despeito de referências pro forma à necessidade de uma aliança programática - ele sinaliza que o apoio a Lula deveria ser compensado pelo apoio do PT à sua própria candidatura ao governo de São Paulo.

Parece-me equivocado. Primeiro, porque o PSOL não tem esse poder de barganha.

Não é como se o PT estivesse carente de nomes para disputa o governo paulista. Pelo contrário: Haddad é o primeiro colocado nas pesquisas.

E não é como se uma candidatura do PSOL à presidência fosse significar um grave problema para Lula. Em 2018, Boulos teve, convém lembrar, 0,58% dos votos válidos (um deles foi o meu). Houve deputados federais eleitos em São Paulo com mais votos do que ele recebeu para presidente.

Nas pesquisas para presidente, Lula lidera e Boulos fica com traço. E ele prefere disputar o governo paulista: quem seria o candidato psolista? Com tudo isso e também com o partido mais rachado do que antes, o que o PSOL entrega ao PT, além do discurso da "unidade da esquerda"? É pouco para ganhar a candidatura ao maior estado da federação.

Mas o principal problema nem é esse. É fazer a negociação nessa base.

Seja com candidato próprio, seja em aliança, o PSOL precisa ser capaz de pressionar o PT pela esquerda.

Em vez de enunciar vagamente a necessidade de "discutir programa" (e concretamente colocar apenas a exigência da vaga para o governo de São Paulo), apontar os pontos centrais de um programa mínimo - reforma tributária progressiva, expansão do gasto social, reforma do aparelho repressivo do Estado.

A grande tentação de um novo governo Lula será permanecer num possibilismo extremo, com um horizonte muito mais estreitado do que aquele de 2003.

Se o campo popular não estiver organizado, a direita voltará a ter o monopólio da pressão política e empurrará o governo para a defensiva absoluta. E cabe ao PSOL e às tendências da esquerda petista dar voz a essas demandas nos espaços da política institucional.

domingo, 18 de abril de 2021

Mengele não morreu

Fonte da foto e da notícia:

A concorrência é forte, mas o caso mais abominável dos últimos dias foi o do casal de médicos bolsonaristas que fez experiências clandestinas com cobaias humanas em Manaus e matou várias puérperas.

Xuxa não está sozinha. Os adoradores de Mengele são legião no Brasil.

Luis Felipe Miguel 

domingo, 11 de abril de 2021

Um monumento vivo à ignorância


Na Folha de hoje, o presidente da Conib (Confederação Israelita do Brasil), Cláudio Lottenberg, criticou quem está propondo boicote às empresas representadas no jantar com Bolsonaro: "não compreendem o que é exercício da democracia".

Aproveitou e elogiou o governo por sua aproximação com Israel, "a única e verdadeira democracia no Oriente Médio".

Mas não é só da palavra "democracia" que Lottenberg não compreende o significado.

Ele defendeu os aplausos ao genocida dizendo que faz parte da etiqueta tratar "com denodo" o presidente da República?

Denodo? "Denodo" significa ousadia, coragem. Não passou nem perto.

Lottenberg devia estar querendo dizer "decoro" - começa com a mesma letra, tem o mesmo número de sílabas e as mesmas vogais...

A jornalista da Folha não registrou nenhum estranhamento. Também não deve saber o sentido da palavra.

Em todas as áreas, nossa elite é um monumento vivo à ignorância.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Palavras banais de amor à democracia de quem votou em Bolsonaro

 
Ainda sobre o "manifesto dos presidenciáveis" - aquele que, como disse Gleisi Hoffmann, incluía um veto contra quem quer que tenha votado contra Bolsonaro em 2018.

Um documento inócuo, de palavras vagas, cuja única importância é  servir de declaração oficial do deslocamento de Ciro Gomes para o campo da centro-direita.

Todo mundo aplaude que esse pessoal esteja agora tão enamorado da democracia. Mas eles não carregam ônus nenhum por terem contribuído para sua derrocada?

Não se trata de buscar desforra. É que a história mostra que a democracia se mostra mais frágil e incerta quando construída sobre a amnésia, sobre a negação do passado.

No Brasil, as cúpulas militares continuaram reivindicando a ditadura como um feito do qual se orgulham. Os políticos que serviram a ela e os empresários que dela se serviram foram incorporados à nova ordem sem que se exigisse deles um mínimo de reflexão sobre seu comportamento anterior.
Parecia que, se a democracia não era aceita como valor, estava igualmente bom que fosse tolerada por senso de oportunidade.

Estamos vendo que essa fatura um dia é cobrada - e é alta.

Se e quando retomarmos um governo democrático no Brasil, os desafios que ele terá que enfrentar serão enormes. Não só pelo país devastado, mas pela ferocidade de uma extrema-direita "empoderada" e que relutará em aceitar a derrota.

Seria necessário construir um cordão sanitário em torno do bolsonarismo - tal como, na França, se fez em torno de Le Pen. Nenhuma força aceitaria compor com ele, os meios de comunicação se recusariam a aceitá-lo como parte legítima do debate público.

Alguém acredita que isso acontecerá no Brasil? Alguém duvida que, se o PT voltar ao governo, os signatários do manifesto e os bolsonaristas estarão todos abraçados na oposição de direita - tal como, com a exceção de Ciro, estiveram em 2016?

Sem uma autocrítica real de todos eles, incluindo Ciro, sobre seu comportamento em 2018, fica difícil acreditar em palavras banais de amor à democracia.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Ciro Gomes assume, finalmente, seu lugar na História



Ao juntar-se a Doria, Huck, Mandetta, Amoedo e Leite, em documento que só não foi assinado também por Moro porque ele não quis (alegou que seus patrões ianques não permitem), Ciro Gomes demarcou de que lado está.

Foi uma espécie de viagem a Paris antecipada.

Sob certo aspecto, acho bom. Ciro há tempos percebeu que suas chances estavam na centro-direita e movia-se nessa direção. Alguma hora teria que assumir isso e parar de ficar tumultuando o campo da centro-esquerda com suas provocações pretensamente "de dentro".

Brizola estaria indignado com o destino de seu partido. E os ciristas terão que seguir seu líder e também escolher seu lado.

Com os parças do MBL

sábado, 27 de março de 2021

Nazismo continua popular no Brasil

Luis Felipe Miguel 

Vocês perceberam? Na hora em que Xuxa defendeu experimentos nazistas, o entrevistador - não sei quem era - exclamou: "É verdade!"

Tem gente que parece ter fissura pela suástica. O assessor do genocida, por exemplo, não consegue se conter: um dia reproduz lema de organização neonazista no Twitter, no outro faz eco a assassino racista, adiante conspurca sessão do Senado Federal com gesto supremacista.

Mas, se evitarem os símbolos, encontram uma vasta receptividade.

A ração cotidiana de discurso do ódio, desprezo aos direitos, racismo, indiferença pelas pessoas, apologia do egoísmo, apreço pela violência como "regeneradora", propagada em programas de rádio e TV, púlpitos de igrejas, tribunas de casas legislativas, redes sociais, só podia gerar uma mentalidade neonazi.

Stormfront, a vilã do seriado The boys, está coberta de razão quando diz: "As pessoas adoram o que tenho a dizer! Elas acreditam nisso! Elas simplesmente não gostam da palavra 'nazista'. Isso é tudo".


sexta-feira, 26 de março de 2021

O céu é o limite - e o inferno já está aqui.

Luis Felipe Miguel


Chegamos aos 300 mil, mas a verdade é que os números não querem dizer mais nada.

Chegamos aos 300 mil sabendo que os 400 mil estão ali na esquina.

Depois os 500 mil, e assim por diante. O céu é o limite - e o inferno já está aqui.

A preocupação principal do governo é impedir que o presidente seja chamado de genocida. Só isso dá um indício de como é sem fundo o buraco em que nos metemos.

Bolsonaro continua como sempre esteve. Pressionado, dá um aceno fingido para a racionalidade, mas no minuto seguinte volta atrás.

Mente, sem parar. Parece o suficiente para agradar sua base fiel.

A notícia de hoje é que, incomodado com as críticas a Ernesto Araújo, um dos responsáveis pela catástrofe por sua política de isolamento absoluto do Brasil, Bolsonaro decidiu que vai mantê-lo no cargo.

É claro - bater o pé que nem um machinho contrariado é mais importante do que salvar vidas.

Nos Estados Unidos, que estão vacinando em massa, o número de novos casos de Covid caiu cerca de 90% do início do ano para cá.

Já nós continuamos com a curva ascendente, batendo nos 100 mil novos registros diários.

Não era para ser assim. Embora um país pobre, o Brasil sempre teve os recursos e a expertise para garantir a vacinação de toda a sua população.

Poderíamos estar caminhando para o fim desse pesadelo, em vez de nos afundando cada vez mais nele.

Mas temos um criminoso na presidência, colocado lá por um consórcio de criminosos.

E mantido no cargo porque, não só para Bolsonaro, mas para milhões de brasileiros, incluída aí a maior parte da nossa elite econômica, política, judiciária e militar, a vida humana não é um valor digno de nota.

Triste Brasil.



quinta-feira, 25 de março de 2021

Molecagem reincidente

Luis Felipe Miguel 

Filipe Martins, o assessor do genocida que fez sinal supremacista ontem no Senado, está ameaçando processar todos que o chamarem de supremacista.

Garante que estava apenas ajeitando a lapela do terno. Quem viu o vídeo do que aconteceu sabe que essa desculpa é um novo deboche.

Depois postou fotos de Lula e Felipe Neto fazendo gestos semelhantes. Mas mesmo um despreparado como ele sabe que o significado depende do contexto.

Os supremacistas brancos dos Estados Unidos fazem uso deliberado de símbolos ambíguos exatamente para depois dizer que era tudo inocente.

Não é como alguém que faz um protesto - atletas negros com o punho cerrado no pódio, por exemplo. A força moral do protesto está em assumir a responsabilidade pelo gesto.

É o contrário da provocaçãozinha baixa e covarde, preocupada em ter sempre uma porta de saída, desses neonazistinhas criados a leite com pera, que se acham espertos porque deglutiram as pretensas lições do charlatão Olavo de Carvalho.

Filipe Martins, aliás, é reincidente. É ele que, também por mera "coincidência", tem, na foto de abertura do seu perfil no Twitter, um verso do poema de Dylan Thomas que se tornou associado ao extremismo de direita por abrir o manifesto do neonazista que matou 51 pessoas na Nova Zelândia.

O verso entrou no perfil de Martins no mês seguinte ao ataque terrorista na Nova Zelândia. Mas foi só "coincidência".

No dia em que for pego fazendo uma saudação nazista, Martins vai dizer que estava só alongando o braço.

É possível pensar que o objetivo primordial da performance de ontem tenha sido causar polêmica e desviar um pouco a atenção da marca oficial de 300 mil mortos que o combo vírus + negacionismo presidencial alcançou ontem.

Talvez.

Mas não é admissível que um assessor do presidente da República faça molecagem durante a fala do presidente do Senado.

E menos ainda que essa molecagem tome a forma de um aceno ao supremacismo branco.

É incrível que tenhamos chegado a esse ponto. Mas, antes tarde do que nunca, é preciso exigir a demissão de Martins e que ele seja devidamente responsabilizado pelo que fez.

terça-feira, 23 de março de 2021

Kassio com K

Luis Felipe Miguel


Tentando entender o voto de Conká.

Foi intelectualmente débil, despreparado, indigno de uma corte superior. Até aí, era esperado.

Mas por que, sabendo que Carmen Lúcia ia mudar de posição, ele não evitou o papelão?

Podia ter votado a favor da justiça. Surfava em cima daquilo que Gilmar e Lewandowski tinham dito, posava de independente, começava a limpar a mácula que vai acompanhá-lo pelos próximos 26 anos - ter sido indicado por um sociopata inimigo da democracia e dos direitos.

Era o que ele teria feito por interesse próprio.

Minha interpretação é que ele não resistiu à pressão de Bolsonaro, que exigiu o voto contra o habeas corpus não porque fosse alterar o resultado, mas para não ser cobrado por sua base pela nomeação do "traidor".

Se é isso, é mais grave ainda. Medíocre, incompetente - e frouxo. A receita perfeita para o pior juiz.

Kássio Nunes levou uma mijada em regra do Gilmar

Luis Felipe Miguel

Em suma, Kassio Nunes diz que Moro é suspeito, mas não pode ser julgado suspeito porque as provas foram obtidas por hacker.

Ignora o fato de que - como Gilmar bem demonstrou - as provas vindas do hacker apenas acrescentam evidências à montanha de provas sobre a parcialidade do ex-juiz.

E o fato de que há uma enorme injustiça a ser reparada, isso, obviamente, não conta.

(E agora está sendo destruído pela imprevista réplica de Gilmar.)

***

Eu escrevi há pouco que Gilmar Mendes estava destruindo Kássio Nunes, mas isso porque sou do tipo educadinho.

O nome científico para o que está acontecendo no Supremo agora é "mijada". Kássio Nunes está levando uma mijada em regra do Gilmar.

sábado, 20 de março de 2021

Bolsonaro representa muito bem a elite do Brasil



Está consolidada a marca de 2 mil mortes diárias pela Covid-19 e ninguém duvida que é questão de tempo - pouco tempo - para chegar às 3 mil.

Nenhuma perspectiva de saída. Sistema de saúde em colapso por todo o país, vacinação a passo de lesma.

Custo de vida em disparada. Alta do desemprego. Pequenos negócios quebrados. Desesperança e desespero crescentes.

Bolsonaro faz o quê? O de sempre.

Bolsonaro mente. Nem vale a pena enumerar, é todo dia, toda hora.

Bolsonaro tripudia das vítimas de seu governo. (Num país normal, depois da cena em que imita uma pessoa morrendo por falta de oxigênio ele não teria condições de permanecer mais 15 minutos no cargo.)

Bolsonaro boicota os esforços de outros agentes públicos. Incentiva a desobediência às normas sanitárias. Vai ao STF para impedir que governadores e prefeitos adotem qualquer medida que possa reduzir o ritmo do contágio.

Bolsonaro ameaça. Acena com a declaração de estado de defesa, que, como resultado imediato, levará ao fim das últimas barreiras à insanidade na gestão da pandemia - e, vista de uma perspectiva um pouco mais dilatada, é o passo inicial para a instauração de uma ditadura aberta.

O Brasil convive há 710 dias com esse sociopata na Presidência da República. Há 380 dias, convivemos simultaneamente com ele e com o coronavírus. Nunca antes o país viveu um processo de destruição tão acelerado e tão devastador.

É espantoso como aguentamos tudo isso - a passividade da população, a leniência das instituições.

Mas não deveríamos mais aguentar. Cada dia a mais de Bolsonaro na presidência é uma tragédia irreparável.

Caso os detentores de recursos de poder - no Congresso, no Supremo, na burguesia, na mídia, no Exército - quisessem, seria possível encontrar um caminho para expeli-lo do cargo rapidamente.

Motivos não faltam, da ilegitimidade da eleição de 2018 aos crimes de responsabilidade cometidos dia sim, dia também. As urgências do momento justificam plenamente uma ação rápida. E não é como se uma eventual interpretação criativa fosse macular uma Constituição até agora inviolada.

O problema é que eles não querem. No frigir dos ovos, Bolsonaro e suas consequências são, para eles, um mal menor.

Em meados dos anos 1930, Palmiro Togliatti observava que muitas vezes "concentramos atenção apenas sobre a resistência que as velhas formações políticas burguesas opunham à marcha do fascismo, e nos parecia então que cada uma destas resistências teria imediatamente que se desenvolver até criar as condições de uma 'crise política' insuperável".

Daí a perigosa crença de que "o fascismo está condenado a arrebentar-se por si só, em seguida à explosão espontânea das contradições internas que minam seu regime". E a "tendência oportunista de esperar uma mudança de situação para fazer alguma coisa".

No entanto, dizia Togliatti, "o elemento decisivo capaz de reduzir a vantagem do fascismo apenas pode ser a luta antifascista das massas".

Creio que seu ensinamento se aplica muito bem ao Brasil de hoje.

quarta-feira, 17 de março de 2021

Está ficando feia a história da médica Ludhmila Hajjar

Luis Felipe Miguel

Está ficando feia a história da médica Ludhmila Hajjar.

Depois da conversa com Bolsonaro, ela se colocou como oposição e publicou tuítes fortes contra o governo, do tipo "Sim, eu acredito na ciência".

(É, no Brasil de hoje dizer que acredita na ciência é praticamente um gesto de desobediência civil.)

Mas vazou que antes disso ela estava disposta a ser ministra e anunciou que se curvaria às insanidades de Bolsonaro.

Parece que não foi ela que recusou o cargo - e sim que o convite foi retirado depois que o psicopata se convenceu que era verdadeiro o áudio em que ela o chamava de "psicopata" (e que ela a princípio tentou desesperadamente desmentir).

E a tal tentativa de invasão do seu quarto no hotel - que a colocaria, em tempo recorde, na posição de alvo privilegiado da selvajaria bolsonarista - foi desmentida pelos funcionários e pelas câmeras de segurança.

Eu me pergunto o que faz alguém cogitar aceitar um convite desses, num momento desses.

Se a intenção é roubar, tem lógica. Se é um político que quer dar cargo para um monte de apadrinhados, também.

Mas uma pessoa comum? Uma profissional? Sabendo que é absolutamente impossível implementar qualquer política razoável enquanto o presidente não for interditado?

É a vaidade. É pela glória. Mas que vaidade, que glória? A associação ao governo genocida leva sem falha ao opróbrio. A participação no ministério Bolsonaro é uma marca indelével em qualquer currículo.

segunda-feira, 15 de março de 2021

Pazuello teria que ser substituído por um clone

Luis Felipe Miguel 

Para fazer frente a Lula, Bolsonaro está pressionado a adotar uma postura menos insana no enfrentamento à crise sanitária.

A substituição do general Pazuello, porém, não é tarefa fácil.

Parece que a médica Ludhmila Hajjar já anunciou que não aceitará o cargo. E outras pessoas com o mesmo perfil certamente seguirão o mesmo caminho.

Na conversa que ela teve ontem com Bolsonaro, não houve sinalização de que o Ministério da Saúde poderia trabalhar a favor do isolamento social e contra o fajuto "tratamento precoce".

Já é difícil encontrar alguém com um mínimo de respeitabilidade que queira se associar ao atual governo. O único jeito é a pessoa tentar convencer a si mesma de que é necessário interromper a catástrofe e fantasiar seu carreirismo como amor ao país.

Mas se nem isso é possível, o cargo só é elegível para oportunistas sem moral e sem auto-respeito. Pazuello teria que ser substituído por um clone.

Bolsonaro já promoveu viradas bruscas de discurso, com custo irrisório. Seus mínions estranham, mas logo se adaptam.

Com a cloroquina e a oposição ao uso de máscara e ao isolamento é diferente. O investimento nessas insanidades foi muito grande; elas agora ocupam uma posição central na autocompreensão do bolsonarismo.

O risco de debandada é real. Qual o diferencial que o "mito" oferece a seus seguidores, se começar a se curvar ao bom senso, à ciência e à civilidade?

O problema é que, sem uma ruptura clara com as políticas pró-vírus adotadas até aqui, nem é encaminhada a solução da crise sanitária, nem é sinalizada a virada que Bolsonaro quer indicar para setores do Centrão e da burguesia.

Bolsonaro precisa do impossível. É o paradoxo básico da lógica formal: ele precisa de A e não-A ao mesmo tempo. Um ministro que seja científico e negacionista. Políticas que promovam aglomeração e contenham o vírus. Uso racional de recursos e apologia da cloroquina.

Mas esses milagres ele não vai obter.

Infelizmente, não temos sequer como nos alegrar com a sinuca de bico do ex-capitão. Somos nós que estamos pagando essa fatura, a um ritmo de mais de 2 mil mortos por dia.