Para fazer frente a Lula, Bolsonaro está pressionado a adotar uma postura menos insana no enfrentamento à crise sanitária.
A substituição do general Pazuello, porém, não é tarefa fácil.
Parece que a médica Ludhmila Hajjar já anunciou que não aceitará o cargo. E outras pessoas com o mesmo perfil certamente seguirão o mesmo caminho.
Na conversa que ela teve ontem com Bolsonaro, não houve sinalização de que o Ministério da Saúde poderia trabalhar a favor do isolamento social e contra o fajuto "tratamento precoce".
Já é difícil encontrar alguém com um mínimo de respeitabilidade que queira se associar ao atual governo. O único jeito é a pessoa tentar convencer a si mesma de que é necessário interromper a catástrofe e fantasiar seu carreirismo como amor ao país.
Mas se nem isso é possível, o cargo só é elegível para oportunistas sem moral e sem auto-respeito. Pazuello teria que ser substituído por um clone.
Bolsonaro já promoveu viradas bruscas de discurso, com custo irrisório. Seus mínions estranham, mas logo se adaptam.
Com a cloroquina e a oposição ao uso de máscara e ao isolamento é diferente. O investimento nessas insanidades foi muito grande; elas agora ocupam uma posição central na autocompreensão do bolsonarismo.
O risco de debandada é real. Qual o diferencial que o "mito" oferece a seus seguidores, se começar a se curvar ao bom senso, à ciência e à civilidade?
O problema é que, sem uma ruptura clara com as políticas pró-vírus adotadas até aqui, nem é encaminhada a solução da crise sanitária, nem é sinalizada a virada que Bolsonaro quer indicar para setores do Centrão e da burguesia.
Bolsonaro precisa do impossível. É o paradoxo básico da lógica formal: ele precisa de A e não-A ao mesmo tempo. Um ministro que seja científico e negacionista. Políticas que promovam aglomeração e contenham o vírus. Uso racional de recursos e apologia da cloroquina.
Mas esses milagres ele não vai obter.
Infelizmente, não temos sequer como nos alegrar com a sinuca de bico do ex-capitão. Somos nós que estamos pagando essa fatura, a um ritmo de mais de 2 mil mortos por dia.

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