terça-feira, 6 de agosto de 2019

Chegou a hora dos arrependidos fazerem sua autocrítica

AUTOCRÍTICA

Manoel Olavo

Algo me incomoda profundamente quando ouço os novatos da indignação antibolsonaro e antilavajato. Primeiro foi o cineasta José Padilha, admitindo que Moro não era o herói impoluto que acreditava e renegando a minissérie "o mecanismo", feito por encomenda para injetar ódio moralista na classe média brasileira.

Segue-se uma longa lista. Lobão se diz arrependido e declara que Bolsonaro cria malefícios ao país. O jornalista Marco Antonio Villa, despedido da Jovem Pan a pedido de Bolsonaro, acusa-o de ditatorial. Rachel Sherazade faz caras e bocas no vídeo diante das declarações abjetas do presidente, mas nada diz, silenciada pelo acordo Bolsonaro-Silvio Santos. Fernando Henrique Cardoso se manifesta, dizendo-se preocupado com a incontinência verbal de Jair Bolsonaro. Até Kim Kataguiri, Janaína Paschoal e Miguel Reale Jr. se dizem chocados e decepcionados.

O grupo Folha de São Paulo foi o primeiro da grande imprensa a assumir uma posição crítica perante a inegável insensatez, autoritarismo e destrutividade do governo eleito em 2018. A rede Globo, através do JN e da Globonews, assume uma posição peculiar. Critica Bolsonaro e seu clã, mas poupa sua principal criação: Sérgio Moro e a operação lava-jato. O Estadão segue os passos da Globo. Até a revista Veja, o principal esgoto de incitação ao ódio e intolerância contra os governos do PT, parece ter redescoberto as virtudes da verdade jornalística.

O insólito nesta situação é que parece que os arrependidos descobriram de repente uma verdade conhecida há mais de 30 anos: Bolsonaro é um fascista, um despreparado, um inconsequente, um miliciano, um mau-caráter, um autoritário, um fanático anticomunista, uma ameaça à democracia, um produto degenerado dos porões da tortura do regime militar.

O mais repulsivo nessa história é que nenhum destes neoconvertidos à liberdade admite sua participação no longo processo que culminou com a eleição de Bolsonaro. Mas são todos cúmplices. Bolsonaro é uma consequência do ódio antipetista e do ataque à democracia que eles estimularam.

Todos contribuíram de modo consciente para a radicalização política e para a disseminação do ódio que gerou o golpe branco de 2016, a prisão ilegal de Lula, a desmoralização das instituições e a histeria anticorrupção e antiesquerda que tomou conta de corações e mentes no Brasil.

Esses personagens e grupos ajudaram a eleger a aberração política que agora diariamente destroça nossos alicerces de nação livre, soberana e democrática. Jair Bolsonaro é fruto do golpe do impeachment e da operação lava-jato.

Muita gente na grande mídia e nas forças progressistas cobra autocrítica do PT. Pois bem: agora chegou a hora dos arrependidos fazerem sua autocrítica também.

Admitam e peçam desculpas pelo seu apoio ao ataque ao estado de direito, às mentiras, à judicialização da política, ao golpe do impeachment, ao estímulo ao ódio de extrema-direita, à paranoia antiesquerda. Tudo isso foi usado com o objetivo de tirar o PT do poder, mas acabou elegendo um governo fascista, miliciano e irresponsável.

Cadê a autocrítica sincera dessa galera? Cartas à redação, por favor. Quem sabe um editorial daqueles, com fundo musical, lido pelo William Bonner com voz embargada, no Jornal Nacional?

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