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sábado, 24 de abril de 2021

Somente o Sobrenatural de Almeida tira de Lula o terceiro mandato

Ascânio Seleme, Marreco Depenado e o Grande Satã

Lula parte para o terceiro mandato

Ascânio Seleme

Ao confirmar suspeição de Moro, STF reabilitou política e moralmente o ex-presidente autorizando-o a se candidatar e muito provavelmente se eleger outra vez em 2022

Aoconfirmar a suspeição do ex-juiz Sergio Moro depois de tê-lo considerado incompetente para julgar Lula, o Supremo Tribunal Federal reabilitou política e moralmente o ex-presidente autorizando-o a se candidatar e muito provavelmente se eleger outra vez em 2022. Não, não haverá tempo para que uma candidatura de centro ou centro-direita surja e cresça a ponto de superar Lula e conseguir vaga no segundo turno. Apenas João Doria pode surpreender. Luciano Huck ficou no espaço. Luiz Mandetta não se consolidou. Moro se dissolveu. E os demais pré-candidatos que apareceram neste espectro eram apenas balões que nem sequer ensaiaram uma alternativa.

A centro-esquerda e esquerda tinham Fernando Haddad e Ciro Gomes. Haddad é Lula. Ciro não deve ser páreo para um Lula que volta revigorado pelo STF. À direita o candidato será mesmo Bolsonaro? Talvez sim. Talvez não. A direita liberal pode encontrar em Lula argumentos para fugir do capitão que muito prometeu em 2018 e pouco entregou. As reformas neste governo não avançaram. Mesmo a reforma da Previdência, aprovada em 2019, foi muito mais mérito de Rodrigo Maia e da Câmara do que de Bolsonaro e do Palácio. Além disso, as constantes ameaças às instituições atrapalham o capitão muito mais do que o ajudam.

O presidente ficará com a extrema-direita, isso com certeza. Neste espaço, só resta ele. Trata-se de uma área tão árida do campo que somente olavistas convictos e puxa-sacos rematados conseguem por ela transitar à vontade. Com eles seguirá parte do eleitorado que se enrola em bandeiras do Brasil e pede o fechamento do Congresso, do Supremo. São minoria, mais velhos e saudosistas ou mais ignorantes e menos informados. Serão acompanhados também pelos que ainda olham para Lula e para o PT e só enxergam corrupção. São muitos, mas as pesquisas revelam que a maioria já percebeu que a alternativa é pior.

O cenário não deixa muita dúvida. O desgaste de Bolsonaro, que deve seguir e ser ainda ampliado pela CPI da Covid, o debilitará política e eleitoralmente, mas dificilmente a ponto de tirá-lo do segundo turno. Esta talvez seja a única forma de Lula não conquistar um terceiro mandato. Se houver um segundo turno entre ele e qualquer outro candidato que não seja o capitão, suas chances de vencer diminuem muito. Como é pouco provável que isso ocorra, Lula e Bolsonaro deverão ir para o segundo turno. E aí, antes de dizer com quem vai o eleitor, é importante observar como se guiarão as forças políticas, os partidos e seus líderes.

Mesmo os partidos que hoje apoiam o governo no Congresso terão de fazer cálculos para decidir com que seguir num segundo turno entre os dois. Se Bolsonaro não estiver muito isolado em 2022, talvez tenha uma meia dúzia de partidos coligados em sua campanha. Mas nesta contabilidade, não se pode dar por certo nem mesmo o apoio do PSL, que só existe por obra do presidente. O Centrão, de DEM, PP, MDB e outros, sabe muito bem para qual canoa deve pular se a sua estiver fazendo água. E a canoa de Lula já abrigou o Centrão antes. Os partidos que formam esta amálgama podem se dividir até o limite do primeiro turno, depois seguem com quem for vencer.

À esquerda, nenhuma dúvida. Talvez Ciro Gomes viaje outra vez a Paris, como já disse que fará na hipótese de ter como opção o PT. Ciro vai, mas o seu partido, o PDT, fica. Seus eleitores também, ou alguém imagina que na ausência de Ciro pedetistas votarão por descuido em Bolsonaro? Os demais partidos que contam, PSOL, PSB, Rede, PCdoB, devem ir com Lula já no primeiro turno. Os demais desaguarão no PT em seguida. Mesmo que Doria anteveja um provável fracasso e prefira disputar um segundo mandato em São Paulo, o PSDB deve ter candidato próprio. Mas no segundo turno não piscará ao emprestar seu apoio à Lula contra Bolsonaro.

Ninguém, a não ser as forças mais retrógradas do país, quer dar mais um mandato ao capitão baderneiro. A experiência foi desastrosa politicamente e trágica do ponto de vista sanitário. O Brasil precisa recuperar sua saúde, sua economia, sua autoestima, o prestígio que um dia teve no mundo. Estes objetivos certamente seriam alcançados, em escalas diferentes, por Doria, Ciro ou Haddad. Os três são melhores, muito melhores do que Bolsonaro, sob qualquer ângulo que se olhe, e o derrotariam num segundo turno. Mas pelo que se desenhou com a decisão do STF, caberá a Lula a tarefa.

A BELEZA DA CPI

Há muitos céticos quanto ao resultado da CPI da Covid. Tantas deram em nada e a coisa agora pode ir pelo mesmo caminho, dizem. Acho que esta não, sobretudo porque o objeto da investigação são os inequívocos malfeitos do presidente e de ministros. As que ficaram no caminho, até sem relatório final, não tinham a gravidade desta. Mesmo que fique menor do que o esperado, a beleza desta CPI é a abundância de luz que ela jogará sobre a tragédia patrocinada pelo governo Bolsonaro. De terça-feira em diante este será o assunto número 1 do país. Os olhos da Nação estarão virados para o Senado. A exposição sobre os membros da comissão será de uma grandeza solar. Qualquer bobagem será anotada. Todos os acertos serão contabilizados. A CPI é política. Seus membros também.

O QUERIDINHO

Engana bem o general Braga Netto.

No período em que comandou as forças de intervenção no Rio, em 2018, foi tratado como o queridinho da cidade por empresários, políticos e mesmo alguns jornalistas. Braga já tinha feito amigos civis em 2016, quando chefiou a segurança da Olimpíada. Aos olhos de muitos parecia um general arejado, moderno, gente dos novos tempos. Bagagem, aquilo era apenas uma fantasia que o general usou temporariamente no lugar da farda.

RESPEITO É BOM

O ex-queridinho disse no nefasto discurso feito na posse do novo comandante do Exército que “o projeto escolhido pelos brasileiros merece respeito”. Boa general, correto. O problema é que o projeto escolhido foi abandonado pelo governo que radicalizou para atender apenas aquela parcela de malucos embandeirados que vão para a rua pedir a intervenção militar. Para que serviriam os ditados se não houvessem verborragias como esta do general? Por isso, caro Braga Netto, “não merece respeito quem não se dá ao respeito”.

LIBERDADE

Além da ameaça dissimulada à CPI da Covid, o general Braga Netto voltou a falar em liberdade. Disse estarem enganados os que acreditam que podem “colocar em risco a liberdade conquistada por nossa Nação”. Se não tivesse outro destino, diria que a mensagem de Braga foi acertada,

já que o Brasil não está disposto a devolver a liberdade que conquistou quando se livrou de outros generais que tomaram o poder pela força.

DOUTOR ZERINHO

Flávio Bolsonaro botou banca. Vai advogar no Distrito Federal. Uma maravilha, gente. Seu primeiro cliente poderia ser a rede LavLev, que em Brasília tem filiais na Asa Norte, no Sudoeste, na Octogonal e no Cruzeiro.

CHAUVIN

Se o assassinato de um homem negro por sufocamento tivesse sido cometido no Brasil há um ano, o policial Derek Chauvin a esta altura já estaria de volta à ativa ou, no máximo, cumprindo alguma função burocrática numa delegacia ou num quartel. Logo após o crime, sobretudo se ele tivesse sido filmado, Chauvin seria afastado das ruas e mantido em casa ou detido no quartel, mas com remuneração garantida. Mesmo que a nossa bondosa Justiça visse dolo na ação do policial, se o assassino tivesse bons advogados, usaria os inúmeros recursos disponíveis e permaneceria na boa até o crime prescrever.

QUESTÃO DE AGENDA

Ernesto Araújo alegou ter um “compromisso inadiável” para não participar de uma live organizada na quarta-feira por olavistas notáveis, se é que isso existe. Talvez tivesse que buscar um filho no colégio ou restaurar uma obturação. Fora isso, agenda vazia.

sábado, 9 de maio de 2020

Regina Duarte, fria, insensível e debochada



Quando Regina Duarte foi anunciada como substituta do nazista demitido da Secretaria de Cultura há dois meses, muitos se equivocaram (este colunista inclusive) acreditando que o setor ganharia com sua nomeação. Afinal, era uma atriz com meio século de experiência e que conhecia muito bem a cultura nacional, suas necessidades e precariedades. O fato de ser aliada de primeira hora de Jair Bolsonaro fazia parte do jogo, não se podia esperar que o presidente chamasse Chico Buarque para o posto. Foi um engano terrível.

A entrevista que Regina concedeu aos repórteres Daniel Adjuto, Daniela Lima e Reinaldo Gottino, da CNN, mostrou o lado mais obscuro da atriz, a sua frieza e insensibilidade, o caráter tão deformado quanto o do seu antecessor Roberto Alvim. Debochada, a secretária zombou da morte, da tortura, fazendo uma dancinha patética na cadeira enquanto cantarolava “Pra Frente Brasil”, música-hino da seleção brasileira de 1970 mas que também serviu como propaganda do governo do general Emílio Médici, o mais brutal do ciclo militar que durou 21 anos.

Somente uma pessoa gelada pode tratar de tortura e assassinatos a mando do Estado como coisa natural. “Sempre houve tortura”, disse Regina. “Na humanidade, não para de morrer (gente)”, acrescentou desavergonhadamente. E depois, ridícula, perguntou “por que que as pessoas ficam oh, oh, oh (diante da morte), por que?”. A atriz não difere em nada dos trogloditas que avançam sobre enfermeiras, que agridem jornalistas, que carregam faixas pregando a volta do AI-5, a intervenção militar ou o fechamento de Supremo e Congresso.

Regina também protagonizou um episódio de incoerência explícita, atributo muito comum entre os radicais do bolsonarismo. Ao iniciar sua entrevista, disse que falava à CNN porque adora “essa ideia de dois lados”. A atriz quis sugerir que os demais veículos não dão os dois lados de uma história. Bobagem. O importante foi o que se viu mais adiante, quando a secretária produziu um faniquito ao vivo porque a emissora colocou um vídeo com Maitê Proença cobrando medidas da secretária de Cultura. Regina não quis ouvir o outro lado e chegou a tirar o fone de ouvido que usava.

Não preciso repetir aqui a confusão produzida ao vivo pela atriz ao perceber que um VT de Maitê estava entrando no ar para questioná-la. Mas é necessário lembrar um ponto pelo menos. Ao retirar o fone para não ouvir a colega de profissão, Regina cobrou dos jornalistas por terem colocado um contraditório na entrevista que ela imaginou ser propriedade sua. “Pra quê desenterrar uma mensagem da Maitê? Quem é você?”, perguntou a secretária para Daniela Lima, estufada de autoridade e claramente irada porque a emissora apresentou o que antes ela disse adorar, o outro lado.

Ontem, menos de 24 horas depois de a entrevista ir ao ar, os robôs do bolsonarismo começaram a torpedear Maitê e a CNN nas redes sociais. A emissora que entrou no ar há menos de dois meses passou a ser atacada pelos mesmos energúmenos habituais. Aqueles que confundem jornalismo com propaganda, os que só querem ler, ver e ouvir boas histórias. As ofensas foram as de sempre, mudando apenas o seu objeto. “Imprensa canalha, jornalismo comunista, CNN Lixo”. Bem-vinda ao clube.

sábado, 18 de abril de 2020

Louco ou Psicopata?



Ascânio Seleme 

Louco ou Psicopata?
Merval Pereira disse que Bolsonaro é louco. Ruth de Aquino discordou e o chamou de psicopata. Metendo minha colher no debate dos colegas, acho que não é nem uma coisa nem outra. Ele não é insano mas tampouco tem método. Bolsonaro é um perverso. Identificado por Freud em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, de 1905, o perverso mantém na vida adulta uma sexualidade infantil, edipiana. Em conflito interno permanente, ele segue uma vida aparentemente normal enquanto, ao mesmo tempo, mantém comportamentos considerados inaceitáveis pela sociedade. Só isso explica sua busca por aglomerações humanas em meio a uma pandemia.
Aliás
Bolsonaro iniciou seu discurso na posse de Nelson Teich com uma frase que só os muito amigos conseguiram entender e explicar. “Hoje é dia de alegria!”, sentenciou o presidente ao transferir o comando da saúde nacional no meio da maior crise sanitária dos últimos cem anos. Àquela hora, o Brasil já contabilizava oficialmente mais de 2 mil mortos e acima de 30 mil infectados. E ainda riu e fez gracinha com alguns convidados para só então tratar da coisa séria.

Abrir fronteiras
No mesmo discurso, o presidente reiterou seu desejo de acabar imediatamente com o isolamento social e fazer a economia reagir. A certa altura disse que era hora de reabrir as fronteiras. E indagou: “Por que a fronteira com o Paraguai está fechada? Tem que abrir”, afirmou sua excelência. Não dá, presidente. Foi o Paraguai que a fechou e, a certa altura, impediu que até mesmo paraguaios retidos no Brasil entrassem de volta para casa.

Tecnologia pra quê?
O pessoal que produz efeitos especiais digitais para redes sociais e os técnicos e engenheiros que fazem aquelas deep fakes, em que reproduzem falas falsas sobre imagens reais de pessoas com sincronia incrível, estão preocupados com o seu negócio no Brasil. É que na terra de Jair tem gente que acredita em tudo. Não importa o tamanho do absurdo ou da incoerência, para conseguir um certo conforto ideológico as pessoas não apenas levam essas baboseiras a sério como as compartilham. Pra que tecnologia?

Tudo para dar certo
Bolsonaro repetiu na quinta-feira o discurso do ministro Paulo Guedes: “O Brasil tinha tudo para dar certo”, disse salientando que a economia dava sinais de rápida recuperação. Guedes disse, há mais ou menos um mês, que a economia brasileira “estava decolando” quando foi alcançada pela megacrise do coronavírus. Será? Não era o que diziam os analistas. Aliás, o ministro da Economia já havia dito no início do governo Bolsonaro que com a aprovação da reforma da Previdência o crescimento seria bárbaro e haveria de jorrar empregos no Brasil. Pois é.

Guerra pós-corona
A vida nunca mais será a mesma. No plano pessoal, é muito possível que o isolamento social de hoje gere insegurança futura, tornando algumas pessoas mais egoístas e reservadas. Na economia, o mundo será outro. Ou você acha que as relações comercial e política dos Estados Unidos com a China voltarão à normalidade? Muito difícil, mas se ocorrer não será sob Trump. Só Biden😂 pode salvar a desgastada relação entre os dois gigantes depois do coronavírus.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Pequeno deslize


Bolsonaro, o cafajeste

Ascânio Seleme

São muitos os adjetivos que se pode usar para designar Jair Bolsonaro em razão da mais nova agressão a jornalista. Claro que o presidente atentou outra vez contra a imprensa ao atacar a repórter Patrícia Campos Mello, da “Folha de S. Paulo”. Por isso, cabe chamá-lo de autoritário e antidemocrático. É evidente que o chefe do Executivo gostaria de calar os jornalistas, e nesse caso é apropriado afirmar que ele defende a censura. Nenhuma dúvida que o capitão falava para a sua claque, o que lhe garante a designação de populista.

Bolsonaro desrespeita sistematicamente a imprensa. Se pudesse, fecharia veículos como a “Folha” ou como a TV Globo, que mereceram ataques diretos do presidente em acessos de cólera por causa de reportagens que lhe desagradaram. Também já deu inúmeros sinais de que seria capaz de empastelar um jornal, como gente igual a ele fazia num passado não muito remoto. Por essas razões, pode-se chamar Jair Bolsonaro de truculento e intolerante.

Sua ira insana contra jornais e jornalistas também estimula seguidores digitais. Seus arroubos ofensivos são multiplicados na internet e tem gente, muita gente, que aplaude e acha graça das asneiras expelidas por sua excelência. Nas redes sociais fez o sucesso rotineiro entre os mais desmiolados, que imediatamente reproduziram a estultice. Cabe, então, acusar o indigitado de incitar grosserias e ataques.

Do alto da sua prepotência, designação que também se adapta ao presidente, insultou a jornalista e assumiu para si uma ofensa mentirosa contra a sua reputação feita por testemunha de um crime eleitoral em depoimento a uma Comissão Parlamentar de Inquérito do Congresso Nacional. Por isso, Bolsonaro pode ser chamado de difamador. E também pode e deve ser processado criminal e politicamente por esse abuso.

O ataque a Patrícia Campos Mello torna Jair Bolsonaro um outro elemento tão nocivo quanto difamador, populista, prepotente, truculento, intolerante, autoritário e antidemocrático. Chamá-lo de biltre, ou classificá-lo como um indivíduo infame, desprezível e vulgar poderia parecer exagero. Mas não parece incorreto se for usado apenas o melhor sinônimo para estas palavras. Cafajeste. Somente um cafajeste teria coragem de fazer o que ele fez diante das câmeras de TV.

Em casa, seria como se um sobrinho entrasse na sala, com a tia e a avó sentadas tricotando, e proferisse uma obscenidade daquele tamanho. Cafajeste é aquele tipo de homem que se dirige às mulheres sempre de um ponto de vista de dominância sexual, como se elas fossem simples coadjuvantes do seu prazer. Um cafajeste tem na sua natureza a malícia. Faz gracinhas de caráter erótico e dá risadinhas. Algumas vezes convence. Sobretudo quando é poderoso. Na porta do Alvorada, Jair Bolsonaro arrancou vergonhosas gargalhadas de algumas das mulheres da sua claque.

Bolsonaro já fez outras. Não se esqueçam da ex-deputada Maria do Rosário (PT-RS), que ele disse que não estupraria por achá-la feia. Não se esqueçam de Brigitte, mulher do presidente Emmanuel Macron, de quem o capitão zombou pela sua idade e aparência. Não se esqueçam da sua filha Laura, que nasceu, segundo o presidente, porque ele fraquejou e não conseguiu produzir mais um homem. Não se esqueçam da deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), que segundo Bolsonaro seria mais magra se mentisse menos. Não se esqueçam da pirralha Greta.

Cafajeste não ataca homens, só mulheres, porque equivocadamente as julga mais frágeis. Patrícia Campos Mello é uma mulher muito mais forte do que o homem Bolsonaro. Tem um currículo cem vezes melhor e mais rico do que o de seu detrator. Patrícia busca a verdade. Bolsonaro foge da realidade. Na quarta, ao defender Paulo Guedes de suas gafes, disse que o ministro cometeu pequenos deslizes, como ele próprio admitiu já os ter cometido, no passado.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Pirralho


Ascânio Seleme

Segundo o porta-voz do Palácio do Planalto, a palavra usada na terça-feira pelo presidente da República para se referir à jovem ativista ambiental Greta Thunberg tem significado diferente do entendido pela imprensa. Rêgo Barros disse que “pirralha” significa “criança ou pessoa de pequena estatura”. Muito bem, valendo-se dos sentidos das palavras que estão nos dicionários ou que deles transcendem, pode-se usar o mesmo termo para designar o chefe do porta-voz.

Bolsonaro é um pirralho. Claro que ele não é uma criança, apesar de suas constantes birras e sucessivos beicinhos. Mas trata-se, sim, de uma pessoa de pequena estatura. Segundo o dicionário, a palavra estatura significa altura e porte, ou grandeza e relevância. Obviamente o presidente, a despeito do cargo que ocupa, é uma pessoa que não consegue se destacar pela sua relevância. Ao contrário, em menos de um ano no cargo transformou-se em objeto de chacota mundial.

Sua história parlamentar também retrata o percurso de um pirralho. Ele passou sete mandatos de deputado federal no baixo clero da Câmara. Fora suas grosserias rotineiras, nada do que fez ao longo de 28 anos teve qualquer relevância ou consequência política. Foi um parlamentar de pequena estatura do começo ao fim da sua carreira. Num dos momentos mais cruciais da história nacional, na votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, foi ao microfone do plenário render elogios a um torturador.

Não vale a pena enumerar os diversos episódios que provam a dimensão do presidente no seu primeiro ano de mandato. Serviria apenas para cansar o leitor. Usando unicamente a agressão à jovem ativista sueca é fácil mostrar como Bolsonaro é pequeno. Greta havia dito que “os povos indígenas estão literalmente sendo assassinados por tentar proteger a floresta do desmatamento ilegal”. E o que ele fez ao ser indagado sobre o episódio, uma vez que Greta se referia a índios guajajaras mortos no Maranhão?

“É impressionante a imprensa dar espaço a uma pirralha dessa aí”, respondeu o presidente do Brasil, com a sua habitual falta de noção.

Ontem, a jovem sueca foi premiada pela revista “Time” como “Personalidade do Ano”, uma das maiores honrarias no mundo político, econômico, científico, esportivo e acadêmico. Antes de saber da distinção dada a Greta, nossa excelência voltou a desqualificá-la em razão da sua idade. Outra vez a chamou de pirralha, repetindo o tirambaço no próprio pé. A revista americana classificou a premiação como “power of youth”, ou poder da juventude, no idioma de Jair Bolsonaro.

Aos 16 anos, Greta Thunberg é a pessoa mais jovem a ganhar a indicação da “Time” desde que o prêmio foi instituído, em 1927. Ela bateu candidatos fortes, muito fortes, como o presidente Donald Trump, a presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi, o dono do Facebook, Mark Zuckerberg, a duquesa de Sussex, Meghan Markle, a primeira negra da família real britânica, os manifestantes de Hong Kong, os curdos da Síria e as artistas e ambientalistas Taylor Swift e Jennifer Lopez.

Não é pouca coisa. A ativista foi laureada um ano e meio depois de iniciar um dos mais importantes movimentos contra o aquecimento global. Ela começou a faltar às aulas das sextas-feiras na sua escola em Estocolmo para solitariamente ir se manifestar em frente ao Parlamento sueco. Sua iniciativa em muito pouco tempo ganhou expressão internacional, culminando com a greve mundial pelo clima que levou quatro milhões de pessoas às ruas em setembro. Foi recebida pelo Papa e fez discurso para chefes de Estado na ONU.

Ao atacar uma personagem global de estatura maior que a sua, tratando-a como se fosse uma criança se metendo em assunto de adultos, Bolsonaro errou feio. Parecia não se dar conta ou não se importar com o fato de Greta estar claramente ao lado do bem, do futuro. Ao tratá-la como pirralha que não merece sua atenção, Bolsonaro posicionou-se do outro lado. E aproveitou para evidenciar mais uma vez qual é o seu patamar.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Ainda bem que não é o Carluxo

Por sorte não é o Carlos

Ascânio Seleme

‘O pensamento meu é no Brasil”. O presidente Jair Bolsonaro repete esta frase toda vez que é questionado sobre uma decisão sua que ultrapassa o limite do bom senso. Terça-feira passada foi a última vez em que “pensou no Brasil”, quando disse que estava pronto para indicar o seu filho Eduardo Bolsonaro para o cargo de embaixador nos Estados Unidos. Numa entrevista na saída do Palácio da Alvorada, onde fez uma reunião ministerial, afirmou que, se dependesse dele, a nomeação do deputado-filho seria feita.

Dois pontos chamam a atenção na entrevista. Primeiro, desde quando a nomeação de seu filho representaria um anseio da nação, ou mesmo um benefício para o país? A indicação, sob todos os pontos já analisados por juristas, diplomatas, políticos e jornalistas, representa um retrocesso para a diplomacia nacional. Mais do que isso, significa prejuízo até mesmo para o governo de Bolsonaro. Porque enfraquece o seu clã internamente, como observou o guru Olavo de Carvalho, e porque bajulação e inexperiência não fazem de ninguém um bom embaixador.

Eduardo Bolsonaro usou um boné com a inscrição “Trump 2020” durante uma visita que fez aos Estados Unidos em novembro do ano passado, quando se tornou “amigo” dos filhos de Trump. Bajulação mais explícita se desconhece na diplomacia brasileira. O Zero Três foi ainda mais longe. Imitou o presidente americano e levou o pai a anunciar a transferência da Embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. A ideia causou um mal-estar tão grande que só não resultou em perdas para o Brasil porque acabou ficando apenas no blá-blá-blá retórico, bem conhecido entre os Bolsonaro.

O outro ponto curioso da entrevista foi o fato de o presidente ter dito “de minha parte está definido”. Ora, de que outra parte depende a nomeação? O único com poder de indicar ministros e embaixadores no Brasil é o presidente. Talvez Bolsonaro tenha tentado dizer que ainda aguarda consultas que aliados poderiam estar fazendo no Senado e no Supremo sobre sua viabilidade política e jurídica. Mas pelo que se viu até aqui, só Bolsonaro fez uma consulta. Foi ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que se recusou a julgar a indicação, dizendo apenas como ela tramitaria na casa.

O líder do governo no Senado, Major Olímpio (PSL-SP), que também parece não ter ouvido ninguém, disse que a Comissão de Relações Exteriores do Senado “vai analisar a indicação tecnicamente”. Se fosse isso mesmo, o problema estaria resolvido. Zero Três não seria aprovado. Eduardo Bolsonaro, como se sabe, não é qualificado para a função. Seu nome cairia já na comissão, antes mesmo de ir para o plenário.

O presidente ainda não se deu conta da gravidade do momento que está vivendo, e chegou a fazer graça com a questão mais bizarra do episódio. Como se não fosse coisa saída da cabeça de Eduardo, disse que a polêmica do hambúrguer era tolice, até porque sabe fritá-lo melhor do que o filho. “Vai ver por isso eu sou presidente”, disse Bolsonaro, rindo. O filho havia afirmado sentir-se apto para o cargo porque morou nos EUA, fala inglês, conhece a hospitalidade do americano, é amigo dos filhos de Trump e chegou a fritar hambúrguer no estado do Maine.

O fato é que Bolsonaro já perdeu, não importa qual seja o desfecho do episódio. Se Eduardo for indicado pelo pai, aprovado pelo Senado e pelo Supremo, o deputado vira embaixador, vai embora e enfraquece o bloco monolítico familiar que ajuda a sustentar emocionalmente o presidente. Se for indicado e acabar caindo no Senado ou no Supremo, seu pai terá sofrido a mais dura derrota desde a posse, já que o rejeitado será, para lá da questão política, seu filho. Se o presidente recuar e acabar não fazendo a indicação, terá mostrado fraqueza diante de um ambiente político hostil que não teve coragem de enfrentar. E, ainda pior, terá um filho melindrado. Por sorte não é o Carlos.