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quinta-feira, 8 de outubro de 2020

O único legado de Celso de Mello é a covardia

Celso de Mello não deixa legado algum: foi decano de uma corte que permitiu o golpe e não julgou parcialidade de Moro

Joaquim de Carvalho

Celso de Mello se aposenta na próxima terça-feira sem julgar o HC sobre a parcialidade de Sergio Moro, apresentado pela defesa do ex-presidente Lula.

A matéria deve ficar para o próximo ministro, Kassio Nunes Marques, a menos que Gilmar Mendes devolva a ação antes da posse do sucessor de Celso de Mello.

Nesse caso, sem Kassio no julgamento, o resultado mais provável seria o de empate na Segunda Turma do STF — 2 a 2 —, que anularia a sentença em que Moro condenou Lula pelo caso do triplex do Guarujá e devolveria os direitos políticos ao ex-presidente.

A posição de Kassio é um incógnita.

Ele tem sofrido ataque de jornalistas simpáticos à Lava Jato justamente por suas posições contrárias ao punitivismo. É um defensor das garantias constitucionais.

Essa posição o coloca ao lado de ministros como Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski, também garantistas e que já emitiram sinais de que julgarão pela parcialidade de Moro.

Mas, como diz o ditado forense, “da cabeça de juiz, da barriga de mulher grávida e do bumbum do neném, nunca se sabe o que virá”.

O ditado é mais antigo que o ultrassom e, portanto, desatualizado. Todos podem saber com antecedência se virá da barriga da gestante um menino ou menina.

Do bumbum do neném, sempre saiu cocô.

Por que, então, o ditado ainda é usado?

Porque, efetivamente, da cabeça do juiz ainda há um mistério, porque nem sempre a decisão tem como base a lei no seu sentido estrito.

Celso de Mello é um exemplo clássico dessa verdade e, quando se coloca uma lupa em sua história no STF, soam como ingenuidade os textos escritos que antecipavam a tendência de Celso de Mello de julgar pela parcialidade de Moro.

O ministro, é certo, já votou pela anulação de uma sentença do juiz num caso decorrente do Banestado, em que mandou investigar o advogado para descobrir o paradeiro de um condenado foragido.

No caso Lula, Moro fez pior: grampeou o escritório da defesa.

Nada disso, porém, garante que Celso de Mello daria razão a Lula.

Há variáveis psicológicas que embasam decisões de Celso de Mello que, a rigor, ninguém conhece — talvez nem ele mesmo.

O ministro que, ontem, arrancou lágrimas dos colegas da Segunda Turma foi duramente criticado pelo jurista que o colocou no Supremo Tribunal Federal, há 31 anos.

“Você é um juiz de merda”, afirmou Saulo Ramos, segundo ele mesmo conta em seu livro de memórias “Código da Vida”.

Foi como Saulo encerrou uma conversa em 1990, quando Celso de Mello teria dito que votou contra uma pleito de José Sarney, apesar de entender que o ex-presidente, que o havia indicado para a corte, tinha razão.

Celso de Mello explicou que votou contra Sarney para contrariar a Folha de S. Paulo, que o havia relacionado entre os ministros que votariam a favor do já ex-presidente, pré-candidato a senador pelo Amapá.

Disse que, como foi o último a votar, Sarney já não precisava mais do julgamento favorável dele. Do contrário, teria votado a favor.

— Espere um pouco. Deixe-me ver se compreendi bem. Você votou contra o Sarney porque a Folha de S. Paulo noticiou que você votaria a favor? — perguntou Saulo.

— Sim.

— E se o Sarney já não houvesse ganhado, quando chegou sua vez de votar, você, nesse caso, votaria a favor dele?

— Exatamente. O senhor entendeu?

— Entendi. Entendi que você é um juiz de merda! Bati o telefone e nunca mais falei com ele.

Na verdade, Saulo Ramos voltaria a falar com ele 20 anos depois, por volta de 2010, quando convalescia de um câncer.

Toca o telefone. Celso de Mello, Ministro do Supremo Tribunal, queria falar comigo. Vinte anos depois. Compungido, solidário, preocupado com a crise que sofri. Não sei como ficou sabendo de minhas andanças hospitalares. Parecia sincero. Contou de sua hérnia de disco, internação no hospital de Brasília, dores, dez dias de martírio.

Fiquei comovido. Tive até vontade de deletar os capítulos em que conto nossas trombadas. Mas estaria mentindo. Odeio mentir.

Por não ter deletado os capítulos do livro sobre Celso de Mello é que podemos saber como o jurista que nasceu em Tatuí, interior de São Paulo, e se formou em direito pela Faculdade do Largo São Francisco, na USP, foi parar no STF.

Saulo Ramos era o consultor-geral da República, cargo que, depois da Constituinte, em 1988, passaria a se chamar advogado-geral da União, postos que mais tarde seriam ocupado por Gilmar Mendes e Dias Toffoli.

“Na Consultoria, eu contava com a colaboração do secretário-geral, jovem promotor público de São Paulo, José Celso de Mello Filho, requisitado para prestar serviços à Presidência da República. Talento inegável”, relatou Saulo.

“Trabalhava como poucos, fazia pesquisas jurídicas com grande facilidade e indiscutível qualidade. Memória invejável, inteligência, redação excelente, português escorreito”, acrescentou.

No final do governo, surgiu uma vaga no STF,  a quarta que seria preenchida por Sarney. Saulo defendeu a indicação de Celso de Mello.

Estava no páreo Carlos Velloso, ministro do STF e apadrinhado do então ministro da Justiça, Oscar Dias Correia.

Sarney decidiu receber Saulo e Oscar, para conversar sobre quem seria o indicado.

Saulo acredita que saiu vitorioso da reunião pelo argumento que usou: Velloso era ministro do STJ e teria outra chance de ser indicado — o que acabaria acontecendo no governo Collor.

Já Celso de Mello voltaria para o Ministério Público em São Paulo e não teria outra chance.

Oscar argumentou que ele era muito jovem — 44 anos. E Saulo respondeu: “Esse defeito o tempo corrige”.

Sarney bateu o martelo em favor de Celso de Mello. Saulo conta como deu a notícia ao afilhado:

Voltei para a minha sala, ditei para a minha datilógrafa a indicação do José Celso. Chamei-o à minha sala, estendi-lhe o papel e pedi:

— Faça uma revisão cuidadosa neste documento, porque o Presidente quer assiná-lo ainda hoje. Ele pegou o documento sem ler e saiu. Costumava andar depressa, trocando rápidos passos miúdos. Ali, ele tinha o apelido de “apressadinho”. Em alguns minutos, voltou lívido, andando devagar, aproximando-se de minha mesa lentamente. Deu a impressão de que ia desmaiar:

— Mas o Presidente está de acordo? — perguntou com voz embargada.

— Você está indicado, meu caro. Pode festejar. Hoje, beba um uísque. Brincadeira. Ele nunca sorveu uma gota de bebida alguma, além de água e café. E como tomava café!

Saulo relata que ele estava enganado quanto ao tempo corrigir o “defeito” da juventude de Celso de Mello.

— Daí para frente, Celso de Mello passou a sofrer um processo de distúrbio psicológico com relação a mim, que deve torturá-lo muito — escreveu.

É que, depois de ser chamado de “juiz de merda”, Celso de Mello passou a se opor a todas as iniciativas de Saulo Ramos.

Em um caso que envolvia o arquivamento de uma denúncia contra ACM, votou contra.

Quando ACM autorizou a CPI do Judiciário, Saulo Ramos criticou. Celso de Mello, já presidente do STF, ficou ao lado de ACM e contra a posição dos juízes.

“Se eu tivesse apoiado a bobagem do ACM, certamente Celso de Mello teria defendido o Judiciário. O erro foi meu. É preciso que o Judiciário saiba disso. E o perdoe. No fundo, no fundo, ele é um bom sujeito. E como já não estou mais advogando perante o Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello será um bom juiz até sua aposentadoria”, afirmou.

Entrevistei Celso de Mello pela primeira vez em 1992, justamente num caso em que ele estava do lado contrário ao de Saulo Ramos.

Foi no mandado de segurança apresentado por Fernando Collor no STF contra o Senado.

Collor havia sido cassado, mesmo depois de apresentar sua renúncia e, com isso, ficou proibido de disputar eleições por oito anos.

Meses antes do julgamento, Celso de Mello me disse que concederia a segurança a Collor.

Ele entendia que a renúncia é ato unilateral e, quando o Senado o condenou, ele não era mais presidente das república.

Celso de Mello foi voto vencido.

Saulo acredita que Celso de Mello pensava diferente, mas votou a favor de Collor só para não ficar ao lado dele, que defendia o Senado.

Também entrevistei Saulo Ramos algumas vezes, desde que ele foi advogado de Alceni Guerra, ex-ministro de Collor.

Uma vez, liguei para a casa dele tarde da noite, para checar uma informação crucial para uma reportagem da Veja.

Ele mesmo atendeu e comentou, meio em tom de brincadeira:

“O que aconteceu? Você está preso?”.

Saulo, que chegou a defender presos e perseguidos políticos, respondeu a todas perguntas para a reportagem.

Mais tarde, foi advogado da empreiteira OAS em processo aberto contra mim, William Waak e a editora Abril, em razão da reportagem que mostrava o caixa 2 da empresa e sua ligação com ACM — “Por dentro da mala preta de uma grande empreiteira”.

Na antessala do juiz, a advogada enviada por Saulo me procurou e comentou:

— O doutor Saulo pediu para eu te dizer que ele te admira, não é uma ação contra você.

De certa forma, pediu que eu não levasse para o lado pessoal.

Saulo Ramos e Celso de Mello sempre me chamaram a atenção pela clareza do raciocínio —inteligência mesmo — e por demonstrarem domínio sobre os assuntos tratados.

Celso de Mello, no entanto, não deixará no Supremo o legado de um bom juiz, por uma razão muito simples:

Ele foi o decano ou vice-decano da corte quando algumas das maiores violações à Constituição ocorreram. Uma delas foi o julgamento dos casos do mensalão, marcado sobretudo pela seletividade.

Outro foi fazer parte do colegiado que permitiu que uma presidente da república fosse cassada sem crime de responsabilidade.

A terceira grande violação foi não ter barrado a formação de um tribunal de exceção em Curitiba, a Lava Jato.

Em favor de Celso de Mello, pode-se argumentar que ele foi apenas um entre 11 ministros.

Mas, como o mais experiente de todos, poderia ter tido uma influência positiva ou, no casos que lhe chegaram às mãos, tomado decisões que barrassem o exercício da magistratura como atividade política, quase político-partidária.

Celso de Mello não deixará a corte como herói. Nem vilão. Ele foi humano, demasiado humano, com os seus pecados, como contou o jurista a quem ele deve grande parte do brilho de sua carreira.

domingo, 19 de abril de 2020

Bolsonaro foi para o golpismo aberto e as instituições democráticas precisam cassá-lo


As manifestações de hoje em frente a quartéis pediram, escancaradamente, a adoção de um novo AI-5, o ato que marcou o início da fase mais dura da ditadura militar.

Tudo indica que seja uma ação organizada, com uma voz central de comando.

Ao mesmo tempo em que ocorriam as manifestações, Eduardo Bolsonaro postou uma foto dele e dos irmãos Flávio e Carlos com o pai, e escreveu:

— Reunião no QG com Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Carlos Bolsonaro.

Ele não informa o endereço, mas pelas mobília vê-se que não é o Palácio do Alvorada, residência oficial da Presidência da República.  Nem o QG do Exército.

A foto, tirada por um terceiro, mostra a mesa sem toalha, milho verde e, na parede, um fuzil Parafal 7,62 milímetros com balas emoldurados, um quadro com a  frase “Old school reaça” e dois símbolos americanos.

Um deles é o quadro com as cores da Bandeira dos Estados Unidos e o ano que é considerado como o marco da nação estrangeira: 1776. O outro é uma cabeça de boi com as cores dos EUA e uma estrela no que já foi a testa de um animal.

O QG do bolsonarismo pode ser a residência de Eduardo Bolsonaro em Brasília.

O deputado federal foi quem cogitou a adoção de um novo AI-5 em entrevista a Leda Nagle, transmitida pelo YouTube, em outubro do ano passado.

Pela fala, foi denunciado ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, já que se trata da apologia da ditadura e, portanto, ataque ao estado democrático de direito, definido pela Constituição Federal.

Até agora, o Conselho não analisou a denúncia.

Ao falar de QG da família Bolsonaro no dia em que bolsonaristas pressionam por um novo AI-5, em frente a quartéis, Eduardo Bolsonaro sinaliza conexão entre os dois episódios – a reunião do clã e as manifestações.

Pouco depois da postagem de Eduardo Bolsonaro, Jair foi ao Quartel do Exército em Brasília e discursou do lado de fora, como fazia no início de sua carreira política e atiçava os praças contra seus superiores.

“Eu estou aqui porque acredito em vocês. Vocês estão aqui porque acreditam no Brasil”, afirmou. “Nós não queremos negociar nada. Nós queremos é ação pelo Brasil”, acrescentou.

De onde Bolsonaro discursou, em cima de um carro, era possível ver as faixas “Intervenção militar” e cartazes pregando o AI-5 fixadas em automóveis.

Quando chegou, os manifestantes — que estavam aglomerados e não passavam de mil — gritavam: “AI-5, AI-5, AI-5!”

Se Bolsonaro disse que acredita nos manifestantes, ele está endossando suas reivindicações e uma delas, a mais expressiva, era a decretação do ato institucional.

Bolsonaro foi para o golpismo abertamente.

Se a classe política, juntamente com as instituições do estado — que incluem o Congresso, o STF, a Procuradoria da República e até o Exército  —, não se posicionarem, Bolsonaro destruirá o que foi construído com o sangue, dor, lágrimas e luta de muitos brasileiros. Ou seja, a democracia.

Não há tempo a perder, democratas. Eduardo, por defender o AI-5, já deveria ter sido cassado. Agora não é mais Eduardo o maior problema.

É Bolsonaro, e ele tem que sair da Presidência da República.

Para aqueles que são medrosos, observe-se que o número de manifestantes era relativamente pequeno. E vejam as pesquisas: a maioria reprova Bolsonaro.

Ação, senhores!

A história ensina: Bolsonaro escancarou sua personalidade de Hitler.

.x.x.x.

Abaixo, o discurso que justifica o impeachment de Bolsonaro ou até a sua denúncia criminal perante o STF:

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

As bandeiras do momento são: impeachment, impeachment e impeachment

Impeachment de Bolsonaro: esta é a bandeira que deve ser levantada. 

Por Joaquim de Carvalho

​
Na véspera do impeachment de Collor, em 1992, os analistas diziam que o então presidente jamais cairia, por contar com número mínimo de apoio parlamentar.

Na semana em que Collor começou descer a ladeira de maneira irreversível, a revista Veja publicou uma capa desastrosa, com base naquilo que se considerava fato irreversível: Collor tinha apoio mínimo no Congresso.

Cravava que Collor manteria seu mandato, mas fraco.

No mesmo fim de semana, a IstoÉ publicou os recibos de depósitos em contas fantasmas apresentados pelo motorista Eriberto França, e a queda de Collor é que se tornou irreversível.

Antes disso, convencido de que a CPI que investigava as denúncias de corrupção não daria em nada, o senador Pedro Simon recusou a indicação de Ulysses Guimarães para ser o relator da comissão.

O posto foi ocupado por Amir Lando, um parlamentar obscuro, que havia assumido a cadeira no Senado dois anos antes, como suplente do senador Olavo Pires, que havia sido assassinado.

Digo isso a propósito das análises que estão sendo publicadas para tentar convencer o público de que o impeachment agora é bandeira sem chance de êxito.

Homens de pequena fé, alguém poderia dizer. Mas não. É apenas a consequência de quem desconhece os bastidores de Brasília e a dinâmica dos fatos, que muitas vezes, diante do imponderável, ganham vida própria.

Políticos trabalham como se pudessem controlar essa dinâmica, mas, na maioria das vezes, o que fazem é se adaptar a ela. Dizem hoje o que negaram ontem.

Há chance de Bolsonaro cair agora? Numa resposta objetiva, não. Mas ele pode cair? Sim. Do que depende? Da vontade dos políticos? Não. Depende das ruas.

Parte da elite, como mostram os editoriais do Globo, já trabalham pela saída de Bolsonaro, aparentemente convencida de que ele é ruim para os negócios. E é mesmo.

Mas o Globo não tem força para iniciar o processo que pode levar ao impeachment. Faz o diagnóstico, mas não tem coragem nem condição política para fazer a proposta. Certamente, conta que as ruas o façam.

E é para as ruas que os democratas devem se dirigir. Se não conseguirem levantar a bandeira do impeachment, que seria desejável, pelo menos podem ajudar a colocar limites em Bolsonaro e em seus apoiadores — gado, como é conhecido.

Desde 2014, essa massa de extrema direita tem agido com desenvoltura nas ruas, onde o povo democrático deveria estar.

Fez propostas que soavam absurdas, como intervenção militar, mas já conseguiram quase isso: primeiro com a intervenção no Rio, decretado no governo Temer, e agora com o Planalto ocupado por generais.

Mas muitos analistas e líderes, em vez de deixarem o povo gritar “Fora Bolsonaro”, “impeachment já”, como ocorreu na época de Collor, preferem brincar de feiticeiro, traçando estratégias de gabinete para enfraquecer o ex-capitão.

Convoque-se o general Heleno, aponta um. Aperte-se o Flávio Bolsonaro, diz outro. Pressione-se Sergio Moro.

Nesse teatro, Bolsonaro deita e rola desde que, lá atrás, já se falava em afastá-lo pelas declarações antidemocráticas.

Bolsonaro e o gado dele precisam conhecer a força das ruas, porque acham que, ali, são imbatíveis.

E as ruas só ficam cheias se houver um motivo claro, uma convocação objetiva.

Para os democratas, essa mensagem deve ser: Bolsonaro é indigno do cargo, comete crimes de responsabilidade em série, e precisa ser defenestrado.

Como?

A política encontrará o caminho. Mas o alvo ideal é: impeachment, impeachment e impeachment.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Bolsonaro se comporta como cafajeste na Presidência da República, e assim deve ser tratado



Joaquim de Carvalho

O Brasil já teve um sociólogo na presidência da república, um torneiro mecânico, um economista e um advogado que se revelou ladrão. Agora tem uma cafajeste, na definição clássica da palavra:

“Indivíduo sem refinamento no trato social, atrevido, provocador e que se veste geralmente de maneira peculiar, denotando mau gosto”, define o dicionário.

Hoje de manhã, ao falar com jornalistas, ele agrediu uma repórter da Folha de S. Paulo, Patrícia Campos Mello, autora das reportagens sobre os disparos em massa de fake por WhatsApp.

Usou o linguajar de um desqualificado, típico de um vagabundo com a barriga encostada no balcão de um bar da zona do meretrício.

“O depoimento do River”, diz ele, que olha para um assessor e pede confirmação: “River, né?” O assessor responde: “Hans River”.

“Hans River” — retoma o sujeito.

“No final de 2018, para o Ministério Público, ele diz do assédio da jornalista em cima dele. Ela queria um furo, ela queria dar um FURO (com ênfase na palavra furo)”, diz,  sob o olhar de apoiadoras, uma já velha, que riem gostosamente, também como frequentadoras de um boteco de prostíbulo.

“Ela queria dar um furo a qualquer preço contra mim”, acrescenta.

Bolsonaro também afirma que há um vídeo que seria divulgado também com revelações pesadas sobre a jornalista. “Não vou falar aqui porque tem senhora  (sic) aqui do lado.

O vídeo a que Bolsonaro fez referência seria publicado pouco depois pelo filho, Eduardo. Na fala, gravada em palestra na USP, Patrícia diz que jornalistas nunca devem revelar o voto.

“Agora eu vou dar um conselho, tipo tia velha dando um conselho, tá? Se perguntarem para vocês em quem vocês votaram, nunca respondam. Se você é jornalista, não responda isso. Fala assim: ‘Eu não revelo meu voto! Porque uma vez eu dei entrevista para alunos da PUC, em 2013. E no meio da entrevista perguntaram: Ah, e qual é seu posicionamento político? Eu falei: ‘Eu sou uma pessoa de esquerda. Eu sempre votei no PT, mas isso não influencia, eu sou imparcial, na, na, nã, nã… Bom, editaram, só ficou a primeira parte, esse vídeo viralizou, aí eu virei a patinha do PT, que fez a matéria para derrubar o Bolsonaro.”

Não há nada demais na fala de Patrícia — como, a rigor, não é nenhum pecado revelar posicionamento político.

O primeiro âncora da TV, Walter Cronkite, da CBS, era simpático aos  republicanos, e chegou a ser cotado para disputar a presidência pelo partido, depois de comparecer como convidado a uma convenção republicana.

Jornalistas são cidadãos como quaisquer outros, mas que, em geral, sabem isolar convicções pessoais no exercício da atividade profissional. Não são neutros, porque isso é impossível, mas devem ter compromisso com fatos, com a interpretação a mais honesta possível desses fatos.

Por exemplo, um jornalista botafoguense é capaz de fazer um análise honesta de um jogo do Flamengo, e vice-versa.

De que adiantaria Patrícia esconder como vê o mundo, manter em segredo que enxerga nas propostas de esquerda o caminho mais adequado para a evolução social em um país tão atrasado como o Brasil?

Os bolsonaristas inventariam qualquer coisa, como inventam agora, apenas para desestabilizá-la emocionalmente.

É o que ensina o guru dessa gente, Olavo de Carvalho, autor do prefácio de Como Vencer Um Debate Sem Precisar Ter Razão, de Arthur Schopenhauer.

Segundo o autor, argumentos racionais não devem ser usados em debate político ou acadêmico. Uma das estratégicas de Schopenhauer, endossada por Olavo de Carvalho, é:

“Atacar o adversário pessoalmente, com grosseria e agressividade, quando o debate se mostra de todo perdido.”

É a escola da cafajestagem, elevada a seu grau máximo na pessoa de Bolsonaro, ocupante indigno da cadeira de primeiro mandatário do país.

Se Bolsonaro mostrou que se comporta como cafajeste na Presidência da República, a imprensa corporativa, apoiadora do plano de Paulo Guedes, tem se mostrado sem-vergonha.

Hoje, depois de ofender Patrícia Campos Mello e diante da repercussão da sua fala, Jair Bolsonaro ainda tripudiou sobre os repórteres que ficam no curralzinho na saída do Alvorada.

“Alguém da Folha de S. Paulo aí? Alguém da Folha de S. Paulo aí? Eu agredi uma repórter da Folha de S. Paulo aí? Parabéns à mídia”, disse ele, antes de dar as costas diante de repórteres que imploravam por respostas.

Está na hora de discutir seriamente boicote à cobertura do presidente, que é um trabalho insalubre.

É difícil chegar a um consenso desse tipo — no governo de João Figueiredo, fotógrafos colocaram a máquina no chão quando o ditador desceu a rampa do Planalto.

Foi o protesto possível que a imprensa organizou naqueles anos. Difícil que se repita, mas é necessário que se comece essa discussão.

Só os muito ingênuos imaginariam que o trabalho jornalístico com Bolsonaro na presidência seria fácil.

Afinal, o Brasil nunca teve antes um cafajeste na Presidência da República.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Ciro Gomes é uma caricatura de Bozonaro

Ciro Gomes se transformou na caricatura de Jair Bolsonaro: bate em Lula e no PT para ocupar espaço na mídia. 

Por Joaquim de Carvalho

Há duas semanas, quando esteve em Fortaleza na Caravana Lula Livre, Fernando Haddad publicou uma foto com Ciro Gomes e comentou: “Revi meu amigo”.

Ciro Gomes devolveu a gentileza de Haddad com uma frase amarga, dita em entrevista que a BBC Brasil está publicando hoje.

“O Haddad é uma fraude cuja origem eu denunciei ancestralmente, porque foi transformado num vice, convidou a Manuela para ser um terceiro não sei de quê de uma candidatura do Lula”, disse ele.

É impossível explicar a frase de Ciro Gomes pela lógica da política — com declarações como esta, ele não conquista apoio entre os 47 milhões de eleitores que votaram em Haddad no segundo turno das eleições de 2019.

Também não ocupa espaço no campo da direita, congestionado pelas candidaturas de Bolsonaro, João Doria e Sergio Moro, além de Luciano Huck, que corre por fora.

O ressentimento explica o comportamento de Ciro Gomes. Mas não só.

Ciro Gomes certamente sabe que a única maneira de conquistar espaço na mídia é dando o que ela quer: uma língua para bater no PT e no seu ex-candidato.

Ciro Gomes não tem mandato, não ocupa cargo público, não preside partido, não tem ocupação profissional conhecida. Na entrevista à BBC, ele disse que é advogado e dá palestras.

Diz que seu partido quer que seja candidato a presidente em 2022. Até lá, toca a vida e, para não ser completamente esquecido, dá entrevista.

E para que ela tenha alguma repercussão, bate no PT. E agora bate abaixo da linha da cintura. Não só contra Haddad, mas contra Lula. O que ele disse:

“O Lula se corrompeu. Desculpa, é doído dizer isso, mas o Lula se corrompeu. Ele virou sabe o quê? Um caudilho sul-americano. É o culto à personalidade. Toda a agenda do país agora é refém do egoísmo do Lula.”

No TRF-4, onde um cartel confirmou a condenação de Moro, a frase de Ciro Gomes deve ter sido recebida com brindes de taça de espumante.

Lá, em janeiro de 2018, se disse algo parecido.

É uma colocação injusta.

Se fosse caudilho, Lula teria se deixado seduzir pela tentação do terceiro mandato em 2010, com a repetição do que Hugo Chavez fez na Venezuela e Evos Morales, na Bolívia.

Se fosse caudilho, Dilma Rousseff não teria sido candidata à reeleição em 2014, já que era grande o número de pessoas que queriam que ele concorresse à presidência.

Aos que o procuravam, inclusive grandes empresários, Lula dizia que só seria candidato se Dilma dissesse que abriria mão da reeleição.

“É direito dela se candidatar”, disse mais de uma vez.

Se fosse caudilho, Lula não teria nomeado adversários ideológicos para o Supremo Tribunal Federal.

Se fosse caudilho, teria feito como Bolsonaro e ignorado a lista tríplice da Associação Nacional da Procuradoria da República para a indicação do chefe do Ministério Público.

Um caudilho não daria autonomia à Polícia Federal.

Lula pode ser criticado por várias razões, inclusive por excesso de republicanismo.

Pode ser criticado também por não ter instituído sob seu governo a tributação sobre lucros e dividendos, como lembra Ciro na entrevista — nesse ponto, ele está certo.

Mas acusá-lo de caudilhismo — ainda que o termo não seja necessariamente pejorativo — é desonesto.

Lula não impôs sua liderança — até porque isso não é possível.

Ele conquistou espaço com uma estratégia inteligente, gestada desde que era líder sindical.

Empenhou-se na fundação de um partido, de uma central de trabalhadores e ocupou espaço gradativamente, crescendo de baixo para cima.

Queria chegar à presidência, como Ciro Gomes, mas se colocou como produto de um projeto coletivo.

É isso que Ciro Gomes e outros políticos profissionais não perdoam: Lula está conectado a raízes sociais como nenhum outro líder no Brasil.

E é por isso que, mesmo preso, continua com apoio no mundo todo e conta ao lado do cárcere com uma vigília que talvez seja a mais longa da história.

Atacar Lula por sua liderança, na tentativa de desqualificá-lo, não levará Ciro Gomes a lugar nenhum.

Ou melhor, a um ponto apenas:

Com esse espaço na mídia, no futuro ele terá de disputar com Jair Bolsonaro o posto de quem xinga mais o ex-presidente, que concluiu seu mandato com índice de aprovação jamais visto no país: 87% de brasileiros consideraram sua gestão ótima ou boa.

Deve ser doído para outros políticos encarar um fato destes.