Mostrando postagens com marcador Luiz Gonzaga Belluzzo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Luiz Gonzaga Belluzzo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 24 de março de 2020

O PIB brasileiro pode cair mais de 10%

Crise pode ser mais grave do que a de 1929, diz Belluzzo

Brasil 247
"Bolsonaro não em condições de ser presidente da República. Ele não entende nada do mundo em que está vivendo", diz ainda o economista
Do Tutaméia – O capitalismo como o conhecemos a partir do final da Segunda Guerra Mundial não seguirá sendo o mesmo. A crise atual será maior do que a de 1929. O PIB brasileiro pode cair mais de 10% neste ano se medidas drásticas não forem tomadas. Medidas que sustentem a renda e progressivamente procurem rearticular as cadeias de fornecimento e produção. O contrário do que está fazendo o governo. A visão é do economista Luiz Gonzaga Belluzzo em entrevista ao TUTAMÉIA. “É preciso fazer o keynesianismo além do Keynes”, diz.

Belluzzo ataca a medida provisória contra os trabalhadores anunciada pelo governo. “É uma insensatez, um atentado contra a razão humana. Se fosse aprovada, determinaria um agravamento da crise certamente. Iria enfraquecer a demanda global, na contramão de todas as medidas que estão sendo tomadas fora do Brasil. O atraso mental e intelectual do Paulo Guedes está influenciando de maneira decisiva, porque o presidente não entende de nada. Ele só entende de dizer baboseiras. Foi forçado a recuar porque sentiu o peso da reação”, afirma.

Para ele, “não só os trabalhadores seriam prejudicados; mas também os pequenos e médios empresários, as empresas em geral. E acaba batendo nos bancos, porque os bancos não conseguem receber o serviço da dívida que está atrelada aos empréstimos que fizeram às empresas. É um problema sistêmico. Não é possível você pensar como, desculpe a expressão, como cagada de bode. Por pedacinhos. É  que eles não pensam nas integrações, articulações da economia. Do ponto de vista do conjunto da economia, vai causar mais danos para as empresas do que benefício. O Estado tem que fazer uma intervenção muito dura. Veja o que está acontecendo nos EUA. Bolsonaro não em condições de ser presidente da República. Ele não entende nada do mundo em que está vivendo. Devia fazer uma consulta com o Trump”, declara.

Leia a íntegra no Tutaméia e confira o vídeo:

terça-feira, 10 de março de 2020

O coronavírus e a economia



Abster-se de gastos em uma depressão é desperdiçar homens e máquinas e aumentar a miséria humana

A pandemia do coronavírus aplacou as exuberâncias das Bolsas de Valores no mundo inteiro. Logo após o anúncio da disseminação do bicho, os mercados de ações dobraram os joelhos urbi et orbi.

Os bancos centrais anunciaram providências. Na segunda-feira 2 de março os mercados comemoraram, os índices responderam com expressivas saudações de alívio. Já na terça-feira 3 de março, o Federal Reserve de Jerome Powel tascou uma redução de 0,5% na policy rate americana. As Bolsas recuaram.

“Eles estão empurrando a corda”, disse o veterano investidor de mercados emergentes Mark Mobius em uma entrevista à Bloomberg TV. “O problema não se reduz às taxas de juro, já muito baixas globalmente. O problema maior é a cadeia de suprimentos abrigada na China.” Os mercados vão piorar, “a menos que a China possa aumentar a produção”, disse ele.

“Empurrar a corda” é uma metáfora keynesiana que pretende apontar a ineficácia da política monetária para estimular a economia e seus mercados em momentos de grande incerteza. Em 1995, a economia japonesa curtia uma deflação braba. Lá estava o economista-chefe da Jardine Fleming Securities, Richard Werner. Assustado com a persistência da deflação, com a velocidade de tartaruga da economia, Werner recorreu à metáfora keynesiana.

“Como Keynes apontou na década de 1930, ao cunhar a metáfora da corda, em um ambiente deflacionário quando as taxas de juro reais estão se aproximando de zero, a visão convencional da política monetária é impotente.” O Banco do Japão empurrou a corda sem sucesso por vários anos: a taxa básica atingiu um patamar histórico de 1%. No entanto, a economia não dava sinais de vida. Werner argumenta que o enrosco não decorria do “preço do dinheiro”, pois as taxas de juro estavam no chão. O problema, diz ele, era a “quantidade de dinheiro”.

Até mesmo um observador desatento da crise de 2007/2008 poderia se espantar com a “quantidade de dinheiro” despejada pelos bancos centrais – mais de 22 trilhões de dólares – para salvar os “mercados” apavorados com as consequências de suas próprias insanidades. O dinheiro sobra, mas poder aquisitivo, ou seja, o gasto, continua modorrento. O cacau circula nas altas esferas da finança e recusa-se a baixar à terra onde habitam homens e mulheres.

A economia só volta a funcionar embalada pelo dispêndio de empresas, famílias e governo. Depois da Grande Recessão de 2007/2008 foram mais bem-sucedidas as políticas econômicas que injetaram renda monetária na economia. Os Estados Unidos puxaram a fila. Cresceram mais que os europeus, a despeito do aumento da desigualdade e da precarização nos mercados de trabalho.

Devo relembrar a mensagem enviada por Keynes a seus amigos americanos em 1934: “Quando me deparo com a questão do gasto, imagino que ninguém de senso comum duvidaria do que vou dizer, a menos que sua mente tenha sido embaralhada anteriormente por um financista de escol ou um economista ortodoxo. Nós produzimos a fim de vender. Em outras palavras, nós produzimos em resposta aos gastos. É impossível supor que nós possamos estimular a produção e o emprego, abstendo-nos de gastar. Então, como eu disse, a resposta é óbvia”.

Mas, em um segundo olhar, vejo que a questão tem sido encaminhada para inspirar uma dúvida insidiosa. Para muitos, gasto significa extravagância. Um homem que é extravagante logo se torna pobre. Como, então, uma nação pode tornar-se rica fazendo o que empobrece um indivíduo? Esse pensamento desnorteia o público.

No entanto, um comportamento que pode fazer um único indivíduo pobre pode fazer uma nação rica. Quando um indivíduo gasta, ele não afeta só a si mesmo, mas outros. A despesa é uma transação bilateral. Se eu gastar minha renda para comprar algo que você pode fazer para mim, eu não aumentei minha própria renda, mas aumentei a sua. Se você responder comprando algo que eu posso fazer para você, então minha renda também é aumentada.

Assim, quando estamos a pensar na nação como um todo, devemos ter em conta os resultados como um todo. O resto da comunidade é enriquecido pela despesa de um indivíduo. Sua despesa é simplesmente uma adição à renda de todos os outros. Se todo mundo gasta mais, todo mundo é mais rico e ninguém é mais pobre. Cada homem beneficia-se da despesa de seu vizinho, e as rendas são aumentadas na quantidade exigida para fornecer os meios para a despesa adicional.

Há apenas um limite para que o rendimento de uma nação possa ser aumentado desta forma: o limite fixado pela capacidade física de produzir. Abster-se de gastos em um momento de depressão, não só falha, do ponto de vista nacional, como significa desperdício de homens disponíveis e desperdício de máquinas disponíveis, para não falar da miséria humana.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

O sonho americano sucumbe diante da destruição do valor do trabalho


Entre 1973 e 2010, o rendimento do 1% mais rico triplicou. Dos 99% aumentou só 10%

CartaCapital - Luiz Gonzaga Belluzzo
Quase metade dos trabalhadores dos EUA com idade entre 18 e 64 anos labuta em empregos de baixa remuneração
Dias antes do feérico pronunciamento de Donald Trump em Davos, o jornal The New York Times publicou um texto comovente do articulista Nicholas Kristof. Da boca e garganta de Trump ribombaram celebrações do desempenho da economia dos Estado Unidos. Da pena de Kristof ecoam lamentos e lamúrias dos habitantes de Yamhill, uma pequena cidade do Oregon. A história de Kristof recua para a década de 70 do século passado e registra a algazarra que reinava diariamente no ônibus escolar no 6. Nick viajava todos os dias na companhia de seus vizinhos da família Knapp, Farlan, Zealan, Rogena, Nathan e Keylan. Filhos da classe trabalhadora, os meninos e meninas sonhavam “em meio a travessuras, bravatas e otimismo”.

O pai dos meninos tinha um emprego firme e bem remunerado como instalador de dutos. A família explodiu em felicidade quando adquiriu a casa própria e a alegria foi intensa no dia em que Farlan ganhou um Ford Mustang ao completar 16 anos. 

“Hoje, cerca de um quarto das crianças do ônibus no 6 estão mortas, vitimadas por drogas, suicídio, álcool ou acidentes causados por imprudência. Dos cinco filhos da família Knapp, Farlan morreu de insuficiência hepática por bebida e drogas, Zealan queimado até a morte em um incêndio em casa, desmaiado e bêbado, Rogena morreu de hepatite ligada ao uso de drogas e Nathan explodiu-se ao cozinhar metanfetamina. Keylan sobreviveu porque passou 13 anos em uma penitenciária estadual.”

As outras crianças no ônibus não tiveram destino melhor. “Mike suicidou-se, Steve morreu em um acidente de moto, Cindy de depressão que culminou em um ataque cardíaco, Jeff de um acidente de carro, Billy de diabetes na prisão, Kevin de doenças relacionadas à obesidade, Tim de um acidente em trabalhos de construção, Sue de causas indeterminadas. Chris é dado como morto, depois de anos de alcoolismo e sem-teto. Ao menos mais um está na prisão, e outro é sem-teto.”

A pequena Yamhill não é uma exceção na vida contemporânea dos Estados Unidos. As assim chamadas “mortes por desespero” assumiram dimensões assustadoras. Os suicídios apresentam a taxa mais elevada desde a Segunda Guerra. As defunções por abuso de drogas, sobretudo opioides, atingiram índices alarmantes. “O significado da vida para a classe trabalhadora parece ter evaporado”, disse Angus Deaton, economista engalanado com o Prêmio Nobel e autor da expressão Morte por Desespero. Nos rastros da alegria barulhenta e esperançosa do ônibus no 6 restaram as mortes por álcool, drogas e suicídio.

Kristof atribui a avalanche de desgraças individuais à desintegração da classe trabalhadora americana. “Empregos perdidos, famílias quebradas, melancolia – e políticas fracassadas. O sofrimento dos menos favorecidos era invisível para os ricos, mas agora os bilionários aparentam preocupação com os rumos dos Estados Unidos.”

A Faculdade de Direito da Universidade Cornell publicou recentemente um estudo a respeito das mutações no mercado de trabalho local. O propósito da investigação é construir um índice de qualidade dos empregos oferecidos pelo setor privado desde a Segunda Guerra (The U.S. Private Sector Job Quality Index). 

O Job Quality Index destina-se a avaliar – em uma base mensal – em que medida os empregos criados nos Estados Unidos correspondem às expectativas dos trabalhadores. O critério adotado compara as vagas que oferecem uma relação salários/horas trabalhadas inferior à desejada com as ocupações que ensejam uma relação satisfatória, ou seja, maior salário, mais horas trabalhadas. Não é difícil descobrir a predominância dos empregos de poucas horas e baixos salários.

Relatório publicado em novembro de 2019 pela Brookings Institution constata que 44% dos trabalhadores americanos com idades entre 18 e 64 anos (em um total de 53 milhões) labutam em empregos de baixa remuneração, com uma renda média anual de apenas 17.950 dólares. Se elevarmos o sarrafo para além dos 64 anos, esses 53 milhões vão sofrer a companhia dos trabalhadores mais velhos, cujo contingente cresce rapidamente.

Os mais idosos voltam ao trabalho por não conseguirem custear as despesas de alimentação, moradia, transporte e saúde quando se aposentam (colapso da poupança pessoal, pensões mínimas e aumento da idade de aposentadoria). Deve-se, portanto, adicionar ao menos outros 5 milhões obrigados a voltar ao mercado de trabalho. Esse contingente de 58 milhões que trabalham em tempo parcial, em contratos de muito curto prazo ou temporários e que ganham 8 dólares por hora, provavelmente compõe a maioria dos americanos que não receberam aumentos salariais no ano passado.

Assim como no caso de seus antecessores, o ciclo de expansão comemorado por Trump fracassa miseravelmente no atendimento das promessas mais caras ao american dream: crescimento da renda e geração de empregos estáveis e bem remunerados.

Muitos compraram a versão da “responsabilidade pessoal” que atira às costas dos indivíduos a culpa por serem pobres. Nesse diapasão liberal, classes trabalhadoras e remediadas nos Estados Unidos ziguezagueiam entre os fetiches do individualismo e as realidades cruéis do declínio social e econômico. A individualização do fracasso não consegue mais ocultar o destino comum reservado aos derrotados pela desordem do sistema social. Na American Business Roundtable de 2019, os bacanas das grandes corporações bateram no peito para purgar os pecados que porventura tenham cometido em nome da eficiência que redundou em baixas remunerações dos trabalhadores e na maximização do “valor do acionista”. O mercado de ações bate recordes, mas a classe trabalhadora prossegue na dura batalha pela sobrevivência.

Joseph Stiglitz reconheceu que a declaração em prol do bem-estar das demais partes interessadas – trabalhadores, fornecedores, clientes – repercute um mal-estar com os desequilíbrios de poder e desigualdade na distribuição de renda. Assinado na mencionada reunião do ano passado por praticamente todos os parrudos integrantes da Mesa-Redonda, o mea-culpa causou grande agitação nos mercados. Desconfiado, o economista recomendou cautela diante das boas intenções dos executivos. “Teremos que esperar para ver se a declaração recente da American Business Roundtable a respeito da governança corporativa com base na primazia dos acionistas é para valer ou meramente um golpe publicitário. Se os CEO mais poderosos da América realmente acreditam no que dizem, apoiarão reformas legislativas abrangentes.”

Nos Estados Unidos, entrou em voga nos anos 80 a “economia da oferta” e sua filha dileta, a curva de Laffer, que preconizavam a redução de impostos para os ricos “poupadores” e empresas. Os adeptos da supply side economics decretaram a ineficácia dos sistemas de tributação progressiva da renda, que, segundo eles, promoviam o desincentivo à produção e à poupança geradora de novo investimento. A macroeconomia de Ronald Reagan defendia a tese do “gotejamento”: as camadas trabalhadoras e os governos receberam os benefícios da riqueza acumulada livremente pelos abonados empreendedores sob a forma de salários crescentes e aumento das receitas fiscais.

A enrolação do gotejamento não entregou o prometido. A migração da grande empresa para as regiões de baixos salários, a desregulamentação financeira e a prodigalidade de isenções e favores fiscais para as empresas e para as camadas endinheiradas não promoveram a esperada elevação da taxa de investimento e, ao mesmo tempo, produziram a estagnação dos rendimentos da classe média para baixo, a persistência dos déficits orçamentários e o crescimento do endividamento público e privado. A procissão de desenganos foi acompanhada da ampliação dos déficits em conta corrente e da transição dos Estados Unidos de país credor para devedor. A crise da classe média não é fruto da Grande Recessão, iniciada em 2008, mas um fenômeno de longo prazo. De 1973 até 2010, o rendimento de 90% das famílias americanas cresceu 10% em termos reais, enquanto os ganhos dos situados na faixa dos super-ricos – a turma do 1% superior – triplicaram. Pior ainda: a cada ciclo a recuperação do emprego é mais lenta e, portanto, maior é a pressão sobre os rendimentos dos assalariados.

Os lucros foram gordos para os senhores da finança e para as empresas empenhadas no outsourcing e na “deslocalização” das atividades para as regiões de salários “competitivos”. Barack Obama e seus economistas salvaram Wall Street da derrocada financeira, mas não responderam às demandas da maioria dos americanos atormentados pelas perspectivas de um crescimento pífio do emprego e dos salários. A lenta recuperação da economia não consegue oferecer aos seus cidadãos soluções críveis para atenuar as desgraças da anomia social e da destruição dos nexos básicos da sociabilidade, inclusive os familiares.

Mobilidade do capital financeiro e, ao mesmo tempo, centralização do capital produtivo à escala mundial. Essa convergência suscitou os surtos intensos de demissões de trabalhadores, a eliminação dos melhores postos de trabalho, a maníaca obsessão com a redução de custos.

Não se trata de nenhuma inevitabilidade tecnológica. Foram, de fato, gigantescos os avanços na redução do tempo de trabalho exigido para o atendimento das necessidades, reais e imaginárias, da sociedade. Mas os resultados mesquinhos em termos de criação de novos empregos e de melhora das condições de vida só podem ser explicados pelo peculiar metabolismo das economias capitalistas, sob o império da competição desbragada e das finanças globais desreguladas. 

terça-feira, 4 de junho de 2019

Quintuplica a porcentagem de idosos falidos nos Estados Unidos



Os professores Deborah Thorne, Pamela Foohey, Robert M. Lawless e Katherine Porter publicaram recentemente o estudo A Falência dos Aposentados nos EUA: A Vida em Uma Sociedade de Risco.

O estudo demonstra de forma cabal e insofismável que a rede de segurança social para os norte-americanos mais velhos encolheu nas últimas décadas. Para não maltratar a excelente introdução da pesquisa, em muitos parágrafos vou reproduzir quase ipsis verbis a argumentação dos autores.

Para começar, abro aspas: “Os riscos associados ao envelhecimento, redução da renda e aumento dos custos de saúde têm sido descarregados no lombo dos aposentados”. Os velhos aposentados estão cada vez mais propensos a buscar a proteção da falência pessoal (personal bankrupcy), uma instituição inexistente no Brasil.

Os dados obtidos pelos professores comprovam que, desde 1991, dobrou a taxa anual de ingresso de idosos nos processos de falência e quase quintuplicou a porcentagem de idosos (mais de 65 anos) em situação de falência pessoal. A velocidade do crescimento das falências na população idosa é de tal ordem, diz o estudo, que fatores demográficos, como a expectativa de vida, explicam apenas uma parte modesta do fenômeno.

“Nossos dados constataram que os fatores predominantes estão associados aos riscos financeiros, ou seja, rendimento insuficiente e aumento incontrolável dos custos dos cuidados com a saúde.” Como resultado, aumentaram os encargos financeiros: entre os idosos que recorreram à falência pessoal, a mediana do patrimônio líquido acusa uma posição negativa de 17.390 dólares, em comparação com mais de 250 mil positivos para seus pares não falidos.

A história dos Estados Unidos registra um longo período de desprezo pelos mais velhos, vistos como párias. Muitos passaram seus últimos anos sem abrigo ou em um asilo igualmente horrível.

No início do século XX, as atitudes para com os norte-americanos mais velhos mudaram e os riscos da velhice diminuíram. Em vez de descartá-los, começou-se a aceitar o bem-estar do idoso como uma responsabilidade coletiva. Franklin Delano Roosevelt entregou o Social Security Act em 1935. O Social Security Act fortaleceu o consumo de massa ao proteger os mais débeis dos problemas criados pela insegurança econômica. A elevação da carga tributária e o caráter progressivo dos impostos transferiram renda dos mais ricos para os mais pobres e remediados. A rede de segurança social para os idosos evoluiu para incluir na segurança social o Medicare, o Medicaid e a pensão de benefício definido. Consequentemente, o envelhecimento tornou-se uma condição de risco mitigado.

A preocupação nacional com o bem-estar dos mais velhos retrocedeu a partir do início da década de 1980. Conservadores, defensores do livre-mercado e a mídia promoveram a imagem dos velhos como “uma ameaça à viabilidade econômica”, como ladrões de nossos filhos e como os “responsáveis por problemas econômicos da nação”. (Certamente, os atentos leitores de CartaCapital perceberam que qualquer semelhança com a argumentação tosca das autoridades e comentaristas midiáticos brasileiros não é mera coincidência.)

Em apenas algumas décadas, as normas de responsabilidade individual – o regime de capitalização – suplantaram o ideal do sistema de solidariedade social. Riscos financeiros foram descarregados nos indivíduos, independentemente da idade. Muitos norte-americanos mais velhos sofreram muito por causa desse movimento em direção à “responsabilidade privada”, com a sua segurança social, aposentadoria e cuidados de saúde, entre outras proteções, sob ataque.

Uma pesquisa realizada em 2011 pelo Public Policy Institute revela: na crise financeira de 2008 e nos anos posteriores, os norte-americanos enfrentaram o encolhimento das contas individuais de poupança, as 401K, destinadas a prover sua aposentadoria. Em uma amostra de 5.027 homens e mulheres, apenas 8,9% dos entrevistados constataram uma recuperação do valor dessas aplicações para o nível anterior à crise. Quase metade, ou 49,3%, começa a se recuperar das perdas impostas pela crise financeira e 41,4% não se recuperaram dos prejuízos incorridos pela queda dos preços das ações e ativos tóxicos com classificação AAA. Posteriormente, foram afetados pela redução dos rendimentos nanicos dos títulos de dívida pública e privada.

Os motivos alegados nos tribunais de falência sugerem que os idosos sofrem as consequências da sociedade de risco individualizado e o correspondente do encolhimento de sua rede de segurança social.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Por que a Direita deposita na Família o dom de civilizar


Luiz Gonzaga Belluzzo
As forças subterrâneas do inconsciente coletivo movem manifestações de insanidade gregária travestidas de ações da sociedade civil
Uma das marcas registradas do pensamento conservador, o novo e o velho, é a convicção da bondade natural do indivíduo criado na família. Só a família torna o indivíduo capaz de discernir entre o justo e o injusto, o certo e o errado. A sociedade e as instituições, pelo contrário, são corruptas e corruptoras.

Não são outros os fundamentos da ideologia da direita brasileira. Atolada no neopentecostalismo, esse aglomerado está convencido da excepcionalidade de suas virtudes. Para essa turma, os compromissos típicos da democracia são obstáculos para a realização da “verdadeira justiça”, aquela que, desde a concepção, Deus gravou no coração dos homens. Deus acima de tudo!!!

As instituições da sociedade, sobretudo o Estado, com suas instâncias de controle, suas leis ambíguas e seus métodos de punição insuficientemente rigorosos, vão transformando a Justiça numa farsa, num procedimento burocrático e ineficaz. Não por acaso, são tão bem esculpidas nos corações e nas mentes dos homens bons as figuras do policial e do magistrado justiceiro, aquele destemido que se desembaraça das limitações dessas instituições corruptas e corruptoras para se dedicar à limpeza do país. A sociedade está suja, contaminada pelo vírus da tolerância. Só o herói solitário pode salvá-la, consultando sua consciência, recuperando, portanto, a força da moral “natural”, aquela que Deus infunde no coração de cada homem.

Peter Gay, um dos biógrafos de Freud, incita os pensadores da sociedade a considerar as relações entre biografia individual e cultura na sociedade de massas: “Os estudiosos da sociedade, sem excluir os escritores imaginativos, têm certamente sabido há bastante tempo que, em grupos, os indivíduos podem retornar a estados primitivos da mente, sujeitar a sua vontade a líderes, desconsiderar restrições e o ceticismo sensível que a educação cultivou neles tão dolorosamente”.

Nos últimos anos, os “homens bons” não se cansaram de disseminar, em seus tuítes e congêneres, as consignas que moveram os batedores de panelas: “bandido bom, é bandido morto” ou “direitos humanos, só para os humanos direitos”.

As forças subterrâneas do inconsciente coletivo movem campanhas de opinião que apelam para medidas extremas. São manifestações de insanidade gregária, travestidas de ações da sociedade civil, em cujos becos e desvãos escuros, aliás, se acumula a energia que alimenta a onda de violência que atinge a todos.

Nas manifestações dos moralistas transcendentais, vejo a autoconvocação dos soi-disant iluminados para substituir a onisciência divina e, nessa condição, desferir sentenças irrecorríveis, como as desferidas pelos juízes do Juízo Final, em contraposição aos humanos, os pobres-diabos que se debatem para sobreviver aos ditames da falibilidade e da incerteza.

Esses processos identitários de trágico desfecho no mundo dito civilizado reaparecem no Brasil etiquetados com as marcas da conhecida matreirice nativa. A matreirice circula livremente nas veias dos brazucas abonados, remediados e outros nem tanto.

Pois, o deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro não trepidou em celebrar os bons e justos que ainda sobrevivem e resistem em nossa sociedade corrupta. Informa a imprensa degenerada que Flávio propôs uma menção de louvor e congratulações ao então capitão da Polícia Militar Ronald Paulo Alves Pereira “pelos importantes serviços prestados ao Estado do Rio de Janeiro” em 2004. Hoje major, Ronald Paulo Alves Pereira foi preso, na manhã da terça 22, na operação “Os Intocáveis”, acusado de ser um dos líderes de uma milícia na capital carioca.

Não bastasse o gesto de reverência a um policial envolvido com criminosos que deveria combater, Flávio Bolsonaro invadiu o perigoso terreno da promiscuidade ao contratar a mãe e a mulher de outro miliciano, Adriano Magalhães da Nóbrega, para prestar serviços em seu gabinete. O senador Bolsonaro descarregou às costas do assessor Queiroz a responsabilidade pela contratação das senhoras Nóbrega. “A curpa é do ténico”, já acusava o sambista da pauliceia, Adoniran Barbosa, em uma de suas ironias de saudosas malocas.

Fossem vivos, Stanislaw Ponte Preta ou Millôr Fernandes não perderiam vaza para reinterpretar os lemas dos paneleiros. Não tenho a presunção de mimetizar o talento dos dois humoristas geniais, mas imagino que poderiam sugerir a substituição de “bandido bom é bandido morto” por “bandido bom é bandido nosso”. Os fatos imputados permitem suspeitas, mas suspeitas exigem comprovação. Há quem possa temer a repetição de convicções apoiadas em exibições de PowerPoint.

Para escapar às trevas que infestam as crenças e convicções dos Dallagnóis da morte, peço asilo na vida de minhas suspeitas laicas. Elas insistem em repetir: a sociabilidade moderna move-se entre a inevitável pertinência a uma cultura produzida pela história e a pluralidade dos indivíduos “livres”. A história dessas sociedades “produziu” o mercado, a sociedade civil, suas liberdades, seus interesses e seus direitos.

Essa forma de sociabilidade rejeita a autoridade da “ordem revelada” ou transcendências, religiosas, políticas (pseudorrevolucionárias), moralistas e midiáticas. Tais monstruosidades pretendem colocar-se “fora” da bulha e das misérias do mundo da vida e do penoso exercício de compartilhar a razão com os demais cidadãos livres e iguais em sua diversidade. Na sociedade contemporânea, não há lugar para tribunais privados e julgamentos autorreferidos do comportamento alheio, senão nas trágicas experiências do totalitarismo.

Nesse abismo sem fundo, germina a hostilidade em relação ao “outro”. É preciso inventar uma conspiração, um inimigo: o imigrante, o estrangeiro, o comunista. A tarefa dos santificados e abençoados é eliminar a diferença sob qualquer forma. Nas profundezas da crise, é necessário expurgar todas as diferenças e mergulhar nos falsos confortos do que é absolutamente semelhante, a totalidade uterina e intolerante da massa informe e manipulável.