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terça-feira, 11 de maio de 2021

Churrasco de Bolsonaro tem picanha de R$ 1.799,99 o quilo

Marcos Nogueira

O Dia das Mães teve churrasco no Palácio da Alvorada. Bolsonaro levou para a residência oficial alguns amigos, como o cirurgião plástico que fez as próteses da primeira-dama Michelle.

O churrasqueiro contratado veio de Belém do Pará –1962 km de estrada do Ver-o-Peso até a casa do presida. Ele atende pelo apelido Tchê. Ou pelo epíteto “Churrasqueiro dos Artistas”.

Em sua página de Instagram, Tchê aparece ao lado de celebridades como Romero Britto, Eri Johnson e Damares Alves. A residência presidencial está direto no Insta do churrasqueiro dos artistas.

Em um post de domingo (9/5), o churrasqueiro aparece com Bolsonaro e dois pacotes de carne. Na embalagem, uma charge do presidente, o slogan de campanha de Bolsonaro e o nome do frigorífico. A mesma foto está no perfil do Frigorífico Goiás, e a legenda anuncia: picanha Mito.

Liguei para o frigorífico, em Goiânia. A picanha Mito estava em falata, mas era possível comprar a mesma carne com outra embalagem. Picanha de gado da raça wagyu, de origem japonesa, por módicos R$ 1.799,99 o quilo. Uma peça tem em média R$ 350 g e custa cerca de R$ 600.

A festinha do Planalto teve pelo menos duas dessas picanhas. Um total de R$ 1200 em meros 700 g de carne.

Bolsonaro não deve ter pago pelo bife-ostentação, mas definitivamente não pega bem o presidente exibir uma coisa assim quando a população mergulha na fome.

Aqueles dois bifinhos valem mais do que um salário mínimo. Custam o equivalente a duas cestas básicas.

É muito escárnio. Não dava para esperar coisa diferente.

terça-feira, 2 de março de 2021

Fantástica mansão de Flávio Bolsonaro vale 27 toneladas de chocolate

Registro da construção da mansão de senador Flávio Bolsonaro, em Brasília
Imagem de S. Hermann & F. Richter por Pixabay


Então o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) comprou uma mansão de R$ 6 milhões com dinheiro de chocolate –como sabemos, ele era dono de uma franquia da marca Kopenhagen no Rio de Janeiro.

Apenas para efeito de comparação, fiz umas continhas para saber quanto vale, em chocolate, a morada nova do parlamentar filho do homem.

Vamos usar como base os preços do chocolate Kopenhagen na loja virtual da marca.

Se medirmos em Nhá Benta –merengue coberto por chocolate–, R$ 6 milhões são suficientes para a aquisição de 182.370 caixas de 90 gramas. Convertendo para unidade de massa, a mansão do senador Flávio vale 16 toneladas e meia de Nhá Benta.

Em Língua de Gato, outro clássico da Kopenhagen, a dinheirama compra 18,9 toneladas. Mais ou mesmo a mesma coisa com o Chumbinho, bolas de flocos de arroz cobertas de chocolate: R$ 6 mi bastam para 19,3 toneladas.

O artigo mais simples da antiga franquia de Flávio é uma barra de chocolate ao leite de 100 gramas que, na loja on-line, custa R$ 21,90. Fosse feita de tijolos doces, qual a casa da bruxa da fábula, a residência do filho número 1 empregaria 274 mil tabletes. São 27 toneladas de cacau e outros paranauês.

Todos sabemos que a Kopenhagen é uma marca particularmente cara. Ainda assim, consideremos justo e oficial que o pouso do homem público Flávio vale cerca de 27 toneladas de chocolate. Por curiosidade, contudo, façamos outras comparações.

A Brasil Cacau é a segunda marca da Kopenhagen, com preços mais baixos. Lá, 100 gramas de chocolate ao leite custam R$ 11,90. Com R$ 6 milhões, compram-se mais de 500 mil unidades, ou 50 toneladas.

Descendo um pouquinho mais o sarrafo, vamos comprar chocolate Lacta no Atacadão de Osasco.

Sai por R$ 3,90 o tablete de 90 gramas –esse peso estranho vem de uma época em que os fabricantes reduziram o tamanho do chocolate para não aumentar o preço e fingir que tudo continuava igual. Com a bolada de Flávio B., você leva mais de 138 toneladas de doce.

Por hoje é só amiguinhos. Fiquem ligados para mais dicas instrutivas do professor Marcão.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Vai, menino Ney!

Neymar não vale a grama que o Bolsonaro comeu na Vila Belmiro

O presidente Jair Bolsonaro faz uma boquinha após marcar gol na Vila Belmiro

Marcos Nogueira


O cerumano só é infalível em duas coisas:

  1. Falhar
  2. Apontar a falha do outro

Todo mundo já pegou para si a maior fatia do bolo. Todo mundo já pisou na bola com alguém. Todo mundo já flertou com alguém que não deveria flertar. Todo mundo já justificou uma merda que fez com o clássico “foram só 5 minutos”. Todo mundo já desfez amizade porque o amigo vacilou. E todo mundo já acobertou o vacilo do amigo, em nome da amizade.

Essa contradição ganhou tons escandalosos na pandemia. É a combinação do isolamento –em seus variados graus, a gosto do freguês– e os julgamentos sumários das redes sociais, após imprudente exposição do delito, lá mesmo.

O Felipe Neto foi bater bola com os amigos. O Zé das Couves não aguentou a saudade do boteco. A Dona Marocas retomou as sessões de massagem. O João e a Maria se conheceram no Insta, a conversa engatou, então, pá!, ambos tiraram o atraso sexual numa furtiva noite de terça-feira.

Felipe, Zé, Marocas, João e Maria usam máscara, passam álcool em gel, fazem compras online, defendem a ciência e xingaram o Neymar por causa da festa de Réveillon para 150 pessoas em Mangaratiba.

Será que Felipe, Zé, Marocas, João e Maria não são iguais ao Neymar? Não seríamos, todos nós, o Neymar na festa de Réveillon? Apenas um pouco mais hipócritas?

Não.

Faz parte do jogo falhar, pisar na bola, vacilar de vez em quando e digerir esses erros, procurando sempre agir melhor. O aprendizado se dá assim, com algumas notas vermelhas ao longo do percurso.

Neymar parece ser incapaz de entender essa dinâmica. Criado numa redoma, o menino mimado não tem um pingo de traquejo social, de senso comunitário. Reparem nessas palavras: “social”, “comunitário”. Lembram “socialismo” e “comunismo”, não?

É o pensamento vicioso que as bestas hidrófobas da extrema direita incutiram em todos os tios de churrasco do Brasil: qualquer ato ou discurso em defesa do bem coletivo é coisa de marxista, de bolchevique. Do Diabo, em suma. E ninguém que um dia falhou pode criticar quem falha por gosto e vocação.

A sociedade, ops, o mundo ideal dessas pessoas é um pega-pra-capar em que cada um tem um fuzil para proteger os filhos e a comida.

Neymar é fruto dessa visão sórdida de mundo. Ele acha OK fazer chover dinheiro e bancar uns desqualificados para limpar a lambança que ele fez.

Neymar está cagando para todos nós.

Neymar não vale a grama que o Bolsonaro comeu na Vila Belmiro.

sábado, 5 de dezembro de 2020

Menines, eu vi


O limão de R$ 2.392 do supermercado Santa Luzia

Cozinha Bruta 

Marcos Nogueira


Você sabe o que é limão-caviar?

Eu também só ouvia falar. Nunca comi e, até ontem, não tinha visto.

Limão-caviar é um cítrico australiano, também chamado de “finger lime” –“limão-dedo” em inglês, devido à forma longilínea da fruta. O “caviar” se deve às esferas cheias de suco dentro do limão, que se parecem com ovas de peixe.

Preço é outra semelhança.

Postaram no Twitter uma foto de limão-caviar à venda na Casa Santa Luzia, em São Paulo. O preço da coisa: R$ 2.392 por quilo. Uma bandeja com dois frutinhos, míseros 30 gramas, custava R$ 71,76.

Eu precisava ver com meus próprios olhos.

Peguei um Uber para o Santa Luzia e fui direto à seção de frutas e verduras, mas não achei o tal limão. Perguntei para um funcionário, que sabia de cor o quadrante de geladeira da tão preciosa fruta. Deve ser atração turística do local.

Meninos, eu vi! E, olha, ninguém dá nada por aquela mixaria mirrada, com jeito de pimenta ardida, no meio de tantas outras coisas verdes mais apetitosas. Mas a etiqueta estava lá e atestava: 38 gramas por majestosos R$ 90,90. Limão.

A Casa Santa Luzia, supermercado no miolo dos Jardins, é referência nacional em comidas especiais, importadas e, por assim dizer, gourmet. Se eles não têm determinado ingrediente, vai ser difícil encontrá-lo em qualquer outro lugar de São Paulo.

É também o playground dos super-ricos metidos a chef. Seus corredores são povoados por motoristas e domésticas de uniforme, famílias de diplomatas estrangeiros na xepa do real nanico, senhoras da sociedade e desocupados em camisa polo.

O Santa Luzia –apesar de ser “casa”, os paulistanos usam artigo masculino por se tratar de um mercado– costumava ser também onde a classe média ia para compras especiais. Quando o Enzo queria impressionar a Valentina com risoto e cordeiro.

Não mais. Esses dias acabaram. Porque, meninos, eu vi!

Eu vi e fotografei, mas comprar, que é bom, quase nada. Eu vi castanhas portuguesas a R$ 217 o quilo. Eu vi um pão de forma de R$ 52. Eu vi um vidro de atum que custava R$ 189 e uma caixa de biscoitos de R$ 224. Eu vi uma granola de R$ 41. Eu vi um panetone de R$ 1.122!

Meninos, eu vi com estes olhos que a terra há de comer: uma mulher de alguma idade jogou no carrinho uma conserva de alcachofra de R$ 157. Sem nem olhar a etiqueta.

Sempre houve artigos caríssimos no Santa Luzia. Eles eram uma espécie de alívio cômico para nós –que deliberadamente arrombávamos o limite do cartão por um jantarzinho. “Hahaha, olha lá, Valentina: cogumelos morilles por R$ 200!”, dizia Enzo enquanto pegava os cogumelos porcini de R$ 30.

Enzo e Valentina agora comem carne dianteira de boi porque a traseira não dá mais para comprar. Ainda mantêm a pose: só levam denver steak, que é acém chique.

A inflação de alimentos e a explosão do câmbio destruíram a utopia gourmet da classe média. E deve piorar. Não vai sobrar uma lasquinha de grana padano para contar essa história.