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sábado, 3 de abril de 2021

O colapso


Estamos prestes a viver outra ruptura, essa muito pior do que a primeira. Da ruptura iminente talvez tenhamos convulsões sociais e políticas. Viveremos a tragédia em outro patamar
A economia brasileira colapsou em 2020, já me apresso a dizer. O PIB não reflete as mortes, o sofrimento de quem teve sequelas de Covid-19, que talvez tenha ficado debilitado e não possa retornar ao mercado de trabalho. O PIB não reflete as marcas que permanecerão depois de tantos óbitos, apesar de um sistema de saúde que, mesmo subfinanciado, tentou dar conta da crise humanitária a que ações e omissões intencionais do governo federal deram uma dimensão que não imaginaríamos um ano atrás. O PIB reflete o apoio à economia que o auxílio emergencial representou. Ele mostra que o auxílio foi um dinheiro da sociedade empregado em seu próprio proveito, apesar do atual governo antibrasileiro. Sem ele, o “tombo”, como alguns se referem à recessão brutal, teria sido muito maior. Esse é o passado que se desdobra no presente. Mas e agora?

No presente estamos explorando as profundezas do colapso. De acordo com estudos já publicados e outro prestes a ser publicado em formato preprint pelo Observatório Covid-19 — rede multidisciplinar de cientistas a qual integro —, a variante P1, que surgiu em Manaus ao final de 2020, é cerca de duas vezes e meia mais transmissível que as anteriores. Isso tem ao menos dois significados: a curva exponencial de contágios é muito mais agressiva e a disseminação é de magnitude mais elevada. Para que se tenha uma ideia, a P1 é duas vezes mais transmissível que a variante viral que pôs toda a Europa em lockdown ao final do ano passado. É provável que seja a propagação da P1 a responsável pelos colapsos hospitalares que temos visto no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Maranhão, no interior de São Paulo, além de em várias outras partes do país.

Diante dessa variação do vírus, a pandemia brasileira entrou em sua fase mais crítica desde que o sars-CoV-2 aterrissou no país em fevereiro do ano passado. Por esse motivo, o Brasil tem sido manchete dos principais jornais internacionais — como The Washington Post e The New York Times — desde o último fim de semana. Em entrevista ao jornal O GLOBO no último domingo, alertei para o perigo de que o Brasil se tornasse pária internacional, isolado do resto do mundo, devido à pandemia descontrolada e ao laboratório de mutações em que as ações e omissões do presidente da República e outros de nossos governantes nos transformaram. Somente as consequências disso para a economia já seriam alarmantes. E a elas somam-se outras: a população que não conta com o auxílio, as multinacionais que decidiram deixar o país, o desgoverno de Bolsonaro.

O que deveríamos estar fazendo agora? Primeiramente, um lockdown estrito, sobretudo nas localidades mais afetadas, onde os hospitais já carecem de leitos. Penso, inclusive, que o lockdown deveria ser decretado para o país inteiro, mas sei que isso é esperar demais de um país em que muitos ainda acreditam que saúde e economia não se misturam. Um ano não foi suficiente para que entendessem que o colapso da saúde é o colapso da economia, algo que tenho dito desde março do ano passado. A medida requer dar apoio material para que as pessoas a observem.

Traduzindo, não é possível instituir um lockdown sem que se tenha, ao mesmo tempo, a adoção do auxílio emergencial no valor de R$ 600, o custo de uma cesta básica. Diante da catástrofe anunciada, o término do auxílio só pode ser determinado pelos dados epidemiológicos, aqueles que poderiam indicar a reabertura gradual e lenta. Por fim, o Brasil deveria, sem esperar mais um minuto sequer, comprar doses de todas as vacinas disponíveis nas quantidades que puder. É urgente que se tenha vacinação e cobertura amplas para frear as cadeias de transmissão dessa variante para lá de alarmante. Escrevo ciente de que nada disso será feito, de que ninguém no governo entende a gravidade do que vamos atravessar e, se entende, prefere nada fazer, mas faço questão de deixar essas palavras no papel, para marcar o momento.

Estamos prestes a viver outra ruptura, essa muito pior do que a primeira. Da ruptura iminente talvez tenhamos convulsões sociais e políticas. Por certo teremos muitas mortes evitáveis. Viveremos a tragédia em outro patamar. O colapso não é único, não tem dimensão. O colapso tem tão somente o tamanho do descaso de um governante em relação à população, inclusive aquela que o elegeu.


Monica de Bolle é Pesquisadora Sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade Johns Hopkins


sexta-feira, 27 de março de 2020

Relaxamento de medidas sanitárias pode levar Brasil ao colapso



Monica de Bolle
Contaminação em grande escala da população resultaria em situação de descontrole que seria ainda mais letal para a economia
Não demorou para que a falsa escolha entre a saúde e a economia chegasse ao Brasil. Após ter sido ventilada por Donald Trump há poucos dias, o presidente brasileiro e parte de sua cúpula de irresponsáveis não tardou a vir a público para fazer aquela que talvez tenha sido a sua pior aparição – e isso não é coisa pouca. Quando vi Bolsonaro discursar na ONU, escrevi para a Época artigo intitulado “O Espetáculo Brutal da Nulidade Absoluta”. O que o Brasil assistiu na última terça-feira foi o espetáculo brutal da nulidade absoluta elevado à undécima potência e amparado por uma pequena parte do empresariado brasileiro que não percebeu o que acontece quando se chafurda na ignorância e na desumanidade.

Tenho escrito e falado muito sobre a doença, as medidas sanitárias, seus efeitos na economia e as políticas para atenuar esses efeitos. Em artigo para O Estado de São Paulo publicado em 18 de março, elenquei todas as medidas emergenciais que o governo precisa tomar para ontem. As medidas contemplam R$ 50 bilhões para o SUS, o aumento de 50% para o valor do benefício do Bolsa Família, além da ampliação do programa, a destinação de R$ 30 bilhões para as micro e pequenas empresas que não têm acesso aos bancos públicos, a criação de uma renda básica emergencial no valor de R$ 500 a ser dada por 12 meses para os 36 milhões de brasileiros vulneráveis desassistidos registrados no Cadastro Único. Também incluí medidas de médio prazo – a crise é de longa duração –, como o crédito do BNDES para permitir a reconversão industrial, isto é, que fábricas possam se voltar para a produção de equipamentos médicos, além da inversão da pirâmide tributária brasileira. Invertê-la significa tributar rendas altas e patrimônios progressivamente, desonerando o consumo e a produção.

Após ter discutido publicamente e veiculado essas ideias, um consenso se formou entre os economistas mais ponderados do país. Mas o presidente optou por bater cabeça no lugar de cumprir o seu dever. Na verdade, optou por contrapor saúde e economia. As medidas sanitárias têm um custo econômico, sim. Por isso o governo deve pensar em uma agenda como a que propus. Mas, o relaxamento das medidas sanitárias no momento em que a epidemia começa a chegar com força no Brasil é ainda mais devastador para as vidas que serão perdidas e, evidentemente, para a economia.

Não é difícil enxergar como isso acontece. O Brasil tem uma população de 209 milhões. Sem as medidas sanitárias, os modelos epidemiológicos sugerem que a população contaminada pode chegar a 50% ou 60%. Estamos falando, portanto, de mais de 100 milhões de pessoas ao longo de algumas semanas. Dessas mais de 100 milhões de pessoas, dados de estudos científicos mostram que cerca de 20% precisarão de hospitalização. Logo, estamos falando de mais de 20 milhões de pessoas hospitalizadas quase ao mesmo tempo, algumas com quadros gravíssimos de insuficiência respiratória. Ou seja, podemos ter 10% ou mais da população potencialmente internada em um espaço curtíssimo de tempo. Contudo, não estarão, realmente, internadas, não é mesmo? O sistema de saúde brasileiro não tem capacidade para tanto – nenhum sistema de saúde em qualquer parte do mundo tem.

O que ocorreria? De início, haveria pânico no país, com o sistema de saúde em colapso total. Desse quadro não é difícil extrapolar a desintegração social em meio a motins, saques e todo o tipo de desordem. O sistema político entraria em falência. A economia morreria de insuficiência respiratória aguda em meio ao caos instalado. Se alguém acha que isso é cenário de filme, boa hora é para lembrar que a arte imita a vida, e não o contrário.

Bolsonaro trata a doença como “uma gripezinha”. Para muita gente, ela já se manifesta ou haverá de se manifestar desse modo. Mas para muita, muita gente o quadro será mais grave e as mortes se amontoarão. Não se escolhe entre a saúde e a economia. Os estragos econômicos das medidas sanitárias, nós, economistas, sabemos resolver. Já reconstruímos economias após guerras e depressões econômicas. Já a derrocada de um país porque o presidente não aceita o que a natureza lhe impõe é desafio que não está à altura de ninguém.

Não há escolha a ser feita, pois a vida é soberana. Primeiro a vida, depois a economia.

*Monica de Bolle é Pesquisadora Sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade Johns Hopkins

sexta-feira, 19 de abril de 2019

A defesa do meio ambiente, para Bolsonaro, é coisa da “esquerda”, coisa de “comunista”


Monica De Bolle - Revista Época

Rosáceas  

A primeira vez em que as vi, acho que tinha uns 10 anos de idade. De lá para cá, nas incontáveis vezes em que estive em Paris, jamais deixei de vê-las. Não tenho religião — por escolha pessoal —, mas sempre senti algo dentro da Catedral de Notre-Dame, algo edificante, algo mais adequadamente definido na palavra inglesa uplifting. Já apreciei a beleza de muitas igrejas brasileiras e europeias, já me encantei com a mesquita de Córdoba, mas nada é comparável ao sentimento que evoca a majestosa catedral parisiense. Resgato esse sentimento agora não apenas por causa do incêndio que a devorou parcialmente nesta semana, mas porque pouco há de majestoso ou inspirador na atualidade.

Tenho lido e pesquisado sobre as relações entre as mudanças climáticas e as várias crises migratórias mundo afora, sobre as várias crises migratórias mundo afora e a ascensão do nacionalismo populista. O último relatório da ONU sobre o drama migratório global estimou em pouco mais de 40 milhões o número de pessoas desterradas e em mais de 20 milhões o número de refugiados.

Os desterrados são aqueles que deixam as regiões de origem em seus países e deslocam-se para outras ainda dentro das fronteiras. Os refugiados são aqueles que fogem de seus países para outros, geralmente mais desenvolvidos, onde esperam melhores condições de vida.

O dado perturbador é que a maioria acachapante dos desterrados e refugiados que a ONU contou em 2016 fugiu não de violência e conflitos como geralmente se supõe, mas de eventos catastróficos relacionados ao clima. Secas, inundações, temperaturas escorchantes e suas consequências, como a perda de lavouras e das condições de vida de muitos dos que dependem da produção agrícola de subsistência. Um estudo científico publicado em 2015 aponta a seca desastrosa que atingiu a Síria como fator de estresse para o conflito que mais tarde se daria.

A literatura sobre alterações climáticas e a deflagração de guerras e conflitos é vasta, e a correlação é bem estabelecida. Em alguns casos é possível ver mais do que meras correlações. Em alguns casos é possível afirmar que problemas climáticos causaram guerras e conflitos. Para acrescentar ofensa à injúria, alguns estudos mostram que o ponto em que estamos hoje não é o resultado acumulado de muitas e muitas décadas de descaso. O agravamento das mudanças climáticas é, na realidade, resultado dos últimos 25 a 30 anos.

Apesar dessas evidências e do temor que elas deveriam causar, vários líderes mundiais as ignoraram. Alguns, talvez, porque não viverão muito mais mesmo, caso do septuagenário que ocupa a Casa Branca. Outros pela mais profunda ignorância sobre qualquer tema, em particular sobre o complicado tema das mudanças climáticas. O ocupante do Palácio do Planalto, que em campanha ameaçou tirar o Brasil do Acordo de Paris, esvaziou o Ministério do Meio Ambiente, suspendeu contratos com organizações não governamentais ambientalistas e extinguiu secretarias que formulavam políticas públicas para mitigar os efeitos das mudanças climáticas globais.

Por essa razão, inseriu no Ministério do Meio Ambiente representante da “nova direita” que anda fazendo estragos consideráveis na pasta pela qual é responsável. Não à toa, o Museu de História Natural de Nova York se recusou a prestar seu espaço para evento que homenagearia o presidente brasileiro em meados de maio, fato inusitado repercutido nas manchetes internacionais e locais.

É impossível afastar a angústia diante de tudo isso. Ainda que as besteiras de Damares Azul-Rosa Alves sirvam para que se possa rir um pouco — goiabeiras, mulheres submissas e coisa e tal. Portanto, pensem nas rosáceas. Elas sobreviveram às labaredas, vocês viram as labaredas? As belíssimas rosáceas do século XIII e suas pétalas divinamente coloridas por onde já atravessou a luz de tantos séculos continuam lá, não explodiram, não derreteram, como seria de imaginar.

A sobrevivência das rosáceas é uplifting, não porque acredito em milagres ou qualquer outra interpretação religiosa, intervenção divina ou seja lá o que for. A sobrevivência das rosáceas é uplifting porque ela simboliza a resistência do espírito humano que as concebeu e a capacidade que todos temos de apreciar a força e a beleza dessa resistência, mesmo que as circunstâncias sejam as mais violentas e cruéis.

*Monica De Bolle é diretora de estudos latino-americanos e mercados emergentes da Johns Hopkins University e pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics

** Entre a amplamente conhecida figura patética e fascista de Bolsonaro e o bacharel em Direito pela USP, especializado em Direito Civil, com mestrado em Economia e  doutorado em Filosofia, ex-prefeito de São Paulo e ministro da Educação Fernando Haddad,, Monica De Bolle não viu diferença nenhuma e não votou. 

Uplifting é "inspirador, edificante" em português.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Cem dias de aflição


Monica de Bolle

Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva 
Arnaldo Antunes

Esperança? Desespero? Raiva? Indignação? Orgulho? Agonia? Meu sentimento é a aflição nestes 100 dias transcorridos desde a posse de Bolsonaro. Aflição por um país que permanece sem rumo, por um país que se deixou levar pela fúria constante das redes, pelas brigas, pela incivilidade, pela barbárie. Aflição por um país que elegeu um presidente da República que nada conhece além do confronto, pouco importa quem seja o alvo: jornalistas, intelectuais, congressistas, gente comum.

Seguidores fiéis imitam o comportamento vulgar e os gestos ofensivos. Nestes 100 dias de governo, Bolsonaro mostrou que sua ignomínia não tem limites, o que deveria ser causa de profunda aflição e angústia para quem realmente se ocupa de preocupar-se com o Brasil.

Nestes 100 dias de governo, Bolsonaro viajou para os Estados Unidos e ajoelhou-se perante Trump. Nestes 100 dias de governo, Bolsonaro viajou para o Chile e insultou as autoridades do país com seus comentários sobre a ditadura de Pinochet. Nestes 100 dias de governo, Bolsonaro foi a Israel e disse a todos que o nazismo é de esquerda, imitando seu vergonhoso ministro das Relações Exteriores, para o profundo constrangimento internacional do país. Nenhuma dessas viagens trouxe qualquer ganho econômico para o Brasil ou mesmo alguma melhoria da imagem do país, a percepção de que há rumo bem traçado para os próximos anos. Nos últimos 100 dias, Bolsonaro permitiu que o Palácio do Planalto divulgasse vídeo abjeto e revisionista sobre a ditadura militar e sobre o golpe de 1964. Os macacos de auditório do Twitter — não tão numerosos, mas bastante barulhentos — rapidamente repercutiram a estupidez e a inominável ofensa às vítimas da opressão que o Brasil jamais condenou como fizeram outros países latino-americanos.

Nestes 100 dias de governo, Bolsonaro questionou as estatísticas de desemprego como um liderzinho qualquer. Curioso será se resolver questionar o déficit da Previdência.

Nestes 100 dias de governo, Bolsonaro nomeou um ministro despreparado para uma das pastas mais importantes do governo, a da Educação. Não é mistério para ninguém que o país padece quando o assunto é educação. A dificuldade do próprio presidente da República com as palavras é exemplo de nossas falências. O ministro despreparado foi corajosamente enquadrado pela jovem deputada de 25 anos, Tabata Amaral, formada em astrofísica e ciências políticas pela Universidade Harvard. Amaral foi o bálsamo para a aflição destes 100 dias, deixando entrever um pouquinho de esperança. A outra ministra despreparada, Damares Azul-Rosa Alves, não merece mais do que essa frase.

Nestes 100 dias de governo, Bolsonaro brigou com congressistas de seu próprio partido, de outros partidos, com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Foi por ele repreendido algumas vezes ao não entender que o Congresso é poder democrático independente tão relevante quanto o Executivo — mas fora Bolsonaro quem elogiara Fujimori por ter o presidente peruano fechado o Congresso em 1992, inaugurando o autogolpe. Portanto, de democracia nada entende. Ao instalar o caos nas relações entre o Congresso e o Executivo, ao deixar ressabiados os parlamentares com quem terá de negociar a reforma da Previdência, fez de seu ministro da Economia o Sísifo tupiniquim. Guedes foi encarregado de empurrar as rochas da reforma ladeira acima, mas Bolsonaro haverá de assegurar que voltem ladeira abaixo, já que não entende que só ele pode respaldar politicamente o que muitos esperavam que fosse o principal feito de seu governo. E, mesmo que depois de tudo isso consiga aprovar a reforma da Previdência, restará fazer todo o resto para tirar 13,1 milhões de pessoas do desemprego, para melhorar a segurança do país, para socorrer os estados quebrados, para uma lista infindável de prioridades perdidas na balbúrdia dos 100 dias.

Nestes 100 dias, inflou-se a ideia de que basta a reforma da Previdência para o país voltar a crescer. Mas a Previdência é um ajuste fiscal e, como ajuste fiscal, contracionista no curto prazo. Essa verdade inconveniente e aflitiva está perdida em meio ao pensamento mágico das expectativas que empurrariam a economia.

Cem dias. Sem nada. Socorro, alguma alma, mesmo que penada, me empreste suas penas.


Monica de Bolle é diretora de estudos latino-americanos e mercados emergentes da Johns Hopkins University e pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Qual é a alternativa à Deforma da Previdência bozonariana?

Não é tudo ou nada

Vou analisar a proposta de reforma com calma na semana que vem, quando chego dos EUA. Mas tenho algumas considerações iniciais.

A reforma é menos regressiva do que a do governo Temer, mas ainda atinge muito os mais pobres em dois eixos principais: as alterações no BPC e no tempo mínimo de contribuição (de 15 para 20 anos para homens e mulheres).

No caso das mulheres pobres, que passam mais anos sem contribuir por conta dos filhos e da informalidade, exigir 20 anos de tempo mínimo de contribuição pode acabar jogando-as para o BPC (com valor inferior ao salário mínimo até 70 anos).

A proposta do @marcelo_meds de manter os 15 anos de tempo mínimo de contribuição para mulheres que se aposentarem por idade com um salário mínimo é muito melhor.

Além disso, é preciso muita atenção com as regras muito aceleradas de transição. Vou estudar com mais calma quando chegar de volta ao Brasil.

Para quem veio comentar minhas críticas aos pontos mais problemáticos da reforma com a pergunta “qual é a alternativa?”: a alternativa é retirar ou substituir esses pontos no processo legislativo que se inicia agora no Congresso. Não somos obrigados a aceitar o pacote inteiro. 

Mas quando o governo coloca muitos bodes na sala, incluindo jabutis que nada têm a ver com o déficit na previdência (como apontou a @bollemdb), também acaba dificultando a aprovação da parte da reforma que é desejável.

A forma como tem se dado o processo e o debate em torno dessa reforma mostra como estamos mal de cultura democrática. Ou se defende o pacote inteiro ou nada? Que o governo e a oposição façam isso, eu entendo, mas não enxergo assim o meu papel.


O jabuti de Paulo Guedes

Há no texto a proposta de extinguir a multa de 40% sobre o FGTS paga por empresas a quem já está aposentado no momento da demissão sem justa causa. Essa medida, com impacto mais do que retumbante nos trabalhadores idosos, tem efeito zero no déficit previdenciário. 

Trata-se de maneira obscura de introduzir mudança nas leis trabalhistas. Sem entrar nos méritos da reforma da Previdência (ou em alguns deméritos que podem ser aperfeiçoados) o jabuti demonstra mais uma vez a tentação de usar peças legislativas do modo errado. 

Extinguir a multa do FGTS para aposentados numa emenda constitucional para lá de complicada é jeito quase certo de torná-la impalatável para muita gente, reduzindo as chances de que a urgente reforma seja feita. O passo em falso de Guedes pode custar caro para o País e para ele.