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terça-feira, 19 de maio de 2020

Augusto Aras vai matar essa no peito?

Escolhido por Bolsonaro após cortejá-lo, procurador-geral chega à sua hora decisiva
Ranier Bragon

Augusto Aras foi alçado à chefia do Ministério Público desprezando o apoio dos colegas e optando por algo que se mostrou bem mais eficaz, um vergonhoso beija-mão. Agora, o procurador-geral da República chega ao seu teste de fogo.

Desenvolve-se em Brasília um teatro. Jair Bolsonaro tenta emplacar a versão de que na reunião ministerial de 22 de abril não manifestou intenção de interferir na Polícia Federal para proteger a ninhada. Contra suas próprias palavras, ações, regras palacianas e a lógica em geral, fala que queria interferir era na sua segurança pessoal. Uma história que faz a Operação Uruguai de Collor, de quase 30 anos atrás, parecer ter sido bolada em Harvard.

O teatro dos parlapatões é completado por generais —oriundos de uma corporação que tanto preza a verdade e a honra— se prestando ao patético papel de sustentar o que sabem ser uma mentira. E em prol de uma família cuja palavra não vale absolutamente nada.

Caberá a Augusto Aras decidir entre a denúncia e o arquivamento.

Suas manifestações nos autos, até agora, são uma lástima. Superando até os advogados do presidente, ele é a favor de que a maior parte da reunião do dia 22 fique nas sombras. Defende, inclusive, interesses de ministros que, ao que parece, pediram a volta de Torquemada para dar cabo de STF, governadores e prefeitos. Para Aras, há ameaça de violação da "justa expectativa" dessas doces almas de que proferiam barbaridades só para um petit comité. Como se ali não estivessem reunidos ministros e um presidente, mas apenas inocentes arruaceiros tratando da taberna que iriam quebrar no dia seguinte.

Aras também manifestou preocupação de uso da reunião "como palanque eleitoral precoce das eleições de 2022". O que cargas d'água ele tem a ver com isso, eis aí um mistério. Petistas afirmam que Luiz Fux só foi indicado ao STF porque prometeu matar no peito o mensalão, o que ele nega e o que, na prática, não ocorreu. A bola foi lançada ao procurador.

terça-feira, 5 de maio de 2020

O sonho da quartelada


Ranier Bragon
Tanques não podem mais escrever a história política deste país
A paciência de Jair Bolsonaro acabou, ele está em seu limite, tem ao seu lado as Forças Armadas e fará cumprir, a qualquer preço, a sua interpretação da Constituição.

As palavras proferidas na mais recente algazarra golpista, no domingo (3), têm como objetivo intimidar não só Alexandre de Moraes, que dificultou sua intenção de interferir em investigações da PF, mas qualquer ministro do STF que possa lhe causar embaraços. Como Celso de Mello, que comanda a apuração das acusações do ex-ministro Sergio Moro.

Como suporte às bravatas, o presidente ameaça mover o sonho de toda uma vida de delinquência sem punição: uma quartelada a seu favor.

A ameaça de ruptura institucional foi coroada no domingo pela violência de covardes que se escoram na proteção dos bandos para atacar alvos pelas costas. Os presidentes do próprio Supremo, Dias Toffoli, e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), acoelharam-se, mudos.

Como informou a colunista Mônica Bergamo, Toffoli até se irritou, mas com a decisão dos colegas. Davi foi ao Planalto nesta segunda, mas apenas para exercitar a sua alma de eterno baixo-clero e lengalengar a necessidade de harmonia.

E de pusilanimidade em pusilanimidade a vergonha vai sendo escrita.

Qualquer ministro que se acovarde neste momento não merece a toga que veste. Ministros do STF não são deuses. Para conter eventuais erros e abusos, estão lá o colegiado, a reação abalizada da sociedade civil e, até, o impeachment. Jamais a intimidação ou a desobediência.

Qualquer militar também não merece a farda que veste se der suporte a ameaças de ruptura feitas por um descapacitado que demonstra não ter condições nem de ser síndico do Vivendas da Barra. Militares são agentes do Estado brasileiro, não atores políticos ou capachos de tiranetes. Honrem a história de gente como o marechal Henrique Teixeira Lott. Tanques não podem mais escrever a história política deste país, por mais que celerados assim o desejem.

terça-feira, 28 de abril de 2020

O bolsonarismo está nu

Ranier Bragon
Sob a máscara de Jair Bolsonaro sempre esteve Jair Bolsonaro
O bolsonarismo raiz, fanatizado, sempre tentou esconder seu verdadeiro rosto. Essa gente que tem aversão a pobres, exala ódio, ignorância, racismo, misoginia, homofobia, xenofobia, autoritarismo e um sem-fim de ignomínias sabia que não podia sair ao sol com sua pavorosa face sem algum manto de cobertura.

Com isso, pilantras os mais variados, que não pensariam duas vezes em embolsar o troco a mais no caixa de supermercado, passaram a propagar a sua arenga anticorrupção.

Todos de braços dados no conhecido último refúgio dos canalhas, em uma orgia verde e amarela de uma devoção tão incontida à pátria que só lhes faltava deitar ao chão e enfiar torrões de terra goela adentro. E, nesse teatro, os canastrões da própria vida buscavam convencer o mundo e a si mesmos da sua nobreza de sentimentos.

Mas agora a pornografia está explícita. Bolsonaro está nu. E o bolsonarismo terá que defender seu asqueroso modo de pensar a vida sem a desculpa esfarrapada de que quer um Brasil livre de corrupção.

A mamata acabou. Não necessariamente pela saída de Sergio Moro. O xerife da Lava Jato tem sérias contas a prestar com a história por ter pulado na nau bolsonarista logo após a eleição, quando nenhum adulto com mais de três neurônios poderia alegar inocência sobre quem era Jair Bolsonaro e o que ele representava.

Refiro-me especialmente a dois outros fatores: o primeiro, a aliança que o capitão busca agora com o centrão, que há anos ele tratou como coisa mais suja do que pão que o diabo amassou com o rabo. Velha política corrupta. Agora querem ser um só. Saem os bonecões infláveis de Moro super-homem e entram os de Roberto Jefferson, o vingador. O segundo, a escancarada tentativa de manietar a Polícia Federal em nome de interesses inconfessáveis.

Outra vez recorro a João Montanaro e sua charge em que Scooby-Doo e sua turma revelam a real face do presidente. Sob a máscara de Jair Bolsonaro sempre esteve Jair Bolsonaro. Todos sabiam disso.

Charge de João Montanaro de 27.abr.2020. - João Montanaro

terça-feira, 21 de abril de 2020

Os cúmplices do miliciano assassino


Os cúmplices

Ranier Bragon
É preciso parar de tratar Bolsonaro como se ele fosse apenas um moleque travesso
Perplexos, políticos não sabem como lidar com Jair Bolsonaro. Apelo ao bom senso, de nunca adiantou. Impeachment ainda não tem força para decolar, avaliam. Ignorá-lo? Mandetta está aí para provar que não dá. Sobram as notas de repúdio que, feitas por quem parece estar pisando em ovos, já merecem todas elas uma nota de repúdio.

Como agir? Ficar como os engravatados da brilhante charge de João Montanaro, a refletir sobre o limite do tolerável até que nenhum mais haja?

Um bom começo poderia ser parar de tratar o sr. Jair Messias Bolsonaro, 65 anos, cinco filhos, mais de 30 anos de velha política nas costas, como um mero moleque travesso.

O método é o mesmo. Avanço, choque, recuo tático. Num dia, ele trepa numa caçamba para estimular ato pró-ditadura de um bando de delinquentes idiotizados. No outro, dá uma amenizada, por assim dizer.

Ufa, suspiram as polianas. Suspiram também seres rastejantes no centrão, suspira Paulo Guedes —essa pessoa que parece habitar a Disneylândia—, suspiram os militares, que emprestam honorabilidade ao moleque travesso. Suspira até Sergio Moro, que se escondeu durante todo o domingo atrás do Fuminho, o traficante, e ainda levou bronca do filhote do presidente —Carlos Bolsonaro cobrou defesa pública do pai sem nominar de quem cobrava, mas tirem suas conclusões.

E nessa toada os limites vão caindo feito dominó. Notem. Há alguns meses, a pornochanchada golpista seria inaceitável. O que será aceitável daqui a alguns meses?

Inglaterra e França não tinham nem de longe certeza de vitória quando decidiram, enfim, delimitar a Hitler o "daqui você não passa". Agiram como adultos, não moleques. A França caiu num primeiro momento, mas a história é sabida. Para quem acha clichê a comparação, penso não ser demais tirar lições de uma catástrofe que custou a vida de mais de 50 milhões de pessoas.

Não defendo que ninguém saque a pistola ao próximo limite rompido. Apenas que faça valer sua dignidade.

terça-feira, 14 de abril de 2020

É correto chamar o assassino Bolsonaro só de irresponsável?


É correto chamar Bolsonaro só de irresponsável? 

Ranier Bragon

Se hoje o presidente da República batesse à porta das pessoas sugerindo estricnina para tratar cólicas, possivelmente não seria removido em uma camisa de força. Provavelmente surgiria aí um debate nacional. Especialistas de coisa nenhuma sairiam dos bueiros para adulá-lo, o bom senso se insurgiria, carreatas de novos e velhos ricos cafonas enfeariam as ruas e estaria instalada mais uma balbúrdia.

A atual pandemia já matou mais de 100 mil pessoas, com uma média subestimada de cerca de 100 mortos por dia no Brasil. Brincar com isso, desprezar isso, é só irresponsabilidade?

Entre um passeio e outro à padaria, Bolsonaro se insurge contra o mundo e busca sabotar o trabalho do ministro que se recusou a aderir ao batalhão dos paspalhos.

Em um caso que envolve vidas, muito mais de cem mil, você prefere estar ao lado da ciência, do bom senso, da razão ou ao lado da ala cafajeste do empresariado e de gente como o profeta Osmar Terra, que há alguns dias disse que a Covid-19 mataria menos gente do que a gripe sazonal do Rio Grande do Sul. Era uma aposta corajosa, que, em suas próprias palavras, poderia desmoralizá-lo por completo —e nesse ponto não podemos negar que ele estava coberto de razão.

Poupem-me da suposição de que Bolsonaro esteja preocupado com os miseráveis. Em toda a sua longa carreira política,só se lembrou de pobres para defender a sua esterilização em massa. O presidente nem esconde que seu real temor é ser culpado pela debacle econômica, levando seu governo, de vez, para o beleléu.

Não há, em um momento como esse, "ninguém em sã consciência preocupado com popularidade", assegurou nesta segunda (13) Sergio Moro, mestre em dizer pouco falando muito e em dizer muito não falando nada.

Embora também odeie artigos que deixam as perguntas no ar, transfiro ao leitor e à leitora a conclusão.

É correto chamar Bolsonaro só de irresponsável? Como diziam e dizem colegas muito mais gabaritados do que eu, cartas à Redação.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Salomões de botequim


Há coisas que não permitem caminho ao centro, mas uma enfática tomada de posição
Cresce no Brasil o discurso fantasioso em defesa de um centro político ponderado, sereno, conciliador, como forma de aplacar a terrível polarização ideológica entre direita e esquerda.

Entrevistas, artigos e debates pululam aqui e ali em apelo à temperança na vida pública. Tudo muito lindo, salvo alguns inconvenientes.

O primeiro é que a ideia se estrutura sobre uma premissa falsa. Bolsonarismo e petismo são adversários políticos, não polos no campo ideológico tendo ao centro o tal espaço a ser ocupado pelos salomões de botequim. O bolsonarismo de sinal trocado pressupõe um movimento igualmente autoritário, mas estatizante, antirreligioso, operário, socializante. O PT tem muitos integrantes que pensam assim, mas, a não ser na idiotia olavista, não há notícia de que tenha patrocinado uma experiência bolchevique de 2003 a 2016.

Mesmo que a premissa fosse verdadeira, a cantilena conciliatória embute condescendência com o inaceitável. É uma analogia para lá de surrada, deve já haver leis que a proíbam, mas como não lembrar do receituário Chamberlain-Halifax para lidar com Adolf Hitler?

Há certo tipo de coisa que não permite caminho ao centro, mas, sim, uma enfática tomada de posição. Qual será o ponto de convergência para a defesa da ditadura, por exemplo? Fechar a Câmara ou o Senado? Para que duas casas legislativas, não é mesmo? E para a tortura? Espancamento humanizado? Homofobia pode ter um meio termo? Pastor pode disseminar ódio aos gays em nome da liberdade religiosa?

Outra característica do movimento coluna do meio é a extensa fauna e flora de velhos políticos que tenta se vestir de cordeirinho de centro como forma de sobrevivência política.

Muito mais do que um centro, de um emcimadomurismo, o país precisa é de um norte. E, qualquer que seja ele, com coragem para combater de forma incondicional ideias e ações antidemocráticas, anti-humanistas e obscurantistas.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

O que de bom Bolsonaro produziu em seu 1º ano de governo?


Ranier Bragon
O ano 1 do mandato de Jair Messias Bolsonaro irá merecidamente entrar para a história como um dos mais lastimáveis que já vivemos.
Então, é 2020! Quer dizer, quase, o que nos permite uma última olhada neste impagável 2019.

O ano 1 do mandato de Jair Messias Bolsonaro irá merecidamente entrar para a história como um dos mais lastimáveis que já vivemos. Os ataques a pilares da democracia, à ciência, à história, à diversidade, à civilização e ao bom senso em geral encontraram um terreno fértil na idiotia das redes sociais e nos gabinetes do Executivo, em Brasília.

Como isso não é novidade pra ninguém, permito-me neste último dia de 2019 praticar exercício reverso, o de tentar vislumbrar o que de bom o bolsonarismo produziu no ano.

Seria muito mais divertido, é verdade, ficar apenas na lista precedida da advertência “contém ironia”.

Ou não foi espetacular a sonhada e esperada abertura da caixa preta do BNDES que qualquer um já podia acessar pela internet? Ou a pedagógica discussão nacional-carnavalesca sobre o golden shower? Ou a descoberta, pelo menos da minha parte, e aqui quase ironia não há, de como há mais sensatez do que podia imaginar em figuras como Alexandre Frota, Janaina Paschoal e o general Mourão? Ou, termino por aqui, a lista é interminável, a celebrável constatação de que, devido ao que passamos a saber, jamais poderemos voltar a usar, sem a advertência “contém ironia”, o termo “filósofo” associado a Olavo de Carvalho.

O que de bom o bolsonarismo produziu até aqui está, sem ironia, na reação provocada. Artistas, cientistas, educadores e tantos e tantos outros não se curvaram (tudo bem, alguns, sim). A homofobia virou, enfim, crime. O Judiciário e o Congresso, com todas as suas mazelas, barraram até o momento a institucionalização do retrocesso civilizatório —no caso de Câmara e Senado, conduziram inclusive coisas que o governo mais atrapalhou que ajudou, como a reforma da Previdência.

Coquetéis molotov foram e continuarão sendo jogados pelos talibãs da nova ordem. Resistir será a prova definitiva da solidez da nossa democracia😂 e das nossas instituições.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

A revolução liberal no lombo dos trabalhadores

Ranier Bragon

“Um menino, desde cedo, sabe que ele é um ser de responsabilidade quando tem de poupar. Os ricos capitalizam seus recursos. Os pobres consomem tudo.” A lapidar frase do ministro Paulo Guedes, dada em entrevista à Folha, certamente merece estampar a fachada do memorial que ainda há de ser erguido em homenagem a esses bravos homens que paulatinamente desentulham a legislação trabalhista brasileira com o único intuito de colocar mais pão na mesa do trabalhador.

Há três anos e meio, desde que o centro-esquerdista —segundo Guedes— Michel Temer (MDB) assumiu, empresários têm obtido seguidas vitórias, todas embaladas pelo discurso de que, livres das amarras da caquética CLT, ampliarão investimentos e contratarão a torto e a direito.

A reforma trabalhista de Temer foi anunciada como o bilhete de entrada no éden. Curiosamente —fenômeno semelhante se deu com a atual reforma da Previdência—, algum tempo depois os bravos lembraram-se de dizer que a coisa, por si só, não faria milagre. Se nada ocorreu como o anunciado é que não se fez tudo aquilo que deveria ter sido feito.

Agora o louvado time de Guedes propõe taxar desempregados. Tudo, claro, em defesa dos próprios desempregados, que só não são mais de 12,5 milhões de pessoas porque a informalidade bate recorde.

Gente como Julio Cezar Reis, ouvido pelo jornal Agora, em julho, cuja rotina, incluindo fins de semana, consistia em carregar a bicicleta de 15 kg por 80 degraus, pedalar por 12 km até a avenida Paulista para entregar comida pelo Uber Eats, Rappi e iFood. A tarefa, sem direitos trabalhistas, lhe renderia algo próximo ao salário mínimo ao mês. Tivesse ele a sorte de ter Guedes em sua infância, talvez já fosse, como os ricos, um sábio gestor de seus bastos recursos.

Carteira Verde e Amarela, política de extermínio de sindicatos, de achatamento do salário mínimo, a revolução liberal no lombo dos trabalhadores segue encantando aqueles para quem nosso progresso depende apenas da evolução do Ibovespa.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Polarização: Bolsonaro é extremista de direita, Lula nem de esquerda é

Ranier Bragon

Lula e Bolsonaro polarizam-se apenas no gogó 
Abertura da cela de Curitiba reacende falsas equivalências entre lulismo e bolsonarismo
A não ser que classifiquemos os governos do PT como uma cruzada estatizante e antirreligiosa, uma espécie de ameaça comunista a corroer instituições e ameaçar fundamentos da democracia, trata-se de um senhor disparate classificar lulismo e bolsonarismo como ocupantes dos polos de nossa régua política, um à esquerda, outro à direita.

O PT não governou o país há tanto tempo assim. Não estamos falando da travessia do Rubicão, das guerras napoleônicas. Não é preciso escavar catacumbas no Egito para entender isso. Alguns imaginam que a história teve início anteontem, mas quem não tem como única fonte de conhecimento os memes distribuídos pela tia-avó do grupo da família há de convir que não há nem como classificar os governos de Lula e Dilma (2003-2016) como de esquerda.

De esquerda em alguns pontos, de centro-esquerda, centro, centro-direita e até direita em tantos outros. Ou diga a tia-avó quem assumiu o poder mantendo o tripé macroeconômico, reformando a Previdência ou governando com afagos a evangélicos e suas fábulas à “kit gay”.

A abertura da cela de Lula na semana passada reacendeu as falsas equivalências, como se tivéssemos vivido há poucos anos uma real ameaça de sermos invadidos por neobarbudos vindos da Sierra Maestra.

Querem algum antípoda mais ou menos plausível ao bolsonarismo? Procurem no Partido da Causa Operária ou em algo assim. O presidente está no campo da direita, com viés de extrema direita (não dá para considerar defesa da tortura, da ditadura, da lei de talião, como “direita”). Por seus governos, o petista se posiciona na centro-esquerda. Se após o tempo na prisão caminhará mais para a esquerda, o tempo dirá.

Bolsonaro e Lula lideram hoje grupos políticos com mais força no país, se rivalizam no gogó, mas não são extremos entre si. Tal tese busca inflar alguns políticos velhos e novos —por ora carentes de voto— como o centro salomônico que irá dar um basta à insânia dos radicais. Falta apenas combinar com a realidade.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Os Escrotaços

Ranier Bragon

Em cena, Os Escrotaços 
Se a cruzada contra a democracia não encontrar reação, nenhum limite mais haverá
Quem gosta de quadrinhos conhece Os Skrotinhos, criação do magistral Angeli inspirada no antigo Os Sobrinhos do Capitão. Surge agora uma releitura involuntária e sombria. Em cena, Os Escrotaços.

O que dizer da finesse de Jair Bolsonaro ao sair neste sabadão (2) acompanhado de um bando de barrigudos para comprar uma moto nova? À pergunta da repórter da Folha Talita Fernandes sobre se voltaria para casa pilotando a coisa, lascou: "Não, comprei a moto pra andar de barco".

Ahahahahahah, riso geral entre os sabujos, todos homens, a começar do ministro Luiz Eduardo Ramos.

Pela imbecilidade, o presidente pediu desculpas à repórter logo depois. O que não o impediu de postar o vídeo em suas redes sociais, sem as desculpas, para deleite da sua ala de apoiadores sem nenhuma noção.

Além do machismo repugnante, a reação embute a aversão ditatorial à imprensa independente e, exatamente por isso, incômoda. Bolsonaro sonha em fazer com esta Folha e com a TV Globo o que os seus ditadores do coração fizeram com o Correio da Manhã. Tenta minar fontes de recursos das empresas com ameaças a anunciantes e total desprezo pelo princípio constitucional da impessoalidade na gestão pública.

Por esses e outros veículos não lhe serem subservientes, como de forma ignominiosa outros tantos o são, macaqueia de novo Donald Trump e acusa-os, sem prova, de divulgar fake news --logo ele, um fecundo produtor de falsidades as mais sortidas.

Contra a escalada autoritária, multiplicam-se os lordes Chamberlains e Halifaxes a pregar conciliação e temperança com os que querem tudo menos conciliação e temperança. Outros manifestam repúdio, mas como diriam Roberto e Erasmo, cartas já não adiantam mais. "Leões patriotas", ameaça de novo AI-5, se a cruzada dos Escrotaços contra a democracia não encontrar reação concreta, nenhum limite mais haverá.

Bolsonaro falou em "canalhas" e "patifes" por 17 vezes na live-pistola das Arábias. Que a história os identifique e lhes preste o devido tributo.


terça-feira, 29 de outubro de 2019

Bolsonaros devem explicações detalhadas sobre o que fizeram nos verões passados


Ranier Bragon
Se inocentes, presidente e filhos podem provar que não praticaram mutretas; por que não o fazem?
"O pessoal quer pegar fantasma e rachadinha o tempo todo."

A reclamação de Jair Bolsonaro diz respeito aos áudios em que Fabrício Queiroz comenta com vigor juvenil a pica-cometa de posse do Ministério Público e a suspeita da existência de uma funcionária fantasma no gabinete de Carlos Bolsonaro. Sobre esse último ponto, o presidente conseguiu se contradizer na mesma frase.

"A Cileide (...) sabia que não ia continuar conosco porque, eu eleito, o Flávio eleito, o eleito viria para Brasília. Se bem que ela estava no gabinete do Carlos. Mas é mudança normal, não tem nada para espantar."

Além de Cileide, a Folha revelou outros casos. Wal na verdade vendia açaí. Nadir afirmou nunca ter trabalhado para Carlos. Nathalia, filha de Queiroz, figurava no gabinete de Jair, mas atuava como personal trainer.

Merecem destaque também Marta e Gilmar, 2 dos 17 --sim, 17-- familiares da segunda mulher de Bolsonaro que compunham a lista de pagamento dos gabinetes do clã. Localizados pela revista Época, os dois disseram jamais ter trabalhado para Carlos. Sobre os outros também há cheiro de fantasmagoria. Para onde ia o salário de toda essa gente?

Bolsonaro confirmou nesta segunda ter discutido com Queiroz a exoneração de Cileide, mas voltou a afirmar que nunca mais teve contato com o amigo desde que o escândalo veio à tona. A investigação foi revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo em 6 de dezembro. A exoneração de Cileide só foi publicada 34 dias depois. Ou há aí mais uma contradição presidencial ou o clã gasta tempo demais entre a tomada de decisão e o seu efetivo cumprimento.

Apurar fantasmas e rachadinhas é obrigação da imprensa. O que não é normal é que a família Bolsonaro trate suspeitas dessa gravidade com silêncio prepotente, versões tortas, evasivas, ameaças a veículos de comunicação ou entrevistas amigáveis à imprensa amiga. A não ser que se considerem califas de uma republiqueta de bananas podres, eles devem explicações minuciosas. Espanta não terem feito isso até agora.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Bozonazismo é neoliberal na economia e fanático e terrorista nos costumes


Ranier Bragon

Bolsonarismo precisa evoluir muito para ser chamado de conservador
Grupo não quer preservar, mas sim retroagir a um passado hoje relegado ao pó da história
Dias depois de o presidente da República instalar a balbúrdia no PSL, o bolsonarismo realizou uma autoproclamada conferência conservadora em São Paulo. Crucifixos na vagina, chicote em opositores, entre outros temas, ali foram debatidos.

Houve chance até para um discípulo de Olavo de Carvalho filosofar que o país carece de um pensamento estruturado de direita e conservador.

Em parte, ele tem razão. A não ser nas profundezas do esgoto da internet, não há mesmo um alicerce teórico a socorrer o bolsonarismo raiz.

Autoritarismo, defesa de ditaduras, da tortura, do bangue-bangue como ação de segurança pública, truculência nas redes sociais, homofobia, opressão das minorias, das mulheres, discurso genérico anticorrupção (desde que da porta pra fora), depredação do meio ambiente, desprezo pela ciência, pelas artes e pelo saber em geral, religiosidade primitiva, gosto por patriotadas toscas, enfim, uma adesão cega e surda ao tiozismo barrigudo de churrasco como filosofia de vida.

Chamam essa gosma ideológica de conservadorismo. Ocorre que esses filósofos não querem preservar, mas sim resgatar no mercado de pulgas da história situações subjugadas por séculos de avanço da humanidade.

A direita brasileira ciosa dos valores democráticos, civilizatórios, acadêmicos, aquela que reconhece a redondeza da Terra, aderiu em parte ao capitão, na campanha. Enfrenta toda ela, agora, o flagelo de se ver enfiada dentro do balaio olavista.

Nem liberal na economia dá para classificar o bolsonarismo. O presidente nunca o foi nem irá chorar rios de sangue se tiver, a depender das circunstâncias, que dar um cavalo de pau no que tolerou até agora.

É temerário rotular coisas no momento em que elas acontecem, mas o bolsonarismo talvez possa ser classificado como Paulo Guedes na economia (enquanto ele resistir no cargo) e reacionário nos costumes --ou medieval, obscurantista, primitivo, bolorento. Para virar "direita", "conservador", algo assim, é preciso ainda subir muitos degraus civilizatórios.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Bostonaro quer imprensa ainda mais chapa-branca que a atual


Ranier Bragon

O bolsonarismo quer uma imprensa para chamar de sua 
Governo demonstra não estar satisfeito com a atual e laboriosa rede de aduladores
Jair Bolsonaro deixou o Palácio da Alvorada nesta segunda-feira (30) demonstrando, mais uma vez, dissabor com a imprensa. "Gosto muito de vocês, mas quando fizerem uma matéria real sobre o que aconteceu na ONU, eu volto a dar entrevista", se limitou a dizer.

Não são meras palavras azedas ao vento. No fim de semana, o filhão que ele pretende empregar em Washington também teorizou sobre o problema do Brasil. Sim, no singular mesmo. Só há um problema no país, pelo visto --e é a imprensa, naturalmente, quem mais seria?

"O problema do Brasil é que a gente elegeu um conservador sem ter uma universidade conservadora, um partido conservador organizado e, obviamente, uma imprensa conservadora de grande porte", disse Eduardo Bolsonaro ao Correio Braziliense. Para o deputado, a péssima imagem do Brasil lá fora se deve não ao governo, mas à mania da imprensa estrangeira de dar ouvidos aos seus correspondentes ou aos grandes veículos de comunicação brasileiros.

Não pretendo falar do óbvio atentado histórico que é tratar simplesmente como "conservador" essa gosma que une preconceito, fanatismo, obscurantismo, autoritarismo, anti-intelectualismo, incultura, desinformação, delírio e tantas outras adoráveis facetas da humanidade.

Atenho-me à imprensa. Está em montagem a CNN Brasil, que alguns preveem como bolsonarista.

Seu principal investidor, o empresário Rubens Menin, nega. O tempo dirá. Todo autoproclamado jornalismo que se associe a esquerdismo, direitismo ou qualquer espécie de governo deve ser chamado pelo nome: militância, propaganda.

Os Bolsonaros procuram uma imprensa para chamar de sua, demonstrando não estarem satisfeitos com o alcance do atual cordão dos chapas-brancas --cúpulas de SBT, Record e outros integrantes da sempre laboriosa rede de aduladores. O consolo é que, mesmo na sinistra hipótese de obterem sucesso, conseguirão para chamar de sua algo que será qualquer coisa, jamais imprensa.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Crivella e Doria superam Bolsonaro em estupidez


Ranier Bragon

Na semana da pátria, Crivella e Doria disseminam a ideologia da estupidez 
Prefeito do Rio e governador de SP conseguem a proeza de ofuscar Bolsonaro
Sejamos justos. Desta vez a culpa não foi (só) de Jair Bolsonaro. O presidente estimulou tão somente um daqueles ufanismos apreciados por autoritários aqui e alhures.

Se a tal semana da pátria se resumisse ao verde e amarelo nas ruas, o único mal seria apenas o reforço do passageiro sequestro de símbolos nacionais pelo bolso-lavajatismo. Poderíamos, assim, nos contentar em admirar a acuidade da máxima britânico-brasileira de que o patriotismo é o último refúgio do canalha (Samuel Johnson) --sendo, no Brasil, o primeiro (Millôr Fernandes).

Mas não, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), queriam algo mais. Para calar fundo no coração bolsonarista, promoveram a sua particular semana da homofobia. Ou da ideologia da estupidez, como queiram.

O prefeito tentou censurar um gibi da Marvel que estampa um beijo gay. A não ser que consiga a proeza de provar que é pornografia um homem e uma mulher, ambos vestidos, se beijarem, Crivella cometeu um ato homofóbico. Atitude que desde junho se equipara ao racismo, ou seja, é crime inafiançável, imprescritível e pode dar até cinco anos de prisão.

Já o governador tenta enterrar o "bolsodoria" e ser uma direita qualificada, refinada, sem asneiras e arroubos ditatoriais. Ao mandar recolher apostilas que abordavam identidade de gênero e diversidade, porém, prejudica crianças, desperdiça verbas e se abraça ao que há de mais tosco e ridículo no bolsonarismo.

A tal "ideologia de gênero" nada mais é do que isso mesmo, um nada, uma coisa sem qualquer amparo científico, acadêmico, moral, humano e que nem os papagaios que a repetem sabem exatamente o que é, embora lhes empreste à homofobia um ar de suposta erudição. Se trilhar esse caminho, Doria será nada mais que um Bolsonaro de cashmere.

No conjunto, o prefeito e o governador conseguiram ofuscar Bolsonaro em plena semana da pátria. Em sendo esse o intento, podem se cobrir de louros. Não foi pouca coisa.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Jair, o Fake, é o presidente da conversa fiada

Ranier Bragon

Datafolha mostra que Bolsonaro, por ora, é o presidente da conversa fiada
Só 19% dizem confiar plenamente naquilo que é dito pelo atual chefe do Executivo 
Alexandre, o Grande. Ivan, o Terrível. Pepino, o Breve. Dona Maria, a Louca... Cada um entra para a história com o epíteto que merece. A mais recente pesquisa do Datafolha mostra que, por ora, o presidente do Brasil pode se apresentar aos comensais como Jair, o Fake.

O Datafolha é o instituto de pesquisas do Grupo Folha. Criado em 1983, traz no currículo um notável histórico de credibilidade e rigor técnico.

Não na visão, porém, dos que acordaram anteontem para a vida e estudaram, em vídeo, nas melhores academias olavistas espalhadas por este mundão grande e plano.

Também guardam o instituto em baixa conta escova-botas de variados matizes, gente que inclina colunas por essas terras possivelmente desde que os primeiros petistas desembarcaram das caravelas de Cabral com suas mamadeiras de piroca.

Nesta segunda (2), de seus gabinetes e até em redações de rádio e TV, se estapearam para gritar mais alto nas redes sociais contra o Datafolha.
Entre eles o ministro da Educação. Sua pasta figura como uma das mais aparvalhadas do governo, cortou bolsas de pesquisa e está no mais absoluto deus nos acuda, mas Abraham Weintraub demonstra aborrecimento, mesmo, é com o Datafolha.

Segundo escreveu com seu reconhecido zelo pela língua pátria, acreditar no instituto é como acreditar no boitatá —reconheça-se que há aí, pelo menos, uma dica ao leitor de nome para o seu bovino de estimação: “Muito prazer, sou Tatá, o Boi”.

De fato, o governo completou simbólicos 17% do tempo de mandato com emprego a mil, economia decolando, saúde de excelência, meio ambiente dando lições ao mundo, ganhos sociais a torto e a direito.

De onde o Datafolha tira esses detestáveis números, então? Reprovação recorde, rejeição às ideias e declarações e o troféu lero-lero: só 2 em cada 10 brasileiros dizem confiar no que diz o mandatário do país. Um merecido tributo a quem embalou a carreira na mentira, na baboseira e na mais espalhafatosa falta de conhecimento de que se tem notícia.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Teoria das baratas de Bolsonaro realça diferença entre civilização e barbárie


Ranier Bragon
Estado que adere ao vale tudo contra o banditismo torna-se um Estado bandido 
Um policial de folga que tenha o terrível azar de ser descoberto por bandidos durante um assalto, e que esteja rendido ou sem condições de reação, tem grandes chances de acabar torturado e assassinado.

Logo, soa plausível a muita gente que criminosos dominados sejam mortos. Não lhes ocorre que são nessas situações que a civilização se distingue claramente da barbárie, o certo se contrapõe ao errado.

É compreensível a alguém que se depare com um crime atroz ter ganas mortais contra o agressor. Jamais o Estado, sob pena de se igualar aos facínoras. Ao puni-lo de acordo com a lei, demonstra a superioridade e a evolução da civilização através dos séculos. Não se defende —parafraseando o poeta Jair Bolsonaro— que a polícia enfrente o crime soltando pombinhas brancas. É obviamente lícito que, como recurso capital, policiais matem agressores em combate ou que representem iminente ameaça à vida de quem quer que seja.

O problema é que parte dos trogloditas que fazem arminhas com as mãos quer é execução pura e simples. Bala na nuca. "Os caras vão morrer na rua igual barata, pô, e tem que ser assim", disse Bolsonaro ao defender, novamente, o vale tudo policial.

É de pensamentos assim que surgiram as milícias, os esquadrões da morte —grupos elogiados por Bolsonaro em sua carreira— e toda sorte de quadrilhas armadas e fardadas a serviço de nada mais nada menos que ela mesmo, a bandidagem.

Criminosos já morrem como baratas em ruas e presídios, em números crescentes, e alguém tem se sentido mais confiante para andar pelas ruas das metrópoles do país?

Ideias e ações que destoem da sua primária concepção de segurança pública devem acordar na cabeça presidencial o mesmo macaquinho tocador de pratos que habita o cérebro de Homer Simpson. Em momentos assim, a falta de gente como Clóvis Rossi fica mais evidente. "Desrespeito à vida é sempre injustificável, sob pena de se implantar a lei de talião e, de olho por olho em olho por olho, acabarmos todos cegos."

terça-feira, 30 de julho de 2019

Com Bolsonaro, o Brasil atravessa o Rubicão


Ranier Bragon

No ano 49 antes de Cristo, Júlio César violou as leis romanas e cruzou o rio Rubicão com o seu exército, dando início à guerra e à expressão que se consagrou como sinônimo de decisão que não tem volta.

Mais de 2.000 anos depois, o Brasil atravessou o seu Rubicão particular ao eleger presidente uma pessoa com o preparo, as propostas, o passado, o nível intelectual, a moral e o humanismo de Jair Bolsonaro.

O regime democrático que permitiu tal decisão dará uma extraordinária demonstração de solidez e perpetuidade se suas instituições republicanas não só resistirem, mas derem respostas firmes e destemidas ao que estamos presenciando. Ou caminhará para o pântano do atraso e do obscurantismo. Não há volta.

Bolsonaro testa os limites. A cada nova entrevista, novo ato, tateia até onde pode avançar a cruzada medievalista —e não importa se ela é involuntária ou calculada para animar fanáticos e criar cortinas de fumaça.

Na manhã desta segunda (29), prosseguindo no seu campeonato de manifestações abjetas, atacou o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Em vez de se limitar a apontar os eventuais equívocos que diz ver na ação do dirigente —alguns escorados em afirmações mentirosas, como é seu hábito—, insinuou leviandades sobre o desaparecimento, na ditadura militar, do pai do advogado. Santa Cruz, à época, era um bebê de menos de dois anos de idade.

Não é arroubo esporádico. No sábado, por exemplo, afirmou que meio ambiente só interessa a veganos. O que o dito ministro do Meio Ambiente acha disso, é um mistério. Ricardo Salles foi acometido de momentânea mudez, assim como o faz em casos similares o colega que pendurou a toga e a biografia para abraçar indelevelmente o bolsonarismo.

Não serão os aduladores que darão resposta aos despautérios do presidente. Espera-se isso das instituições e dos que, dentro ou fora delas, se contrapõem à marcha da insensatez. A qualidade dessa ação definirá qual país emergirá lá na frente.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Bolsonaro faz da mesquinharia uma marca de governo


Ranier Bragon
Preconceito contra nordestinos é mais um indicativo de pequenez de espírito 
O Maranhão é um estado muito necessitado. É o 11º mais populoso e tem o segundo pior Índice de Desenvolvimento Humano do país.

Jair Bolsonaro nunca deu um pio que seja no sentido de buscar solução para as mazelas de lá ou de outros lugares, vide a sua concepção sobre a fome no Brasil. Certamente imagina que esse tipo de situação mistura coitadismo com dados fraudados pelos comunistas do IBGE.

Ocupa muito mais a cabeça do presidente a miudeza eleitoral, a ninharia política, a futilidade ideológica.

“Não tem que ter nada pra esse cara”, disse em áudio captado momentos antes da conversa com jornalistas estrangeiros, na semana passada.

Ocorre ao presidente que o “nada” que ele decreta para o governador do PC do B, Flávio Dino, afetará também os mais de 7 milhões de moradores do Maranhão, muitos deles eleitores do “mito”? Cada vez mais ele tenta dividir o país entre “o povo” —seus apoiadores— e o resto, que em sua visão não passa de um bando de saudosistas de Lula loucos para infiltrar uma serrinha tico-tico na carceragem de Curitiba.

À mesquinharia político-eleitoreira, Bolsonaro ainda acrescentou preconceito. É comovente ver sabujos espancando a metonímia da prosódia da prosopopeia para sugerir que, ao falar em “governadores de paraíba”, Bolsonaro quis, talvez, exaltar o bravo e digno povo paraibano.

Nestes quase sete meses, o presidente já deu indicativos variados de pequenez de espírito. Aos grandes e complexos problemas do Brasil, responde ocupando seu tempo com batatadas sobre pesca, importação de frutas tropicais, filhotismo, nióbio, golden shower, Bruna Surfistinha, as multas da Rio-Santos ou as agruras da classe média em Fernando de Noronha. E dezenas de milhões seguem à deriva enquanto o presidente discute bananas e tilápias.

Agora, com a prometida discriminação aos “governadores de paraíba” —e, consequentemente, à população nordestina—, empresta mais uma acepção à mesquinharia com a qual vem marcando seu governo.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Sete meses após "pendurar" a toga, Moro vê cair a capa de juiz imparcial


Ranier Bragon

Conversas expõem a 'operação mãos não tão limpas' do ex-xerife da Lava Jato

Com uma sentença de 238 páginas divulgada em 12 de julho de 2017, Sergio Moro plantou os alicerces da rigorosa decisão que mandaria Luiz Inácio Lula da Silva para a cadeia e o retiraria das eleições presidenciais do ano seguinte.

Quase dois anos depois, e apesar de colecionar ações controversas, o hoje ministro da Justiça de Jair Bolsonaro ainda guardava razoável aura de magistrado imparcial, implacável contra o malfeito e alheio às velhacarias palacianas.

As conversas secretas reveladas pelo site The Intercept Brasil neste domingo (9), porém, não dão margem a dúvida. O juiz tomou lado.

Lula, ao que tudo indica, não foi alvo de um julgamento necessariamente isento, mas enfrentou uma dobradinha intramuros entre acusadores e o magistrado —o mesmo que, dias após as eleições, pulou oficialmente no barco do maior beneficiário político de suas decisões.

O que diriam os antipetistas radicais se as conversas reveladas mostrassem Moro orientando, passando dicas ou antecipando decisões aos advogados de Lula?

De acordo com a sentença proferida pelo então xerife da Lava Jato, restou provado que o ex-presidente receberia da OAS um tríplex no Guarujá (SP) tendo que pagar apenas o preço de uma unidade convencional.

Há delações, documentos, mensagens e outros elementos nesse sentido. As conversas secretas que agora vêm a público, porém —e que se alinham a outros movimentos de Moro e do Ministério Público—, minam a credibilidade desse trabalho.

Tudo indica que o material que chegou ao Intercept foi colhido de forma criminosa, o que deve ser apurado e punido. Mas não há dúvida que tem relevância e interesse público suficiente para ser publicado.

Moro foi ator decisivo nos recentes acontecimentos da República. É cotado para o Supremo Tribunal Federal ou para a Presidência e é tratado como super-herói em atos de rua. É muito salutar que seja despido de capas que não lhe servem. A do juiz imparcial acaba de cair.

terça-feira, 4 de junho de 2019

MC Reaça, Neymar e a opacidade infinita de algumas mentes

Ranier Bragon

Não tenho informações suficientes para comentar especificamente nenhum dos dois casos, mas queria falar de algumas reações a eles. De como ainda precisamos galgar um Everest para que a mulher seja tratada como merece —e não estou me referindo a flores idiotas.

Segundo as informações que vieram a público até agora, o funkeiro bolsonarista MC Reaça se matou após espancar a amante, que está grávida e precisará de cirurgia.

Tivesse ele uma, duas, 95 amantes, isso só diz respeito às pessoas envolvidas. E o seu crime, seja ele reaça, esquerdopata, lulista ou bolsonarista, deveria ser pago na cadeia, com todo o rigor da lei, jamais com a vida. Dito isso, é chocante a reação de Jair Bolsonaro.

“Tinha o sonho de mudar o país e apostou em meu nome por meio de seu grande talento. Será lembrado pelo dom, pela humildade e por seu amor pelo Brasil”, disse o presidente do país em que se agride e mata mulheres como um esporte nacional.
Se estava mal informado sobre as circunstâncias, essa é mais uma prova ululante da impressionante incompetência que o cerca.

No caso do atacante cai-cai da seleção brasileira, também não há ainda elementos para dizer se houve estupro ou se ele foi vítima de um ardil.

O que há são elementos da total falta de noção de pessoas, incluindo mulheres, que acham que a denunciante, tipo, pediu algo assim. Aceitou passagem, hospedagem em Paris, trocou mensagens picantes. Estava indo pra que, comer croissant?

É a velha opinião do tiozismo de churrasco, de que mulher de pernas de fora e decotão está é pedindo. Pesquisa do Datafolha de 2016 mostrava que um terço das pessoas concordava com a frase de que “a mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada.”

Não importa se a convidada de Neymar aceitou passagens, carro do ano, enviou nudes. Se na hora, seja por qual motivo for, mudou de ideia e disse não, não é não.

E não há pessoa no mundo com o direito de obrigá-la a dizer sim.