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quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Vai, Carlos, ser coach na vida!

Sérgio Rodrigues

Brasil não entende, mas está inteiro nos versos natalinos de Drummond 

Fux you, Carlos! Quem mandou escrever palavras tão afiadas, tão eternas, disfarçadas mineiramente de simplicidade e cheias de ironia diante da grandeza, o que só torna tudo ainda maior?

Perdeu, Carlos. No país que chega todo estropiado ao fim deste ano da peste, seu legado se dissolve no ácido da autoajuda rastaquera, do coaching fuleiro, da banalidade emproada e perucosa: "Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo..."

Isso da falsa autoria na internet bota a gente intrigado como o diabo, Carlos. Talvez as Clarices burrinhas, os Verissimos grosseirões, os Saramagos piegas, os Borges analfabetos e os Machados lobotomizados lhe sirvam de consolo --o Drummond pateta tem boa companhia.

No entanto, nenhum desses seus ilustres colegas jamais foi citado em vão por tão alta autoridade na hierarquia pátria. Que nossos medalhões costumam ser ocos, adeptos da erudição ornamental, isso já sabíamos. Mesmo assim, double Fux com bacon e salada, Carlos!

Na furiosa fábrica de memes distópicos em que o Brasil se transformou, absurdos e tristezas andam tão fartos que a gafe (vamos chamar assim) do presidente do STF nem mereceria ser lembrada aqui, tantos dias depois de cometida.

Menos ainda, dirão alguns, na véspera do Natal, quando deveríamos nos dar as mãos e perdoar, enchendo nossos corações de esperança, coisa e tal.

Tentei, poeta. Também achei que seria de mau gosto apontar de novo ao leitor sofrido o que ele está exausto de saber --que o Brasil virou um país inteiramente demente, dividido entre a alucinação e o luto.

Em busca de inspiração, fiz o que Fux deveria ter feito: abri um livro seu. Calhou de ser o primeiro que você publicou, "Alguma Poesia", no qual há um poema chamado "Papai Noel às avessas", do qual eu tinha me esquecido.

Difícil entender essa falha de memória. "Papai Noel entrou pela porta dos fundos/ (no Brasil as chaminés não são praticáveis),/ entrou cauteloso que nem marido depois da farra."

O que acontece aqui? Só vamos entender o sujeito sorrateiro ao vê-lo afanar os brinquedos das crianças adormecidas, "soldados mulheres elefantes navios/ e um presidente de república de celuloide".

Papai Noel joga os brinquedos num lenço vermelho, faz uma trouxa e vai embora pela mesma porta dos fundos por onde entrou. O verso final é um escândalo: "Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes".

Tendo lido isso, como passar pano na superfície turva das coisas para tirar delas um brilho falso? Melhor reconhecer que Papai Noel é ladrão de futuros e que nosso país é vítima de um analfabetismo literário tão denso que até sua elite, ou uma grande parte dela, ignora a diferença entre seu maior poeta e um legume.

Depois dessa, os 37% de aprovação ao abominável "presidente de república de celuloide", aliado número 1 do vírus no mundo, ficam mais compreensíveis. Feliz Natal --e não se esqueçam de trancar a porta dos fundos.

Três leitores, todos jornalistas, me escrevem para contar que esbarraram com a palavra "passaralho" antes de 1974, ano em que Joaquim Campelo a transformou em verbete cômico, conforme relatei na semana passada. Há até quem situe o termo nos anos 60. Sendo assim, e enquanto a investigação não avança, fica combinado que Campelo foi apenas dicionarista --e não inventor-- quando aprisionou o passaralho na gaiola.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Etimologia fake


Lendas que fazem da mitologia das palavras um campo fascinante
Sergio Rodrigues

Na semana passada falei dos etimologistas românticos, gente que aprecia tanto as palavras dotadas de origens curiosas que, julgando escasso o número de historinhas pitorescas da vida real, trata de inventar mais algumas.

Houve quem me pedisse exemplos, então vamos a eles. Convém ter em mente que as lendas etimológicas mencionadas aqui são só uma pequena amostra de um universo que aguarda estudos linguísticos mais sérios.

Não, coitado não tem nada a ver com coito. Veio do verbo arcaico “coitar”, derivado do latim vulgar “coctare”, atormentar. O coito é outra coisa, oriundo de “coire”, ir com —eufemismo sexual ainda vivo em nossa língua: “Ela vai com qualquer um”.

Desfazer esse mal-entendido tem sido mais difícil do que turbinar o PIB brasileiro. A ilação etimológica coito-coitado é fantasiosa, mas acreditar nela parece satisfazer algum anseio recôndito do público.

Algo a ver com o prazer adolescente de supor uma origem pornográfica maldita para um termo perfeitamente familiar e respeitável. Romantismo, pois é.

A produção de teses dos românticos pode não ter valor algum para a própria etimologia, mas para a mitologia das palavras é um campo de saber fascinante.

Muito tempo antes —décadas, séculos— da pandemia de fake news políticas que o ambiente de contágio máximo das redes sociais propiciou, alguns desses caôs pseudoeruditos já circulavam com sucesso.

Claro que a diferença no potencial de estrago torna incomparáveis os dois tipos de mentira. Acreditar que vacinas provocam autismo é incomparavelmente mais grave do que engolir a lenda antiga que atribui o termo larápio, de origem obscura, a um certo L.A.R. Appius, juiz romano corrupto.

Diferentes as mentiras são, mas cascata é cascata. Em algum plano, não é impossível que a popularidade de uma crendice bobinha como a que situa a origem de forró no inglês “for all” tenha aberto caminho para o kit gay.

Ou a crendice não será tão bobinha assim? Haveria implicações, digamos, cívicas na subordinação do próprio nome de uma manifestação cultural tão brasileira ao inglês? Forró é forma reduzida de forrobodó, “baile popular”, termo de origem nebulosa nascido no século 19.
Às vezes a lenda dá muita bandeira de ideológica. Como a história comprada por gente à beça, inclusive professores, de que a palavra aluno, de origem latina, queria a princípio dizer “sem luz” —motivo pelo qual deve ser evitada.

Trata-se de uma patranha que teria sido fácil evitar: bastaria ir ao dicionário. O latim “alumnus” carrega o sentido primeiro de criança de peito, e o de discípulo por extensão. Brotou do verbo “alere”, nutrir, alimentar.

Tem bastante mérito a visão pedagógica do aluno como alguém que, longe de ser um espaço vazio a ser preenchido pelo mestre, tem coisas a ensinar, além de aprender. Ninguém precisa pagar o mico de propagar um erro grosseiro para defender tal ideia.

Eu disse ali em cima que o romantismo etimológico não tem valor para a. etimologia, mas cabe uma ressalva: em determinados casos, tem sim.

Um mal-entendido pode se incorporar a uma palavra de tal forma que acabe influindo em seu desenvolvimento. Chama-se a isso etimologia popular.

O caso clássico é o que transformou o francês antigo “forest” (do latim tardio “forestis”) em floresta. O romântico compareceu imaginando que a palavra para designar bosque ou mata tivesse algo a ver com “flor”. Não tinha, mas passou a ter.

Sérgio Rodrigues
Escritor e jornalista, autor de “O Drible” e “Viva a Língua Brasileira”.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

No país do outrossim

"Hacker" da ORGCRIM Lava Jato
Redação do Enem é a porta de entrada para a droga pesada do juridiquês
Sergio Rodrigues 

A coluna de hoje traz uma denúncia. Sob nossos narizes distraídos, a nata da juventude brasileira tem mergulhado de cabeça numa droga que deixava Graciliano Ramos (1892-1953) cheio de angústia.

Ainda bem que o grande estilista da língua —um alagoano ranzinza que ajudou a tornar nossa escrita mais afiada e limpa, menos empolada e tola— foi poupado do triste espetáculo.

“Outrossim, compete ao Legislativo...” “Destarte, é fundamental analisar...” “Não obstante, tal questão...” “Ademais, é fulcral ressaltar...” “Diante dos fatos supracitados, faz-se necessário...” “Por conseguinte, cabe ao ministério...” 
“Assim, observar-se-ia...”

Esses exemplos de juridiquês não foram extraídos de petições ou sentenças circulantes no fórum nem de despachos administrativos de burocratas de carreira. Se assim fosse, seriam ocorrências infelizmente banais.

Seus autores foram adolescentes brasileiros das mais diversas regiões, gente em torno de 17 anos de idade.

Colhi os exemplos em redações que tiraram nota mil nas últimas edições do Enem.

Estou perplexo. Para dar dicas mais embasadas à minha filha, que fará o exame este ano, fui conferir o que tem merecido a pontuação máxima dos avaliadores treinados pelo MEC.

Agora só consigo me perguntar: como deixamos a coisa chegar a esse ponto? A OAB assumiu o Enem? Por que a garotada está cultuando o jargão bolorento do direito?

Zeloso de um prestígio fundado em parte em sua incompreensibilidade pelos mortais comuns, o juridiquês nunca aceitou bem o banho de soda cáustica que nossa norma culta tomou no século 20.

Só que os estudantes premiados por suas bacharelices são candidatos a cursos variados, não só aos de direito.

E nasceram na virada do milênio, quando a lição textual dos modernistas já havia sido atualizada e multiplicada por várias gerações de autores de bom texto. O que é isso?

Estamos diante de um imenso retrocesso cultural e nem temos o consolo de poder atribuí-lo a um ministro da Educação de baixa extração como Abraham Weintraub. 
É mais antigo.

Estarei exagerando? Duvido. Não falo de pedantismos fortuitos que pudéssemos lançar na conta de jovens afoitos tentando impressionar adultos. A coisa é onipresente nas redações nota mil.

Não em todas elas, espero, mas certamente naquelas que, expostas na internet como modelos, têm maior influência sobre o juízo das novas gerações.

Trata-se de um sistema. Um sistema que confunde o registro formal da língua com platitudes balofas e distantes da realidade dos estudantes —gerador, portanto, de dissociação entre linguagem e pensamento.

Dois fatores ampliam o potencial de estrago desse sistema. O primeiro é o alcance do próprio Enem (5,1 milhões de inscritos este ano), replicado por incontáveis cursos preparatórios.

O segundo é mais preocupante: o letramento precário do universo ao qual se dirige a mensagem de glorificação do pernosticismo.

Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) de 2018, apenas 12% dos brasileiros de 15 a 64 anos são plenamente alfabetizados.

Com o talento demonstrado na imitação do estilo de burocratas às vésperas da aposentadoria, sei que essa juventude nota mil sabe escrever coisas fortes e verdadeiras quando o Enem não está olhando.

O mesmo não se pode dizer das multidões que, diante de tamanho show de cafonice, ficam ainda mais distantes de se assenhorar de uma língua que por direito deveria ser sua.

Sérgio Rodrigues
Escritor e jornalista, autor de “O Drible” e “Viva a Língua Brasileira”.