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quarta-feira, 26 de junho de 2019

39 quilos de cocaína no avião presidencial


Xadrez Verbal

Algumas observações sobre o episódio lamentável de hoje envolvendo 39kg de cocaína, um avião presidencial e um sargento da FAB

1 - O dano à imagem do país na véspera do G20 já está feito. Mais um passo para quem quiser classificar o Brasil como um narcoestado lá fora.

2 - Uma quadrilha de oficiais superiores da FAB por tráfico já foi pega em 2011, não é algo inédito.

3 - 39kg de cocaína não é pouca coisa. Quem estava financiando? Quais eram os contatos do sargento? Quem ia lucrar com a venda da droga no mercado europeu?

4 - ainda no fato de 39kg ser muita droga, o que a inteligência interna da FAB deixou de fazer no caso, ao verificar outras atividades de seus profissionais? 

5 - sim, profissionais, estamos falando de um praça com anos de serviço.

6 - quais fiscalizações são feitas pela FAB e pela PF em aviões que carregam autoridades do GTE? Um praça que carrega 39kg de droga significa uma brecha de segurança equivalente de alguém colocar uma bomba num avião presidencial?

7 - nesse sentido, não caberia ao GSI ter autoridade de fiscalizar essa situação?

8 - o ponto é, foi um crime possibilitado por uma série de falhas de segurança ou, até, pelo envolvimento de mais pessoas. Dependeu das autoridades espanholas o descobrimento do crime.

9 - o caso é gravíssimo e não cabe nenhuma passada de pano ou relativização. São 39kg de cocaína em um avião presidencial. Uma carga de 2 milhões de euros. Quem mandou? Quem ia lucrar? Cabem muitas cobranças e não há justificativa para opacidade institucional.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

A matéria sobre hackers da QuantoÉ é bizarra de tantos erros


A matéria sobre hackers que é capa da IstoÉ é bizarra de tantos erros, quase uma obra de ficção. Assinada por Germano Oliveira, ela já de cara afirma que os vazamentos da Lava Jato são "fruto da violação de celulares de autoridades brasileiras"; o que não é confirmado.
Uma hipótese comentada é a do uso do Telegram para desktop, ou ainda um vazamento interno.

Aí diz que "jornalista Glenn Greenwald, dono do site The Intercept Brasil". Não, Greenwald é editor, o dono do Intercept é Pierre Omidyar, fundador do eBay. É um erro tão grosseiro quanto dizer que o William Bonner é o dono da Globo.

Segue: "Em 2013, Snowden se aproximou dos irmãos bilionários Nikolai e Pavel Durov". Não, Snowden, já asilado na Rússia, recebeu uma oferta de emprego por Pavel Durov como manobra publicitária, eles nunca trabalharam juntos.

Aí segue para citar novamente Bogachev, que nem naquela história do pavão, já tratei aqui nesta outra thread:

Novamente, o "Pelé dos hackers" teria sido contratado pela merreca de 300 mil dólares "em bitcoins (a moeda virtual)". Sim, "A" moeda virtual, caro internauta

"O dinheiro teria circulado pelo Panamá antes de chegar a Anapa, na Rússia, onde foi transformado em rublos". Já expliquei essa história dos rublos na thread que citei. 

Aí vem a ideia de que os irmãos Durov, fundadores do Telegram, estariam apoiando Greenwald por "motivações puramente ideológicas. Adeptos do islã, eles teriam ficado enfurecidos com a proverbial predileção do presidente Jair Bolsonaro por Israel"

Não há nenhum indício de que algum dos irmãos seja muçulmano tirando o fato de serem residentes de Dubai (uma cidade com 85% da população de origem estrangeira). O matemático Nikolai se dizia ateu e Pavel frequentemente fazia trollagens sobre o pastafari, a religião paródia do Monstro do Espaguete Voador. Além disso, o Instagram de Pavel não é o mais adequado ao pudor religioso. 

Aí Germano Oliveira diz:"Não custa lembrar que Greenwald e Snowden foram parceiros num trabalho desenvolvido em 2013" e que, por isso, "Greenwald se refugiou no Brasil, casando-se com o brasileiro David Miranda". 

Tudo errado. Greenwald está com Miranda desde 2005. Teve matéria com a casa deles na Caras até! 

O texto continua ligando os vazamentos a "hackers profissionais" até fazer uma ligação com uma operação da PF, chamada Chabu, que prendeu integrantes da PF. 

Por vazarem dados INTERNOS da polícia, não por saíram hackeando as pessoas, é uma ligação sem pé nem cabeça. Termina falando numa conexão Brasil-Rússia-Dubai que mais parece voo da Emirates do que jornalismo. Para complementar e ficar mais fácil para quem ler essa thread. 

O hacker citado é um dos mais famosos do mundo, é um "alvo fácil" pra acusar e 300 mil dólares é muito dinheiro pra mim e pra você; para contratar alguém que deu um golpe de mais de 20 mi dólares? Ainda mais para hackear pessoas importantes? Não é um valor razoável

Sobre rublos: russos não confiam no rublo, uma moeda fraca, poupam em dólar ou em euro sempre que podem. Faria ainda menos sentido um hacker usar rublos. 

Além disso, notem que a matéria não possui nenhuma aspa, nenhuma declaração, nada. Ou frases do Moro perante o Senado e o único nome citado é "Sob a coordenação do diretor-geral Maurício Valeixo, a PF acredita ter se aproximado dos hackers". 

Oras, claro que é sob coordenação de Maurício Valeixo, ele é chefe da PF. 

É isso. Pode ter hackers? Sim. Podem ser hackers russos? Sim. Os irmãos Durov podem ter se tornado "muçulmanos malvadões"? Vai saber

A matéria tem algo de concreto? Não. Tem um monte de erros? Sim.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Professora Maristela Basso expõe sua ignorância histórica patética em programa de rádio

Xadrez Verbal

BOLÍVAR INFLUENCIADO POR LÊNIN

Sobre mais uma dose de sandice sobre História na mídia. No caso, o programa Pânico Jovem Pan de hoje. 

Emílio Surita está claramente falando das guerras de independência contra a Espanha, com a liderança de Bolívar; fala até de lutarem com enxadas contra os espanhóis, tentando ilustrar a assimetria de forças. E, nesse contexto, Maristela Basso, professora livre-docente de Direito Internacional da Faculdade de Direito da USP, emenda que "era o tempo do auge também das leituras de Marx, de Lênin, do comunismo". 

Isso pouco depois de chamar a Bolívia de "ditadura terrível", sendo que absolutamente nenhum país classifica a Bolívia como ditadura. No Democracy Index, da Economist, ela está em 83º, como "regime híbrido", na frente da Ucrânia, de Honduras, da Geórgia, da Bósnia, dentre outros.

Bolívar nasceu em 1783 e as guerras de independência na América espanhola ganham força após Napoleão derrubar Fernando VII de Bourbon, em 1808. Bolívar assume a presidência da recém-criada Venezuela em 1813. 

Marx nasceu apenas em 1818. O Manifesto Comunista é de 1848. Lênin nasce em 1870, quarenta anos depois da morte de Bolívar. Bolívar, como líder das independências americanas, estava influenciado pelas ideias do Iluminismo. Quando estudava na academia militar em Madri, Bolívar tornou-se fluente em francês da leitura de seus autores. Ele lutou contra o absolutismo ibérico.

Nos tempos de hoje, foi jogado na bacia de "É tudo Marx, comunismo" e demais lugares-comuns. É algo que não faz sentido. E em uma bancada com diversas outras pessoas, incluindo outro professor de direito convidado. E ninguém atenta para isso. Parece que tudo virou questão de opinião, desconsiderando até uma mera ordem cronológica.