domingo, 20 de setembro de 2020

O bolsolavismo decretou guerra à ciência

O bolsolavismo decretou guerra à ciência; os cientistas não podem ficar calados

Reinaldo José Lopes

Baterias antiaéreas do relativismo têm tentado abater fato do desastre ambiental

Acho bonitinho intelectual-ativista pseudoconservador vociferando anátemas contra o “relativismo” e, mesmo assim, continuando a fazer genuflexões diante do altar do bolsolavismo. Dá vontade de apertar a bochecha e chamar de chuchuzinho.

Nada mais cúti-cúti, afinal de contas, do que ver os mesmos sujeitos que se dizem o último bastião da Civilização Judaico-Cristã Ocidental™ defensores da existência objetiva da Verdade, do Bem, da Beleza (com maiúscula, é claro), toparem qualquer distorção ou falsificação dos fatos, por mais canalha ou delirante que seja, desde que Seu Mestre mande.

Mentir para si mesmo é sempre a pior mentira, já dizia aquela velha canção, e é claro que a atitude deles é uma forma abjeta de relativismo, tão ruim quanto a dos que dizem que, veja bem, no fundo, no fundo, não existe nenhuma base objetiva para as diferentes noções de certo e errado no tempo e no espaço. (“spoiler”: óbvio que existe, mas isso é conversa para outra coluna).

Eu disse tão ruim quanto? Talvez o relativismo dos bolsolavistas, para os quais a única coisa que importa é a guerra cultural de narrativas, tenha consequências ainda piores. Isso porque ninguém forma juízo de valor (objetivo ou relativo, tanto faz) sobre o nada, ou sobre uma massa indistinta de coisas que podem ou não existir. Para julgar como agir, é preciso algum grau de concordância acerca do que é a realidade sobre a qual se quer atuar. E é justamente essa possibilidade de concordância que deveria ser baseada em fatos verificáveis por todos os que fazem uso da razão, que as falanges do bolsolavismo mais têm atacado.

Nos últimos séculos, a única ferramenta capaz de produzir esse tipo de concordância a respeito de fatos verificáveis tem nome. Chama-se ciência. Já passou da hora, e muito, de reconhecer que o bolsolavismo está em guerra com a ciência, e não há armistício possível enquanto a ideologia nefasta que o nutre for o poder por detrás do poder.

Os sinais estão por toda parte e vão muito além dos absurdos pronunciados pelo presidente durante a pandemia (não vou conspurcar o teclado do computador ou a retina do leitor repetindo os ditos cujos aqui). Nas últimas semanas, a exemplo do que já tinha acontecido no primeiro ano de mandato de Bolsonaro, as baterias antiaéreas do relativismo bolsolavista têm tentado abater os fatos de que um desastre ambiental e climático está se desenhando no Brasil, simbolizado pelo fogo infernal que devora o Pantanal e os nossos demais biomas.

Diante de onças-pintadas com as patas em carne viva, o vice-presidente (aparentemente um finório que não compra as maluquices, mas as acha utilíssimas) tem o desplante de dizer que é preciso “retomar a narrativa”.

Mourão aparentemente acha que dá para tapar o olho dos satélites com uma peneira e, de algum modo, impedir que a Nasa divulgue para o mundo todo o que o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) tem mostrado com a máxima clareza: o Brasil está queimando. Está ardendo em grande parte porque o governo federal resolveu incentivar o que há de mais tapado e selvagem nos latifundiários brasileiros, esses chuchus.

Que ainda existam cientistas em universidades brasileiras fazendo o sinal da cruz diante do altar desse Baal é um escândalo e um opróbrio que deveria pesar sobre a consciência deles por muito tempo.

Reinaldo José Lopes

Jornalista especializado em biologia e arqueologia, autor de "1499: O Brasil Antes de Cabral"

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