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terça-feira, 3 de março de 2020

Nada será como antes, amanhã


LEITE COM PERA

Claudio Vigo

Toda geração acha que viveu o auge da humanidade, precedida de uma época de ouro, que dá uma certa nostalgia de um eterno retorno reparatório. Não entendeu muito bem? Leia Mircea Eliade, que tem um livro inteiro só sobre isso.

Costumamos colocar todo o mal na geração seguinte, como se não fossem fruto da maneira que os educamos ou das besteiras que fizemos ou deixamos de fazer.

Quem nasceu entre 1960 e 1980 atarraxou a última borboleta do caixão da Revolução Industrial, calcada na produção de bens materiais,objetos, e um acúmulo de informações e idolatria de obras de arte reproduzidas, gerando cópias que movimentavam uma indústria milionária. Tenha como exemplo o Rock e tudo que ele produziu em dinheiro, seja na venda de discos, ingressos, moda e comportamento.

Desde o início, a indústria do entretenimento se confunde com o conceito de massas. Os ídolos, Rodolfo Valentino, Andy Warhol ou Mick Jagger foram modelos que alimentaram este capitalismo, vendendo a imagem de transgressão e o desafio do mesmo. O que em alguns momentos de transbordamento aconteceu de verdade, gerando desafios e mal-estar, como maio de 68 e a luta pelos direitos civis e identitários.

Outro dia, sentado em uma mesa de bar vi um conhecido menosprezar seu filho de forma furiosa verbalmente, dizendo que o garoto era um merda porque não saia de casa, não brincava na rua, não aproveitava a vida. A primeira pergunta foi: vida de quem? A dele ou a sua? Quem passa o bastão sempre acredita que está entregando um tesouro, que pode ser percebido como um saco de bosta.

É muito comum hoje, entre nós, senhores que viveram com paixão as décadas de 60 a 90 do século passado acharmos que foram momentos únicos e mágicos da história: Revolução sexual, drogas, individualismo niilista,artes performáticas e uma sensação de que você estava mudando a porra toda, cool e transgressor pelo fato de ficar chapado e escutar um tipo de música.

Cobramos muito dos Millenials uma série de responsabilidades na transmissão e perpetuação deste legado, como se quiséssemos que o tempo parasse e houvesse a celebração do modo de vida que vivemos e desfrutamos.

Só podia dar errado: esta geração é pós industrial e se relaciona por livre associação e velocidade de conceitos. A grande maioria deles não vai passar 40 anos lendo tudo que aparece pela frente, como eu, quando a informação vem e vai em um nano segundo. Melhor, pior? Diferente. Não cultua pela acumulação de bens e sim o relativo, a transitoriedade e o opcional, seja no sexo, no trabalho e nas relações.

Não tenho condições de entender de verdade a realidade e a motivação de um hipster, um geek e as miríades de tribos que sequer eu sei o nome. As vezes me espanto com a ingenuidade, mas só podia ser assim. Já fui ingênuo há muito tempo atrás. Procuro conviver e acho que tenho alguns amigos bem interessantes entre eles, gente inteligente, mas muito diferente de mim. Que as vezes me irrita, o que é obvio.

Nunca tomei leite com pera na infância, tomava Toddy e meu maior medo era o Giabra e os Incas Venusianos. Temos o dever de intervir no que dá para ajudar, mas deixando a rapaziada se virar neste caos em movimento, assim como fizeram com a gente.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

A igreja evangélica é um clube de serviços e oportunidade de ascensão social em troca de 10% do que você ganha



O MACACO NU

Claudio Vigo

Nem nos meus maiores pesadelos, porres ou desesperos eu poderia imaginar que um dia fossem contestar a terra esférica e a teoria da evolução das espécies. Já tem gente relativizando até a lei da gravidade. Os crentes neopentecostais leem a Bíblia como se fosse um romance realista de Émile Zola, sem compreender.

Na época mais fechada da idade média tínhamos pendengas de altíssima complexidade e figuras como Santo Agostinho e Tomás de Aquino, todo um caldo de cultura que na atualidade é relativizado nesta suma teológica que se resume numa frase: O meu em dinheiro por favor. Obscurantismo de resultado.

Sempre conto a história de um almoço que tive com um eminente pastor de uma Igreja protestante tradicional, quando perguntei: “Não incomoda a vocês que são protestantes “históricos”, esse achaque aos pobres, com tabelinha de milagres e dizimo no cartão de débito?” obtive a resposta: “ Preferimos muito mais canalhas que levem a palavra de Deus que ateus bem intencionados como você”. Nada mais foi dito nem perguntado.

Já participei de conclaves e inúmeras reuniões com a alta cúpula de muitas destas igrejas e posso dizer que quando a porta fecha a coisa fica punk. Entre uma oração e outra, as coisas são colocadas com toda a clareza business e estratégia de poder. Parece a Cosa Nostra.

Nunca me senti pior de quando tive que explanar um projeto em um palco, entre sessões de exorcismo, milagres, duelo de bíblias e povo gritando Aleluia, revirando os olhos, falando línguas. Uma energia sinistra e carregada.

Na verdade a igreja hoje nada mais é que um clube de serviços e uma oportunidade de ascensão social em troca de apenas 10% da miséria que você ganha. Lá você vai se sentir protegido e ungido e terá a sensação de pertencimento a algo sólido . Bem diferente das políticas públicas, dos candidatos que só aparecem na eleição e que roubam bem mais que 10%, pelo menos na igreja o jogo é as claras. Terá lazer, se sentirá melhor que os outros, você conhece a palavra de Jesus. Um escolhido que receberá benesses financeiras e do além, quanto mais doar para a obra do Senhor. Muito sedutor e simples. Sem transcendência e complicações. O Diabo é o inimigo, tudo está na Bíblia e o pastor é o tradutor.

O projeto é substituir a Igreja Católica na estrutura de poder institucional. Quem antes também implicava com tudo, atormentava as consciências dos diferentes e trazia seus fiéis a ferro e fogo na culpa e danações. Os crentes são mais leves, só 10% e você ganha todo o pacote de preconceitos que vão te diferenciar, sem necessidade de mandar ninguém para a fogueira real, só na metafórica

Vivemos hoje uma Guerra Santa, o Estado está ocupado por um aparelho religioso que quer finalmente seu lugar ao sol. Tem sua bancada fiel, tomou conta do poder executivo e ruma para evangelizar qualquer coisa que passe na frente. Chegou a hora da gente direita se vingar de tudo aquilo que não compreende, ou sai fora do seu pacote comportamental.

Não se queima gente, mas todos os lugares onde se exerça a diferença. Me passa pela cabeça qual a reação futura se esses Talibãs de Cristo conseguirem formatar a sociedade sob este tacão e o que aconteceria com livros como a Função do Orgasmo de Reich ou mesmo Desmond Morris e seu Macaco Nu.