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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Crime de responsabilidade? Acho que sim, acho que não

Conrado Hübner Mendes

Indigência do debate jurídico converte impeachment em outra coisa

O impeachment atormenta analistas. Diferente de sistemas parlamentaristas, onde se pode remover, sem maiores rapapés, o chefe do Executivo, uma Constituição presidencialista estipula que a destituição de presidente ocorra em virtude de crime de responsabilidade. E esse julgamento deve se dar numa Casa regida pelas paixões e interesses da competição eleitoral, não pelo desapego e serenidade que a aplicação da lei exige.

O Parlamento, instituição constituída pela lógica da barganha, deveria, nesse caso único, funcionar pela lógica da justiça. Pedimos que deputados e senadores ajam como juízes e ignorem a eleição de amanhã. Para encerrar o imbróglio entre os que ressaltam o aspecto jurídico e os que destacam o caráter político do impeachment, resolvemos classificá-lo como instituto "jurídico-político". Um acordo russomanniano: confuso para ambas as partes.

Não pergunte o que isso significa porque não tem quase nada resolvido. Nem na prática, muito menos na teoria (transtornada com a prática). O debate público sobre o impeachment de Jair Bolsonaro tem promovido o encontro de três figuras.

O cidadão indignado na torcida, perguntado se deve haver impeachment, responde "claro, tomara" (um tipo de "wishful thinking"). O analista político pondera se há condições conjunturais que galvanizem o impeachment. Às vezes, não passa de um erudito chutismo (chamemos de "chuteful thinking"). Vem o jurista e avalia se há crime de responsabilidade. Algumas declarações moram na fronteira do achismo ( "achoful thinking", se me permitem).

A situação piora quando os três personagens se fundem num só e as muitas perguntas político-empíricas (se há apoio, se as condições devem estar dadas ou podem ser criadas, se as consequências serão positivas ou traumáticas, se eventual derrota fortalecerá Bolsonaro etc.) passam a interferir e a esvaziar a pergunta jurídico-normativa (se há crime).

O componente jurídico desse híbrido "jurídico-político" vira peça decorativa e o debate criterioso sobre crime de responsabilidade acaba interditado. O jurista se deixa calar pelo cientista político. A pergunta jurídica evapora e convertemos o impeachment em voto de desconfiança. Disfarçamos a prática parlamentarista por meio dessa sangrenta e espetacular burocracia de um impeachment.

O disfarce produz outra consequência perversa. Políticos se aproveitam do rebaixamento da pergunta jurídica e, quando indagados sobre a existência de crime, qualquer "acho que não" passa impune na esfera pública. Com base na opinião vulgar, justifica a não abertura do processo e ainda alega que a razão é jurídica.

A mais intrigante especificidade política de um impeachment está aí: ao contrário de um promotor ou de um juiz, que não podem não processar um crime comum, exceto por razões jurídicas, a Câmara dos Deputados pode decidir que um processo por crime de responsabilidade não é conveniente, mesmo havendo grande consenso sobre o crime. Ao invocar um palpite jurídico qualquer sobre o crime, tentam se eximir da responsabilidade política pela inércia.

O procedimento da Câmara dos Deputados, ainda por cima, dá ao seu presidente o poder de, à revelia do plenário, bloquear o impeachment. E passamos o último ano sem poder escrutinar publicamente crimes de responsabilidade de Jair Bolsonaro com base no "acho que não" de Rodrigo Maia. Arthur Lira não hesitará em usar do mesmo expediente. O argumento jurídico virou uma pechincha.

Antes de julgar e punir, investigar e argumentar. Temos sido sonegados dessa oportunidade elementar.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Aras é a antessala de Bolsonaro no Tribunal Penal Internacional

Conrado Hübner Mendes 

Corte tem no procurador-geral a omissão de que precisa

Jurista leão de chácara é aquele que empresta vocabulário, gravata e biografia à violência. Não lhe falta vontade de servir e sujar as mãos. Regimes autocráticos alugam esse bando para organizar, sob o verniz do direito, a repressão e a mútua proteção. O lugar da profissão jurídica na história universal da infâmia política varia entre servidão e complacência. Descontadas as exceções.

Augusto Aras integra o bando servil. Enquanto colegas de governo abrem inquéritos sigilosos e interpelam quem machuca imagem do chefe, Aras fica na retaguarda: omite-se no que importa; exibe-se nas causas minúsculas; autoriza o chefe a falar boçalidades mesmo que alimente espiral da morte sob o signo da liberdade.

Na sua teoria de Estado, presidente tem liberdade de infectar, incitar violência e praticar charlatanismo da cura. Quando subprocuradores, no início da crise, representaram para que o PGR recomendasse ao presidente se abster de propagar mentira e desinformação, arquivou. Alegou liberdade de expressão e citou precedente aleatório do STF.

Também entendeu que a conta de Bolsonaro no Twitter é privada, uma zona franca da delinquência presidencial onde pode agredir a China, celebrar cloroquina e bloquear usuário; que o presidente não pode ser investigado por ameaça a jornalistas; que tem direito de se opor a medidas da política sanitária.

Aras não economiza no engavetamento de investigações criminais: contra Damares por agressão a governadores; contra Heleno por ameaça ao STF; contra Zambelli por tráfico de influência; contra Eduardo Bolsonaro por subversão da ordem política ao sugerir golpe.

Aras não só se omite. Quando age, tem um norte: contra a lei, inviabilizou que procuradores enviassem recomendações de praxe ao Ministério da Saúde; contra a lei, recomendou a membros do MPF que não cobrassem gestores da saúde em caso de "incerteza científica". Nem vamos falar de como desmontou forças-tarefa de combate à corrupção para concentrar em si arsenal de informações privadas com infinito potencial de intimidação.

Também faz blindagem processual de Bolsonaro: requisitou inquérito do porteiro que suscitou eventual elo entre família Bolsonaro e assassinato de Marielle; deu parecer contra as provas colhidas no inquérito das fake news no STF; contra a apreensão do celular presidencial; a favor de Flávio Bolsonaro em contradição com precedente do STF sobre foro privilegiado.

Não parou: pediu rejeição da denúncia por corrupção que ele mesmo havia oferecido contra Arthur Lira, após este se aliar a Bolsonaro; viabilizou processo relâmpago contra o inimigo Wilson Witzel, governador afastado do Rio; deu parecer contra estabelecimento de prazo para presidente da Câmara posicionar-se sobre pedidos de impeachment.

Poderia continuar, mas encerro a lista com a obstrução que promove diante das representações por crime comum de Bolsonaro. Sob pressão, escreveu que estaríamos na "antessala do estado de defesa". Não explicou a ameaça.

Diante da reação de outros procuradores e à representação criminal encaminhada contra ele mesmo ao Conselho Superior do MPF, resolveu "agir". Abriu inquérito contra prefeito de Manaus e governador do Amazonas. Abriu outro contra Pazuello, que nunca escondeu sua vocação de obedecer. Não incluiu quem manda em Pazuello e assegurou que só se investigue crime de prevaricação, nenhum outro mais grave contra saúde pública.

Aras não se deixa constranger pela submediocridade verbal e teatral que floreia seu colaboracionismo. Aderiu à hermenêutica declaratória, fraude interpretativa que atribui validade do argumento jurídico à autoridade de quem fala, faceta autoritária comum à magistocracia.

Aras é a antessala do fim do Ministério Público tal como desenhado pela Constituição de 1988. "A Constituição é o meu guia, a PGR não se move por interesses partidários." A Constituição-guia de Aras é a ditatorial de 1967. Ali, o PGR era empregado do presidente.

Se contra Bolsonaro cabe um impeachment Pró-Vida, contra Aras cabe um impeachment Pró-MP.

Afinal, PGR também pode cometer crimes de responsabilidade. Seu repertório de omissões é tão holístico que prejudica Jair onde menos se espera: é a prova que o Tribunal Penal Internacional exige de que instituições domésticas se omitem e liberam o presidente para o crime.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

"Operação Kopenhagen" quer salvar Flávio Bolsonaro



Instituições estão funcionando, mas não se esqueça de perguntar para quem
Desenhar o xadrez da imunização criminal de Flávio Bolsonaro é para profissionais. A teia de corrupção institucional costurada por Jair Bolsonaro deveria ser reconstruída por instituições de controle, a começar pelo Ministério Público. Mas estão em processo de fechamento. Apesar das ameaças, ainda resta jornalismo com coragem moral e recursos. E alguns promotores. Só não se sabe até quando.

Eu pediria a ajuda de Constança Rezende e Patrícia Campos Mello, ou de Malu Gaspar e Juliana Dal Piva. Também de Chico Otavio, Rubens Valente e Guilherme Amado. E de tantos repórteres que estão no varejo da microcoleta de informações sobre essa "nova era" que extirpou corrupção do país. O prêmio internacional Corrupto do Ano já foi dado a N. Maduro, R. Duterte e V. Putin. Jair recebê-lo em 2020 foi conspiração globalista.

Reportagens históricas vão se diluindo na torrente de notícias e na incredulidade gerada por governo incapaz de comprar seringas enquanto zomba da pandemia. Esses cacos factuais comporão no futuro um dos aposentos desse castelo de terror político, um dos capítulos do livro "Brasil Nunca Mais" do inverno bolsonarista.

É fundamental não perder a visão do conjunto. Há 17 atores envolvidos na blindagem criminal de Flávio Bolsonaro, sob regência da Presidência da República: STF, Senado, Abin, GSI, PF, Receita Federal, PGR, MJ e AGU; TJ-RJ, MP-RJ, Polícia Civil, Alerj, governador interino, governador afastado, ex-prefeito do Rio. O 17 é ideia fixa do time.

Flávio é acusado do crime de peculato (modo "rachadinha") por anos a fio. Provas são caudalosas. Os gabinetes do pai e dos três filhos teriam movimentado R$ 29 milhões confiscando salários. O quarto filho não entrou para a política, mas já é investigado por iniciativas empresariais sob o carinho presidencial.

A "Operação Kopenhagen" de proteção a Flávio se faz assim: TJ-RJ confere foro privilegiado a Flávio e contraria posição do STF; procuradora bolsonarista faz MP-RJ perder prazo de recurso; STF ainda recebe reclamação do MP-RJ, mas, distribuída a Gilmar Mendes, ação fica na gaveta; TJ-RJ adia julgamento ao infinito.

Enquanto isso: ex-assessora de Flávio é empregada por Crivella; irmãos Flávio e Carlos ajudam a derrotar pedido de impeachment contra o prefeito; na Alerj, servidores fraudam ponto e regularizam retroativamente presença de funcionárias-fantasma de Flávio; Cláudio Castro está prestes a ignorar lista tríplice e escolher comissário de Flávio para chefiar MP-RJ.

Segue: concerto entre PF, GSI, Abin e Receita Federal presta serviços a Flávio na busca de invalidar relatórios de auditores; PGR e AGU se manifestam em favor do foro privilegiado de Flávio e se reúnem com Gilmar; André Mendonça pede investigação "independente" do ilícito da Abin; eleição do Senado se negocia à luz do caso de Flávio na Comissão de Ética.

Jair faz ameaça de máfia siciliana contra MP-RJ, insinuando "caso hipotético" de filho de promotor (com base em informações "hipotéticas" da polícia civil). Wilson Witzel, afastado, concluiu: "A República gira hoje em torno da proteção a Flávio Bolsonaro".

"As instituições estão funcionando" é a frase mais estéril da análise política brasileira. Esse espasmo descritivo não indica como ou para quem "estão funcionando" nem pondera erros e acertos, omissões, obstruções e usurpações. Não leva a sério a legalidade. Se há juristas dos "dois lados", basta para a "controvérsia". Não importam conflitos de interesse e a qualidade do que falam. Pouco importa o padrão de legalidade autoritária que emerge no agregado.

A frase não é vazia só pela indolência intelectual que a automatiza, mas pela falsa divisão que induz. Reduz o debate ao sim ou não. Virou jargão jornalístico binário e entrou no último estágio de seu ciclo de vida analítico. Morre quando deixa de dizer qualquer coisa sobre o mundo real, mesmo que siga dizendo muito sobre quem a boceja.

Antes de incorrer nesse hábito, estude a "Operação Kopenhagen". E faça perguntas mais elaboradas do que "instituições estão funcionando?". Por um segundo, imagine se o esforço fosse replicado, de forma não corrupta, na coordenação federativa da vacinação de brasileiros.

Inspire. Expire. Inspire de novo e sinta o cheiro do beco em que nos metemos.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

E o JusPorn Awards 2020 vai para...


Conrado Hübner Mendes

A fraternidade precisa de você, magistocrata, nessa luta por distinção e luxúria 

A abertura do JusPorn Awards 2020 assanhou as salas de Justiça do país. Magistocratas esquecidos na lista inicial de indicados correram para entrar na disputa. Houve também reação de leitores diante de prêmio tão indecoroso.

Um disse que enxergo o “copo meio vazio”, não o “copo meio cheio”. Para funcionar, a metáfora pede que o copo tenha líquido perto da metade. O otimismo pode ajudar a viver, mas não é virtude analítica. Chico Buarque consola: “É sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar”. O copo da magistocracia está cheio de férias e auxílio-autoestima também.

Outro leitor, mais aborrecido, perguntou por que nunca trato da “magistériocracia”. Foi um revés inesperado e desconcertante. Os manuais de interpretação do Brasil ainda se omitem sobre esse ator influente nos conflitos distributivos do país, o “professor”. Nada como um vigilante da magistocracia para jogar luz nas surpresas sociológicas do país.

A hora esperada chegou. O TJ-SP, pelo conjunto da obra, estava com as mãos na taça. Teve desembargador descamisado violando a lei em francês, outro negando habeas corpus a presidiários para “prender o vírus”, teve juiz punido por viés ideológico e juiz “nem aí com a Lei Maria da Penha”. Mas não foi dessa vez. Ao solicitarem vacina express, STF e STJ chutaram a porta para mostrar quem manda nessa esbórnia pandêmica.

A Fiocruz rejeitou o pedido, mas a cúpula da Justiça ainda inventará outra saída. Luiz Fux explicou, “com ética e delicadeza”, que a “preocupação com a sociedade já foi demonstrada em 8.000 ações”. Queira saber o que há entre essas 8.000 ações. Foi um sopro de hálito magistocrático: continuarão “trabalhando em prol da sociedade” se vacinados antes da sociedade. “Sou contra privilégios”, Fux disse depois. Sua biografia confirma a autenticidade.

Fux é uma espécie de Romero Britto dos tribunais. Só não tem a capacidade de pintar um retrato alegre e multicolorido de Bia e João Doria em Miami. Lembra um Rolando Lero, mas lhe falta a consciência do tanto que ignora. Rolando Lero não se levava a sério. Dotado de noção do ridículo, sua pompa exalava autoironia. A pompa de Fux é sincera. Se você disser que "pompa sincera" não existe, recomendo uma tarde de TV Justiça.

Um tal de Drummond convidou Fux a recomeçar: “Você é o que você fizer de você. Busque um lugar calmo e leve a Deus uma prece. Recomeçar é só uma questão de querer”. Não confessou em que anais da poesia nacional encontrou esse furo literário. E agora, Luiz?

Alô, alô, juiz, promotor e procurador honesto e trabalhador que não participa da pornografia mas se deixou enfezar pelo JusPorn Awards: o prêmio não é sobre você. Essa identificação carnal com a instituição é sintoma do que essa corporação pode fazer contigo. Moralmente e cognitivamente. Abraçar e defender a magistocracia é parte opção, parte resignação, parte sacanagem.

Resistir à tentação magistocrática tem custos e benefícios. Se os custos lhe parecem maiores que os benefícios, bem-vindo à confraria, você tem espinha e musculatura ética para o trabalho. A fraternidade precisa de você nessa luta por distinção e luxúria. Fique a postos para furar a fila do pão ou de qualquer outro bem coletivo. Aos poucos você vai assimilando esse currículo oculto. Logo receberá sua primeira comenda por bom comportamento.

A dedicação do indivíduo ético a uma instituição corrupta e autoritária é problema filosófico incontornável dos séculos 20 e 21. Não se sai eticamente ileso após carreira profissional em instituição tão estragada.

Assim como nenhum cidadão privilegiado sai eticamente ileso de uma sociedade tão desigual e brutalizada como a brasileira. Em parte, estamos no mesmo barco da responsabilidade.

Mas tome cuidado, magistocrata, para não anestesiar a consciência. Não é tudo a mesma coisa. Dentro dessa sociedade desigual e brutalizada, as instituições de Justiça operam a máquina mais voluptuosa de reprodução de privilégio e violência. E operam nos porões como ninguém. A face “hardcore-plus” da pornografia brasileira está nos espaços que a magistocracia governa. Uma aberração específica pede tratamento específico.

O JusPorn Awards tem grandes expectativas para 2021, ano com potencial juspornográfico incomum. O pecado mora ao lado da toga. Anote: “Nenhuma nudez judicial será castigada. Toda desfaçatez magistocrática será premiada”.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

A vacina da revolta sustenta Bolsonaro

Conrado Hübner Mendes

Mais difícil que explicar a letargia social é justificar o torpor institucional 

Jair Bolsonaro vacinou 30% da população brasileira muito antes da pandemia. Assim como a vacina do RNA mensageiro ensina o organismo a se defender do coronavírus sem inocular vírus nenhum, a vacina bolsonara ensina a mente a recusar fatos e a atacar uma esfera pública que comunique fatos. Sequestra a consciência, os sentidos e qualquer afeto social em nome da promessa de liberdade. Vacina assim não é qualquer Pfizer que fabrica.

Essa é a versão otimista da história. A versão cínica e menos autoindulgente diria que a liberdade do "eu sozinho", a liberdade do "eu primeiro", a liberdade do "e daí?", somadas às liberdades do "eu mereci", "sou engenheiro civil formado" e "todo mundo vai morrer mesmo", liberdades brasileiras por excelência, casaram com Jair.

Nosso liberalismo à bala foi gestado por proprietários de escravos. O litígio por essa herança ainda reúne muita gente. Partido Novo e Paulo Guedes, o liberal de Bagé que trata maricas com joelhaços, só tentaram furar a fila.

A versão cínica ou a otimista da história, somada às imposições da pandemia, talvez expliquem a letargia social diante da enormidade dos fatos de autoria intelectual ou material de Bolsonaro em 24 meses. Recordar é sobreviver:

Há uma agência de inteligência (Abin) trabalhando para defender filho do presidente de acusação criminal; R$89 mil foram transferidos por operador de rachadinha na conta da primeira-dama; uma família inteira (três filhos e ex-esposa) comprou imóveis com dinheiro vivo; funcionários-fantasmas e assessores de gabinete tiveram salários confiscados por anos a fio. Nem o presidente nega: "Queiroz pagava minhas contas e está sendo injustiçado".

O quarto filho, jovem empresário, troca hora marcada na agenda presidencial por serviços gratuitos de empresas contratadas pelo governo federal. O pai segue lutando para acelerar colapso climático, para isentar polícia da responsabilidade por matar crianças negras e facilitar armamento de milícias (ou você achava que reduzir fiscalização era para te proteger?).

O circuito da delinquência se encerra na pandemia, agora no estágio da vacinação: contra a lei, presidente incita medo e defende a não-obrigatoriedade da vacina; cioso de seu papel de educar pelo exemplo, afirma "não vou tomar!"; encomenda campanha sobre perigos da vacina e pede termo de responsabilidade; boicota vacina que supõe beneficiar adversário eleitoral; está pelo menos seis meses atrasado na construção de plano de vacinação.

Bolsonaro calcula que postergar até 2022 as condições sociais de insegurança, incerteza e apreensão da pandemia o beneficia eleitoralmente. Está certo de que a responsabilidade por 200 mil mortes, número que deve seguir em alta com a inoperência do projeto de vacinação, será atribuída ao Congresso, ao STF, a governadores e prefeitos. Até ao capeta, mas não a ele.

Bolsonaro aposta que, quando a vacina enfim chegar, será recompensado. Melhor que aconteça perto da eleição. Ele pode estar certo.

Mais angustiante que buscar explicação para a letargia social, porém, é decifrar e justificar um torpor institucional e partidário tão duradouro. Afinal, o "instinto assassino", o "descaso homicida" e o "instinto sabotador", qualificativos de editorial recente da Folha, precedem à pandemia. Estavam lá desde o começo.

O negacionismo político que normaliza gratuitamente o projeto de Bolsonaro nasceu com a posse do governo e, depois de tudo, continua a suspirar nos tribunais superiores, nas Casas legislativas e até no jornalismo. Enquanto isso, o centrão se bolsonarizou, fez o presidente mergulhar na fisiologia venal que jurou combater e o tornou ainda mais perigoso.

Nessa conjuntura, a coalizão de partidos democráticos, formada para disputar a presidência na Câmara dos Deputados, é novidade promissora no horizonte. O tom e a cor das palavras, pelo menos, mudaram: "esta é a eleição entre ser livre ou subserviente; ser fiel à democracia ou ser aliado do autoritarismo". A união nasce para rechaçar "projeto de poder que menospreza as instituições e que por inúmeras vezes sugeriu fechamento desta Casa".

As dezenas de crimes de responsabilidade estão aí, escolha seu preferido. Para que crime de responsabilidade resulte em impeachment, porém, vamos ter que elaborar algum antídoto contra a vacina da revolta.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

"Tinha que matar é mais"

Nem homicídio serial de crianças (negras) abala disciplina estatal em matar e deixar morrer

Conrado Hübner Mendes

A brutalidade brasileira é um agregado de ações e omissões estatais e individuais com a insígnia do racismo. Debaixo da prática, há uma filosofia que a atiça. A filosofia tem um capítulo da morte, uma doutrina do matar e deixar morrer. Pela primeira vez na história, a selvageria verbal se transformou em dialeto presidencial. A correlação entre o verbo recitado lá de cima e a violência letal lá embaixo (nas periferias) não é mais dúvida nas ciências sociais.

A filosofia "polêmica" esteve por décadas na ponta da língua de seu maior embaixador contemporâneo. Alçada à Presidência, a doutrina era antes gritada no Jô Onze e Meia, CQC, SuperPop, nos Rafinhas e Gentilis da TV. Sob gargalhadas. A graça era essa:

"Polícia tinha que matar é mais. Policial que não mata não é policial. Esses policiais têm que ser condecorados. Se alguém disser que quero dar carta branca para policial matar, eu respondo: quero sim. Os caras vão morrer na rua igual barata.

É muito comum qualquer policial, em operação, matar o vagabundo, matar o traficante. E a imprensa, em grande parte, vai em defesa do marginal e condenam o policial. Liberdades e direitos constitucionais são esterco da vagabundagem. Direitos das crianças têm que ser rasgados e jogados na latrina."

O embaixador fez seus discípulos por todo país e foi multiplicando o bestiário político brasileiro. "A polícia vai mirar na cabecinha e... fogo", "a polícia vai atirar para matar", "bandido não vai para delegacia, vai para o cemitério". Este último cumpriu sua promessa em Paraisópolis um ano atrás.

O policiamento público e privado de corpos negros com uso ilimitado da força é política de segurança que a Constituição nunca conseguiu incomodar.

O embaixador responde: "Não adianta dividir o sofrimento do povo brasileiro em grupos. Problemas como o da violência são vivenciados por todos. Não nos deixemos ser manipulados por grupos políticos. Sou daltônico: todos têm a mesma cor".

Os fatos insistem em dividir o sofrimento brasileiro em grupos. O Anuário de Segurança Pública de 2020, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, faz a radiografia mais recente: negros são 75% de vítimas de violência letal no país; 79% das vítimas de intervenção policial; 65% dos policiais assassinados; 67% da população carcerária.

As falhas institucionais do concerto entre polícias, Ministério Público, Judiciário e sistema penitenciário, sob a leniência governamental, continuam escancaradas. Blindado de controle, esse edifício multiplica tanto a insegurança quanto a sensação de insegurança.

O edifício é multifuncional. Numa ponta mata crianças negras. Na outra ajuda a logística do crime organizado. No meio, obstrui as investigações pela letalidade policial e permanece indiferente à violência contra policiais, à precarização da carreira, à milicianização. Responsabilidades do alto comando evaporam nesse labirinto. A polícia que mais mata e mais morre no mundo continua refém da política que lucra com isso.

Quem mandou matar mais de 20 crianças negras no Rio de Janeiro no último ano? Quem mandou atirar em Emily, Rebecca, Agatha, Anna Carolina, "menino não identificado", Victor, Arthur, Nicole, "menina não identificada", Raphael, Ketiley, Gabriel, Maria Eduarda, Adrelany, Douglas, Kauã, Rayane, Ítalo, Kaio e Maria Pétala? No jargão da cumplicidade, balas que matam crianças negras são "perdidas".

A filósofa Barbara Applebaum, no livro "Being White, Being Good", tentou entender a "cumplicidade branca": "Mesmo que brancos sejam bem-intencionados, mesmo que se considerem modelos de antirracismo, como podem ser cúmplices involuntários de um sistema injusto? Interessante a alegação de que pessoas possam reproduzir e manter práticas racistas mesmo quando, e especialmente quando, acreditam ser moralmente boas".

Negros morrem mais nas mãos da polícia. Policiais negros morrem mais. Até o coronavírus mata mais negros. 40% mais. Daltônico não é só Bolsonaro.

Mais exemplos? Há três meses descansa na gaveta de Marco Aurélio pedido de providência sanitária do governo federal para proteção de comunidades quilombolas na pandemia (ADPF 742). O ministro do STF dorme. Vidas negras não podem dormir.

Conrado Hübner Mendes

Professor de direito constitucional da USP, é doutor em direito e ciência política e embaixador científico da Fundação Alexander von Humboldt 

segunda-feira, 13 de julho de 2020

As instituições estão funcionando?


A pergunta "As instituições estão funcionando?" poderia ser abolida do jornalismo e da ciência política vulgar. Não porque as instituições não estejam funcionando (ou o contrário), mas porque a pergunta binária não leva a lugar algum. Não responde como, quando nem por quê.

Conrado Hubner

terça-feira, 26 de maio de 2020

O Programa Deixa Morrer atingiu hoje 80% da meta


Conrado Hubner

24.500 mortes

O Programa Deixa Morrer atingiu hoje 80% da meta de 30 mil mortes, anunciada pelo deputado nos anos 90.

Deve cumprir a meta em 3 dias. E aí triplicar a meta.

Presidente é responsável pelas mortes evitáveis e pela tragédia econômica mitigável.

Um oferecimento de:


Patrocinadores do Programa Deixa Morrer


Bio Ritmo (academia de ginástica) – Edgard Corona

Smart Fit (academia de ginástica) – Edgard Corona

Centauro (artigos esportivos) – Sebastião Bonfim

Havan (comércio de varejo) – Luciano Hang

Polishop (varejo, e-commerce) – João Apolinário

Riachuelo (comércio de varejo) – Flávio Rocha

Madero (restaurante) – Junior Durski

Localiza (locadora de automóveis) - Salim Mattar

Coco Bambu (restaurante) – Afrânio Barreira

Cyrella (Setor imobiliário) - Elie Horn

FKO Empreendimentos (setor imobiliário) – Otávio Fakhoury

Ampla Projetos (finanças) – Dilermando G Ribeiro Júnior

Bemisa (mineração) – Marcelo Pessoa

Beauty’in (beleza) – Cris Arcangeli

Cae Fisio (fisioterapia) – Caê

Galápagos (finanças) – Marcelo Pessoa

Gazeta do Povo (mídia) – Guilherme Cunha Pereira

Gocil (segurança) – Washington Cinel

Madetec (móveis) – Luciano Morassutti

Mauá Investimentos (finanças) – Otávio Fakhoury

Cosan (setor sucroalcooleiro) - Rubens Ometto

CNN Brasil, MRV Engenharia, Banco Inter, AHS Development Group, Urbamais Desenvolvimento Urbano, ABC da Construção, Log Comercial - Rubens Menin Teixeira de Souza

Outros empresários

Roberto Justus - publicitário

Nabhan Garcia - presidente da UDR

Paulo Skaf - presidente da FIESP e do CIESP

Bispo Edir Macedo – Record TV, Igreja Universal

Silvio Santos - SBT

José Ricardo Roriz Coelho, da Abiplast

Fernando Valente Pimentel, da Abit

José Velloso Dias Cardoso, da Abimaq

Paulo Camilo Penna, presidente do Snic

Elizabeth de Carvalhaes, da Interfarma

Synesio Batista da Costa, da Abrinq

Haroldo Ferreira, da Abicalçados

Ciro Marino, da Abiquim

José Jorge do Nascimento Junior, da Eletros

José Rodrigues Martins, da CBIC

Reginaldo Arcuri, da FarmaBrasil,

José Augusto de Castro, da AEB

Marco Polo de Mello Lopes, da Coalizão Indústria

Humberto Barbato, da Abinee

sábado, 16 de maio de 2020

A fase 4 da pandemia no Brasil

Não somos mais párias internacionais. Foi a fase 1.
Hoje somos ameaça internacional. É a fase 2.

Na fase 3 a comunidade internacional pensará em sanções. Já começaram a chamar diplomatas de volta pra casa.

Conrado Hubner
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P.S.: A fase 4 será mais ou menos assim:


quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

O PIBB que se exploda


Conrado Hübner Mendes 
Crescimento econômico de qualidade requer âncora civilizatória
O crescimento de 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB) no trimestre despertou entusiasmo em pibólatras do governo e do mercado. Por autointeresse ou cegueira voluntária, continuam sem ter muito a dizer sobre o Produto Interno da Brutalidade Brasileira (PIBB). Este avança sob o ímpeto vingativo do bolsonarismo.

O PIBB registra a cota de incivilidade da nossa vida real: recordes mundiais em homicídios, crimes de ódio, encarceramento, violência estatal e social. Ilustra o Brasil que castiga, mata e deixa morrer; que intimida, lincha e esculacha; que vigia, delata e persegue; que reprime a liberdade e a diferença. É um índice que ainda não aprendemos a expressar na linguagem econômica, dada a intangibilidade e incomensurabilidade de suas variáveis.

Essa difícil contabilidade busca estimar nosso déficit em direitos, tolerância cívica e institucionalidade democrática. A nossa dívida constitucional, enfim. A expansão do PIBB se constata numa sucessão de fatos recentes. Não são casos anedóticos isolados, nem mera continuidade de padrões históricos. Essa onda é distinta e pertence à “nova era”.

As vítimas do PIBB são sujeitos que habitam as periferias da sociedade (negros, mulheres, homossexuais, pessoas com deficiência, indígenas), da geografia (subúrbios, favelas, prisões, zonas rurais, florestas) e da política brasileiras (professores, cientistas, artistas, militantes).

Dos meninos de Paraisópolis e do Complexo do Alemão aos índios da Amazônia; do disque-denúncia de professores à demissão de cientistas por pesquisas inconvenientes; da autorização para a polícia atirar em protestos à tortura das prisões; da exclusão de pessoas com deficiência da escola regular e do mercado de trabalho, o bolsonarismo faz recrudescer, com método renovado, o vasto repertório do PIBB.

A pibolatria permanece indiferente e sem crises de consciência. Na melhor das hipóteses, entende que o crescimento do PIB mitigará o PIBB por força da natureza. Na pior, sugere o AI-5. A indignação moral e argumentos abstratos sobre justiça não serão suficientes para reagir a esse modo de entender os problemas do país.

Há forma mais objetiva e pragmática de apontar o erro. O PIB é indicador inapropriado de performance econômica, de progresso e de bem-estar. Assim já concluíram não só Nobéis de economia, mas o Banco Mundial, o Fórum Econômico Mundial, o FMI, a revista The Economist etc. Sob a perspectiva do PIB, não foi possível explicar a crise de 2008. Muito menos a emergência do populismo autoritário ao redor do mundo.

A pibolatria esconde que o PIB é só um meio, não um fim, e que esse meio não consegue captar bem-estar e qualidade de vida. O truque da pibolatria é converter esse meio que não mede a coisa certa num fim em si mesmo. Crescimento econômico de qualidade requer âncora civilizatória. Precisa saber como cresce e quem ganha com isso.

Desempenho econômico e desempenho constitucional devem caminhar juntos. Do ponto de vista do interesse público e de longo prazo, revigoram-se mutuamente. O atalho da degradação institucional revela a força de interesses privados de curto prazo. Pesquisas econômicas vêm apontando para essa correlação entre respeito a direitos e crescimento, apesar dos casos que fogem ao padrão, como o chinês.

Não é preciso ser gênio econômico para fazer o PIB crescer junto com o PIBB. Essa é uma tarefa elementar, de cartilha. Elementar e produtora de imenso sofrimento e mal-estar que depois cobrarão sua fatura. No Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), para tomar um exemplo alternativo ao PIB, o Brasil está caindo.

Bolsonaro é um inovador. Em vez de jogar o PIBB para debaixo do tapete e disfarçar a mediocridade política, como outros fizeram, investe no contrário: a explosão do PIBB foi sua grande promessa. Ele não só a cumpre como celebra o resultado com orgulho.

Conrado Hübner Mendes
Professor de direito constitucional da USP, é doutor em direito e ciência política e embaixador científico da Fundação Alexander von Humboldt.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Muito prazer, presidente, eu sou o Fato


Conrado Hübner Mendes

O julgamento da história é um prato que se come gelado
“Tenhamos cuidado com as palavras. Elas têm significado. Tenhamos cuidado com os fatos. Eles têm peso.” (Roger Cohen)
Os otários estão morrendo, presidente. Quando desligou pardais de estradas federais porque motorista “não é otário, não faz isso daí”, os fatos seguiram a ordem causal das coisas. Tivemos a primeira alta em acidentes graves desde 2011. Mesmo que a morte de otários não te comova, faltou observar que acidentes matam não otários. Sabe quanto custa para o Estado?

A Amazônia está queimando. Não é a cultura local, mas ausência de Estado. O desmatamento aumentou 29% (74% em área indígena). A costa brasileira sofre o maior vazamento de óleo da história. O ministério em desmanche reage a passos de tartarugas (que também morrem). Culpar, sem evidências, quem protege a natureza só fez escancarar inépcia e má-fé. Foi para promover Di Caprio?

Multas ambientais caíram pela metade. Pesquisas econômicas mostram que desmatamento beneficia o crime e produz pobreza, não crescimento. Vai faltar chuva para agricultura e água na torneira. O prejuízo foi calculado?

Donald Trump não te quer, presidente. Enquanto isso, o país engole a seco uma retaliação arbitrária no comércio internacional. Não te sobrou aliado lá fora. Ernesto sugere alguma reação à altura?

Ritos democráticos estão se esfarelando tal como planejado. Boa parte de tua equipe tem conhecimento diminuto da função que exerce, combinado com negação dos fatos, paranoia conspiratória e desprezo pela política pública que administra. É essa a ideia.

Só pede para pararem de falar em AI-5. O novo AI-5 não precisa se chamar AI-5. O estado geral de dormência funciona melhor do que a gritaria. Qualquer dúvida, liga para o Orbán. A “linha direta” com Trump serve apenas para recados de amor.

São alguns fatos, presidente. Agora uma dica sobre a imprensa. Seria melhor segurar a raiva, pois quanto mais você ataca a Folha, mais a dignifica. Esse rebote moral é implacável. A dica vale para a violência que pratica contra mulheres, homossexuais, índios, negros, paraíbas, jornalistas, artistas, professores, cientistas, detentos torturados ou qualquer dissidente.

A dignidade nos aplica outra rasteira: quanto mais se tenta ferir a do outro, mais se diminui a de si próprio. Não que tua biografia anime qualquer um a dizer que te restou alguma, mas a dignidade é uma matriarca generosa. Ela pede que até você, na sua humanidade rudimentar, tenha teus direitos protegidos.

Ninguém está autorizado a te agredir como você agride o outro. Nem que você fosse um genocida. O Tribunal Penal Internacional obedece a este princípio. A dignidade do genocida requer respeito a direitos básicos. Jesus Cristo pensava parecido, mas pouco te importa. Afinal, teu fígado já disse que a filosofia cristã equivale a “esterco da vagabundagem”.

Só não pense que vai sair barato, presidente. O julgamento da história é um prato que se come gelado. Estudiosos do fascismo têm se assombrado com tua figura. O historiador Federico Finchelstein (New School, Nova York), por exemplo, autor do livro “História das Mentiras Fascistas”, detectou “pensamento fascista” em parcela significativa dos teus militantes. E explica que “fascismo age desde baixo, mas é legitimado desde cima”.

Finchelstein nota que tuas invenções sobre o que, de fato, é “um dos maiores crimes do planeta atualmente —a rápida destruição da Amazônia”, lembram “as mentiras fascistas sobre sangue e solo”. E conclui que teu “estilo e substância [...], impregnados de violência política, chauvinismo nacional e glorificação pessoal, têm características fascistas essenciais”.

Deveria custar caro na Justiça brasileira também, mas improvável. Carente de dignidade própria, a magistocracia segue fiel a teu projeto. Basta manter magistocratas de barriga cheia e neutralizar juízes independentes. Nestes reside a esperança constitucionalista. A Justiça penal internacional pode se sair melhor.

Avisa teus ministros e colaboradores. Lembra o Moro que as escusas perderam o charme. Alerta os experts do ministério “técnico”, cujo chefe cogita o AI-5 como medida econômica, que nenhum está imune nessa cadeia de responsabilidade. Conta para tua família (a de sangue e a do Vivendas da Barra). Não sairá barato para ninguém.

Conrado Hübner Mendes
Professor de direito constitucional da USP, é doutor em direito e ciência política e embaixador científico da Fundação Alexander von Humboldt.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

O STF erra até quando acerta


STF: criticar para defender

Conrado Hübner Mendes

O Supremo Tribunal Federal é a vitrine mais reluzente da irresponsabilidade judicial brasileira. Da arbitrariedade também. Irresponsabilidade e arbitrariedade marcam sua forma de se relacionar com o mundo.

Não me refiro aos resultados das decisões do STF. O tribunal pode errar e acertar como qualquer outro. Erros e acertos honestos decorrem de juízos longe de incontroversos. Mas muitos desses erros são trágicos.

Lembra-se da revogação da cláusula de barreira? Surdo ao delicado debate legislativo que gerou a lei, embevecido numa retórica sobre pluralismo e minorias que ignorava todo saber empírico sobre eleições, o STF facilitou a conversão do sistema partidário num pulverizado balcão de negócios.

Há uma enciclopédia de exemplos: a permissão para a polícia invadir domicílios quando houver “fundadas razões”, cheque em branco para a violência (nas favelas); a autorização do ensino religioso confessional em escola pública, que libera o proselitismo escolar com recurso estatal. Silas Malafaia e Edir Macedo celebram a parceria público-privada.

Mas o trágico pode ficar para outro dia. Queria falar sobre o arbitrário e o irresponsável. É urgente observar “como” o STF decide, além de discutir “o que” decide. O “como” do STF é arbitrário porque o humor ou interesse oculto de um ministro bastam para obstruir, por anos a fio, o plenário e a esfera pública; porque qualquer frase de efeito ou anedota pode passar por “argumento jurídico” e “evidência”.

É irresponsável porque não presta contas nem explica os critérios de suas escolhas e prioridades; porque viola regras da ética e decoro judicial; porque faz da obscuridade seu manto de proteção contra o escrutínio público. Parece mera etiqueta, porém nada é mais importante para a sobrevivência do STF.

Os exemplos são infinitos: o caso sobre a Lei de Drogas, de 2011, que sofre seguidos adiamentos como se nada estivesse acontecendo (e a crise das prisões pudesse esperar); as liminares monocráticas que suspendem leis e voltam para a gaveta; os pedidos de vista que agridem o colegiado e postergam por tempo indefinido a solução do problema. O compasso do STF não está em sintonia com o interesse público. Tampouco com a virtude da espera.

Há também a lambança padrão-ouro. Nunca esqueceremos do pagamento ilegal de auxílio-moradia a juízes. Por cinco anos, uma liminar precária de Fux garantiu que o “plus” de R$ 5 bilhões, não reembolsados, fosse gasto com a magistocracia. Só cancelou a mesada quando o aumento salarial concedido pelo Congresso caiu na conta bancária. Uma “permuta”.

Há muito mais: as façanhas interpretativas e manipulações procedimentais no caso da execução provisória da pena tornaram qualquer resultado merecedor de justa desconfiança; o inquérito policial, com foco genérico e base legal extravagante, burlou sorteio entre ministros e fez do gabinete pré-selecionado uma delegacia contra os inimigos da corte.

O STF, em resumo, erra até quando acerta. É um erro de segunda ordem, que tem a ver com sua forma de agir, não com o conteúdo. Por trás da solenidade, há quase sempre um grau de lambança que infecta a autoridade de suas decisões. Boas ou más, tornam-se imprestáveis, indignas de respeito. Na sala de aula de faculdades de direito dos anos 2000, decisões do STF eram recebidas com deferência e curiosidade. Na década seguinte, passaram a ser lidas com incredulidade e escárnio.

Interpretação jurídica e jurisprudência podem ser o produto de um esforço intelectual sincero e sedimentar uma tradição. Ou podem ser uma farsa. Entre a farsa e a integridade judicial reside a possibilidade do Estado de Direito.

Ministros não reconhecem a emboscada que armaram para o STF. Seu caricato apego à liturgia atrapalha a visão (a deles, não só a nossa). Podem entrar para a história como os que empurraram o STF ao baixo clero dos Poderes. Ou podem fazer alguma coisa em nome das liberdades, mesmo que seja tarde demais.

Criticar a conduta de ministros é um dever. Defender um tribunal corajoso, também. Com a clareza e a sinceridade que pedimos deles, a clareza e a sinceridade que ainda nos sonegam.

sábado, 24 de agosto de 2019

Bolsonaro e Salles rasgam dinheiro e cometem crimes de responsabilidade



Bolsonaro rasga dinheiro. Hoje reclama que falta dinheiro. Para proteger a Amazônia, por exemplo.

Bolsonaro agride toda divergência. Hoje reclama que falta diálogo.

Bolsonaro diz que não faz nepotismo. Depois pede a senadores que atendam seu pedido de "pai", não de presidente.

Sobre rasgar dinheiro e crimes de responsabilidade


Enquanto o Bolsonaro choraminga na tevê e na live que tá difícil arrumar dinheiro pra segurar a bomba que ele armou na Amazônia, eu vou contar pra vocês como o Ricardo Salles queimou BILHÕES que nem estavam no orçamento federal e podiam ir para nossas florestas.

Vem comigo:

1) Programa de conversão de multas: maior legado do @sarneyfilho, transformou o desastre da arrecadação de multas (menos de 4% das sanções) em um programa voluntário no qual os devedores pagavam com desconto. Se previa mais de 1 bi para as bacias do São Francisco e o rio Paraíba
Isso só em 2019. Em poucos anos, seria 4 bi, mais de uma década de orçamento do MMA.

Salles disse que era $$ pra ONG e paralisou tudo. Em seguida promoveu um desmonte no Ibama e criou um núcleo de conciliação onde ele mesmo teria que dar aval a cada uma das 14 mil multas anuais.

Links:

Ministério do Ambiente quer núcleo com poder de anular multas do Ibama

Salles amordaça o Ibama e dispensa R$ 1 bilhão que seria dedicado pelo órgão a projetos de revitalização do São Francisco

Ministério do Meio Ambiente suspende convênios com ONGs por 90 dias

2) Fundo Amazônia, que tem 1,5 bilhão em caixa sem destinação e não pode mais operar. O $ tá parado porque Bolsonaro extinguiu o Conselho gestor no início do ano. Desde então, Salles desconversa e diz que "está analisando". O fundo bancava operações do Ibama e de combate a incêndios.

O Fundo Amazônia também bancava as + importantes atividades de "dinamismo econômico" e "iniciativas capitalistas" em floresta tropical do planeta. As duas expressões são recorrentes na retórica vazia do ministro enquanto a Amazônia se desfaz sob seus oclinhos.


Fim do Fundo Amazônia pode afetar fiscalização do Ibama

Amazônia precisa de 'soluções capitalistas',diz ministro do Meio Ambiente

3) Fim do fundo Amazônia também representa impossibilidade de arrecadar $ no futuro. De cara já perdemos R$ 300 mi. Pra que?

Apenas por que o Salles quis usar o $ para indenizar fazendeiros e tentou mudar o conselho pra poder controlar tudo.

Quantos bi deixamos de ganhar em longo prazo???

Links:

Noruega suspende repasse de R$ 133 mi para o Fundo Amazônia

Noruega e Alemanha resistem a mudança no conselho do Fundo Amazônia

4) Fundo Verde do Clima: esse é um fundo dentro do acordo de Paris que deve trazer U$ 100 bilhões por ano a partir dos próximos anos. Temos 3 instituições no Brasil capazes de captar grana de lá, mas o governo ameaça sair do acordo, o ministro diz que é discussão acadêmica e Bolsonaro ainda em 2018 pediu pra não sediar a Conferência Mundial do clima (COP), que seria no BR. Perdemos a chance de pautar o assunto, alavancar bilhões, protagonizar os acordos e ser o maior beneficiário - já que temos a Amazônia, cuja importância o mundo mostrou q reconhece

Paradoxalmente, enquanto pensava se ficava no acordo, Ricardo Salles dizia que o acordo era ruim e o mundo deveria pagar para o BR preservar..Simultaneamente, Bozo extinguiu o braço do Itamaraty que conduzia as negociações climáticas e se preparava para captar $ nesse fundo, o GCF.

Links:

Governo extingue órgãos que lideravam negociações do Brasil sobre mudanças climáticas

Janeiro: Salles quer que o Brasil seja compensado por outros países por preservação ambiental:

Brasil é credor, não devedor no Acordo de Paris, diz Salles

Um PS: com a crise dessa semana, Salles disse que aguarda (cair do céu) os U$ 100 bi cujas condições de acesso o governo destruiu ao chutar o Fundo Amazônia, mandar a COP pro Chile e destruir a diplomacia climática do Itamaraty e do MMA:

Salles diz aguardar US$ 100 bi prometidos por países no Acordo de Paris

sexta-feira, 28 de junho de 2019

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Festival de Barbaridades Judiciais que Assolam o País


Febejapá new age

Conrado Hubner Mendes

O Febejapá (Festival de Barbaridades Judiciais que Assolam o País) entrou na fase new age e adquiriu dupla personalidade. A primeira é a face mais embrutecida, do “tiro, porrada e bomba” com um toque de Bíblia . A segunda vem com polimento, dissimulação e eufemismos. De um lado, a magistocracia hardcore, com esteroides; de outro, a magistocracia softcore, com o mesmo DNA, mas menos atrevida e ostensiva. Ambas têm representantes prototípicos.

A ala carioca do Febejapá fornece as três encarnações mais acabadas da hardcore. A primeira é a desembargadora Marília Castro Neves, guerreira contra o politicamente correto. Sua obra em redes sociais já afirmou que Zumbi dos Palmares é um “mito inventado” que “estimula racismo”, debochou de professora portadora de síndrome de Down, declarou que Marielle “estava engajada com bandidos” e que Jean Wyllys merecia uma “execução profilática”. Indagada, disse que foi brincadeira e acusou o “mau humor da esquerda”.

Marcelo Bretas e Wilson Witzel (ex-juiz, ainda embebido no éthos magistocrático) completam o trio. A performance de Bretas está nas redes sociais, que considera um espaço privado onde exerce liberdade de expressão. Ali, ironiza quem critica seu auxílio-moradia, curte postagens de Jair Bolsonaro, festeja o novo governo — que entende ser marcado por ministros técnicos no lugar dos ideológicos —, divulga fotos de seu treino na academia militar com fuzil e na academia de ginástica com camiseta regata. Afirmou dias atrás que a ação policial goza de “presunção de legitimidade” até que se prove o contrário e que, “em situação de legítima defesa, o policial tem o DIREITO DE MATAR o agressor”. Foi assim, em caixa-alta, sem nenhuma qualificação sobre o tipo de agressão ou a proporcionalidade da reação, como quer a doutrina penal moderna.

O “direito de matar”, em caixa-alta, soa como música para Witzel. Amigo de Bretas, foram juntos num jato da FAB à posse de Bolsonaro. Pouco importa que, durante a campanha, decisões de Bretas, corretas ou não, tenham afetado adversários do amigo. Witzel é figura folclórica na magistocracia e não se constrangeu pela divulgação do vídeo em que explicava a juízes sua “engenharia” para burlar o sistema e ganhar a “gratificação de acúmulo”. Seu protocolo policial é “mirar na cabecinha e fogo, para não ter erro”. Sua polícia, nos últimos dez dias, matou 42 pessoas. Sua “política do abate” esteve a todo vapor na favela de Manguinhos, em que 14 pessoas foram mortas. Acumulam-se evidências de que disparos foram feitos de uma torre da polícia, por snipers.

O Febejapá new age não é só truculência, mas também desfaçatez. Sergio Moro deu guinada na carreira e entrou para a política. Menos por apego à legalidade, mais por sua rara disposição de colocar, a jato, alguns poderosos na cadeia, foi aclamado síndico do panteão dos homens de bem e passou a gozar da presunção de infalibilidade. Emprestou, de graça, seu status ao bolsonarismo. Associou sua trajetória a quem pratica caixa dois, festeja milícias e pede foro privilegiado no STF. Quando seus próprios sócios boicotam o projeto de combate à corrupção e restringem a transparência, engole em seco. Teve de substituir sua doutrina “caixa dois é crime contra a democracia” pela alternativa “ele já admitiu e pediu desculpas”. Seu pacote anticrime, já vimos, serve à filosofia hardcore, mas ele o explica com toda a serenidade e sem apego a evidências.

Por fim, o ministro Toffoli propõe um “pacto republicano” entre os Três Poderes na elaboração de “macrorreformas estruturantes”. Ali estão a da Previdência, a tributária, a da repactuação federativa, entre outras. Não especifica, contudo, o que mais lhe caberia como chefe do Judiciário — os sacrifícios que a magistocracia, estamento mais privilegiado do Estado brasileiro, que habita o 0,1% mais alto da pirâmide social, faria em nome dessas reformas. Na verdade, não especifica nada de concreto, apenas a promessa de boa vontade.

Há pouca coisa menos republicana que a proposta. A filosofia do republicanismo defende o oposto: pede distribuição do poder e controle recíproco de uma agência governamental sobre a outra. Exige participação social e contestação pública, a antítese de uma negociação palaciana. “A fase em que os Poderes estavam em conflito passou”, declarou. Não sabemos se combinou com seus colegas esse esforço colaboracionista. Eufemismos à parte, o “pacto republicano” é uma pérola antirrepublicana.

Em comum, o Febejapá new age tem alergia à divergência e ao contra-argumento. Seu pendor anti-intelectual despreza o argumento dos “especialistas”. Desqualificam o crítico em vez de responder à crítica. Temem a esfera pública.

Conrado Hübner Mendes é doutor em Direito e professor da USP

sábado, 9 de fevereiro de 2019

No projeto de Moro, há os que podem matar e os que devem morrer

Direito Penal express
Conrado Hubner Mendes

A desinteligência penal brasileira não tem partido. Nunca soubemos tanto sobre formas de desatar o nó da segurança pública, mas seguimos enredados nesse círculo perene de autoengano. O desafio já deixou de ser cognitivo e virou sobretudo político. A política continua a tocar um samba de uma nota só: criminaliza nova conduta; aumenta a pena; converte em crime hediondo; reduz a maioridade penal; arma a polícia para o combate e lhe dá carta branca; arma o “cidadão de bem” para a autodefesa; constrói muros, presídios e manda prender; relativiza a presunção de inocência e contrabandeia a presunção de culpa para dentro do processo. Aproveita o embalo e atiça o sensacionalismo, aperta o botão dos preconceitos e magnifica o medo.

Como resultado, a polícia que mais mata e mais morre no mundo faz explodir o PIBB (Produto Interno da Brutalidade Brasileira) e nossa população carcerária corre em alta velocidade na rota do milhão. O crime organizado agradece esse apoio logístico do Estado. Se prendemos como nunca, como pode a espiral de criminalidade girar ainda mais rápido? Enquanto Gilmar Mendes vê nisso um “trágico paradoxo”, a criminologia demonstra haver retroalimentação. Uma coisa ajuda a outra.

Aos que depositavam em Sergio Moro a esperança de moderação e apuro legal ou de expertise e honestidade intelectual, o ministro trouxe más notícias. Seu pacote anticrime recusa os remédios e reforça a dose dos velhos venenos. Está certo em buscar “efeitos práticos, não agradar professores de Direito”. Mas, em vez de virar as costas depois da frase marota e deselegante, deveria explicar melhor qual a relação entre os meios propostos e os “efeitos práticos” que promete.

As propostas de alteração legislativa foram estruturadas em torno de 19 temas, que vêm sendo escrutinados por criminalistas e estudiosos. Os motes levam a marca sedutora do “endurecimento”: acelerar a investigação, facilitar a prisão, ampliar o regime fechado, dificultar a soltura, respaldar o policial que mata. Prevê também “soluções negociadas”, “agente infiltrado”, “informante do bem”. Tudo soa muito sério, mas o diabo, essa entidade tão temida pelo governo, mora nas entrelinhas.

Primeiro, falemos dos “efeitos práticos”. O pacote potencializa a letalidade da polícia (autorizada a matar quando sob “escusável medo, surpresa ou violenta emoção” ou “risco iminente de conflito armado”), expande o encarceramento e vitamina o crime organizado, que sorri. Segundo, falemos das contraindicações jurídicas.

Alguns dispositivos do pacote não só violam normas constitucionais, como batem de frente em precedentes do STF. Vão na contramão, inclusive, da declaração de “estado de coisas inconstitucional” do sistema carcerário, feita pelo STF. Daí a especial gravidade: não basta propor medidas extravagantes, tem de colocar a autoridade do STF à prova. Moro se aproveita da fragilidade do tribunal e o chama para a queda de braço. Um contra 11. Aposta calculada por quem sabe de qual lado estará a opinião pública.

O que o pacote legislativo não fez? Não apresentou dados, estudos, observação empírica ou sequer razões causais específicas com as quais se possa conversar. Ignorou projetos anteriores, não consultou conselhos nacionais nem profissionais da área. Não estimou custos financeiros nem impacto na política criminal.

Não tratou da governança policial nem da corrupção policial, que culmina nas milícias. Não contemplou a ressocialização do preso nem a guerra às drogas, o grande vetor do encarceramento brasileiro. Não deu peso suficiente à investigação e à inteligência. Um projeto a portas fechadas, que mescla amadorismo político e desdém à comunidade da segurança pública. A mania de autossuficiência de Moro é sintoma de complexo do herói. Muita convicção, pouca interrogação. Pode funcionar com a caneta judicial, não na política democrática.

No Direito Penal express, há os que podem matar e os que devem morrer. Sem complicações processuais, sem burocracia. Matar sem medo, morrer sem culpa, prender quem tem a sorte de não morrer. Moro não teve o mérito de inventar essa realidade, e agora não tem a ousadia de enfrentá-la. Quer só oficializá-la com o chapéu da lei. A desinteligência penal brasileira não é desinteligência, mas estratégia política. Muita gente ganha com isso, menos eu, você e o policial da esquina.

Conrado Hübner Mendes é doutor em Direito e professor da USP