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terça-feira, 13 de agosto de 2019

O eterno espanto da tecnologia

SGI-Indigo-R3000-33Mhz

Cora Rónai

Um dia, no já distante ano de 1991, fui a Mountain View para conhecer uma empresa chamada Sillicon Graphics, que produzia, então, os processadores de imagem mais poderosos do planeta. Numa das salas, havia uma estação de trabalho chamada Indigo em torno da qual se reunia um grupo extasiado de pessoas. Algumas agitavam os braços, outras davam pulinhos: na imensa tela de 16", com a incrível resolução de 1024 x 768, suas ações eram refletidas em tempo real numa esfera prateada que quicava para cima e para baixo.

A esfera era metálica, mas a sua consistência era de borracha, de modo que ela se deformava ligeiramente ao bater no chão. E o chão tinha ladrilhos brancos e pretos, para tornar tudo aquilo ainda mais espantoso. Ela tinha uma placa gráfica sem igual e 96MB de RAM — isso num tempo em que a memória dos melhores PCs não passava de 4MB.

MB. Megabytes, lembram?

Eu nunca havia visto nada igual; ninguém nunca havia visto nada igual. A título de comparação: alguns meses antes, eu havia deixado o meu PC ligado a noite inteira para renderizar uma única esfera, estática, e ainda estava sob o impacto daquela experiência.

A estação de trabalho da SGI pesava apenas 17 quilos e custava um pouco menos de U$ 10 mil, equivalentes a uns R$ 72 mil de hoje, o que fazia dela não só um milagre de compactação como uma autêntica pechincha.

Na semana passada, durante o lançamento do Samsung Galaxy Note 10, em Nova York, vi um auditório inteiro tendo uma reação muito parecida com a que vi naquela sala, há 28 anos. Num aparelho de 196 gramas, com 7.9 mm de espessura, é possível filmar e editar vídeos em 3D, com fundo desfocado ao vivo e uma estabilização óptica digna de uma steadycam.

Estou muito curiosa para testar esses efeitos e ver como funcionam nas mãos de usuários comuns.

Como acontece ano após ano, o novo Note é o estado da arte em smartphones, e a câmera do modelo Note 10+ acaba de ser considerada a melhor do mundo pelo site de análises DxOMark: esse resultado foi divulgado ontem. O DisplayMate, que faz o mesmo serviço com telas, informa que a tela Oled do Note 10+ é, também, a melhor de todas as telas. Zero surpresas aí.

Dessa vez, há dois Notes à escolha, um com tela de 6.8", outro menor, com 6.3", para quem não gosta de aparelhos tão grandes. As duas principais diferenças práticas para quem é usuário do Note 9 (além do upgrade geral no hardware e das maravilhas que se podem fazer com vídeo): o excelente conjunto de câmeras que já vimos no S10+, e a ausência de saída para fones de ouvido, que já era esperada mas, ainda assim, é de se lamentar.

A S Pen, canetinha característica da linha, vem com novos poderes, e pode enviar comandos para o smartphone através de gestos.

Como sempre, há versões clássicas em branco e preto, mas a cor do ano é o prateado mais extravagante de todos os tempos, o Aura Glow, uma espécie de arco-íris de bolso indescritível.

Ainda não há previsão de data para a chegada da família ao Brasil. No exterior, ela chega ao mercado antes do fim do mês, a preços que ficam entre U$ 1 mil e U$ 1,2 mil.

Nova família do Note 10 tem excelente conjunto de câmeras e, a se lamentar, ausência de saída para fones.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Arararraquers não têm nada a ver com hackers


Cora Rónai

Como todo mundo que foi para a internet quando aquilo lá era tudo mato, eu também me ressinto de ouvir a palavra "hacker" aplicada a alguns borra botas que, provavelmente, nem HTML conhecem. No começo do mundo, isto é, ali pelos anos 1980, hackers eram pessoas que tinham mais interesse em saber como as coisas funcionavam do que em tocar fogo no circo.

Hackers eram programadores e escovadores de bits, que é como se chamavam as pessoas que não conseguiam deixar em paz o software do seu computador, gente que queria descobrir não só como aquele universo relativamente novo funcionava, mas também quais eram as suas falhas, e até onde se podia ir sem que ninguém percebesse.

Com o tempo, muitos hackers começaram a usar o seu conhecimento para o mal, e isso acabou dando um mau nome à atividade; mas hackers de verdade são, de fato, pessoas excepcionalmente habilidosas, e não gente como esses arararraquers, que apenas usam receitas desenvolvidas por outros.

Para a cultura hacker, os arararraquers são script kiddies, moleques sem talento e sem conhecimento técnico que usam scripts disponíveis na internet. Chamar um script kid de hacker é o que há de mais parecido com um sacrilégio para o povo do meu tempo.

Hacker era, por exemplo, Robert Morris, que estava estudando em Cornell quando infectou parte da internet com o primeiro worm de que se tem notícia. Um worm é um programa malicioso que se instala nos sistemas e se multiplica sozinho, hoje em geral com o intuito de roubar dados dos usuários. Em 1988, a ideia de Morris era descobrir o real tamanho da internet - mas um erro no seu script derrubou quase seis mil computadores, o que, na época, correspondia a dez por cento de toda a rede.

Morris foi a primeira pessoa processada e condenada pelo então recente Computer Fraud and Abuse Act. Prestou 400 horas de serviço à comunidade e pagou uma multa salgadíssima, mas hoje é professor titular de Engenharia Elétrica e Ciência da Computação no MIT.

O mais famoso de todos os hackers de verdade é Kevin Mitnick, que ficaria mortalmente ofendido se fosse comparado com os manés que invadiram os celulares das nossas autoridades. Mitnick tinha 16 anos quando entrou ilegalmente no sistema da DEC e copiou o seu sistema operacional. Foi condenado por isso e passou um ano na cadeia, mas em seguida hackeou o sistema de correio de voz da Pacific Bell, o que pôs o FBI no seu encalço.

Mitnick passou dois anos e meio fugindo da lei -- usando, já então, celulares clonados -- e só foi preso, em 1995, porque um outro hacker, Tsutomu Shimomura, conseguiu rastreá-lo. Ele recebeu uma pena pesada e injusta de cinco anos, virou uma espécie de herói da contracultura e tem, hoje, uma bem sucedida empresa de segurança digital.

Ele é também um dos diretores da Zimperium, empresa especializada em segurança móvel conhecida pelo seu sistema de prevenção de invasões em, ora vejam, aparelhos celulares.

Se a turma da Lava-Jato tivesse tido uma conversa séria com Kevin Mitnick antes de sair trocando mensagens nos seus smartphones, os arararraquers continuariam em liberdade, praticando os seus golpinhos sem maiores consequências, e a própria história do país seria diferente.