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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

O do português ruim


Zuenir Ventura

O governo Bolsonaro tem o que comemorar: o ministro da Educação, Abraham Weintraub, não atropelou a gramática sequer uma vez nos últimos dias. Ao prometer “tirar o Brasil do fundo do poço no Pisa”, ele escreveu “poço” corretamente, não “pôsso”.

Afinal, entre os embates que o ministro vem sustentando com estudantes, professores e outros adversários, os mais frequentes têm sido com a língua portuguesa. Já fazem parte de sua antologia de erros “paralização”, “antessessores”, “kafta”, “suspenção”.

O mais conhecido e engraçado apareceu no Twitter, onde ele escreveu “imprecionante”, e o mais grave foi o anúncio nessa mesma mensagem de que estava inaugurando a área de pesquisa em Segurança Pública, quando é sabido que a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) já tinha financiado só nos últimos dois anos 246 trabalhos de mestrado e doutorado na área.

Outro episódio sem nenhuma graça foi a notificação que o ministro recebeu do STF para explicar as ofensas cometidas contra a União Nacional dos Estudantes, chamando-a de “máfia”: “a gente vai tirar R$ 500 milhões das mãos da tigrada da UNE”, ele afirmou.

O que o presidente Bolsonaro acha das demonstrações de ignorância de seu subordinado, já que acusou os estudantes brasileiros de não saberem qual é a fórmula da água e nem quanto é 7 x 8? O que ele acha de um ministro da Educação que convive tão mal com o português a ponto de confundir “c”, “s” e “ç’? O seu silêncio sugere que ele deve considerar normal a confusão.

Anormal para ele é Paulo Freire, reconhecido mundialmente como mestre da pedagogia e a quem o presidente chamou de energúmeno, sem saber que pelo menos um dos significados do termo (“fanático, “possesso”) se aplica mais a ele, Bolsonaro, que atribui a Freire a responsabilidade pelo baixo resultado do país no Pisa, desconhecendo que o famoso método é de alfabetização de adultos.

Que, aliás, não perdeu o prazo de validade. Ainda serve para alfabetizar adultos —inclusive ministros.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

O mito e a mitomania


Zuenir Ventura

Dizem que político mente por dever de ofício. Mas há os que abusam. O site Intercept garante que Bolsonaro, por exemplo, mentiu publicamente 200 vezes desde que tomou posse, isto é, mais de uma mentira acada 24 horas. A julgar pelos últimos dias, o número não é exagerado.

Em uma só manhã, o presidente mentiu para a imprensa estrangeira sobre a fome, o desmatamento, a educação, o uso de agrotóxicos. Ele às vezes tem o comportamento de um mitômano, mente por compulsão.

Na primeira entrevista ao “Jornal Nacional” depois de eleito, ele disse que sua bandeira era a passagem bíblica “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. E terminou dirigindo-se aos crédulos: “Agradeço aos que acreditaram na verdade e confiaram no meu nome nas urnas”.

Aos correspondentes, no entanto, ele afirmou que não existia fome no Brasil. Depois, ao tentar consertar, mentiu novamente, admitindo que apenas“alguns” não têm acesso à comida—na realidade são mais de cinco milhões de brasileiros nessa situação.

Quanto ao desmatamento, o Brasil não é o país que mais preserva o meio ambiente, como ele anuncia. Está em 30º lugar, de acordo com o Banco Mundial.

Mas o que mais irritou Bolsonaro foi o Inpe revelar o aumento de 88% em relação a julho de 2018, ou seja, mais de mil quilômetros quadrados de floresta. Em vez de xingar os grileiros, ele acusou os dados de “mentirosos” e insinuou que o diretor do Inpe, Ricardo Galvão, estava a serviço de alguma ONG.

Galvão classificou as acusações como “piadas de um garoto de 14 anos” e disse que o presidente não respeita a dignidade e a liturgia do cargo. Também a SBPC divulgou manifesto em apoio ao Inpe e a seu diretor .“Dr. Ricardo Galvão é um cientista reconhecido internacionalmente, que contribui para a ciência, tecnologia e inovação do Brasil ”.

Quanto a Míriam Leitão, Bolsonaro mentiu, acusando-a de mentir sobre sua prisão. Mas ele já comentou a cena em que os torturadores puseram na sua cela uma jiboia e apagaram aluz .“Coitada da cobra ”, debochou o então deputado.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Bozonaro é o rei da gafe e da inconveniência

O presidente e a cultura

Zuenir Ventura

Quando um jornalista lhe pediu uma declaração sobre a morte de João Gilberto, o presidente Bolsonarao limitou-se a dizer em meio à comoção geral: “Ele era uma pessoa conhecida. Nossos sentimentos à família, tá ok?” E só. Os mais importantes jornais estrangeiros já tinham noticiado com destaque e pesar o falecimento do artista, classificando-o não como uma “pessoa conhecida”, mas como o reconhecido gênio que levou o mundo a aplaudir a bossa nova e fez de sua voz, quase um murmúrio, um som universal.

É estranho, porque Bolsonaro não faz economia de palavras quando não deve. É o rei da gafe e da inconveniência. Uma vez escrevi que ele sofria de incontinência verbal, e isso provocou reclamações. Não é implicância. Se ele conseguisse ficar sem opinar por algum tempo, esse silêncio obsequioso lhe faria muito bem, e ao governo também.

O Google está aí para provar, com o registro de centenas de frases polêmicas. Há suas famosas afirmações homofóbicas (“Seria incapaz de amar um filho homossexual”), contra a mulher (“Ela é muito ruim, feia, jamais a estupraria”), racistas (“Quilombolas não fazem nada. Nem para procriador servem mais”), a favor da violência (“Vamos fuzilar a petralhada toda aqui do Acre”, “O erro da ditadura foi torturar e não matar”) e muitas outras que não cabem neste espaço.

Quando se cala em relação às conquistas do cinema brasileiro em Cannes e de Chico Buarque com o Prêmio Camões ou, como agora, em que se refere ao genial intérprete de “Chega de saudade” sem um elogio, sem uma homenagem, sem luto oficial, trata-se de um recado implícito: a cultura é para ele um prato indigesto.

O seu último palpite infeliz foi a defesa do trabalho infantil: “Trabalhei desde os 8 anos de idade plantando milho, colhendo banana, com caixa de banana nas costas com 10 anos de idade e estudava. E hoje sou quem sou. O trabalho dignifica o homem, a mulher, não importa a idade”.

A versão de seu irmão Renato é outra: “Meu pai (…) nunca deixou um filho trabalhar, porque achava que filho tinha que estudar”.

Sem comentários.