BOZO BOY
Por Leandro Fortes
Ouvi, pelo rádio, parte do discurso de apresentação do ministro Paulo Guedes, da Economia, do pacote de medidas neoliberais com as quais ele pretende transformar o Brasil no Chile. Essa utopia liberal que existia antes de os chilenos descobrirem, recentemente, que foram enganados pelos “Chicago boys”, a gangue de economistas ultra liberais que montou um modelo privatista sobre o cemitério da ditadura assassina do general Augusto Pinochet – com a ajuda do próprio.
Paulo Guedes disse, em fevereiro, que o Chile era uma Suíça. Um paraíso de acordos bilaterais, Banco Central independente, câmbio flexível, reforma trabalhista e Previdência privada que serviria de norte para as reformas que ele, ministro de um sub-Pinochet, iria implementar no Brasil.
Oito meses depois dessa declaração, o Chile explodiu. Em um país onde até a água foi privatizada e o índice de suicídios entre idosos virou um recorde mundial, a população botou fogo nas ruas e obrigou o presidente Sebastian Piñera, colega de Guedes, a demitir todos os ministros e pedir perdão, ao vivo, em cadeia nacional de rádio e tevê.
Hoje, diante de uma mídia servil e repleta de macacas de auditório fingindo fazer jornalismo econômico, Paulo Guedes seguiu adiante, como se nada tivesse acontecido em sua Shangrilá particular. Disse coisas do tipo “visitados pela hiperinflação, criamos uma cultura antiinflacionária” em contraposição ao fato de que, “ao contrário, em uma década de lei de responsabilidade fiscal, não temos uma cultura de responsabilidade fiscal”. Para enfiar, em seguida, a tese do Estado mínimo que irá levar bem estar à população mais pobre.
Como no Chile.
Esse discurso vazio, entremeado por termos técnicos roubados de glossários de teses da FGV, usados para tornar a linguagem econômica providencialmente hermética, está na base da dominação da política pela economia, razão central da nossa desgraça como nação.
Isso, vindo da boca de um sujeito deslocado da realidade ao ponto de achar que o problema do pobre brasileiro é que ele, ao contrário do rico, não faz poupança. Consome tudo que ganha.
Mais da metade dos trabalhadores brasileiros vive com menos de um salário mínimo por mês.
É esse o “Chicago boy”, o tchutchuca de Bolsonaro, grande timoneiro da reforma do Estado brasileiro, que foi efusivamente aplaudido em um editorial da Folha de S.Paulo.
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