domingo, 3 de maio de 2020

A Folha de 2020 é a mesma Folha de 1969


Fernando Morais

O tempo passa, o tempo voa
e o jornal do Fria continua numa boa

A Folha, o jornal do Fria – ex-criador de pintos e hoje próspero banqueiro – é como o lobo, que perde o pelo mas não perde o vício. O uso do singular deve-se ao fato de que até meses atrás o jornal era dos Frias – os irmãos Otávio, Maria Cristina e Luís. Otávio faleceu vitimado por um câncer no pâncreas e Maria Cristina veio a óbito depois de receber uma facada nas costas dada pelo irmão Luís, o singular. Só restou, portanto, um Fria.

Esse relambório todo é para dizer que ontem, fuçando os arquivos do jornalão da Boca do Lixo, dei com essa chamada na primeira página de uma edição de novembro de 1969, no auge da carnificina da ditadura militar: “Terrorista dominicano preso no RGS”. O “terrorista” era o jornalista, escritor e religioso Frei Betto. Nenhuma novidade. Até os balconistas das lojas de motos da Barão de Limeira sabiam que o jornal dos Frias era o diário oficial do Doi-Codi.

Hoje, ao abrir a Folha, chamou-me a atenção o fato de que a correspondente em Buenos Aires, Sylvia Calombo, conseguiu, num só dia, plantar duas “reportagens” sobre a “ditadura de Nicolás Maduro” – uma espécie de comichão, de fixação freudiana da repórter. Chove? Lá vai a Calombo ver os efeitos da chuva na “ditadura de Maduro”. Subiu o preço do milho na bolsa de commodities de Chicago? No dia seguinte a Calombo publica uma página sobre as consequências da alta do milho na economia da “ditadura bolivariana”. A Covid-19 devasta o mundo? Toca a Calombo a mostrar os estragos da pandemia na “ditadura chavista”. Tudo isso, claro, escrito de seus confortáveis aposentos em Buenos Aires, sem colocar os pezinhos em solo venezuelano, distante cinco mil quilômetros da aprazível capital argentina. Em nenhum momento ela informa ao preclaro leitor que a Venezuela, com 30 milhões de habitantes, está em 109º lugar entre os países vitimados pela pandemia, segundo dados de ontem da OMS.

A Folha de 2020 é a mesma Folha de 1969. Meio século atrás o jornal era serviçal dos torturadores. Hoje é lacaio do capital financeiro. Caranguejos do mesmo balaio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário