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domingo, 21 de março de 2021

A única ideologia de Bolsonaro é a morte


O artigo de Christian Dunker na Folha de hoje esclarece de maneira brilhante algo que intuí obscuramente desde que vi aquela entrevista na TV em que o inominável declarou: "você sabe que eu sou a favor da tortura".

Ele disse isso sem ser provocado, sem justificar nada. não era como dizer: "se for preso um terrorista cujas informações podem levar à prevenção de um atentado que matará dezenas de pessoas, até sou a favor da tortura".

Não, nada disso. "sou a favor da tortura", ponto.

O Capetão não tem um ideário de direita, e nem mesmo um apego à tal "pauta conservadora de costumes". para ele tanto faz a diretriz política, econômica ou moral. seu negócio é torturar, matar, causar a dor.

Se vivesse na URSS de Stalin, na China de Mao ou no Camboja de Pol Pot, estaria tão confortável quanto na Espanha de Franco ou na Alemanha de Hitler no papel de torturador.

Sua ideologia é a morte.


Ilustração - Alexandre Teles


Freud explica Bolsonaro na pandemia com conceito de pulsão de morte


No bolsonarismo, menções a tamanho do pênis e homossexualidade têm relação com gosto por armas

[RESUMO] Psicanalista propõe uma leitura do quadro político brasileiro a partir do conceito introduzido por Freud um século atrás. Reação do governo Bolsonaro à pandemia traz a marca de um irracionalismo destrutivo composto de negacionismo delirante, indiferença à dor, retórica paranoica e bravatas de virilidade.

De todos os conceitos propostos por Freud, a pulsão de morte é certamente o mais controverso. Escolas inteiras de psicanálise simplesmente o recusam, pelos mais variados argumentos: paradoxo biológico, contradição antropológica ou expressão biográfica mal-analisada.

A introdução da hipótese da pulsão de morte, no final da obra freudiana, colocou em pé de igualdade sexualidade e hostilidade. Agora, o conflito não é mais entre desejo e autoconservação, mas entre Eros (amor, libido e união) e Tânatos (destruição, agressividade e desunião).

A hipótese freudiana mais especulativa consistiu em dizer que a vida é um parêntesis entre dois estados inorgânicos. Haveria uma tendência de retorno ao estado anterior, que explicaria o aparentemente gosto irracional do humano pela repetição, mesmo quando isso implica dor, desprazer e morte.

Passados cem anos da proposição de Freud, notamos certas semelhanças salientes entre os motivos para introduzir essa hipótese e os descaminhos do governo Bolsonaro, que aparece, para muitos observadores, como errático e contrário a princípios elementares da razão e da ciência, mas também autocontraditório e destrutivo diante de objetivos políticos elementares concernentes à autoconservação do poder.

A pulsão de morte foi introduzida em 1920, em “Além do Princípio do Prazer”, quando a Europa fazia o balanço da Primeira Guerra Mundial, reconhecendo nela uma nova forma de matar. Mais impessoal e industrial, a tecnologia da morte é inflexão negativa e resultado dos próprios progressos da razão.

No plano clínico, a pulsão de morte seria justificada por certos efeitos repetitivos de experiências traumáticas, nos quais, em vez de esquecer o que se passou, o paciente não consegue parar de lembrar e reexperimentar vividamente os sinais de angústia, reencenando assim o pior. Observando que somos todos em alguma medida traumatizados, isso representaria uma força permanente para não abandonar nossos sintomas.

Descendo ainda mais ao nível do desenvolvimento da criança, a pulsão de morte explicaria por que uma parte substancial de nossa cultura, de nosso brincar e de nossos laços sociais dependem de uma certa administração da agressividade e, portanto, da contenção, mas também da participação de nosso gosto por destruir.

A epidemia de gripe espanhola de 1918, que levou uma das filhas de Freud, e o seu diagnóstico de câncer na mandíbula às vezes são usados para criticar a hipótese de pulsão de morte, reduzindo-a ao pessimismo pessoal de seu criador.

Ainda que os termos sejam aproximativos, a emergência do bolsonarismo e, particularmente, sua reação à pandemia de Covid-19, sempre esteve ligada ao trauma —seja o trauma da ditadura militar, com o qual há uma identificação transparente, seja o trauma representado pelo governo Lula, seja o retorno do perigo comunista, estamos sempre na lógica da repetição sem elaboração.

Uma aplicação inovadora da hipótese da pulsão de morte é a análise de grupos e massas em que surgem identificações regressivas, psíquica e cognitivamente, originando uma cultura da pulsão de morte. Orientando a agressividade para o outro, instilando fantasias paranoicas, o funcionamento em massa faz os indivíduos demitirem-se de seus próprios interesses e desejos em troca de acolhimento contra o desamparo, que é um estado psíquico decisivo para convocar a pulsão de morte ou para defleti-la.

As duas massas artificiais em que Freud exemplifica esse funcionamento são a igreja e o Exército. Nestes casos, o manejo da relação entre o eu e o eu ideal, a fraternidade constituída em relação ao líder, substituto do pai, tomado como objeto simultaneamente libidinal e agressivo, exigem a criação e a recriação de inimigos externos e internos.

Chegamos assim a uma curiosa proximidade com duas instâncias mobilizadas pela prática de governo bolsonarista, militar e religiosa, em retórica paranoica de campanha, depois transformada em método de administração, baseado na produção de inimigos e milícias da alma.

Outra função teórica da pulsão de morte é explicar por que muitas pessoas sentem angústia, sem que nada justifique esse estado psíquico. Práticas de autopunição exploram o fato de que, na pulsão de morte, o delito satisfaz a culpa, ele não a cria. Essa foi a estratégia daqueles que, pressentindo a indeterminação no início do governo Dilma, fizeram emergir a retórica da culpa, condensando traumas e lutos nacionais malreconhecidos e elaborados: escravidão, corrupção, desigualdade e privilégio.
Contudo, o que poderia ser objeto e alavanca de transformação, do ponto de vista da pulsão de vida e da simbolização, pode se reverter em repetição sem recordação nem elaboração: tortura, violência, menosprezo e retomada de privilégios ameaçados.

A pulsão de morte não é sinônimo de maldade ou crueldade. Ela se torna perigosa apenas quando é separada, demasiadamente, das pulsões de vida, em uma desfusão que mobiliza processos como idealização, cisão, projeção e narcisismo das pequenas diferenças. Quando idealizamos alguém, como um mito dotado de poderes excepcionais, isso incita a divisão —que predica bons e maus— entre nós e eles.

Uma segunda volta da pulsão de morte ocorre quando depositamos no outro aquilo que não conseguimos admitir em nós mesmos. A projeção do mal no outro, sua punição ou cancelamento, traz um agradável sentimento de purificação. Essa desmistura gera afetos de ódio e crueldade, vividos como ressentimento, ou seja, referidos a afetos passados.

Finalmente, quando substituímos as grandes diferenças, trazidas pela realidade e pelo real, pelas pequenas diferenças, de nosso grupo narcísico, eventualmente digital, fecha-se o ciclo que une a pulsão de morte com o negacionismo delirante. Neste sentido, o vírus não pode ser real, letal e natural, pois isso afeta a função paranoica, o lugar do mito protetor. O fechamento desse ciclo leva à redução do tamanho do mundo à extensão de nosso espelhamento.

Isso nos ajuda a entender por que a política externa do bolsonarismo parece basear-se em uma identificação pessoal com Trump, na redução de nossas pretensões estratégicas e na fetichização de nossa imagem como baluarte imaginário de resistência contra potências comunistas como... a Argentina.

Neste ponto, é preciso registrar um detalhe importante: para que a morte não se torne um temor e para que a vida valha pouco, é preciso a sexualização permanente do discurso em torno das relações de dominação e obediência. Para Wilhelm Reich, em “Psicologia de Massas do Fascismo” (1933), isso explicaria por que os regimes totalitários precisam perseguir minorias e práticas sexuais. Elas são eleitas símbolos do “excesso de prazer”, que lhes teria sido roubado pelo grupo inimigo.

Brincadeiras em torno da homossexualidade, “golden shower”, palavrões, bravatas de virilidade, ilações sobre o tamanho do pênis alheio não são apenas traços da loucura do personagem, mas condição estrutural para que aceitemos a trivialização do acesso a armas. Aquilo que deveria ser percebido como um perigo para a própria pessoa é lido como falo potente, signo de narcisismo exibicionista e virilidade imaginariamente protetiva.

A pulsão de morte coliga forças antissociais como egoísmo dos interesses, moral da sobrevivência, destrato com a palavra, indiferença ao luto e brutalização contra os “fracos”.

Chegamos assim ao enfrentamento da pandemia de Covid-19 pelo bolsonarismo como outra grande aplicação do conceito de pulsão de morte, ou seja, como uma ferramenta para entender por que o aumento do sofrimento não incita em nós um movimento de transformação. Isso ocorre porque, no fundo de todo sintoma, há uma paradoxal forma de satisfação.

Aqui, o circuito da pulsão de morte acopla o sadismo do supereu com o masoquismo do eu. Quando isso ocorre, a vulnerabilidade do outro não gera em nós solidariedade e empatia, mas ódio e desprezo —como se aquele estado de miséria e dependência do outro incitasse um reconhecimento traumático, do qual queremos imediatamente fugir, ou como se cada um que não soube se salvar fosse um fraco pedindo por seu próprio fim.

A separação entre economia e saúde, com a qual o bolsonarismo enfrentou a crise sanitária, surge como um ótimo exemplo da dissociação invertida entre pulsão de morte e pulsão de vida, com o agravante cruel de que a vida está do lado da economia, não do corpo real das pessoas.

Temos então a necropolítica tornada oposta à biopolítica. Nada poderia exemplificar melhor os perigos da dissociação entre pulsão de morte e pulsão de vida. A indiferença diante da perda de vidas é mitigada por números, curvas e interesses.

Assim, passamos do nível tácito, pelo qual um grupo se organiza para eliminar outro, para o nível explícito em que “deixar morrer” gera uma satisfação sádica nos sobreviventes —sobreviventes que, a cada vez, confirmam ser especiais, protegidos por uma força excepcional e delirantemente organizada.
A pulsão de morte desperta a tentação política de começar tudo do zero, negar ao passado qualquer reparação ou dignidade, com exceção do passado que foi ele mesmo negação e destruição. A pulsão está além do princípio do prazer, porque está além da regra utilitarista de otimizar a relação entre meios e fins. Por isso, aparecerá como irracional e despropositada.

Uma verdadeira política pública, seja ela de Estado ou de governo, depende de um compromisso entre Eros e Tânatos, isto é, uma renúncia de satisfação imediata em troca de resultados futuros na realidade, combinada com a força coercitiva do superego.

Quando não conseguimos firmar planos de ação, como em torno da compra de vacinas ou de campanhas sanitárias, porque isso é sentido como limitação de liberdade, ou quando encarnamos o supereu como universalização obscena de nossa própria moralidade, o sacrifício deixa de ser um meio para um fim e passa a ser objeto de sadismo ou masoquismo.

A pulsão de morte, como sucedâneo do conceito lacaniano de gozo, incide no ponto em que o uso se transforma em abuso. Consequentemente, é o abuso de poder e a impotência da autoridade que caracterizam o discurso do bolsonarismo.

Aqueles que se acostumaram com um certo cinismo na distribuição de funções entre moral e economia estão agora surpresos porque a ala ideológico-militar realmente governa. Não há compromisso com reformas, nem com a economia, nem com promessas de campanha, nem com o próprio ministro da Economia, porque o compromisso é uma figura de composição. Ela envolve negociação, troca e mediação. Isso caracterizaria a política como mistura entre exigências da pulsão de morte e pulsão de vida.

Freud descrevia a tarefa do ego como o condutor de um cavalo, dotado de forças muito superiores às suas (o id), tendo que se conduzir entre os percalços e os caminhos da realidade e, ao mesmo tempo, livrar-se de abelhas que representam sua consciência punitiva (o supereu).

O governo Bolsonaro assemelha-se à perda da unidade desse conjunto e à ação dissociada entre Eros e Tânatos: as abelhas picam todos os que se aproximam, os cavalos andam cada qual para o lado que bem entendem, o ego passa o tempo a adular-se diante do espelho de suas multidões ignaras. Enquanto isso, a realidade da Covid-19 pisa em cima de todos nós.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Rodrigo Maia é um fascista que fala manso e não diz palavrão


Quem ainda acreditava que do Rodrigo Maia poderia sair alguma coisa boa deve ter perdido a esperança no Roda viva de ontem.

Ficou claro que ele não tem a menor disposição para mudar o que quer que seja: nem o presidente e nem (muito menos) o sistema excludente e perverso que nos domina.

A única diferença é que ele fala manso e não diz palavrão.

As forças populares e democráticas só podem contar consigo mesmas para reconquistar palmo a palmo o espaço perdido para a barbárie neoliberal, que não se incomoda nem um pouco com o fato de ter um troglodita no planalto.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Bolsomínions são barulhentos e agressivos, mas minoritários


José Geraldo Couto

Ninguém me perguntou, mas eu acho o seguinte:

Na era das caixas de comentários, dos trending topics do Twitter, do vale-tudo das redes sociais, alguns grandes veículos de mídia se sentem intimidados pela vociferação mais agressiva dos bolsominions e assemelhados.

Ainda não se deram conta de que estes são uma minoria - ruidosa e raivosa, mas uma minoria cada vez menos significativa no conjunto da sociedade, conforme mostram as últimas pesquisas.

Com isso, os tais veículos parecem se sentir na obrigação de fazer média com esses desatinados (e com seus robôs), tratando como se fossem naturais os discursos e práticas mais absurdos e incivilizados.

Faltou perceber que essa gente, além de minoritária, não lê jornal (entram só pra "comentar"), não respeita as informações que lê na imprensa, prefere acreditar nas fake news do Whatsapp.

É, portanto, uma forma de suicídio, num quadro já bastante desfavorável para a mídia tradicional.

Quanto a nós, antifascistas, penso que não devemos deixar nossas energias serem drenadas por essas mensagens truculentas e burras, não devemos desanimar diante de tanta estupidez. é preciso que lembremos duas coisas: 1) eles são relativamente poucos; e 2) eles estão cada vez mais isolados e desesperados.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Vinde a mim os bolsomínions arrependidos, só que não...

José Geraldo Couto

Está em andamento uma campanha para "perdoar e acolher" os arrependidos de ter apoiado o Capetão ou ficado em cima do muro. Estou de acordo, mas:

- Comentaristas ou colunistas de política que a esta altura do campeonato vêm se mostrar "chocados" com a barbárie instaurada deviam confessar sua incompetência (já que a má fé eles não confessarão nunca) e mudar de profissão.

- O mesmo vale para os analistas econômicos que profetizaram a automática recuperação da economia: 1) com a queda da Dilma; 2) com a reforma trabalhista; 3) com a reforma da previdência.

- O mesmo para os comentaristas internacionais que previram Macri salvando a encomia Argentina (e agora se manifestam "surpresos" com sua provável derrota nas urnas).

- O mesmo vale para jornalistas, escritores, atores/atrizes, músicos e cineastas que apostaram todas as fichas em Sergio Moro e Dallagnol para "limpar o país" e agora (oh, surpresa!) descobrem que eles não eram tão limpinhos assim.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Não se afobe, não, que nada é pra já



José Geraldo Couto

"Não se afobe não, que nada é pra já", cantou o poeta.

Tenho visto muita gente manifestar desespero e depressão, mas, talvez vitimado por uma onda de polianismo, vejo que as coisas se movem e o jogo é jogado, ainda que em condições desfavoráveis e no campo do adversário.

É uma guerra de posições, mais ou menos como numa partida de futebol americano: o Intercept solta uma bomba, a Globo e os bolsominions correm para abafar e tentar inverter o sentido do lance.

A partida se interrompe de novo, mas num ponto um pouquinho à frente no campo. Vão sendo conquistadas fatias da chamada "opinião pública", vai sendo perfurada a couraça dos donos do poder.

É preciso atuar em todas as frentes ao mesmo tempo: imprensa, ruas, congresso, instituições, expressões artísticas e culturais...

É pouco, não satisfaz nossa urgência em ver o país sair do buraco, mas é o que temos.

sábado, 29 de junho de 2019

A mídia tratava como normais as coisas que o próprio MP via como abusos


José Geraldo Couto

Para mim, o mais chocante nas novas revelações do Intercept é constatar que os próprios membros da Lava-jato viam como um escândalo coisas que a nossa mídia tratava como normais.

Se não temos uma consciência democrática e republicana arraigada no país (o que leva muita gente a achar certo um juiz agir como acusador e perseguir um "inimigo", ou a polícia matar um "suspeito" antes de saber o que ele fez), grande parte da responsabilidade cabe à imprensa, que naturalizou e segue naturalizando as maiores barbaridades, deixando de contribuir para que sejamos civilizados.

O mais triste de tudo é ver que ainda há "jornalistas" que dizem que as críticas a Moro são "mimimi de petista" ou que o Lula se deleita no "papel de vítima".

Podem me chamar de vingativo, mas desejo a todos eles que sofram um dia um processo em que o juiz os condene de antemão, em conluio com a promotoria.

sábado, 22 de junho de 2019

Democracia em vertigem: o Brasil morre no fim

O sentido do caos

José Geraldo Couto

Spoiler: o Brasil morre no fim. Estou falando de Democracia em vertigem, o documentário de Petra Costa que está em cartaz na Netflix. O filme é uma leitura pessoal dos vertiginosos acontecimentos políticos dos últimos anos, inseridos num contexto histórico mais amplo, que remonta à construção de Brasília ou mesmo a épocas mais remotas: à constituição da “república das famílias” que controlam “a mídia, a pedra, o cimento, o aço, o gado, a justiça e as finanças”.


O adjetivo “pessoal” foi usado acima no sentido literal: a diretora não apenas narra seu filme em primeira pessoa como entrelaça a história do país com a da sua família. Neta de um dos fundadores da grande empreiteira Andrade Gutierrez, ela é filha de dois militantes de esquerda que foram presos pela ditadura militar e viveram anos na clandestinidade.

Precipitação da história

Ao explicitar logo de início seu singular “lugar de fala”, Petra fica à vontade para manusear com extrema desenvoltura o material bruto que tem em mãos: registros documentais dos eventos históricos que envolveram o impeachment de Dilma e a prisão de Lula, filmes domésticos, cinejornais, entrevistas realizadas pela própria diretora no Congresso, no Planalto, na Alvorada e nas ruas, tudo isso amarrado pela locução serena, com emoção contida, da própria diretora.

A textura heterogênea desses distintos materiais contribui para a expressar no plano sensorial a ideia de vertigem, de precipitação turbulenta da história, sem no entanto mergulhar no caos. Pois há sentido nesse pandemônio; há nessa loucura, se não um método, ao menos uma lógica – a da reafirmação, sob aparências eventualmente diversas, da “república das famílias”. Pelo menos essa é a interpretação exposta de forma franca, sem falsa “objetividade” e muito menos “neutralidade”, pela realizadora. Quem quiser que apresente outra.

Não é, entenda-se, uma visão partidária. Embora exponha claramente as razões que a levam a ler como golpe a destituição de Dilma e como perseguição política a prisão de Lula, Petra não se furta a expor também as fissuras dentro da esquerda e sua decepção pessoal com os descaminhos do PT. Aqui, o depoimento autocrítico de Gilberto Carvalho – que foi conselheiro de Lula e ministro de Dilma – parece ser o que mais condiz com o pensamento da diretora. Curiosamente, o mesmo Gilberto Carvalho aparece como voz lúcida e dissonante também em outro documentário recente, O processo, de Maria Augusta Ramos, centrado no impeachment.

Ao lado de O processo (2018), de Excelentíssimos (Douglas Duarte, 2018) e de Entre os homens de bem (Caio Cavechini e Carlos Juliano Bastos, 2016), Democracia em vertigem pode ser visto como mais um passo importante no esforço cinematográfico coletivo para entender como chegamos ao atual estágio de esgarçamento do tecido social e de deterioração da democracia.

Visão íntima

Um grande trunfo do filme de Petra Costa, além da liberdade propiciada pelo uso da narração em primeira pessoa, vem do acesso exclusivo que ela teve a determinados locais e situações, redundando numa extrema proximidade com atores centrais do drama.

“Entramos”, por exemplo, no automóvel que transportava Dilma Rousseff no dia em que a Câmara votou a favor de seu impeachment. No palácio da Alvorada, “escutamos indiscretamente” uma conversa de Lula ao celular comunicando a alguém que seria nomeado ministro pela então presidente. Uma visão íntima assim dos grandes personagens políticos remete, entre outros poucos exemplos, a Entreatos, de João Moreira Salles, que acompanhou os bastidores da campanha vitoriosa de Lula em 2002.

Imagens inéditas do interior do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo nos tensos momentos que antecederam a prisão do ex-presidente, com a multidão rugindo do lado de fora, são de um valor histórico e de uma dramaticidade impressionantes. Boa parte desse material, ao que parece, vem do fotógrafo e cinegrafista oficial de Lula, Ricardo Stuckert.

Mas igualmente eloquentes são os depoimentos de anônimos colhidos diretamente pela diretora. Com grande tino jornalístico, por exemplo, ela entrevista uma faxineira que limpa uma escada do Palácio da Alvorada recém desocupado por Dilma. A moça primeiro repete um lugar-comum do tipo “Aqui se faz, aqui se paga”, mas depois se contradiz e acaba dando a entender que talvez tenha sido injusto o destino da ex-chefe. É um retrato comovente de alguém que está geograficamente no coração do poder, mas que não o compreende, não interage com ele, não participa – a não ser como serviçal invisível – da “república das famílias”. É um momento elegíaco em meio ao turbilhão de acontecimentos que nos lançaram na situação tenebrosa em que estamos hoje.

Depois de um crescendo de tensão, as últimas imagens, filmadas do alto, mostram a Esplanada dos Ministérios em Brasília, com pessoas se dispersando ao fim de uma manifestação. A impressão é de gente à deriva, sem rumo, como formigas cuja casa acabou de ser destruída por um pontapé. E quando estamos prestes a cortar os pulsos, começam os letreiros ao som de Baden Powell tocando lindamente seu “Canto de Ossanha”. Deixamos a gilete de lado, o fim pode esperar mais um pouco, afinal talvez a notícia da morte do Brasil tenha sido um tanto prematura.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Autocrítica é bom para os outros


Lembra quando a Folha contratou um perito de araque pra dizer que as gravações contra o Temer eram forjadas, dando assim uma sobrevida ao vampiro quando ele estava perto de cair?

Pois agora o jornal faz o mesmo pra ajudar a famiglia miliciana, apontando erros totalmente insignificantes na acusação contra o 01. (parece que estenderam a quebra de sigilo a pessoas não envolvidas e fizeram umas contas erradas).

Os bolsominions agradecem o presente.

O engraçado é que quando erros judiciais e ilegalidades muito mais graves e flagrantes foram cometidas nos processos contra o Lula, o jornal se fez de sonso, assim como toda a grande imprensa.
daqui a vinte anos, quem sabe, farão a autocrítica.

José Geraldo Couto

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Precisamos reintegrar à sociedade parte dos 57 milhões que elegeram essa besta


Altamente simbólico o Capetão participar de solenidade no colégio militar e ser alvo de manifestação de estudantes do Pedro II, um em frente ao outro.

É o presidente dos milicos e dos milicianos, não da população brasileira como um todo.

O problema é que não vamos poder construir um país sem os 57 milhões de infelizes que votaram nele.

Alguns vão continuar pendurados no saco do "mito" até a morte. mas os outros precisam ser acolhidos, conversados, convertidos à causa da democracia e dos direitos humanos.

domingo, 17 de março de 2019

Recordar é viver

José Geraldo Couto

13 de março de 2017

O problema não é a "Folha" publicar uma entrevista do Bolsonaro. é dedicar a ele a outrora nobre "entrevista da segunda", com direito a chamada na primeira página, e apresentá-lo no UOL como um homem "que não tem medo de polêmicas".

Vender como "polêmico" um sujeito que é, objetivamente, um criminoso (pela defesa da tortura, pela apologia do estupro, pela pregação da violência homofóbica etc.) confere uma aura positiva, rebelde, a alguém que uma sociedade democrática deveria execrar ou desprezar.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Duas coisas sobre São Paulo

José Geraldo Couto

Duas coisas sobre São Paulo:

1) uma metrópole desse tamanho e complexidade é ingovernável, inviável e inabitável, mesmo com a maior vontade política e as melhores intenções;

2) governantes como João Doria e Bruno Covas não têm a menor vontade política e têm as piores intenções.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Folha chafurda no limite do ridículo


José Geraldo Couto

A manchete de hoje da "Folha" é um retrato da sua decadência.

Quando, nos tempos em que era um bom jornal, uma afirmativa tão peremptória ("reajuste de conta de luz ficará menor em 2019") teria uma base tão frágil ("segundo a TR Soluções, especializada em preços de eletricidade")?

A vontade de injetar otimismo nos leitores quanto ao novo governo deveria ter, no mínimo, o limite do ridículo.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Rolando de rir da pitoresca jequice dos nossos novos governantes


José Geraldo Couto

Ah, convenhamos:

Se não fosse pelos milhões que vão passar fome e pelos outros tantos que vão ficar sem médico e sem escola;

Se não fosse pelos índios que serão dizimados com uma impunidade inaudita;

Se não fosse pelas florestas desmatadas, pelos rios poluídos e pelos animais em acelerada extinção;

Se não fosse pelos jovens negros "abatidos" nas periferias;

Se não fosse pelas mulheres estupradas com o beneplácito dos poderosos;

Se não fosse pelos gays e trans espancados e assassinados por sorridentes homens de bem;

Se não fosse pela entrega das nossas riquezas naturais e pela nossa submissão ao mais escancarado colonialismo;

Se não fosse por esses detalhes, em suma, estaríamos rolando de rir da pitoresca jequice dos nossos novos governantes.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

O nível do porcalismo brasileiro


José Geraldo Couto

Três anos atrás, o experiente repórter da "Folha" com quem encontrei por acaso na mostra de cinema de São Paulo decretou categoricamente três coisas:
- Que Lula não seria preso;
- Que a Lava Jato chegaria aos graúdos do PSDB;
- Que o juiz moro não tinha viés político, mas era um sincero paladino anticorrupção.
Segundo ele, a "narrativa petista" da perseguição a Lula era uma canoa furada.

Estamos vendo.