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domingo, 15 de novembro de 2020

Ficção de Ursula K. Le Guin é analogia do genocídio indígena nas Américas


André Cáceres

Durante a corrida do ouro, a tribo Yahi, que vivia na atual Califórnia, foi vítima de um genocídio. Em 1908, a derradeira investida deixou apenas um sobrevivente, que passou três anos em solidão e então emergiu para a civilização como o “último nativo americano”. Seu nome ninguém nunca saberá: a tradição yahi dita que um indivíduo não pode se apresentar, a não ser por intermédio de alguém. Sem parentes vivos para introduzi-lo, ele foi chamado de Ishi, “homem” em sua língua, pelos antropólogos que o estudaram, Alfred e Theodora Kroeber. Esse choque de culturas moldou a literatura de Ursula K. Le Guin, filha do casal de pesquisadores e uma das maiores escritoras da história da ficção científica. O produto dessa experiência é o romance Floresta é o Nome do Mundo, de 1972, publicado agora pela editora Morro Branco no Brasil, onde é inédito e necessário.

O livro retrata a invasão do verdejante planeta Athshe pelos brutais colonizadores da Terra, distante 27 anos-luz. Lá, os terráqueos extraem madeira — um recurso extremamente escasso após a destruição de suas florestas — e matam, estupram e escravizam os nativos daquele mundo.

Os ashtheanos, pejorativamente referidos como creechies, têm estatura pequena, como os pigmeus, e uma pele inteiramente coberta por pelagem esverdeada. Vivem em uma sociedade pacífica, livre de qualquer tipo de violência e semimatriarcal, na qual os homens anciãos têm a função de oráculos sonhadores, ou seja, eles transitam entre o “tempo do sonho” e o “tempo do mundo” para oferecer suas visões às mulheres, que usam esses sonhos para se orientar e tomar decisões. Um desses sábios antevê a destruição provocada pelos colonizadores: “Coro Mena sentiu que um medo irracional o afligia e caiu no sonho para descobrir a razão desse sentimento. No sonho, gigantes caminhavam, fortes e medonhos. Seus membros de escamas secas estavam envoltos por tecido, seus olhos eram pequenos e claros, como contas de lata. Atrás deles, se moviam enormes objetos feitos de ferro polido. À sua frente, árvores caíam”.

O sonho para os ashteanos estava para o nosso “como o Partenon estava para uma choupana de barro: era basicamente a mesma coisa, mas com a adição de complexidade, qualidade e controle”. Para esse povo, os terráqueos soam insanos, não apenas por “não saberem sonhar”, mas também por derrubarem as árvores. Seu idioma, expressão de seu ponto de vista, não tem palavra para “deserto”, então eles chamam as áreas desmatadas de “praias secas”, e a palavra “Ashthe” significa tanto “mundo” quanto “floresta”, equivalência de sentidos que está no núcleo de sua cultura — e no título do livro.

Assim como para os ashtheanos do romance de Le Guin, o sonho desempenha um papel central na cultura xavante e é, em grande medida, responsável pela sobrevivência desse povo, atualmente um dos mais numerosos do Brasil, com uma população de 18 mil pessoas. Diferente do que ocorre em outras tribos indígenas das Américas, para os xavantes “o sonho não é privilégio de pajés e xamãs, pois todos podem ter visões oníricas divinatórias”, explica o neurocientista Sidarta Ribeiro em seu livro O Oráculo da Noite. “As revelações oníricas não são eventos passivos para os xavantes. Ao contrário, é preciso muita concentração para trazê-las à vigília.” O escritor Kaka Werá Jecupé explica em A Terra dos Mil Povos que, para os xavantes, “o sonho é o momento sagrado em que o espírito está livre” e que foi a partir do sonho que se deu a “história do amansamento do branco”.

Quando bandeirantes, garimpeiros e missionários invadiram as terras originárias dos xavantes, no atual estado de Goiás, durante o ciclo do ouro, foi um sonho que orientou os índios a escapar do homem branco. Uma larga porção da população xavantes migrou para onde hoje é o Mato Grosso e conseguiu se manter a salvo do contato com os colonizadores por cerca de um século. Foi apenas na era Vargas que as fronteiras da tribo voltaram a ser ameaçadas e, nos anos 1940, o cacique Apoena (“aquele que enxerga longe”) executou uma estratégia traçada em sonhos de seu avô, aceitando a reaproximação dos brancos e recebendo o sertanista Francisco Meireles em sua aldeia.

Apesar da demarcação do Parque do Xingu, na década de 1960, Apoena viu sua etnia decrescer e decidiu, novamente orientado por sonhos, enviar oito de seus netos para viver em Ribeirão Preto, apadrinhados por um fazendeiro simpático à causa indígena em plena ditadura militar. Apoena morreu em 1978, mas seus netos são fundamentais para a relação dos xavantes com o mundo exterior, e continuam a proteger os interesses de seu povo, ainda orientados pelos sonhos.

O contato entre culturas distintas — e as tensões resultantes desses conflitos — é o motor narrativo da série de sete romances e diversos contos conhecida como Ciclo Hainish, lançados por Le Guin entre 1966 e 2002. Entre suas obras publicadas no Brasil destacam-se A Mão Esquerda da Escuridão, em que a autora imagina uma raça de humanóides com gênero fluido para discutir sexismo, e Os Despossuídos, que traça uma analogia da guerra fria por meio de dois planetas com sistemas econômicos distintos que orbitam um ao outro. Já Floresta é o Nome do Mundo remete à longa linhagem de obras de ficção científica que comentam o colonialismo, como Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, e As Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury.

Le Guin, no entanto, sabe que o contato entre culturas distintas nunca pode ser desfeito. Um dos protagonistas de Floresta é o Nome do Mundo, o terráqueo Raj Lyubov é um antropólogo como os pais da autora, que tenta trocar o máximo de conhecimento com os nativos e salva um deles, Selver, da morte, tornando-se seu amigo e confidente. Lyubov lamenta as intransponíveis barreiras à convivência serena entre civilizações radicalmente distintas, mas sua ação acaba por desencadear uma mudança no comportamento de Selver, que estimula os outros de seu povo a reagir.

O romance retrata a transformação de um povo pacífico, incapaz de matar, em uma espécie violenta que passa a resistir à invasão terráquea com o uso da força. Essa transição é capitaneada por Selver, um ashtheano que se torna, para os nativos, um “deus” — palavra que no idioma deles também significa “tradutor”.

Ao “traduzir” o comportamento homicida dos terráqueos para os ashtheanos, Selver conquista a liberdade de seu povo, mas sob o preço da violência. Mesmo depois que os terráqueos decidem demarcar o planeta de Ashthe como uma reserva para o povo nativo, o contato entre as espécies alterou profunda e definitivamente aquela cultura, de modo irreversível — como em diversos aspectos ocorreu no Brasil e nos Estados Unidos com os povos indígenas.

“Às vezes um deus vem”, explica Selver. “Ele traz uma maneira nova de fazer alguma coisa, ou algo novo a ser feito. Um novo tipo de canto ou um novo tipo de morte. Ele traz essa coisa atravessando a ponte entre o tempo dos sonhos e o tempo do mundo. Quando faz isso, está feito. Não se pode pegar as coisas que existem no mundo e tentar levá-las de volta para o sonho, retê-las ali dentro com muros e fingimentos. Isso é loucura. O que é, é. Não adianta, agora, fingir que não sabemos como matar uns aos outros.”

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

No centenário de Asimov, suas ideias nunca foram tão atuais


Escritor criou as três leis da robótica, que pautam discussões éticas até hoje 
Salvador Nogueira

Não seria exagero dizer que ele foi um dos maiores escritores de ficção científica do século 20. Mas o que mais impressiona no legado de Isaac Asimov (1920-1992), no centenário de seu nascimento, é a presciência e a relevância.

Autor e editor de mais de 500 livros, muitos voltados para a divulgação científica, Asimov previu com notável precisão muitos dos elementos tecnológicos e sociais de nossa época, com décadas de antecedência. Além disso, usou de sua ficção para introduzir discussões éticas relevantes para nossos dias, e mais ainda para o futuro.

Nascido em Petrovichi, na Rússia, em algum dia entre 4 de outubro de 1919 e 2 de janeiro de 1920 (esta última data a adotada pelo próprio para seu aniversário), Asimov era filho de um casal de judeus russos que trabalhava em moinhos. A família mudou-se para os EUA em 1923. Nunca aprendeu russo.

Formou-se em química em 1939, depois de abandonar o curso de zoologia em protesto pela dissecção de um gato. Doutorou-se em química e tornou-se professor de bioquímica da Universidade de Boston em 1949. Mas sua maior paixão era pela escrita. Seu primeiro conto saiu em 1939.

Marcado pela presença da robótica em sua ficção (palavra que ele cunhou), sua maior contribuição ficcional para o mundo real talvez sejam as três leis da robótica, código de ética implantado em inteligências artificiais para impedir que os robôs prejudicassem os humanos. Apresentadas no conto “Runaround”, de 1942, elas dizem o seguinte:

Primeira Lei: um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal; Segunda Lei: os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; Terceira Lei: um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.

“Mesmo longe desse futuro vislumbrado por Asimov, as três leis da robótica são tidas como a base de um código de ética para qualquer máquina inteligente e autônoma que preste algum auxílio aos seres humanos”, diz Cassio Leandro Barbosa, astrônomo da FEI (Fundação Educacional Inaciana), em São Bernardo do Campo (SP).

“Eu diria que a primeira lei merecia discussões mais aprofundadas”, analisa Alexey Dodsworth, autor brasileiro de ficção científica e filósofo da ciência. “O que não falta na internet são robôs virtuais que induzem humanos a cometer erros. Isso quando não são esses mesmos robôs os responsáveis por ataques em massa e linchamentos a pessoas reais —basta ver o que acontece quando você decide criticar alguém poderoso que controla os robôs.”

Para Dodsworth, “ou seguimos as leis de Asimov, ou iremos nos destruir, e os robôs não terão culpa, já que os programamos sem os imperativos éticos propostos pelo escritor.”

De fato, organizações voltadas à inteligência artificial têm realizado reuniões para definir um código de ética para pesquisas no segmento, uma das potenciais ameaças existenciais que a humanidade enfrentará no século 21.

De forma marcante, a ficção científica de Asimov é quase totalmente livre de alienígenas. “Em mais de uma ocasião, Asimov foi acusado de ser excessivamente antropocêntrico em sua produção ficcional”, diz Dodsworth. “Talvez Asimov tenha feito uma aposta na perspectiva mais pessimista da equação de Drake, que pretende calcular a probabilidade de existência de vida inteligente na galáxia: seríamos apenas nós.”

Seu maior legado como autor é a série Fundação, um conjunto de livros que compilam contos ambientados num mesmo universo ficcional e retratam o futuro longínquo da espécie humana.

Durante os anos 1950 e 1960, Asimov dedicou boa parte do seu tempo a escrever livros de popularização da ciência, motivado em parte pelo lançamento do Sputnik, em 1957. “Fui tomado por um ardente desejo de escrever ciência popular para uma América que poderia estar em grande perigo por sua negligência com a ciência”, escreveu, em 1969.

Seus livros influenciaram gerações a se interessarem por ciência e entenderem que é com ela que se pode construir um futuro próspero.

A incompreensão da ciência que ele combateu em vida tornou sua morte um episódio nebuloso. Em 1977, Asimov teve um ataque cardíaco. Em 1983, foi submetido a uma cirurgia de tripla ponte de safena; com uma transfusão de sangue durante o procedimento, contraiu HIV.

Aconselhado pelos médicos a não revelar sua condição por conta do preconceito anti-Aids da época, que poderia iria se estender a seus familiares, ele jamais revelou o diagnóstico. Morreu em 6 de abril de 1992, por complicações causadas pelo vírus. Sua obra, contudo, permanece.

sábado, 28 de dezembro de 2019

A Nova Idade das Trevas


'A Nova Idade das Trevas' faz reflexão sobre o custo dos avanços tecnológicos

Antônio Xerxenesky
Livro não mudará a mentalidade dos teimosos, mas oferece uma fundamentação repleta de exemplos concretos para temer o futuro
Quando a adolescente sueca Greta Thunberg assumiu o microfone em um discurso das Nações Unidas e culpou a geração anterior por sequestrar o seu futuro —e o de todos jovens— a internet explodiu com pessoas acusando-a de alarmista.

“A Nova Idade das Trevas”, lançamento de James Bridle, não mudará a mentalidade dos mais teimosos, mas oferece uma fundamentação repleta de exemplos concretos para temer o futuro.

Bridle explora, além de artigos científicos, relatórios oficiais de governos e empresas preocupadas com as maneiras como as mudanças climáticas afetarão seu lucro. Ele pesa os prós e contras de todos avanços tecnológicos, com a certeza de que nossa situação atual, e sua tendência a acelerar, é insustentável.

Sabe-se, por exemplo, que a aviação civil, responsável por encurtar as distâncias do mundo ao longo do século 20, é uma das grandes fontes de poluição aérea, e a própria aviação sentirá os efeitos das mudanças, com um aumento drástico em casos de turbulência de ar claro no hemisfério norte.

A internet, por sua vez, ubíqua em nossas vidas, tem sua contrapartida muitas vezes encoberta.

Onde estão armazenados a biblioteca imensa de filmes e séries oferecidas pela Netflix, todos os chats, perfis e fotos do Facebook? Em centros de dados instalados em países frios da Escandinávia ou em paraísos fiscais, consumindo quantidades monstruosas de energia que seriam capazes de iluminar cidades inteiras, e colaborando com o aquecimento global (que, por sua vez, dificultará cada vez mais o resfriamento desses servidores).

“Os 416,2 terawatt-hora de eletricidade que os data centers globais consumiram em 2015 excederam o total de consumo do Reino Unido”, calcula o autor, que diz serem vantajosas para as empresas a ocultação da infraestrutura e a incompreensão geral de como funcionam instrumentos abstratos que moldam nossas vidas digitais e reais.

Ainda que Bridle sempre retorne à questão climática no livro, o que une todos os assuntos abordados é a ilusão que tínhamos de que a tecnologia seria capaz de dar conta dos problemas contemporâneos, que o acúmulo absurdo de dados traria soluções para o clima, para a criminalidade, para as guerras.

Nossa mentalidade seria computacional, quando na verdade não temos metáforas para compreender como as máquinas e as tecnologias funcionam de fato. Ao tratar de redes neurais que jogam xadrez ou Go, Bridle explora como as máquinas passaram a pensar por conta própria e como o raciocínio destas é alienígena para nós, humanos, inclusive para os programadores.

“Quanto mais ficamos obsessivos em computar o mundo, mais complexo e incognoscível ele parece”, afirma o autor, que parece alinhar-se, ou ao menos complementar, outros intelectuais que abordaram esses tópicos em publicações recentes.

Enquanto Bridle se preocupa com o fato de que a pluralidade de visões de mundo gerou teorias da conspiração e fragmentação, o filósofo coreano Byung-Chul Han estuda, em “Psicopolítica” (Ed. Âyiné), como a conexão constante estimula a competitividade e gera novos meios de exploração para o capitalismo tardio. O pessimismo, por sua vez, é um eco de “Depois do Futuro” (Ed. Ubu), do teórico italiano Franco Berardi, que analisa como o entusiasmo do começo do século 20 com as máquinas se transformou numa visão catastrófico de um “futuro cancelado”.

“A Nova Idade das Trevas” não é um chamado à ação, nem adota atitudes luditas em relação à tecnologia, mas propõe reflexão a respeito da posição dos humanos em relação às máquinas.

“Sabemos cada vez mais sobre o mundo, mas somos cada vez mais incapazes de fazer algo a respeito do que sabemos.” Espera-se que tenhamos forças para discordar disso.

Antônio Xerxenesky, tradutor e escritor, é doutor em teoria literária pela USP