El concretista Augusto de Campos cumple hoy 90 años. Su existencia/poesía es inseparable de lo que entendemos por Brasil. @teleSURtv pic.twitter.com/P7toDJBzFo
— Nacho Lemus (@LemusteleSUR) February 14, 2021
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domingo, 14 de fevereiro de 2021
Augusto de Campos completa 90 anos
sexta-feira, 7 de agosto de 2020
domingo, 19 de julho de 2020
sexta-feira, 10 de julho de 2020
terça-feira, 30 de junho de 2020
Superhomem – a Canção
Gilberto Gil
#PorTrásDaLetra - "Superhomem, a canção"
#PorTrásDaLetra - "Superhomem, a canção"
Estava de passagem pelo Rio, indo para os Estados Unidos fazer a tour do lançamento do Nightingale e gravar o Realce, ao final da excursão. Na ocasião eu estava morando na Bahia, por isso estava hospedado na casa do @caetanoveloso
Como eu tinha que viajar logo cedo, na véspera da viagem eu me recolhi num quarto por volta de uma hora da manhã.
De repente eu ouvi uma zuada: era Caetano chegando da rua, falando muito, entusiasmado. Tinha assistido o filme Superhomem. Falava na sala com as pessoas eu fiquei curioso e me juntei ao grupo. Caetano estava empolgado com aquele momento lindo do filme, em que a namorada do Superhomem morre no acidente de trem e ele volta o movimento de rotação da Terra para poder voltar o tempo para salvar a namorada.
Com aquela capacidade extraordinária do Caetano de narrar um filme com todos os detalhes, você vê melhor o filme ouvindo a narrativa dele do que vendo o filme… Então eu vi o filme. Conversa vai, conversa vem, fomos dormir. Mas eu não dormi.
Estava impregnado da imagem do Superhomem fazendo a Terra voltar por causa da mulher. Com essa ideia fixa na cabeça, levantei, acendi a luz, peguei o violão, o caderno, e comecei. Uma hora depois a canção estava lá, completa. No dia seguinte a mostrei ao Caetano; ele ficou contente
Fiz a excursão norte americana toda e, só quando cheguei a Los Angeles para gravar o disco, foi que eu vi o filme. A canção foi feita portanto com base na narrativa do Caetano. Como era Superhomem – O Filme, ficou Superhomem – a Canção.
sábado, 29 de fevereiro de 2020
sábado, 22 de fevereiro de 2020
quinta-feira, 16 de janeiro de 2020
A isenção autoritária
Nilson Lage
Não me surpreende a ideologia desses discursos. São pessoas que lucram com ele, pagas para dizê-los, estúpidas o bastante para acreditar neles; aloprados místicos e carreiristas que falam besteiras para ocupar espaços de poder nessa etapa de liquidação da Pátria-Mãe.
Assombra-me a ousadia da ignorância teórica que suporta o argumento.
Como exigir “isenção” de um relato pessoal, testemunhal, sobre fatos verdadeiros? De John Reed, em “Os dez dias que abalaram o mundo”? Peter Davis, em “Corações e Mentes”? Júlio César em “Sobre a guerra da Gália”? Ou, mesmo, da construção de um conceito do todo pela soma das partes, como faz Eduardo Coutinho em “Edifício Master”?
O que seria a isenção afora o apagamento do autor diante de interpretação prévia, autoritária e hipócrita?
Nélson Pereira dos Santos, Professor Titular da Universidade Federal Fluminense, ensinava que documentários são o melhor maneira para se apreender a essência do cinema, porque suprimem a muleta da dramaturgia; deles, pode-se discutir o discurso no plano das ideias, mas tudo que se admite exigir é que cada um dos segmentos produzidos ou selecionados seja, de fato, verdadeiro. Isso é ainda mais evidente quando a perspectiva do narrador define-se no início, como em “Democracia em Vertigem”
Assim, se era Lula e não um sósia que arrumava as malas para se apresentar à cadeia; se a megera que dá uma de Pomba Gira, não era protagonista de tragédia grega ou louca evadida do hospício, mas advogada de renome; se são, mesmo, parlamentares os pândegos e clowns que se apresentam no picadeiro das cuias, dispostos a mostrar ao grande público o que compõe de fato o Congresso brasileiro.
É de César, não diretamente perceptível na natureza, que a Gália se divide em três partes; ele a viu e conquistou dessa forma, e o relato o habilitava a comandar o Império Romano. Se o menino chora lancinante junto ao túmulo do pai, representado em uniforme militar, sobre a lápide do cemitério em Saigon, e o General Westmoreland, captado em plano americano, proclama que os orientais não dão valor à vida, não há como criticar o Professor Davis por ter juntado os dois segmentos na construção de seu discurso, ostentando, com isso, a hipocrisia condecorada.
A maneira como se arruma o relato -- a sintaxe e seu sentido, as sugestões que faz, as conotações que desperta -- é exatamente o que define a autoria, e que os jurados do Oscar poderão premiar.
Os episódios recentes da tragédia brasileira foram encenados de várias maneiras, algumas vezes, com escasso sucesso, arrumando as cenas para validar a “mudança de regime” com base na palavra dos conspiradores ou com a invenção do “povo” nas massas motivadas pelas técnicas de agitação de massas manipuladas pelos mesmos interesses de sempre -- da conspiração pela proclamação da República ao traque restaurador paulista de 1932; do “mar de lama” de 1954 à “república sindicalista” de 1964; de Sylvio Frota a Augusto Heleno; da projeção nos cinescópios de um Collor ao enchimento do balão de um Bolsonaro.
A diretora de “Democracia em Vertigem” contou a história real, como a viu. Assinou a obra.
Se o mundo e a inteligência brasileira concordam que a versão de Petra é inseparável dos fatos, será esse o juízo que persistirá na História.
É prudente conformar-se.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2020
No centenário de Asimov, suas ideias nunca foram tão atuais
Escritor criou as três leis da robótica, que pautam discussões éticas até hojeSalvador Nogueira
Não seria exagero dizer que ele foi um dos maiores escritores de ficção científica do século 20. Mas o que mais impressiona no legado de Isaac Asimov (1920-1992), no centenário de seu nascimento, é a presciência e a relevância.
Autor e editor de mais de 500 livros, muitos voltados para a divulgação científica, Asimov previu com notável precisão muitos dos elementos tecnológicos e sociais de nossa época, com décadas de antecedência. Além disso, usou de sua ficção para introduzir discussões éticas relevantes para nossos dias, e mais ainda para o futuro.
Nascido em Petrovichi, na Rússia, em algum dia entre 4 de outubro de 1919 e 2 de janeiro de 1920 (esta última data a adotada pelo próprio para seu aniversário), Asimov era filho de um casal de judeus russos que trabalhava em moinhos. A família mudou-se para os EUA em 1923. Nunca aprendeu russo.
Formou-se em química em 1939, depois de abandonar o curso de zoologia em protesto pela dissecção de um gato. Doutorou-se em química e tornou-se professor de bioquímica da Universidade de Boston em 1949. Mas sua maior paixão era pela escrita. Seu primeiro conto saiu em 1939.
Marcado pela presença da robótica em sua ficção (palavra que ele cunhou), sua maior contribuição ficcional para o mundo real talvez sejam as três leis da robótica, código de ética implantado em inteligências artificiais para impedir que os robôs prejudicassem os humanos. Apresentadas no conto “Runaround”, de 1942, elas dizem o seguinte:
Primeira Lei: um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal; Segunda Lei: os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; Terceira Lei: um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.
“Mesmo longe desse futuro vislumbrado por Asimov, as três leis da robótica são tidas como a base de um código de ética para qualquer máquina inteligente e autônoma que preste algum auxílio aos seres humanos”, diz Cassio Leandro Barbosa, astrônomo da FEI (Fundação Educacional Inaciana), em São Bernardo do Campo (SP).
“Eu diria que a primeira lei merecia discussões mais aprofundadas”, analisa Alexey Dodsworth, autor brasileiro de ficção científica e filósofo da ciência. “O que não falta na internet são robôs virtuais que induzem humanos a cometer erros. Isso quando não são esses mesmos robôs os responsáveis por ataques em massa e linchamentos a pessoas reais —basta ver o que acontece quando você decide criticar alguém poderoso que controla os robôs.”
Para Dodsworth, “ou seguimos as leis de Asimov, ou iremos nos destruir, e os robôs não terão culpa, já que os programamos sem os imperativos éticos propostos pelo escritor.”
De fato, organizações voltadas à inteligência artificial têm realizado reuniões para definir um código de ética para pesquisas no segmento, uma das potenciais ameaças existenciais que a humanidade enfrentará no século 21.
De forma marcante, a ficção científica de Asimov é quase totalmente livre de alienígenas. “Em mais de uma ocasião, Asimov foi acusado de ser excessivamente antropocêntrico em sua produção ficcional”, diz Dodsworth. “Talvez Asimov tenha feito uma aposta na perspectiva mais pessimista da equação de Drake, que pretende calcular a probabilidade de existência de vida inteligente na galáxia: seríamos apenas nós.”
Seu maior legado como autor é a série Fundação, um conjunto de livros que compilam contos ambientados num mesmo universo ficcional e retratam o futuro longínquo da espécie humana.
Durante os anos 1950 e 1960, Asimov dedicou boa parte do seu tempo a escrever livros de popularização da ciência, motivado em parte pelo lançamento do Sputnik, em 1957. “Fui tomado por um ardente desejo de escrever ciência popular para uma América que poderia estar em grande perigo por sua negligência com a ciência”, escreveu, em 1969.
Seus livros influenciaram gerações a se interessarem por ciência e entenderem que é com ela que se pode construir um futuro próspero.
A incompreensão da ciência que ele combateu em vida tornou sua morte um episódio nebuloso. Em 1977, Asimov teve um ataque cardíaco. Em 1983, foi submetido a uma cirurgia de tripla ponte de safena; com uma transfusão de sangue durante o procedimento, contraiu HIV.
Aconselhado pelos médicos a não revelar sua condição por conta do preconceito anti-Aids da época, que poderia iria se estender a seus familiares, ele jamais revelou o diagnóstico. Morreu em 6 de abril de 1992, por complicações causadas pelo vírus. Sua obra, contudo, permanece.
domingo, 29 de dezembro de 2019
A foto do ano
Aplicativos
Ciclistas que trabalham com aplicativos de entrega descansam em praça de São Paulo.
Foto: Tiago Queiroz/Estadão - 13/9/2019
Estadão
"Para mim, é uma foto que retrata a precarização do trabalho como a gente conhecia. Fico triste quando vejo aqueles meninos da foto, eles estão quase em situação de rua" (Tiago Queiroz)
quinta-feira, 12 de dezembro de 2019
Longe de qualquer estrada
Far From Any Road
The Handsome Family
From the dusty may sun, her looming shadow grows
Hidden in the branches of the poison creosote
She twines her spines up slowly
Towards the boiling sun
And when I touched her skin
My fingers ran with blood
In the hushing dusk
Under a swollen silver moon
I came walking with the wind
To watch the cactus bloom
A strange hunger haunted me
The looming shadows danced
I fell down to the thorny brush
And felt a trembling hand
When the last light warms the rocks
And the rattlesnakes unfold
Mountain cats will come
To drag away your bones
Then rise with me forever
Across the silent sands
And the stars will be your eyes
And the wind will be my hands
quarta-feira, 6 de novembro de 2019
Franquias de super-heróis não são cinema
'Eu disse que os filmes da Marvel não são cinema, permitam-me explicar', diz Martin Scorsese
Se as pessoas recebem só um tipo de coisa e só um tipo de coisa é vendido, é claro que elas vão desejar mais e mais daquele tipo de coisaMartin Scorsese
Quando estive na Inglaterra no começo de outubro, dei uma entrevista à revista Empire. Fizeram-me uma pergunta sobre os filmes da Marvel. Respondi. Disse que tinha tentado assistir a alguns deles e que não são o tipo de filme que me interessa, que eles mais parecem parques temáticos do que filmes na forma que conheço e amei por toda minha vida, e que, enfim, não acho que eles sejam cinema.
Algumas pessoas parecem ter considerado a porção final da minha resposta como insultuosa, ou como prova de que odeio a Marvel. Se alguém está disposto a caracterizar minhas palavras dessa maneira, não há o que eu possa fazer para impedir.
Muitos dos filmes dessas franquias são realizados por pessoas de talento e capacidade artística considerável. Isso fica evidente na tela. O fato de que os filmes em si não me interessem é uma questão de gosto ou temperamento pessoal. Sei que, se eu fosse mais jovem, se eu tivesse amadurecido mais tarde do que amadureci, eu talvez me empolgasse com esses filmes e talvez até quisesse fazer um deles.
Mas cresci na época em que cresci, e desenvolvi um senso de cinema —do que os filmes são e poderiam ser— que fica tão distante do universo Marvel quanto a Terra de Alpha Centauri.
Para mim, para os cineastas que vim a amar e respeitar, para meus amigos que começaram a fazer filmes mais ou menos na mesma época que eu, o cinema girava em torno de revelação —estética, emocional e espiritual. Girava em torno de personagens —a complexidade das pessoas e suas naturezas contraditórias e muitas vezes paradoxais, a maneira pela qual elas podem ferir umas às outras, amar umas às outras, e repentinamente contemplar com franqueza aquilo que são.
Tudo girava em torno de confrontar o inesperado nas telas e na vida que os filmes dramatizavam e interpretavam, e de ampliar o senso do que era possível naquela forma de arte.
E isso era essencial para nós: tratava-se de uma forma de arte. Havia algum debate a respeito na época, e assim nos posicionamos para defender o cinema como igual à literatura, música ou dança. E viemos a compreender que a arte poderia ser encontrada em muitos lugares diferentes, e em formas igualmente numerosas —em “Capacete de Aço” de Sam Fuller e “Quando Duas Mulheres Pecam” de Ingmar Bergman, em “Dançando nas Nuvens”, de Stanley Donen e Gene Kelly, ou ”Scorpio Rising”, de Kenneth Anger, em “Viver a Vida”, de Jean-Luc Godard, e “Os Assassinos”, de Don Siegel.
Ou nos filmes de Alfred Hitchcock —suponho que seria possível dizer que Hitchcock criou uma franquia cinematográfica. Ou que ele foi a nossa franquia. Cada novo filme de Hitchcock era um evento. Estar na sala lotada de um dos velhos cinemas do passado assistindo a “Janela Indiscreta” era uma experiência extraordinária, um evento criado pela química entre a audiência e o filme em si, e era um momento eletrizante.
E de certa forma os filmes de Hitchcock também eram parecidos com parques temáticos. Estou pensando em “Pacto Sinistro”, no qual o clímax acontece no carrossel de um parque de diversões, e em “Psicose”, que assisti em uma sessão da meia-noite no dia de sua estreia, uma experiência que jamais vou esquecer.
As pessoas iam ver esses filmes para serem apanhadas de surpresa, para receber um choque, e não saíam decepcionadas.
Passados 60 ou 70 anos, continuamos a assistir a esses filmes e a admirá-los. Mas o que nos faz voltar são as surpresas e os choques? Não acho que sejam. As cenas de ação em “Intriga Internacional” são deslumbrantes, mas elas não seriam mais que uma sucessão de composições e cortes dinâmicos e elegantes sem as emoções que têm lugar central na história, e a sensação de o quanto o personagem de Cary Grant está perdido.
O clímax de “Pacto Sinistro” é um feito, mas é a interação entre os dois personagens principais e o desempenho profundamente perturbador de Robert Walker que ecoam até hoje.
Há quem diga que os filmes de Hitchcock são repetitivos, e isso talvez seja verdade —Hitchcock mesmo expressou a mesma preocupação. Mas a mesmice das grandes franquias cinematográficas atuais é de uma ordem muito diferente. Muitos dos elementos que definem o cinema tal qual o conheço estão presentes nos filmes da Marvel. O que não está presente é revelação, mistério ou perigo real. Nada está em risco. Os filmes foram feitos para satisfazer um conjunto específico de demandas, e são concebidos como variações de um número finito de temas.
Eles são continuações, em teoria, mas na verdade são refilmagens, em espírito, e tudo que existe neles é oficialmente sancionado, porque a verdade é que não poderia ser de outra maneira., Essa é a natureza das modernas franquias cinematográficas, baseadas em pesquisas de mercado e em testes de audiência, filtradas, modificadas, refiltradas e remodificadas até que estejam prontas para o consumo.
Você talvez possa perguntar: qual é o meu problema? Por que não deixar os filmes de super-heróis e as demais franquias em paz? A razão é simples. Em muitos lugares deste país e em todo o mundo, as franquias cinematográficas se tornaram a escolha primária para quem quer ver alguma coisa na tela grande. É um momento perigoso no ramo da exibição cinematográfica, e existem cada vez menos salas de cinema independentes. A equação foi invertida e o streaming se tornou o sistema primário de entrega.
Mas não conheço um único cineasta que não prefira conceber filmes para a tela grande, para exibição diante de audiências em salas de cinema.
Estou incluído nessa descrição, e estou falando como alguém que acaba de fazer um filme para a Netflix.
Foi a Netflix, e só ela, que nos permitiu fazer “O Irlandês” da maneira que queríamos, e por isso serei sempre grato. Temos um período para exibição exclusiva em salas de cinema, o que é excelente. Se eu gostaria que o filme passasse por mais tempo apenas em salas de cinema? É claro que sim. Mas não importa quem seja a produtora de um filme, o fato é eu as telas da maioria dos cinemas multiplex estão ocupadas por filmes de franquias.
E se você vai me dizer que isso é uma simples questão de oferta e procura e de dar às pessoas o que elas desejam, vou discordar. É uma daquelas questões do tipo o ovo e a galinha. Se as pessoas recebem só um tipo de coisa e só um tipo de coisa é vendido, é claro que elas vão desejar mais e mais daquele tipo de coisa.
Você talvez argumente que basta ir para casa e assistir qualquer coisa que você deseje na Netflix, iTunes ou Hulu. Claro que sim —em toda parte menos a telona, que é a mídia para a qual o cineasta concebeu o seu filme.
Nos últimos 20 anos, como todos sabemos, o negócio do cinema mudou em todas as frentes. Mas a mudança mais ameaçadora aconteceu de maneira sorrateira e na penumbra: a gradual mas constante eliminação do risco. Muitos dos filmes atuais são produtos perfeitos fabricados para consumo imediato.
Muitos deles são bem feitos, por equipes de indivíduos talentosos. Ainda assim, lhes falta algo de essencial ao cinema: a visão unificadora de um artista individual. Porque, é claro, o artista individual é o maior fator de risco.
Não quero insinuar, certamente, que o cinema deveria ser uma forma de arte subsidiada, ou que o tenha sido um dia. Quando o sistema dos estúdios de Hollywood estava vivo e bem, a tensão entre os artistas e as pessoas que comandavam os negócios era constante e intensa, mas era uma tensão produtiva que nos deu alguns dos maiores filmes de todos os tempos —nas palavras de Bob Dylan, os melhores desses filmes eram “heroicos e visionários”,
Hoje essa tensão se foi, e há pessoas no ramo que sentem completa indiferença pela questão mesma da arte, e ostentam uma atitude quanto à história do cinema que é tanto desdenhosa quanto possessiva —uma combinação letal. A situação, infelizmente, é a de que agora temos dois ramos separados: há o entretenimento audiovisual mundial e há o cinema. Eles às vezes se sobrepõem, mas isso está se tornando cada vez mais raro. E temo que o domínio financeiro de um esteja sendo usado para marginalizar e mesmo apequenar a existência do outro.
Para quem quer que sonhe fazer filmes, ou que esteja começando, a situação atual é brutal e nada hospitaleira para com a arte. E o simples ato de escrever essas palavras me enche de uma terrível tristeza.
Martin Scorsese é diretor, roteirista e produtor de cinema, premiado com o Oscar. Seu novo filme é 'O Irlandês'.
Tradução de Paulo Migliacci
terça-feira, 22 de outubro de 2019
Quadrilha
QUADRILHA
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
quinta-feira, 17 de outubro de 2019
O Coringa em nós
Jornal do Brasil - Flávio Cordeiro
Assisti Coringa neste final de semana. Há tempos não saía de uma sala de cinema tão incomodado. Creio ser essa uma das funções principais da arte: incomodar para acordar. O mecanismo dos pesadelos é, mais ou menos, o mesmo. O pesadelo nos faz despertar incomodados por uma questão que precisa ser encarada ou, do contrário, permanecerá nos assombrando noites a fio. A arte, por vezes, com beleza e emoção, incomoda pelo mesmo motivo: nos apresenta um tema indigesto com o qual, como sociedade, precisamos lidar. Coringa é certamente indigesto.
Coringa não fala de um louco; fala do processo de enlouquecimento que uma sociedade insana é capaz de produzir através do massacre cotidiano que impõe aos seus membros mais fragilizados. Portanto, fala de todos nós.
Curiosamente, no sábado pela manhã, antes de decidir comprar ingressos para o filme, reli, meio ao acaso, “A Política da Experiência”, de Ronald Laing, psiquiatra escocês que já citei num recente artigo AQUI. Este livro pode ser lido como uma espécie de making of do Coringa. Diz Laing, escrevendo em 1967: “Na Grã-Bretanha, no momento, existem cerca de 60.000 homens e mulheres internados em manicômios. Uma criança nascida hoje na Grã-Bretanha tem dez vezes mais oportunidades de ingressar num manicômio que numa universidade. Isso pode ser considerado um sinal de que estamos enlouquecendo nossos filhos com muito mais eficácia do que os estamos educando. Talvez seja nossa própria maneira de educá-los que os enlouqueça”. Enquanto assistia a dança do Coringa no cinema, essas palavras martelavam na minha cabeça, e eu me peguei pensando: quantos Coringas foram construídos nessas cinco décadas que separam os escritos de Laing dos dias atuais?
Enquanto a medicina e a ciência continuam buscando uma suposta origem orgânica para a loucura, Laing nos confronta com uma importante questão: até que ponto a loucura é um produto social? Descaso, desprezo, abusos, humilhação, pobreza endêmica, exposição contínua à violência; esses são todos aspectos sociais envolvidos no processo do enlouquecimento. São todos produtos de Gotham City.
Jung, que foi psiquiatra no maior hospital psiquiátrico da Suíça, num tempo em que o psiquiatra residia com a sua família no hospital, afirma que se nos dermos ao trabalho de escutar com cuidado e atenção àquela pessoa que se encontra mentalmente adoecida, o discurso que parece absurdo, adquire subitamente um sentido. Ao descobrir um sentido no sem-sentido, há uma aproximação mais humana daquela pessoa que sofre dos mesmos problemas humanos que nós, e, segundo Jung "nem de longe é uma máquina cerebral em desordem”; assim, continua ele: "Passamos a reconhecer na loucura apenas uma reação inusitada a problemas emocionais que pertencem a todos nós”.
O que infere-se a partir da visão de Jung é que há um Coringa muito mais próximo de nós do que supomos ou gostaríamos de admitir, simplesmente porque, sendo humanos, estamos todos expostos ao ambiente potencialmente enlouquecedor das Gotham Cities que criamos. Não estou me atendo às explosões de violência do personagem no filme, mas sim ao fato de que a realidade social massacrante é capaz de tornar a vida tão insuportável a ponto de tragar a integridade psicológica do indivíduo.
O filme mostra um indivíduo que revida com violência as mesmas violências e humilhações que sofre repetidamente. Mas, na vida real, os loucos quase nunca revidam, eles adoecem; seu delírio é a forma que encontram para lidar com o absurdo do cenário inumado de Gotham City. São, ao contrário, as pessoas ditas “normais" que mais violentam e que dão aval para a violência institucionalizada.
O psiquiatra argentino Alfredo Moffatt afirma que em 30 anos de trabalho em oficinas terapêuticas, com pacientes esquizofrênicos, jamais testemunhou um episódio de violência. Diz ele: “Os loucos são boa gente, são pacíficos”, o mesmo não podendo dizer dos "normais”. Sobre os ditos “normais", devolvo a palavra a Ronald Laing: “A pessoa ‘normalmente alienada’, em razão de agir mais ou menos como os demais, é considerada sã pois a sociedade valoriza altamente o homem normal. Homens normais mataram talvez 100.000.000 de seus semelhantes normais nos últimos cinquenta anos.”
Não se trata de glorificar a loucura, que é uma condição de sofrimento humano das mais graves, mas sim de relativizar a dita normalidade, dado que Gotham City e seus cidadãos “normais" produzem Coringas em série.
A agonizante transformação de Arthur Fleck em Coringa me fez lembrar de uma antiga frase do pensador indiano Jiddu Krishnamurti: “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente”.
Enquanto o Coringa dança, Gotham City enlouquece.
* Psicólogo e Psicoterapeuta
quinta-feira, 8 de agosto de 2019
Presidente Bolsonaro ordena a produção de filmes bíblicos
Farei filmes bíblicos
Carlos Gerbase*
O Exmo. Sr. Presidente da República declarou, com sua proverbial sabedoria: "Não posso admitir que, com dinheiro público, se façam filmes como o da Bruna Surfistinha. Não dá." O presidente falou, tá falado. Decidi reformular radicalmente todos os meus projetos, buscando temas que agradem ao Palácio do Planalto e à bancada evangélica. Daqui pra frente, só farei obras baseadas na Bíblia. Com essa nova proposta artística, terrivelmente religiosa, receberei milhões de reais da Lei Renault. Já tenho vários argumentos em desenvolvimento.
O primeiro chama-se Sarai, a Esposa Perfeita. Conta a história da chegada de Abraão e de sua mulher Sarai, extremamente bela, ao Egito. Abraão desconfia que o Faraó se sentirá atraído por Sarai e o matará para tê-la. Abraão então pede para Sarai: "Diz que é minha irmã, em vez de esposa". Arranjo perfeito. O Faraó se encanta com Sarai, que vai viver no palácio, enquanto Abrão, nas graças do governo, recebe ovelhas, bois, asnos, servos e camelos. A lua de mel do Faraó com Sarai será uma cena encantadora. Enquanto eles fazem amor, Abraão passeia com suas ovelhas.
Depois produzirei As Abençoadas Filhas de Ló, tocante episódio que envolve um viúvo que acaba de perder a mulher, transformada numa estátua de sal, e esconde-se numa caverna das montanhas com suas duas filhas. Elas acham que, naquele fim de mundo, nunca conseguirão um namorado. Quando chega a noite, a primogênita embebeda o pai e transa com ele. Ló, na manhã seguinte, nem lembra o que aconteceu. Assim, a mais moça repete a façanha, sem que o pai - sempre distraído! - reclame. As duas engravidam e dão dois netos a Ló: Moab e Ben Ami. Acho que essa história agradará em cheio ao presidente, já que tem um clima bem família.
Também escreverei um filme chamado Meu Bom Tio Labão. Será narrado por Jacó, que, apaixonado por Raquel, filha de Labão, seu tio, trabalha sete anos para ter o direito de casar com ela. Na noite das núpcias, regada a muito vinho, contudo, Labão manda que a sua outra filha, Lia, transe com o noivo. Jacó só percebe na manhã seguinte e fica brabo. Labão - que tiozão bacana! - então providencia que Raquel também case com Jacó. Teremos um ménage quentíssimo filmado em dunas de areia. E isso é apenas o começo! Não faltam temas inspiradores na Bíblia. Com a bênção do presidente, finalmente minha carreira vai decolar.
* Cineasta. Escritor. Prof. Universitário.
quinta-feira, 27 de junho de 2019
terça-feira, 23 de abril de 2019
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019
Cartaz do filme "Marighella" não é dos mais originais
segunda-feira, 7 de janeiro de 2019
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