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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

A Savanização da Amazônia

 

“Savanização da Amazônia já está ocorrendo”, diz Nobre

O processo de savanização da Amazônia iniciou em algumas regiões e precisa ser evitado com o fim imediato do desmatamento e reflorestamento, diz Carlos Nobre

Por Daniela Chiaretti 

Há 30 anos o climatologista Carlos Nobre alerta para o tipping-point da Amazônia: o momento em que o desmatamento causará tamanho dano que a Amazônia deixa de ser a maior floresta tropical úmida para virar savana. Quando este desastre acontecer, uma emissão gigante de gases-estufa irá para a atmosfera, a temperatura da região aumentará, as geleiras andinas encolherão mais, os rios amazônicos sofrerão, a produção de grãos ficará inviável no Cerrado. A lista de impactos assusta.

Ultrapassar o ponto de não retorno é como esbarrar em um castelo de cartas. O impacto local às populações e à biodiversidade irá muito além da floresta. “Estamos na beira do precipício”, diz o cientista, uma das maiores autoridades no tema, resumindo o cenário atual. “Estamos vendo a savanização da Amazônia acontecer.”

O processo de savanização da floresta já iniciou. Temos que parar o desmatamento já e começar a reflorestar”

Nobre cita dados que apontam o início do processo no Sul e Sudeste do bioma. A estação seca já está de três a quatro semanas mais longa, o que vai modificando a vegetação e a fauna. Em parte do norte de Mato Grosso e no sul do Pará, a floresta já não absorve carbono. Nesta região, a temperatura na estação seca é 3°C mais quente do que era na década de 80. Há um aumento da mortalidade de árvores típicas do clima úmido desde a Amazônia boliviana e peruana ao Sul da Amazônia brasileira e até o Amapá e a Guiana Francesa. Registros de lobos-guarás, animal símbolo do Cerrado, foram feitos dentro da floresta, um sinal de savanização da fauna.

“Se a savanização da floresta passar deste ponto de não retorno, aí não adianta nada”, diz Nobre. Nos anos 90 escreveu um célebre artigo científico sobre o que era, naquele momento, apenas uma hipótese. Se o desmatamento da Amazônia chegasse a 20% ou 25% da floresta, o limite em que a floresta consegue superar a agressão e se regenerar teria sido ultrapassado. “Temos que impedir isso. Temos que zerar o desmatamento em no máximo cinco anos. Zerar. Zerar. Zerar. E começar a restaurar pelo menos 300 mil km2.”

Nobre busca soluções e investidores. Desenvolve o projeto “Amazônia 4.0” para, a partir de laboratórios modernos, promover a bioeconomia da floresta.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Como Funciona um SSD?



Um SSD é muito mais rápido do que um disco rígido para armazenamento, e pode aumentar os seus FPS nos jogos ou a velocidade de inicialização do seu computador ou notebook. O que pouca gente sabe é que esses pequenos dispositivos de silício tem mecânica quântica como uma das bases de seu funcionamento: o tunelamento quântico. Como os SSDs funcionam?

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Previsões para o futuro

O chefe do programa espacial dos EUA, criminoso nazista Von Braun, acreditava 
que a Lua estaria colonizada até 2.000. Quase acertou.


Astronomiaum

Essa é uma notícia do jornal 'A Tarde' de 1972 que previa a colonização humana da Lua no ano 2000. Já estamos quase em 2021 e com previsão da Missão Artemis, próxima missão de levar humanos à Lua em 2024, sofra adiamento.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Sub If clube = Fla Then "Bola nossa" End Sub

A ciência por trás das decisões do VAR não existe. São pessoas que decidem, não um programa de computador

Felipe Demier

E eu, ingênuo, até achava que existia mesmo o tal do super software. Mas não. Trata-se de um isento Gaciba da vida que, tal qual um flanelinha (como disse o Rafael Henriques), fica escolhendo onde as linhas devem ser traçadas. 

O favorecimento histórico para certos clubes sempre "à sobra do poder" tentava se afirmar agora como cientifico, objetivo. Porém, "tudo que é sólido se desmancha no ar". Depois que o tal software decidir o campeão, quem sabe promovendo cruzamentos entre gols anulados, balancetes, orçamentos e números de viagens à Brasília, estarão lá aqueles de sempre pra justificar, e dessa vez o poderão fazer tal qual Gaciba ao final do tétrico vídeo, parafraseando o bordão das meias Vivarina (011-1406): "Não é magia, é tecnologia ".

Realidade:
Ficção:



quarta-feira, 14 de outubro de 2020

A Era Humana


Antropoceno: A Era Humana dá uma reviravolta assustadora no documentário de natureza padrão. Em vez de exaltar a incrível beleza de paisagens ou animais, ele captura formas alarmantes pelas quais essa beleza foi perturbada.

Jennifer Baichwal, Nicholas de Pencier e Edward Burtynsky acompanham a Manufactured Landscapes e a  Watermark com uma meditação moderada sobre as minas de potássio psicodélicas, extensos muros de concreto, gigantescas máquinas industriais e outros exemplos da reengenharia maciça da humanidade no planeta.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Setembro de 2020 foi o setembro mais quente da história

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Como a linguagem modela a maneira que pensamos

                                                                                Legendas disponíveis em 37 idiomas

How language shapes the way we think | Lera Boroditsky

domingo, 16 de agosto de 2020

Neurocientista brasileiro cria teoria que coloca o cérebro humano no centro do universo


Miguel Nicolelis: 'A ciência, como qualquer abstração da mente humana, tem limites' 

André Cáceres


“Cogito, ergo sum.” Comumente traduzida como “Penso, logo existo”, a proposição do filósofo René Descartes em seu Discurso do Método pode ganhar uma conotação científica graças ao novo livro do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis. Em O Verdadeiro Criador de Tudo, o pesquisador compila quatro décadas de investigações laboratoriais e acadêmicas, e passa por áreas do conhecimento como arte, filosofia, matemática, física, linguística e história para formular uma teoria que coloca o cérebro humano em primeiro plano para explicar nossa realidade.

A metade inicial do livro é dedicada à exposição de alguns resultados empíricos obtidos por Nicolelis, seus colegas de laboratório e outros cientistas pelo mundo. Entre os experimentos, há por exemplo um teste em que ratos foram capazes de detectar luz infravermelha quase como um novo sentido, demonstrando a plasticidade cerebral, capacidade que o cérebro tem de se modificar e adaptar a novas circunstâncias. Há também o caso clássico de pacientes que perderam um membro e continuam a senti-lo, ou que sentem um toque feito em uma mão falsa como se fosse em sua própria mão. Já em outro teste, grupos de três chimpanzés conseguiram sincronizar seus cérebros para controlar, juntos, os movimentos de um braço mecânico, comprovando a existência de uma rede cerebral, chamada pelo autor de Brainet.

“Basicamente, uma Brainet é um computador orgânico distribuído composto de múltiplos cérebros individuais, que se sincronizam – no domínio analógico – por um sinal externo, como luz, som, linguagem, química, ondas de rádio ou eletromagnéticas, e é capaz de produzir comportamentos sociais emergentes”, explica o autor.

Embora pareçam desconectadas entre si, as experiências relatadas no início do livro introduzem conceitos neurofisiológicos essenciais para se compreender o que a Teoria do Cérebro Relativístico de Nicolelis propõe. Por exemplo, a ideia de que existem dois tipos de informação: a shannoniana (que vem do matemático Claude Shannon, tido como criador da teoria da informação), que é computável, transmissível em padrões de zeros e uns, e armazenável em bits e bytes, como a linguagem humana ou a matemática; e a informação godeliana (que vem do matemático Kurt Gödel), que é analógica, não digital, e se acumula nos tecidos orgânicos de modo que não pode ser computável.

“Eu sempre uso o exemplo da beleza. Cada um de nós tem uma definição própria da beleza”, explica Nicolelis em entrevista ao Estadão. “Ao se acumular de forma godeliana, literalmente no tecido neural, ela se torna única para cada um de nós, e não é transmissível por informação shannoniana, por meio de bits e bytes.”

No livro, Nicolelis mostra como a arte rupestre foi o início dessa revolução comunicacional que permitiu à humanidade transmitir informação de uma forma inédita na evolução dos organismos. “De acordo com o pensamento do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, os magdalenianos inauguraram a tradição humana de mostrar com as mãos aquilo que não podia ser dito com voz. Usando os termos da teoria do cérebro relativístico, os nossos ancestrais do Paleolítico Superior usaram a pintura em vez da fala para melhor retratar as manifestações mentais da informação gödeliana de alta dimensão, coisas como emoções, abstrações, pensamentos, que não podem ser descritas de forma completa por canais que transmitem informação shannoniana de baixa dimensão, por exemplo, a linguagem.”

Partindo desses pressupostos, Nicolelis mostra como as instituições humanas são, na verdade, abstrações mentais, produtos dessas redes de cérebros interconectados que viabilizam a vida em sociedade. Até mesmo a ciência e as descrições matemáticas do universo, para o neurocientista, se encaixam nessa categoria. “Como a ciência foi criada pela mente humana, como qualquer outra abstração mental para explicar o universo ou gerir a vida, ela tem limites pela própria biologia da nossa mente. Até quando um físico opta por um modelo matemático, ele toma uma decisão subjetiva. Existe uma estética científica e, em muitos casos, ela define quais teorias vão triunfar”, acredita ele.

Para Nicolelis, por mais que se tente tornar a ciência puramente racional e objetiva, há limites para esse método. Para ele, o princípio da incerteza de Heisenberg, o teorema da incompletude de Gödel e a aleatoriedade de números randômicos evidenciam “pontos cegos do cérebro”, e não problemas nas teorias que explicam o universo. “Alguns limites nós não vamos conseguir ultrapassar, determinados pela forma como nosso cérebro é moldado, e eles são intransponíveis”, afirma o autor. “Esses mistérios foram identificados por grandes gênios e, se você analisar todos em conjunto, consegue delimitar o que nosso cérebro é capaz de compreender.”

Por isso, a tese de Nicolelis é que nosso cérebro de fato fabrica continuamente o que nós compreendemos como realidade, até mesmo o tempo e o espaço – algo que o físico e divulgador científico italiano Carlo Rovelli também defende em seu livro A Ordem do Tempo. “As estrelas não celebram aniversário, os meteoros não contam quantas voltas eles deram no Sistema Solar. A noção de tempo é uma construção mental aproveitando-se das voltas da Lua, da Terra. Nas reações químicas, nos fenômenos termodinâmicos, há a matéria prima para o conceito do tempo, mas é preciso o intérprete para criar esse conceito. Já o espaço é um conceito referencial, não existe enquanto entidade física, apenas como algo que separa os objetos. O cérebro preenche as lacunas para criar um senso de realidade que faça sentido para nós”, explica o Nicolelis.

Após apresentar sua tese principal, o livro passa para questões mais práticas, mostrando preocupação com a maneira como os cérebros interagem – e são modificados por – aparelhos eletrônicos nos tempos atuais. “Toda tecnologia na história da humanidade moldou o cérebro de alguma maneira. A escrita, a criação de livros, meios de comunicação... Mas, nesse momento, o bombardeio digital está envolvido em tantos aspectos da vida que esse processo está amplificado e tem o poder de alterar nossa lógica do cérebro, que é primariamente analógica, embora tenha componentes digitais. Essa inundação digital está contribuindo para uma série de modificações fundamentais na arquitetura e no comportamento do cérebro. Não é à toa que as redes sociais criaram uma redução dramática na empatia humana.”

A teoria de Nicolelis talvez seja a culminação do processo descrito pelo brasileiro Fernando Vidal e pelo argentino Francisco Ortega no livro Somos Nosso Cérebro?, lançado agora pela editora N-1. A obra traça um panorama histórico da noção neurocêntrica da subjetividade, desde Hipócrates até a neurociência moderna, passando por obras de John Locke e Descartes, para mostrar como a ciência vem passando por um “neurocentrismo”, que traz para o centro de tudo o cérebro. Isso não se limita à biologia, mas rege questões práticas como a discussão ética por trás do transplante de órgãos, do aborto e da eutanásia.

Embora tenha sido publicada originalmente no exterior em 2017, a obra oferece um interessante contraponto à teoria de Nicolelis, fornecendo uma visão crítica à ideia de que tudo se resuma ao cérebro, questionando inclusive a metodologia de captura de imagens por ressonância magnética, que catapultou a neurociência nas últimas décadas.

“Todos ouvimos com demasiada frequência que o cérebro é o objeto mais complexo do universo e que a coisa mais importante que aprendemos sobre esse órgão é o quão pouco sabemos sobre ele. Além de atender bem a interesses profissionais, a combinação do ‘conhece a ti mesmo’ délfico e do ‘só sei que nada sei’ socrático convenceu muitos de que o mundo não é totalmente desencantado e os levou a juntar-se ao coro. No final das contas, e além das questões limitadas com que lidamos aqui, a ideologia que nos diz que somos essencialmente nossos cérebros alega fornecer respostas para diversas perguntas eternas sobre a natureza humana e o destino humano”, escrevem Vidal e Ortega. “Ao contrário do que os neurocientistas costumam afirmar ou insinuar, a convicção de que “somos nossos cérebros” não é corolário de avanços neurocientíficos nem um fato empírico. Em vez disso, é uma posição, filosófica ou metafísica, mesmo que alguns aleguem ser determinada pela ciência, que depende de pontos de vista sobre o que é ser uma pessoa humana.”

A despeito das possíveis críticas – às quais Nicolelis não foge, inclusive comentando quais seriam os pontos críticos que poderiam, se desprovados, pôr em xeque a teoria –, O Verdadeiro Criador de Tudo oferece uma visão extremamente original para problemas das ciências exatas, humanas e biológicas por meio de grande erudição e décadas de experimentação empírica. Ainda que sob o risco de flertar com um reducionismo determinista proveniente da noção de que somos nossos cérebros e nada além.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Vacinas não são mágicas, não estarão disponíveis para todos num estalar de dedos. E nem estão ali na esquina.


Vacina não é máquina do tempo rumo ao “velho normal”

Natalia Pasternak e Mauro Schechter 

O estresse social trazido pela COVID-19, com as restrições e incertezas que a pandemia nos impõe, gera fábulas e mitos em alta velocidade. O mais recente, que cresce de modo alarmante, é o da vacina como uma espécie de chave mágica que vai, num instante, abrir as portas do isolamento social, uma máquina do tempo que vai nos levar de volta ao mundo pré-pandemia, restaurar o “velho normal”. Vacinas serão uma peça importante para controlar a COVID-19, mas não são mágicas, não estarão disponíveis para todos num estalar de dedos. E nem estão ali na esquina.

Os bons resultados nos testes iniciais – de segurança e resposta imune, que têm sido noticiados – são animadores e merecem ser celebrados. Mas a história da medicina está repleta de exemplos de medicamentos e tratamentos que pareciam prontos para o grande público, que haviam completado quase toda a maratona, e fracassaram na última prova crucial. Essa possibilidade precisa ser apresentada de forma clara. A falta de transparência e clareza na comunicação deste fato pode abalar fortemente a credibilidade da ciência perante a população.

Vacinas, como medicamentos, são testadas em fases. Nas fases 1 e 2, são investigados segurança e marcadores de resposta imune. Mas passar por essas fases não é garantia de que a vacina vai funcionar. Para isso existe a fase 3, em que se busca determinar a sua eficácia.

No caso da COVID-19, os estudos de fase 3 envolvem algumas poucas dezenas de milhares de voluntários, acompanhados por poucos meses. Assim, forçosamente, não será possível determinar, em um primeiro momento, sua eficácia de longo prazo, nem a ocorrência de eventos adversos menos comuns. Por isso, são essenciais os estudos de fase 4 e de farmacovigilância, que têm, entre seus objetivos, determinar a durabilidade da proteção e os efeitos colaterais menos frequentes, se houver.

Além das etapas de produção em larga escala, que podem envolver a construção de fábricas e laboratórios especiais, não se pode esquecer que não se trata apenas de produzir dezenas de milhões de doses de vacinas: há que se produzir o mesmo número de frascos, etiquetas, embalagens, seringas, e distribuir por todo o país, para locais que devem estar capacitados para armazená-las, e vacinar milhares de pessoas de forma organizada.

É preciso ter uma dose de realidade ao examinar a real probabilidade de haver uma ou várias vacinas disponíveis para a população. Se forem várias, como escolher as que o sistema de saúde deve comprar e distribuir? Há, também, que definir prioridades para vacinação, visto que é impossível vacinar todos ao mesmo tempo. Há que se decidir quem vacinar primeiro: profissionais de saúde, populações mais vulneráveis, quem chegar primeiro ao posto de saúde?

A rapidez com que vacinas estão iniciando estudos de fase 3 é, por um lado, fascinante, e por outro, assustadora. Normalmente, uma vacina leva em média oito anos para chegar ao mercado. As mais rápidas até hoje foram as de caxumba e ebola, que levaram cinco anos cada. Apressar as fases de testes da vacina, embora necessário, é também temerário, em particular porque efeitos colaterais graves, porém menos comuns, podem passar despercebidos.

Vírus epidêmicos podem desaparecer ou se tornar endêmicos, sazonais, ou causadores de surtos eventuais. Os suscetíveis morrem ou se recuperam, dotados de imunidade parcial ou total, temporária ou permanente. À medida que o número de recuperados aumenta, o vírus circula menos, porque encontra menos pessoas suscetíveis.

Quando o número de suscetíveis numa área cai muito, o vírus para de circular ali. Mas isso não que dizer que o vírus desapareceu. Ele pode continuar a circular em outros locais onde haja pessoas suscetíveis ou em reservatórios animais, caso não seja um vírus exclusivamente humano, podendo ser reintroduzido no mesmo local e voltar a circular, caso haja um número adequado de suscetíveis. Ou seja, para continuar a existir em uma comunidade, é necessário haver pessoas suscetíveis para replicar e transmitir para outra pessoa suscetível. Se isso não ocorrer e o vírus for exclusivamente humano, ele desaparece.

Há várias maneiras de interferir com esse ciclo. Uma é vacinando a população para diminuir o número de suscetíveis. Outra, impedir que o vírus encontre pessoas suscetíveis. Uma parte disso ocorre naturalmente, pessoas morrem ou se recuperam, e esse número diminui. Outra maneira, o distanciamento físico, é “esconder” do vírus os ainda suscetíveis.

Por isso, quarentenas bem feitas funcionam e os países que a implantaram com sucesso já podem reabrir. No entanto, pessoas nascem, mudam de endereço, viajam. Assim, o equilíbrio em determinado local entre suscetíveis e imunes muda com o tempo, e daí pode haver surtos. Mas em algum momento o vírus deixará de ser pandêmico. Não é possível prever quando e como isso acontecerá. Não existe um número mágico de pessoas infectadas que possa determinar quando relaxar as medidas de prevenção.

Então, como saber? Quando será atingida a sonhada “imunidade coletiva” que vai diminuir a circulação do vírus? Será sabido acompanhando a curva de casos. E por isso, assim como para vacina, é necessário  ter paciência.

O que virá primeiro, a diminuição natural do número de pessoas suscetíveis ou a vacina? Não há como saber. Isso depende do comportamento das pessoas e das informações que serão obtidas na fase 3 de testes. No entanto, essas informações não podem ser obtidas em dois ou três meses de acompanhamento de indivíduos vacinados.

“Vacina em setembro”, ou “vacina em dezembro”, como alguns representantes de empresas e políticos vêm alardeando, não quer dizer “vacina no posto de saúde para todo mundo ainda neste ano”, e muito menos COVID-19 erradicada num piscar de olhos. Estes são apenas cenários otimistas – extremamente otimistas, no limite da irresponsabilidade – para a conclusão dos processos de teste e aprovação das vacinas atualmente em fase avançada de desenvolvimento. Mesmo para essas, muitas perguntas ainda permanecerão sem resposta, como, por exemplo, a duração da proteção, a eficácia e a segurança em grupos populacionais que não participaram dos estudos, como crianças, idosos, mulheres grávidas e indivíduos com imunodeficiências ou em tratamento para câncer.

Não há razão para  perder a esperança, pois há mais de uma centena de candidatas a vacina para COVID-19. Tampouco deve-se planejar a vida em torno dessa possibilidade. Ser esperançoso não é o mesmo que ser irresponsável. Até que uma grande parcela da população seja vacinada com um produto que tenha sido demonstrado ser eficaz, o que não acontecerá em poucos meses, é essencial contar com as medidas de contenção já conhecidas. Com isso não vamos eliminar o vírus, mas podemos controlá-lo.


Natalia Pasternak é pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, presidente do Instituto Questão de Ciência e coautora do livro "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto)

Mauro Schechter é pesquisador principal, Projeto Praça Onze, professor titular de Infectologia, UFRJ; professor adjunto de Saúde Publica, University of Pittsburgh, e professor associado, Johns Hopkins University, EUA

domingo, 12 de julho de 2020

O Paradoxo de Bootstrap Explicado



Se você assistiu Dark, você provavelmente foi apresentado ao conceito do paradoxo de Bootstrap, que é um dos exemplos de problemas gerados por viagens no tempo para o passado. Esse vídeo é uma explicação dele.


Cientista Miguel Nicolelis critica duramente a reabertura no País

Miguel Nicolelis: é prematuro chamar situação da pandemia no Brasil de "platô"

Brasil 247
"Podemos ficar nesse nível de mortes diárias por muito tempo", afirma o cientista Miguel Nicolelis, que critica duramente a reabertura no País. "Estamos pulando no abismo de mãos dadas". 
O cientista Miguel Nicolelis, coordenador do Comitê Científico do Nordeste, fez uma análise completa do estágio da pandemia do novo coronavírus no Brasil em entrevista à TV 247 e alertou: “o pior ainda não passou”.

“É importante que as pessoas entendam que o vírus está circulando, está circulando como nunca circulou no Brasil. Essa é uma bifurcação histórica do Brasil onde vamos ter que decidir que tipo de País nós queremos ter. Não há mais como esperar. A sensação que eu tenho é que o Brasil está se comportando como um adolescente. Não dá mais para ser um País adolescente, é preciso rapidamente virar um País adulto. Estamos em uma pandemia global, temos mais de meio milhão de mortos no mundo, a possibilidade de chegarmos a um milhão de mortos antes do final do ano é absolutamente real. A possibilidade de o Brasil dobrar o número de óbitos que temos no País nas próximas quatro ou seis semanas é absolutamente real”.

Ele refutou a ideia de que o avanço do coronavírus no País tenha se estabilizado - o chamado 'platô' - e ainda afirmou que é possível que o Brasil se mantenha nos altíssimos números de contágio e óbito atuais por muito tempo. “Acho prematuro chamar isso de platô ou chamar isso de estabilização porque nós podemos ficar nesse nível de casos diários e de mortes diárias por muito tempo. Mesmo que a gente tenha um platô, vamos supor por uma semana, ninguém garante que isso é estável”.

Sobre o estado e a cidade de São Paulo, que vem deixando o isolamento social cada dia mais, Nicolelis explicou que não se pode acreditar em um isolamento pela metade na região. “Quando você tem fluxos rodoviários contínuos com 38 cidades da Grande São Paulo e você não fecha isso, se São Paulo abre o resto está semifechado, São Paulo vai receber esse fluxo. A Grande São Paulo é uma entidade dinâmica hiperconectada, você consegue fechar a Grande São Paulo fechando uma cidade, ou duas, ou três, são 38 cidades se não me engano. Vamos supor que você feche 37, mas você deixa a cidade de São Paulo aberta: essa cidade de São Paulo vai mandar pacientes pelas rodovias para todos os lugares. Não tem cabimento nenhum abrir São Paulo, não faz o menor sentido”.

Ele disse também que, a exemplo de outros países, o lockdown tem de ser levado a sério e aplicado com firmeza. Caso contrário, o fechamento apenas prolonga a crise. “Não dá para fazer lockdown meia boca, porque senão vamos ficar nessa situação por meses. A Itália errou no começo, mas quando ela entrou, ela entrou. A Itália abriu. A mesma coisa a França, Espanha. Alemanha, que foi o melhor manejo na Europa junto com a Grécia, fez direitinho, foi nas casas, testou. Bom, semana passada ou retrasada apareceu um foco nos frigoríficos e fechou de novo, eles não exitaram porque entendem a dinâmica do vírus”.

O cientista e professor universitário também criticou a volta às aulas neste momento, dizendo inclusive que não mandaria seus filhos à escola. Ele criticou ainda a volta do futebol e colocou em xeque as eleições municipais de 2020.

“Em relação à escola, isso é uma obsessão mundial, é uma coisa de louco, eu não me conformo. Eu não consigo pensar qual é o drama de não mandar as crianças para a escola, eu não mandaria meus filhos nesse momento para escola nenhuma, eu não mandaria para lugar nenhum nesse instante em lugar nenhum do planeta. É a mesma coisa do futebol. Por que o País precisa de futebol nesse momento? Qual é a necessidade de jogar bola nesse momento? O Brasil precisa parar para pensar se realmente dá para ter eleição esse ano".

Sobre a hidroxicloroquina, que voltou à pauta depois de Jair Bolsoanro dizer que foi infectado pelo coronavírus e que está fazendo uso da medicação, Miguel Nicolelis disse mais uma vez que o remédio não tem nenhuma eficácia comprovada no tratamento da Covid-19, assim como qualquer outra medicação. “A cloroquina, basicamente, se a pá de cal já não foi posta nesta altura eu já não sei mais o que pode ser feito para pôr a pá de cal. Neste momento não tem nenhuma droga que trate o coronavírus. Eu não daria para mim e nem para nenhum membro da minha família nenhum desses remédios que fazem propagandas”.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

O militar surtou!

Assombrado por um fantasma apelidado de “marxismo cultural”, o militar se abraçou com terraplanistas, criacionistas, negacionistas tresvariados, inimigos jurados da razão.

Não dá para falar em desenvolvimento científico e tecnológico no Brasil omitindo o militar. O militar ensinou engenharia, topografia e desenho. Construiu estradas, obras de arte, edifícios públicos monumentais e igrejas antes de o Brasil ter faculdades especializadas. Deu emprego a matemáticos quando não havia função remunerada para tal tipo de cientista. Desenhou mapas com traçados exatos de rios e correntes marítimas quando ninguém sabia nada de geografia, cartografia, oceanografia e correntes aéreas.

Impulsionou a veterinária, o militar. Precisava de eqüinos capazes de transportar tropas e armamentos. Desenvolveu estudos agronômicos para garantir pastos aos animais e tecnologia de alimentos para ter produtos saudáveis para alimentar a tropa.

E mais: estudou e renovou a medicina, as ciências farmacêuticas e a odontologia ciente de que, sem vencer pestes, remendar ossos e curar feridos, não haveria tropa capaz de vencer batalhas. Disseminou hábitos salutares, procedimentos higiênicos e práticas esportivas para dispor de homens fortes.

Introduziu e desenvolveu o estudo da química, física, mineralogia e metalurgia para a produção de armas e munições. Compreendeu que sem dispor de aço da melhor qualidade, explosivos potentes e manipuláveis, barcos resistentes e bons combustíveis não seria credenciado para guerrear.

Foi pioneiro nos estudos estatísticos para saber quantos eram e onde moravam os brasileiros, do contrário não viabilizaria o serviço militar obrigatório universal e continuaria compondo tropas com camponeses infelizes recrutados no laço ou ladrões e assassinos retirados das cadeias e disciplinados na base da chibata. O IBGE foi imprescindível à modernidade militar.

O militar desenvolveu as comunicações e a logística para ter capacidade de operar em grandes espaços territoriais. Indo à guerra, barganhou usina siderúrgica, esteio de múltiplas indústrias.

Dedicou-se aos estudos aeronáuticos, à eletrônica e a computação para contar com aviões e foguetes que ampliassem sua capacidade ofensiva e sua autonomia relativamente ao fornecedor estrangeiro. Foi pioneiro na pesquisa nuclear visando dispor da arma dissuasão capaz de constranger candidatos a donos do mundo.

Estudou e ensinou filosofia a partir da matriz positivista. Enobreceu nosso “opulento léxico” (Euclides). Inaugurou o pensamento geopolítico sistemático (Mário Travassos). Traduziu a sociologia weberiana (Otávio Velho). Popularizou conceitos marxistas e empenhou-se na interpretação do Brasil (Nelson Werneck Sodré).

Gritos no Clube Militar ecoaram pela PETROBRÁS. O militar criou o CNPq e impulsionou a pesquisa científica. Turbinou a CAPES para que o país dispusesse de ensino superior qualificado. Ofereceu bolsas de estudo e criou comitês de avaliação do mérito científico. Garantiu recursos para a criação da Casa Ruy Barbosa e muitas outras instituições relevantes.

Reconheceu as ciências humanas como área do conhecimento científico. Propiciou a disseminação de programas de pós-graduação em sociologia do desenvolvimento, ciências políticas e antropologia. Prendeu, bateu e matou professores, estudantes, artistas e jornalistas que não gostavam da ditadura, mas espalhou universidades país afora. Olival Freire conta que, vendo que a repressão sanguinária afugentar cientistas importantes, o militar promoveu “repatriamento de cérebros”.

O militar inaugurou a FINEP para amparar a inovação. Criou a EMBRAPA para revolucionar a agricultura e a pecuária. Criou a EMBRAER para fabricar aviões e estimulou empresas como a ENGESA e a AVIBRÁS, que inseriram o Brasil no sofisticado comércio internacional de armas e equipamentos bélicos.

O militar amparou o surgimento e a consolidação da engenharia pesada que logo se projetou mundialmente e passou a incomodar os concorrentes estrangeiros.

Meus colegas da Sociedade Brasileira de História da Ciência que não me deixem mentir, mas não dá para descrever o desenvolvimento da ciência e da tecnologia no Brasil esquecendo os que se preparam para guerrear.

Eis que, como numa tempestade tenebrosa, o militar pirou, surtou, ensandeceu! Baixou Procusto no militar!

Assombrado por um fantasma apelidado de “marxismo cultural”, o militar se abraçou com terraplanistas, criacionistas, negacionistas tresvariados, inimigos jurados da razão.

Primeiro, o militar bateu palmas para o desmonte da engenharia pesada no Brasil. Depois, endossou a venda de empresas estratégicas que ele mesmo ajudou a criar. Finalmente, paraninfou um governo que retira dinheiro das universidades, desidrata agências de fomento à pesquisa, difama os institutos científicos, deixa sem manutenção equipamentos custosos, atenta contra a casa Ruy Barbosa, sabota eventos científicos, corta bolsas de estudo, inclusive as de baixíssimo custo e grande retorno em termos científicos e sociais como as bolsas de iniciação científica! Interrompe a perspectiva de jovens talentos de famílias humildes ingressarem na carreira científica…

Quem quiser acompanhar o lúgubre espetáculo do desmonte da pesquisa científica no Brasil prepare seu estômago e acompanhe as postagens de Ildeu Moreira, presidente da SBPC, nas redes sociais.

Ou assista ao vídeo em que dois ministros-generais manipularam grotescamente estatísticas para, agradando o chefe, relativizar a devastação da pandemia. Onde se viu militar atrapalhando cientistas e médicos que trabalham intensivamente para proteger o povo?

O militar sumiu quando ouviu calado o Presidente da República, em reunião ministerial, resumir a investigação arqueológica à descoberta de “cocô de índio petrificado”.

Senhor Deus dos desgraçados, dizei-nos, Senhor Deus, o que será de nós quando homens pagos para nos proteger perdem o senso?

* Manuel Domingos Neto foi presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED) e vice-presidente do CNPq.

domingo, 10 de maio de 2020

Planeta dos Humanos

Michael Moore Presents: Planet of the Humans | Full Documentary | Directed by Jeff Gibbs