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segunda-feira, 29 de março de 2021

A queda do Chancelouco não muda nada



A substituição do ministro Ernesto Araújo é daqueles enredos de roteiristas ruins, atores canastrões e finais previsíveis. Araújo é o mais medíocre ocupante do posto em duzentos anos, mas aqui vai um spoiler: a sua queda não vai mudar em nada a política externa brasileira. 

Por 2 anos e 3 meses, Araújo fingiu ser o responsável pela diplomacia, mas foi apenas o laranja de Eduardo Bolsonaro. Não importa quem estiver no Itamaraty, enquanto houver um Bolsonaro no Planalto, a diplomacia será bolsonarista.

É cômodo achar que o embate entre Araújo e os senadores é entre a chamada ‘ala ideológica” do governo e o pragmatismo. Na argumentação dos senadores, Araújo foi um entrave nas negociações para encomenda de vacinas contra Covid. Bobagem. Quem foi o entrave foi Bolsonaro.

Araújo foi, no melhor dos casos, um acólito prestativo. Mas onde estavam os senadores hoje tão preocupados com a saúde popular quando o governo brasileiro se recusava a negociar com outra empresa que não fosse a AstraZeneca? Acertou, eles não faziam nada.

O que vai ocorrer no Itamaraty depois da queda de Araújo é o mesmo que está acontecendo no Ministério da Saúde após a troca do general Eduardo Pazuello pelo médico Marcelo Queiroga: nada.

.Araújo, Pazuello, Weintraub e Wajngarten foram só acidentes de percurso. O responsável continua no Planalto.

quarta-feira, 17 de março de 2021

Agenda do Ministério da Ciência e Tecnologia


domingo, 14 de março de 2021

Nós e eles

O resto do mundo todo em um gigantesco esforço logístico para providenciar vacina, lockdown, máscara, respirador e o Brasil em um gigantesco esforço logístico pra organizar bingo secreto, balada clandestina, suruba itinerante, falso velório e botequim disfarçado de pet shop.

Ricardo Coimbra



terça-feira, 9 de março de 2021

Não é só demência que explica Bolsonaro e seu "mimimi" diante da Covid


Ideólogos conservadores têm dedicado esforços a condenar a cultura da choramingação

Quando Jair Bolsonaro fala em “mimimi” e choramingação diante da tragédia da Covid, não tenho dúvidas de que ele sofre de algum distúrbio de personalidade. O caso está próximo dos de Nero, Calígula e Gengis Khan.

Mas acho que também existem outros fatores envolvidos. Além da doença mental, Bolsonaro sofre de uma ilusão política. Pronuncia esse tipo de frase ao se encontrar com seus apoiadores. No fundo, sempre falou para uma minoria de fanáticos. Elegeu-se presidente sem mudar uma vírgula do seu discurso. Nada mais natural, agora, que continue apostando na retórica mais extremista e desumana.

Bolsonaro pensa que o grupo de malucos que ainda o festeja é o conjunto da população.

Falando para seus adeptos —e não para as pessoas que tiveram familiares mortos na pandemia—, ele se sente à vontade para desfazer da tragédia e rir do “mimimi”.

Não consegue ver além do círculo de dementes que o apoiam. Não teria muita razão para isso, aliás: não foi assim que ele se elegeu? Por que mudar de rumo se, agindo assim, tanta gente votou nele?
Mas a violência de seu procedimento não se esgota nesse vício político. Dois outros fatores, a meu ver, influem em seu extremismo, em sua insensibilidade, em sua baixeza.

O primeiro é a formação militar. Quem se lembra do filme “Tropa de Elite” (cujo sucesso foi um dos fenômenos que prenunciaram Bolsonaro) sabe da famosa frase do Capitão Nascimento: “Pede pra sair”.
O contexto era que, submetidos às piores experiências, só os realmente fortes se mostravam aptos a ingressar no Bope.

Quem é macho aguenta. Essa ideologia, que vigorava num batalhão policial dedicado à tortura e à morte, orienta Bolsonaro na crise da Covid. Como o capitão Nascimento, o presidente da República não quer saber de choramingas.

A estupidez militar de Bolsonaro se soma, entretanto, a outro fator, cujo “pedigree” intelectual ele certamente pegou de segunda mão.

Há um bom tempo ideólogos conservadores têm dedicado esforços a condenar a cultura do “mimimi”. Fernando Henrique Cardoso costumava desqualificar como “nhenhenhém” as críticas que recebia.

Em “Podres de Mimados”, o pensador britânico Theodore Dalrymple dá o tom dessa atitude. O livro, publicado pela É Realizações, traz como subtítulo “As Consequências do Sentimentalismo Tóxico”, e é um exemplo do conservadorismo “bem informado” e “inteligente” que faz sucesso por aí.

A fórmula é eficaz. Dalrymple escolhe algum exemplo especialmente maluco das suscetibilidades “politicamente corretas” para desqualificar um movimento que, na essência, é emancipatório e iluminista.

Condena a iniciativa de autoridades inglesas para que todos os “alunos” (“pupils”) passem a ser chamados de “estudantes” (“students”), mesmo quando tenham deficiências mentais. Para Dalrymple, esse paternalismo subverte os valores da verdadeira educação.

Ele reclama de um procedimento jurídico adotado na Inglaterra, a chamada “declaração de impacto”. Funciona assim. Uma mulher teve o marido morto por assaltantes; prevê-se que faça uma declaração no tribunal. “Meu marido (o morto) era maravilhoso, tinha talento para música, era bem-humorado, ótimo pai, lindo...”

Dalrymple implica: quer dizer que, se não fosse talentoso para música, poderia ser assassinado?
Reconhece-se facilmente a linha desse conservadorismo: trata-se de misturar a extrema rigidez de critérios racionais com um máximo de antipatia humana.

Dalrymple ataca o “sentimentalismo” contemporâneo. Diz, por exemplo, que é legítimo derramar uma lágrima, privadamente, nas passagens mais tristes de Charles Dickens. Mas que estamos em plena vulgaridade, e a um passo da barbárie, quando as pessoas fazem exibição de seus bons sentimentos.

Para ele, trata-se simplesmente de uma forma de autocongratulação. Pode ser. Mas ele se esquece que Dickens fez muito dinheiro lendo passagens de seus romances em teatros lotados.

O sentimentalismo de Dickens, embora esteticamente suspeito, foi importante contra a exploração do trabalho infantil. A duríssima mentalidade vitoriana, pronta a considerar os pobres culpados pela pobreza, aprendeu a ter mais compaixão.

Nada mais vulgar que esse direitismo pop. Imagine-se quando diluído e requentado nos porões intelectuais do bolsonarismo. E, depois, quando vem à tona nas falas de um analfabeto.

sábado, 12 de dezembro de 2020

MPF-GO aciona cientistas por terem dito que a Terra é redonda e que porcos não voam


Batismo de cloroquina

Natalia Pasternak

MPF persegue cientistas que divulgam resultados inconvenientes para a narrativa bolsonarista

Esta semana o presidente da República anunciou que estamos chegando ao “finalzinho” da pandemia. Abstraindo-se o fato de que o presidente dá a impressão de habitar uma realidade paralela onde correm rios de cloroquina e a Covid-19 é só uma gripezinha, muita gente parece ter ideias parecidas, e por isso vem relaxando as medidas de proteção.

Este relaxamento se reflete em um grande aumento no número de casos, hospitalizações e mortes, em geral não de quem relaxou as medidas e foi a festas, bares e restaurantes, mas dos outros. Outros que às vezes nem conhecemos. E isso é o que faz com que a doença pareça invisível para tanta gente. Infelizmente, muitos só percebem a gravidade da situação quando perde alguém próximo.

Houve a festa de casamento no Maine (EUA), para pouco mais de 60 pessoas, que levou a 177 infecções e à morte de sete pessoas que não estavam entre os convidados. Se não tivesse sido feito o rastreamento dos casos, será que os noivos saberiam que seu “dia mais feliz” havia custado sete vidas?

No Brasil, a ficha parece que começou a cair. Em nota, a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, ao perder um de seus membros, acusou o governo de homicídio.

A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), por sua vez, publicou diretrizes extremamente claras sobre diagnóstico, prevenção e tratamento da Covid-19, suprindo a lacuna deixada pelo Ministério da Saúde, que insiste no mito quase religioso do “tratamento precoce”, espécie de ritual de batismo que ocorre no rio de cloroquina que jorra do do Palácio do Planalto. O tratamento recomendado pelo governo não tem respaldo científico, e sugere exatamente o oposto do recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC).

A SBI aponta os erros do governo, e por isso, foi oficiada pelo Ministério Público Federal de Goiás para “prestar explicações”, e apresentar os argumentos científicos para embasar o uso de antitérmicos consagrados no combate à febre para combater febre, e o não uso de medicamentos descartados em testes científicos para Covid19 no tratamento de pacientes de Covid19. É assim na realidade paralela: procuradores da República acionam cientistas, desconfiadíssimos por eles terem dito que a Terra é redonda e que porcos não voam.

Não é, vamos ressaltar, a primeira vez que o MPF persegue cientistas que divulgam resultados inconvenientes para a narrativa bolsonarista a respeito da pandemia. O professor Marcus Lacerda (Fiocruz-Amazônia) e todos os coautores de um artigo científico publicado em excelente revista internacional foram acionados por não encontrar benefícios da cloroquina no combate à Covid-19.

Numa das passagens mais memoráveis de “1984”, George Orwell escreve que “liberdade é a liberdade de dizer que 2+2=4. Tendo isso, todo o resto decorre daí”. É revigorante que as sociedades médicas e científicas brasileiras finalmente se lembraram de ser livres.

Natalia Pasternak é microbiologista, presidente do Instituto Questão de Ciência, pesquisadora do ICB-USP e autora do livro "Ciência no Cotidiano"


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

O debate intelectual no campo da direita

Reinaldo Azevedo deve indenizar Olavo de Carvalho, que deve indenizar Reinaldo. Jornalista deve pagar R$ 30 mil ao ideólogo, a quem chamou de "múmia falante e fumante". Já Olavo, que chamou Reinaldo de canalha e gelatinoso, deve lhe pagar, também, 30 mil.

Segundo sentença, Reinaldo chamou Olavo de “decadente e derrotado”, “filósofo sujo”, “Jim Jones malsucedido”, “farsante competente”, “espírito ancestral em carcaça abjeta", "falso louco” e disse que generais o chamam de "velho babão, carpideira banguela".

Também condenado, Olavo publicou artigo dizendo ser Reinaldo “um profissional da cegueira”, “gelatinoso”. “A inteligência desse homem já acabou faz tempo… enterrada junto com sua honestidade”, “Reinaldo você é apenas um CANALHA”, e “Reinaldo, vá cagar”.

Segundo a juíza, nas ofensas trocadas entre Reinaldo e Olavo não houve “exercício regular de liberdade de expressão pelas partes, mas sim, abuso do direito, com evidências claras de má-fé, devendo autor e réu indenizar um ao outro pelos danos sofridos”.


quarta-feira, 7 de outubro de 2020

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Pastor faz na vida pública o que fazia na privada




Pastor Sargento Isidório, ex-PM, ex-gay, atual deputado federal, candidato a prefeito de Salvador-BA, segundo colocado nas pesquisas.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Procurador da República Ailton Benedito pode ser o brasileiro mais estúpido que já existiu


Tem cara de fanático delirante, e é mesmo. O problema é receber seus salários nababescos dos cofres públicos. Se fosse só mais um dos vagabundos comandados pelo Carluxo no Gabinete do Ódio, ainda vá lá...

terça-feira, 23 de junho de 2020

Pastor brasileiro ora por novo Holocausto



Link direto para o vídeo

A organização Sinagoga sem Fronteiras apresentou uma denúncia à Polícia Federal contra o pastor que, em sua loucura, se comporta como uma criança mimada e birrenta pedindo à deus que realize suas maldades.

"Um fascista sempre sabe quem deve morrer. E nunca é ele."


segunda-feira, 22 de junho de 2020

Allan dos Santos insinua que STF pode estar por trás da tentativa de assassinar Bolsonaro


A classe merda sem máscara no Beto Carrero World




Allan Sieber

domingo, 14 de junho de 2020

A besta não surgiu do nada

Fascista vandaliza homenagem aos mortos pelo Covid-19
Hequel da Cunha Osório

Gilson Caroni Filho


O sujeito que aparece arrancando cruzes na praia de Copacabana não é uma aberração recente. Os que invadiram um hospital e destruíram computadores também não são. Sempre estiveram aqui. Era o vizinho cordato, o sujeito que jogava altinho na praia, a moça sorridente que cruzava com você na calçada, o taxista camarada que falava sobre futebol e muitos outros.Em comum, todos eram racistas, dotados de um anti-intelectualismo feroz, defensores de uma ordem social excludente, homofóbicos e intolerantes. Mas não viam condições objetivas para tornar manifesto o que sempre foi latente.

Até que vieram as passeatas " contra a corrupção". E a grande mídia viu ali a chance de arquitetar o golpe. Lembram? Os repórteres repetiam as palavras de ordem dos manifestantes, a cobertura era ampla, generosa e ainda anunciava os pontos de concentração. Tudo parecia seguir a contento, mas a besta se autonomizou. Se odiava petistas, também não apreciava a racionalidade neoliberal do tucanato. Sentiam-se igualmente alijados da narrativa. Empoderados pelo discurso do ódio, se encantaram com alguém como eles. Uma figura sem apreço à razão, desprovido de empatia, sem qualquer noção republicana e de linguajar sujo e agressivo.

Foi quando a Globo, outrora aliada, virou comunista. Aliás, na simplificação comum aos movimentos totalitários, tudo que se lhes opõe é comunista. Globo, Dória, PSDB, STF, Congresso, OMS e, claro, a própria ciência. 

Tenho defendido uma aliança tática contra o fascismo, mas isso está bem longe de esquecer quem pariu  Mateus. E muito menos perdoar quem o embalou.

Nunca foi contra a corrupção.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Por quê?


Claudio Guedes 


1. Os EUA lideram globalmente o número de infectados pela COVID19?

2. O Brasil ocupa o segundo lugar no número de infectados e têm hoje o maior número de óbitos por dia?

3. A China, onde o coronavírus surgiu, conseguiu praticamente debelar a epidemia no país, mantendo um número de infectados que é 1/20 dos EUA e 1/5 do Brasil, com um número de mortos de 1/22 dos EUA e 1/5 do Brasil?

4. A Argentina, onde o vírus chegou à mesma época que no Brasil, possui - considerando a diferença de população - cerca de 1/6 do número de contaminados do Brasil e, em mortes, 1/11 do número do Brasil - na Argentina são até agora 501 mortes e no Brasil 25.697!

Por que essas diferenças?

A resposta é óbvia:

- Na China e na Argentina os governos agiram com determinação e eficiência para preservar vidas e controlar a propagação do vírus.

- Nos EUA e no Brasil, países governados por falastrões desqualificados como lideranças políticas, o vai-e-vem de medidas e a incompetência geral prevaleceram. As populações americanas e brasileiras são vítimas de suas escolhas. Uma tragédia.

O militar surtou!

Assombrado por um fantasma apelidado de “marxismo cultural”, o militar se abraçou com terraplanistas, criacionistas, negacionistas tresvariados, inimigos jurados da razão.

Não dá para falar em desenvolvimento científico e tecnológico no Brasil omitindo o militar. O militar ensinou engenharia, topografia e desenho. Construiu estradas, obras de arte, edifícios públicos monumentais e igrejas antes de o Brasil ter faculdades especializadas. Deu emprego a matemáticos quando não havia função remunerada para tal tipo de cientista. Desenhou mapas com traçados exatos de rios e correntes marítimas quando ninguém sabia nada de geografia, cartografia, oceanografia e correntes aéreas.

Impulsionou a veterinária, o militar. Precisava de eqüinos capazes de transportar tropas e armamentos. Desenvolveu estudos agronômicos para garantir pastos aos animais e tecnologia de alimentos para ter produtos saudáveis para alimentar a tropa.

E mais: estudou e renovou a medicina, as ciências farmacêuticas e a odontologia ciente de que, sem vencer pestes, remendar ossos e curar feridos, não haveria tropa capaz de vencer batalhas. Disseminou hábitos salutares, procedimentos higiênicos e práticas esportivas para dispor de homens fortes.

Introduziu e desenvolveu o estudo da química, física, mineralogia e metalurgia para a produção de armas e munições. Compreendeu que sem dispor de aço da melhor qualidade, explosivos potentes e manipuláveis, barcos resistentes e bons combustíveis não seria credenciado para guerrear.

Foi pioneiro nos estudos estatísticos para saber quantos eram e onde moravam os brasileiros, do contrário não viabilizaria o serviço militar obrigatório universal e continuaria compondo tropas com camponeses infelizes recrutados no laço ou ladrões e assassinos retirados das cadeias e disciplinados na base da chibata. O IBGE foi imprescindível à modernidade militar.

O militar desenvolveu as comunicações e a logística para ter capacidade de operar em grandes espaços territoriais. Indo à guerra, barganhou usina siderúrgica, esteio de múltiplas indústrias.

Dedicou-se aos estudos aeronáuticos, à eletrônica e a computação para contar com aviões e foguetes que ampliassem sua capacidade ofensiva e sua autonomia relativamente ao fornecedor estrangeiro. Foi pioneiro na pesquisa nuclear visando dispor da arma dissuasão capaz de constranger candidatos a donos do mundo.

Estudou e ensinou filosofia a partir da matriz positivista. Enobreceu nosso “opulento léxico” (Euclides). Inaugurou o pensamento geopolítico sistemático (Mário Travassos). Traduziu a sociologia weberiana (Otávio Velho). Popularizou conceitos marxistas e empenhou-se na interpretação do Brasil (Nelson Werneck Sodré).

Gritos no Clube Militar ecoaram pela PETROBRÁS. O militar criou o CNPq e impulsionou a pesquisa científica. Turbinou a CAPES para que o país dispusesse de ensino superior qualificado. Ofereceu bolsas de estudo e criou comitês de avaliação do mérito científico. Garantiu recursos para a criação da Casa Ruy Barbosa e muitas outras instituições relevantes.

Reconheceu as ciências humanas como área do conhecimento científico. Propiciou a disseminação de programas de pós-graduação em sociologia do desenvolvimento, ciências políticas e antropologia. Prendeu, bateu e matou professores, estudantes, artistas e jornalistas que não gostavam da ditadura, mas espalhou universidades país afora. Olival Freire conta que, vendo que a repressão sanguinária afugentar cientistas importantes, o militar promoveu “repatriamento de cérebros”.

O militar inaugurou a FINEP para amparar a inovação. Criou a EMBRAPA para revolucionar a agricultura e a pecuária. Criou a EMBRAER para fabricar aviões e estimulou empresas como a ENGESA e a AVIBRÁS, que inseriram o Brasil no sofisticado comércio internacional de armas e equipamentos bélicos.

O militar amparou o surgimento e a consolidação da engenharia pesada que logo se projetou mundialmente e passou a incomodar os concorrentes estrangeiros.

Meus colegas da Sociedade Brasileira de História da Ciência que não me deixem mentir, mas não dá para descrever o desenvolvimento da ciência e da tecnologia no Brasil esquecendo os que se preparam para guerrear.

Eis que, como numa tempestade tenebrosa, o militar pirou, surtou, ensandeceu! Baixou Procusto no militar!

Assombrado por um fantasma apelidado de “marxismo cultural”, o militar se abraçou com terraplanistas, criacionistas, negacionistas tresvariados, inimigos jurados da razão.

Primeiro, o militar bateu palmas para o desmonte da engenharia pesada no Brasil. Depois, endossou a venda de empresas estratégicas que ele mesmo ajudou a criar. Finalmente, paraninfou um governo que retira dinheiro das universidades, desidrata agências de fomento à pesquisa, difama os institutos científicos, deixa sem manutenção equipamentos custosos, atenta contra a casa Ruy Barbosa, sabota eventos científicos, corta bolsas de estudo, inclusive as de baixíssimo custo e grande retorno em termos científicos e sociais como as bolsas de iniciação científica! Interrompe a perspectiva de jovens talentos de famílias humildes ingressarem na carreira científica…

Quem quiser acompanhar o lúgubre espetáculo do desmonte da pesquisa científica no Brasil prepare seu estômago e acompanhe as postagens de Ildeu Moreira, presidente da SBPC, nas redes sociais.

Ou assista ao vídeo em que dois ministros-generais manipularam grotescamente estatísticas para, agradando o chefe, relativizar a devastação da pandemia. Onde se viu militar atrapalhando cientistas e médicos que trabalham intensivamente para proteger o povo?

O militar sumiu quando ouviu calado o Presidente da República, em reunião ministerial, resumir a investigação arqueológica à descoberta de “cocô de índio petrificado”.

Senhor Deus dos desgraçados, dizei-nos, Senhor Deus, o que será de nós quando homens pagos para nos proteger perdem o senso?

* Manuel Domingos Neto foi presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED) e vice-presidente do CNPq.

domingo, 24 de maio de 2020

Hemorroida

Fábio Trad

Pesquisei exaustivamente em livros e enciclopédias físicas e virtuais o sentido sociológico, filosófico, antropológico,  linguístico, semiótico, quântico, astrofísico, futebolístico e tântrico da expressão “eles querem nossa hemorróida...” Resultado: NADA, NADA, NADA.
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"Os caras querem é a nossa hemorroida! É a nossa liberdade!"

Quem não é doido sabe que ele é doido, mas há método na loucura e esta frase só tem uma explicação possível: ele quis dizer hemorragia, saiu hemorroida. Ou será possível que alguém seja tão baixo a ponto de, na expressão chula "eles querem nosso cu", usar como sinônimo "nossa hemorroida"? É possível. Espero sempre o pior deste crápula e ele continua me surpreendendo.

Lembrei de uma velha piada, uma senhora toma chá com as amigas na sala, e elogia o marido: "Ele é carinhoso, paciente, companheiro, trabalhador, ótimo pai, bom marido... A única coisa que me incomoda um pouco é que ele é sifilítico." As amigas ficam horrorizadas, o marido surge na porta e corrige: "Filatélico!".