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terça-feira, 20 de abril de 2021

Natália Pasternak fala sobre o uso indiscriminado de remédios

domingo, 18 de abril de 2021

O CFM e os médicos com licença para matar


O CFM e os registros 007

Estimular o uso de drogas comprovadamente ineficazes, mas que podem fazer mal, é conceder carteira de registro médico de número 007, com licença para matar.

Por Mauro Schechter* e Natalia Pasternak**

Foi com estupefação que lemos recentes entrevistas em que o presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM) continua a alegar ser direito do médico prescrever o chamado “tratamento precoce”. Segundo ele, não haveria evidências científicas que permitiriam definir a eficácia ou a ineficácia do “kit”, em particular da cloroquina. Não sabemos se o presidente do CFM desconhece o processo de desenvolvimento de medicamentos, ou se não se atualiza desde meados do ano passado.

No começo da pandemia, na França, o Dr. Didier Raoult publicou um artigo indicando que a hidroxicloroquina teria espetacular ação em eliminar o vírus de pacientes com Covid-19. O Dr. Raoult, alvo de ação por charlatanismo, admitiu que o artigo é incorreto, e o uso de cloroquina para tratamento de Covid-19 é proibido na França desde maio de 2020.

Desde a publicação original de Raoult, pesquisas demonstraram que a cloroquina: 1) não impede a replicação do vírus em células pulmonares; 2) foi ineficaz nos três modelos animais de Covid-19 em que foi testada; e 3) foi ineficaz em todos os estudos prospectivos com tamanho amostral adequado realizados. Quando todos os 35 estudos prospectivos existentes na literatura são considerados, não só a cloroquina foi ineficaz, como seu uso se associou com maior risco de óbito (ver em http://metaevidence.org/covid19.aspx).

Por isso, não há mais estudos avaliando a sua eficácia, e todas as sociedades profissionais do mundo contraindicam seu uso para prevenção ou tratamento de Covid-19. O mesmo se aplica a azitromicina, vitamina D e zinco, testados em estudos de fase 3, sem sucesso.

Quanto à ivermectina, é consensual que, para que seja atingida a concentração que, no tubo de ensaio, inibe a multiplicação do vírus, seria necessário utilizar uma dose provavelmente letal para seres humanos. Por isso, todas as sociedades científicas contraindicam seu uso fora de estudos clínicos. Convém lembrar que ivermectina é contraindicada durante a gravidez pelo risco de causar malformações congênitas.

Em resumo, o presidente do CFM parece esquecer o mais importante do juramento médico: primeiro, não fazer mal. Estimular o uso de drogas comprovadamente ineficazes, mas que podem fazer mal — vide excesso de óbitos com uso de cloroquina em estudos clínicos, fila de transplante hepático por uso indiscriminado de ivermectina e possíveis malformações congênitas —, é conceder carteira de registro médico de número 007, com licença para matar.

Respaldados pelo CFM, “kits covid” são receitados no sistema público de saúde e em planos e hospitais privados. Planos privados têm sido denunciados por coagir médicos a prescrevê-los indiscriminadamente, sem examinar o paciente ou colher seu histórico. Alguns dos medicamentos incluídos, como corticoides e anticoagulantes, que jamais devem ser usados sem supervisão médica, são enviados por “delivery”. Outros, como antibióticos, cuja receita deveria ser retida na farmácia, também são remetidos por entregadores.

Se, no início, sendo bastante generosos, havia algum motivo para que o CFM defendesse a “autonomia do médico” para prescrever qualquer coisa, porque, afinal, mal não faria, essa afirmação não mais se sustenta diante dos dados há muitos meses disponíveis. Some-se a isso a recente denúncia de médicos forçados a prescrever o “kit covid”. Quem defende a autonomia dos médicos coagidos?

Enquanto durar a atual postura do CFM, a Medicina no Brasil estará, na prática, sem regulamentação. Estamos diante do desmonte da Medicina brasileira.


*Professor titular de Infectologia da UFRJ, adjunto da Universidade de Pittsburgh e associado da Universidade Johns Hopkins

**Doutora em microbiologia, presidente do Instituto Questão de Ciência e membro do Committee for Skeptical Inquiry

sábado, 3 de abril de 2021

Governo e sua corte promovem Baile da Ilha Letal

Natalia Pasternak

No dia 9 de novembro de 1889, uma semana antes da Proclamação da República, a monarquia não poderia estar mais alheia à realidade. Ignorando completamente o momento político do país, a realeza promoveu um baile suntuoso, gastando para isso um orçamento equivalente a 10% do orçamento total da Província do Rio de Janeiro, o que seria hoje o equivalente ao Estado do Rio.

Carta escrita por uma jovem da época, publicada na revista Veja História, descreve o baile como um “local encantado e habitado por fadas”. Com o país à beira de uma reviravolta, a Corte vivia em um mundo à parte.

O Último Baile do Império (óleo sobre tela, Francisco Figueiredo)

Hoje, a sensação é a mesma. Não temos governo, temos realeza. Sua Majestade Jair 00 passeia de jet ski enquanto o povo sufoca até a morte. A Corte, agora conhecida como “centrão”, preocupa-se mais em aprovar projetos de lei para empurrar suas próprias vacinas, de preferência passando por cima da Anvisa. Também é urgente para a Corte aumentar o teto de reembolso de saúde dos deputados em 170%. Devem estar preocupados com o custo da UTI em dólar, já que no Brasil até o setor privado entrou em colapso.

No Ministério da Saúde, gastou-se verba pública para pôr o charme de influenciadores a serviço do kit covid. E o Conselho Federal de Medicina, em meio a maior crise sanitária da história, emite nota de repúdio contra a revalidação do diploma de médico emitido fora do país, porque isso coloca em risco a vida dos brasileiros, mas não emite nota contra a prescrição de curas milagrosas que, surpreendentemente, também colocam em risco a vida dos brasileiros. Na Ilha Letal, onde as fadas podem ser substituídas pelos fantasmas dos três senadores ceifados pela pandemia, tudo é possível.

Do lado de cá, no mundo real, pessoas morrem. Mas os defensores da Coroa, que ignoram a realidade mesmo sem convite para o baile, não gostam de ter seus “direitos” tolhidos. Como crianças mimadas, fazem birra. Como assim, não posso ir à praia? Ao shopping?

Mentem para si mesmos. O Brasil não está tão mal assim, se você olhar os números certos. Em mortes por milhão, dizem eles, tem gente muito pior. E excluem os dados que importam: o Brasil tem 3% da população mundial, mas concentra 12% das mortes. No meio desta semana, um de cada três mortos por Covid no mundo era brasileiro.

O Brasil parece uma classe de educação infantil onde o professor saiu, e quem ficou tomando conta da sala foi o líder da turma do fundão, o bully agressivo que tem raiva de todo mundo.

Essa coluna deveria ser sobre ciência. Chama-se, afinal, A Hora da Ciência. Infelizmente, a ciência já não tem hora nem vez no Brasil. Dizem que quando D. Pedro II chegou ao Baile da Ilha Fiscal, teria tropeçado, e ao se recompor, teria dito: “O monarca escorregou, mas a monarquia não caiu”. Uma semana depois, veio a Proclamação da República. O Presidente Jair Bolsonaro disse que não seria uma gripezinha que iria derrubá-lo. Não, presidente. A gripezinha derrubou o país. O senhor segue dançando, no Baile da Ilha Letal. Dança sobre os mortos do Brasil.

sábado, 20 de março de 2021

Vivemos o colapso da sociedade




Pouco se fala sobre a responsabilidade social, tanto de cidadãos como de gestores, durante a pandemia. Qual o papel da cidadania? Exercê-la implica prestar socorro aos outros, denunciar crimes, prezar pelo bem comum. Implica exigir que os governantes ajam de acordo com a lei, que façam bom uso dos recursos públicos, prezem pela educação e saúde.

No Brasil, o governo federal abdicou de suas obrigações frente à Covid-19. Mas onde está nossa indignação? Onde está a indignação de prefeitos, governadores, parlamentares? Onde está a cidadania?
Muito mais importante, neste momento, do que nos preocuparmos com as variantes do vírus — que vão continuar aparecendo, principalmente em locais como o Brasil, onde a pandemia corre sem controle — é nos preocuparmos com a qualidade das nossas máscaras, com a implementação efetiva de medidas preventivas, com o auxílio financeiro aos mais vulneráveis.

Mais importante do que discutir pontos porcentuais de eficácia de vacinas, é discutir o que cada um pode fazer para evitar o colapso do sistema da saúde e do sistema funerário. Explicar, para aqueles que ainda estão negando a realidade, que, com o sistema de saúde de joelhos, não podemos mais ficar doentes. De nada. Porque não tem mais hospital. Cada vez mais gente vai morrer agora, de infarto, de derrame, de sepse. Por falta de socorro.

Com o número de mortes aumentando vertiginosamente, o sistema funerário também vai colapsar. Durante uma pandemia, o sistema funerário já opera com mais lentidão e menos capacidade, porque os cuidados para prevenir contaminação precisam ser redobrados. E, após um funeral, o processo de limpeza e descontaminação também precisa ser cuidadoso. Isso atrasa o serviço, exige capacidade para armazenar corpos na refrigeração adequada para evitar putrefação. A fila aumenta. Neste meio tempo, nos preocupamos com a economia. Pois bem, quem vai pagar por mais frigoríficos e cemitérios?

O Brasil parece ter desenvolvido uma capacidade espantosa de negar a realidade e normalizar a morte. Espantoso o fatalismo e a passividade com que observamos o colapso se instaurar. Até quando vamos ignorar nossa responsabilidade de cobrar gestores, de cobrar o próximo, de cobrar até mesmo os parentes? Quando vamos exigir que os governantes façam aquilo que foram eleitos para fazer?

A ciência fez sua parte. Temos vacinas, sabemos que lockdown funciona, sabemos quais as melhores máscaras. Agora, a questão é social e política. Com três mil mortes por dia, quase 300 mil mortos no país, e com o Brasil se tornando um risco sanitário global, um pária entre as nações, é a vez do cidadão: o mandato político emana do povo, e o povo pode cassá-lo,exigindo que a Constituição se cumpra.

Nosso histórico de impeachments, infelizmente, diz muito sobre os valores da sociedade brasileira. Os dois presidentes impedidos desde a redemocratização caíram por questões que envolviam dinheiro. Nossa incapacidade de depor um presidente que, por sua atitude, segue responsável por ceifar a vida de milhares de brasileiros sugere uma reflexão sobre o quanto nos resta de humanidade. 

sábado, 12 de dezembro de 2020

MPF-GO aciona cientistas por terem dito que a Terra é redonda e que porcos não voam


Batismo de cloroquina

Natalia Pasternak

MPF persegue cientistas que divulgam resultados inconvenientes para a narrativa bolsonarista

Esta semana o presidente da República anunciou que estamos chegando ao “finalzinho” da pandemia. Abstraindo-se o fato de que o presidente dá a impressão de habitar uma realidade paralela onde correm rios de cloroquina e a Covid-19 é só uma gripezinha, muita gente parece ter ideias parecidas, e por isso vem relaxando as medidas de proteção.

Este relaxamento se reflete em um grande aumento no número de casos, hospitalizações e mortes, em geral não de quem relaxou as medidas e foi a festas, bares e restaurantes, mas dos outros. Outros que às vezes nem conhecemos. E isso é o que faz com que a doença pareça invisível para tanta gente. Infelizmente, muitos só percebem a gravidade da situação quando perde alguém próximo.

Houve a festa de casamento no Maine (EUA), para pouco mais de 60 pessoas, que levou a 177 infecções e à morte de sete pessoas que não estavam entre os convidados. Se não tivesse sido feito o rastreamento dos casos, será que os noivos saberiam que seu “dia mais feliz” havia custado sete vidas?

No Brasil, a ficha parece que começou a cair. Em nota, a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, ao perder um de seus membros, acusou o governo de homicídio.

A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), por sua vez, publicou diretrizes extremamente claras sobre diagnóstico, prevenção e tratamento da Covid-19, suprindo a lacuna deixada pelo Ministério da Saúde, que insiste no mito quase religioso do “tratamento precoce”, espécie de ritual de batismo que ocorre no rio de cloroquina que jorra do do Palácio do Planalto. O tratamento recomendado pelo governo não tem respaldo científico, e sugere exatamente o oposto do recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC).

A SBI aponta os erros do governo, e por isso, foi oficiada pelo Ministério Público Federal de Goiás para “prestar explicações”, e apresentar os argumentos científicos para embasar o uso de antitérmicos consagrados no combate à febre para combater febre, e o não uso de medicamentos descartados em testes científicos para Covid19 no tratamento de pacientes de Covid19. É assim na realidade paralela: procuradores da República acionam cientistas, desconfiadíssimos por eles terem dito que a Terra é redonda e que porcos não voam.

Não é, vamos ressaltar, a primeira vez que o MPF persegue cientistas que divulgam resultados inconvenientes para a narrativa bolsonarista a respeito da pandemia. O professor Marcus Lacerda (Fiocruz-Amazônia) e todos os coautores de um artigo científico publicado em excelente revista internacional foram acionados por não encontrar benefícios da cloroquina no combate à Covid-19.

Numa das passagens mais memoráveis de “1984”, George Orwell escreve que “liberdade é a liberdade de dizer que 2+2=4. Tendo isso, todo o resto decorre daí”. É revigorante que as sociedades médicas e científicas brasileiras finalmente se lembraram de ser livres.

Natalia Pasternak é microbiologista, presidente do Instituto Questão de Ciência, pesquisadora do ICB-USP e autora do livro "Ciência no Cotidiano"