terça-feira, 5 de maio de 2020

Bolsonaro é situação e oposição ao mesmo tempo

Marcelo Rubens Paiva

Parece incrível, mas Jair Bolsonaro, como chefe da Nação, se apropria do discurso da situação como um opositor.

Seu ministério diz uma coisa, ele faz outra e o critica. Se seu governo propõe o distanciamento social, ele critica.

Se sua política é não praticar a velha política, ele libera fundos ao antigo Centrão, a engrenagem do Poder, de um Congresso que critica e sugere fechar.

Se diz o escolhido pelas urnas, mas contesta o resultado, de uma democracia que contesta e ameaça.

Apesar de majoritariamente votado na última eleição, ele contesta o resultado das urnas, como um derrotado.

Se a China é o maior aliado de seus apoiadores do agronegócio, ele a critica e sofre retaliação.

Critica publicamente ministros, antigos aliados, governadores da sua base, rompe com a situação de Estados favoráveis a seu programa, tornando-se o maior opositor de políticos que se elegeram graças a ele.

Toda a imprensa é lixo, mas lá está ele dando exclusivas a alguns canais.

Não torce para apenas uma agremiação. Veste a camisa da maioria dos times de futebol. Especialmente as dos vencedores.

Desfila com a bandeira de Israel, numa clara apropriação. A lembrar que o Templo de Salomão, em São Paulo, da Igreja Universal do Reino de Deus, é réplica do templo do filho de Davi, rei de Israel. Na inauguração, em 2014, o bispo Edir Macedo, um aliado, com quipá e talit, mais parecia um rabino. E Silas Malafaia, não mais aliado, já declarou: “Para nós, o Deus de Israel é o nosso Deus. Não tem nenhuma absolutíssima diferença”.

Pode ser tática. Pode ser loucura.

O certo é que, no momento em que o país mais precisa de um líder, temos um que nega sê-lo.

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