Sim, a pandemia acabou pro subúrbio e periferia mesmo pra quem nunca precisou sair e sai pra ir ao bar e à praia.
Sobre a romantização e relativização da esquerda acerca do fim da quarentena e o seu suposto "cunho popular" como justificativa. Ontem acompanhando um debate do Victor Tufani, formei minha opinião quase que definitiva sobre o caso:
Eu não critico o povo que não teve educação formal por estar furando a quarentena, mas critico até o fim uma pretensa "esquerda" que acha que já que as políticas públicas são uma merda, a barbárie está justificada. Essa gente precisa aprender o significado de dialética.
A dialética está na relação entre população e política pública (uma relação ativa), que é ignorada toda vez que a esquerda trata o povo como uma massa amorfa a reboque do Estado em processo de depredação.
É perfeitamente razoável que a população cobre, demande dos governos ação nessa situação, e também que se posicione de maneira responsável quando os seus representantes não o fazem. O que acontece é que se estabeleceu uma retórica mortífera que se coloca contra tudo que é razoável como se a própria pandemia, no Brasil, fosse invenção da esquerda.
E a esquerda, em parte, se deixando pautar por essa retórica, está embarcando em outra, que coloca o povo como refém de uma ausência de tudo, o que justifica o comportamento que chamo de barbárie.
Ora, se não há políticas, então não podemos mais falar em prevenção e cuidado?
Se o povo não cumpre, paciência, mas a esquerda abandonar o exemplo porque tem que viver de truísmos a respeito de como as pessoas são vítimas e por isso fazem escolhas ruinosas pra sua vida e pra coletividade? Não dá.
A esquerda tem que se decidir: ou o povo tem poder e as coisas podem ser cobradas (e a esquerda deveria assumir sua posição de vanguarda nessa mudança), ou o povo é um mero passageiro da história e temos que esperar a boa vontade de quem pode mudar as coisas de cima pra baixo.
Mas não defendo nenhuma conduta policialesca. Não sei se tem ficado nítido, mas meu problema nunca foi com o que o povo faz ou deixa de fazer, porque eu não espero que as massas ajam como a vanguarda deveria agir. É muito complexo falar de povo brasileiro, é muito amplo, e nem esses supostamente entendidos das "necessidades da classe trabalhadora" fazem ideia do que estão falando. A minha crítica é toda direcionada à complacência das esquerdas.
Deixaram-se pautar pela direita, tratam os mil mortos por dia como tragédia irremediável e foram buscar lá na escravidão as justificativas pra praia lotada, pra aglomeração sem fim, pra falta de cuidado até com pai e mãe. "Ai, o nosso povo sofre muito". Isso eu não engulo.
Novamente, as políticas públicas são um fracasso, mas o povo não é uma parte nula nesse resultado. Pobre não é retardado, e as praias não estão lotadas só de quem pega ônibus e é obrigado a se arriscar, assim como os bares do Leblon também não estão cheios de belford-roxenses. Mas novamente, foda-se isso, o povo faz o que quer. Não há que se exigir dos indivíduos tanto quanto não há que se justificar NADA do lado da esquerda.
Sim, a pandemia acabou pro subúrbio e periferia mesmo pra quem nunca precisou sair e sai pra ir ao bar e à praia. Já entramos no terraplanismo da COVID, no quem morrer, morreu, no "se eu pegar acho que fico assintomático", no "Deus vai me dar o privilégio de ficar vivo" e é isso.
Mais uma vez, porque se fala em indivíduo, culpa etc., eu estou cagando pra quem caga pra vida alheia (e não é que eu não leve essas pessoas a sério, pelo contrário), o meu problema sempre foi com ditos militantes de esquerda levantando a bandeira da irresponsabilidade porque "ah, o povo não aguenta mais". Esses são populistas e retardados, sabem que está errado, mas lavam as mãos, justificam tudo.
Um post desses devia ser direcionado aos liberais, mas essas pragas estão no nosso campo, se dizendo socialistas. Se a mudança depender deles, estamos todos ferrados.
As organizações não estão fazendo nada em direção nenhuma, quem está fazendo isso são militantes. É ano eleitoral, ninguém está interessado em discutir com a galera em negação. A quarentena acabou não porque a curva de casos diminuiu, mas porque meio Brasil decidiu que já deu de se privar de certas coisas, e esses elementos do campo progressista estão justificando a merda feita.
E é óbvio que eu faço uma análise dos militantes. Não acredito que sai revolução de bagunça, mas de melhoramento constante, que inclui também uma autodisciplina individual.
Também não acredito que haja liberdade individual que prevaleça sobre o bem estar coletivo (muito menos sobre tragédia coletiva).

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