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segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Jair Bolsonaro é o policial com o joelho no pescoço de Manaus enquanto a cidade grita "I Cant Breathe"


Bira Dantas

NPTO

Presidente oscilou entre a negligência criminosa e a sabotagem sádica contra qem tentasse combater a doença

Jair Bolsonaro é o policial com o joelho no pescoço de Manaus enquanto a cidade grita “I can’t breathe”.

Durante toda a pandemia, o presidente da República oscilou entre a negligência criminosa e a sabotagem sádica contra quem pelo menos tentasse combater a doença —como alguns ministros e governadores tentaram.

Três semanas antes da tragédia de Manaus, Bolsonaro aumentou o imposto de importação dos cilindros de oxigênio —enquanto baixava as tarifas para as armas que pretende usar em seu golpe de Estado. Bolsonaro faz campanhas contra vacinas e contra o uso de máscaras. Bolsonaro nos colocou no fim da fila do mundo para a vacinação, não só por sua conhecida falta de disposição para o trabalho, mas também por psicopatia: torceu contra e gargalhou com cada notícia ruim sobre as vacinas compradas pelo governador João Doria. Até que chegou o dia em que viu que não tinha jeito e resolveu confiscá-las e mentir que quem as comprou foi ele.

No caso específico de Manaus, deputados bolsonaristas como Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), Bia Kicis (PSL-DF), Daniel Silveira (PSL-RJ) e Carla Zambelli (PSL-SP) comemoraram a derrota da tentativa do governador do Amazonas de estabelecer o isolamento social. As pessoas não teriam agonizado sem ar se eles não tivessem sido vitoriosos. É gente ruim que quer ver brasileiros mortos.

O deputado Osmar Terra (MDB-RS), formado em medicina, alimentou o governo com projeções falsas desde o começo da epidemia. Há poucos dias, dizia que as reclamações sobre Manaus eram “alarmismo”. Terra vinha afirmando que já havia “imunidade de rebanho” em Manaus, o que é evidentemente falso. Terra entrou para a história da medicina brasileira como um Oswaldo Cruz ao contrário, um médico que lutou para que os brasileiros não tivessem como se defender das epidemias. Continua tentando voltar ao ministério escalando uma pilha de cadáveres. Talvez consiga.

O ministro da Saúde, Eduardo Pazzuelo, é tão incompetente que eu torço para que seja o responsável por comprar a munição em caso de golpe de Estado. Mas não caiam na conversa que tenta fazer dele o bode expiatório da crise.

Pazzuelo assumiu o ministério depois que Bolsonaro demitiu dois ministros da saúde que tentaram trabalhar, Mandetta e Teich. Quando Pazzuelo quis comprar vacina, Bolsonaro o desautorizou publicamente. Sim, Pazzuelo foi a Manaus pouco antes da crise, recebeu inúmeros avisos, não fez nada. Mas não fazer nada é claramente o que ele entendeu que tem que fazer para continuar no cargo.

Por que essa gente ainda tem mandato, por que ainda estão soltos? Ao que parece, este rebanho, sim, tem imunidade à lei.

O acordão de 2020, em que Bolsonaro adquiriu o direito de fazer virtualmente qualquer coisa desde que matasse a (quadrilha rival defendida pelo colunista) Lava Jato, entregasse cargos ao Centrão e não desse um golpe de Estado, revelou-se um dos maiores desastres de nossa história recente. Em troca de uma estabilidade extremamente frágil, que Bolsonaro volta a ameaçar sempre que quer, perdemos 200 mil brasileiros e vamos deixando de ser um país para nos tornarmos uma área de desastre que o resto do mundo quer isolar e esquecer.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Bolsonaro precisa explicar sua aparente tentativa de chantagem e intimidação contra o Ministério Público

Se ela for verdadeira, Bolsonaro vazou dados sigilosos de uma investigação da Polícia Civil que obteve ilegalmente. Se ela for falsa, Bolsonaro caluniou tanto o Ministério Público quanto a Polícia Civil.

Celso Rocha de Barros

No dia 31 de dezembro, em sua última live de 2020, o presidente Jair Bolsonaro reclamou da atenção que a mídia dá ao caso Queiroz. Até aí, tudo normal. É o tipo de coisa que o presidente faz em vez de trabalhar para comprar vacina.

Mas Bolsonaro resolveu dar um passo a mais, e acrescentou, no minuto 34 do vídeo:

"Agora, o MP do Rio, presta bem atenção aqui: imagine se um dos filhos de autoridade do MP do Rio fosse acusado de tráfico internacional de drogas. O que aconteceria, MP do Rio de Janeiro? Vocês aprofundariam a investigação ou mandariam o filho dessa autoridade pra fora do Brasil e procuraria uma maneira de arquivar esse inquérito? Um caso hipotético, falando de um caso hipotético. (...) Caso um filho de uma autoridade do Ministério Público do Rio de Janeiro entrasse no inquérito da Polícia Civil do Rio e ali um delator tivesse falado que ele participava de tráfico internacional de drogas. Fica com a palavra as autoridades do Ministério Público do Rio de Janeiro".

Parece bem grave. Parece que o presidente da República tentou chantagear e intimidar o Ministério Público do Rio de Janeiro. O Ministério Público do Rio de Janeiro investiga o filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro.

Se algum bolsonarista ou alguém da turma do "não é tão ruim assim" tiver outra hipótese para explicar o que o presidente da República disse em sua live de 31 de dezembro, por favor, enviem-na para a Folha. Todos queremos ouvi-la. Mesmo eu, que penso as piores coisas de Jair Bolsonaro, tive dificuldade de acreditar no que estava ouvindo. Novamente: se alguém do governo tiver uma outra explicação, será um prazer discuti-la. Ministro da Justiça? Procurador-geral da República? Deputada Janaina Paschoal? Wassef?

Quanto à acusação feita pelo presidente, de duas, uma. Se ela for verdadeira, Bolsonaro vazou dados sigilosos de uma investigação da Polícia Civil que obteve ilegalmente. Se ela for falsa, Bolsonaro caluniou tanto o Ministério Público quanto a Polícia Civil.

A propósito, se Bolsonaro tiver aparelhado a polícia a ponto de vazar a acusação, pode perfeitamente tê-la aparelhado a ponto de forjá-la.

E, presidente, se usar "hipoteticamente" nesses contextos livrasse alguém das consequências jurídicas do que diz, o senhor mal imagina o que seriam minhas colunas sobre seu governo hipotético.

Talvez Bolsonaro tenha dito o que disse justamente para provocar um escândalo e difamar o Ministério Público no meio da confusão resultante. Seria uma conduta típica da máquina de ódio bolsonarista. Se for o caso, talvez esta coluna esteja fazendo o jogo de Bolsonaro ao divulgar suas acusações. É um risco.

Mas se o que o presidente da República fez no dia 31 de dezembro for o que parece ser, trata-se de coisa grave demais para não ser denunciada. Seria crime muito mais pesado do que tráfico de drogas ou, aliás, do que "rachadinha". Nenhum presidente brasileiro, até hoje, fez algo parecido.

O Ministério Público do Rio continuará com as investigações, sem se intimidar. O episódio não deve influenciar a escolha do novo procurador-geral de Justiça. Mas enquanto o presidente da República for capaz de fazer o que parece ter feito no dia 31 de dezembro de 2020 sem sofrer consequências, ainda estaremos longe da normalidade institucional.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Bostonaro sabota a saúde pública para fazer guerra contra governadores e torna o Brasil um pária internacional

Veto à vacina mostra que Bolsonaro cede aos radicais em tudo que só ferrar os pobres

Celso Rocha de Barros 

Presidente sabota a saúde pública para fazer guerra contra governadores e arrisca tornar o Brasil um pária internacional

Na semana passada, o presidente da República decidiu que o governo brasileiro não vai comprar a vacina Coronavac porque ela é fabricada na China. A vacina que o governo federal prefere, da Astrazeneca (a “vacina de Oxford”), também tem insumos chineses, mas Bolsonaro não se importa.

O que lhe pareceu importante foi atacar o governador de São Paulo, João Doria, que vai aplicar a vacina “chinesa” em São Paulo. De fato, nada demonstra melhor que as instituições brasileiras estão funcionando do que a condução de um debate científico por meio de crise federativa.

Em plena pandemia, vetar uma vacina para sabotar um adversário político é crime que deveria dar uma cadeia boa, mas, sinceramente, por que Bolsonaro teria medo disso?

O que aconteceu com ele nos primeiros 155 mil mortos? Ou dos dois primeiros ministros da Saúde que ele não deixou que fizessem seu trabalho? Não vejo por que Bolsonaro deveria respeitar limites que nunca lhe foram apresentados. Mas, além de ser crime, pode ter sido um erro.

Uma coisa é explorar a ignorância e a falta de solidariedade social dizendo que as pessoas não têm uma obrigação: a obrigação de ficar em casa durante a quarentena, a obrigação de usar máscaras, a obrigação de se informar com especialistas etc. Outra coisa é dizer que elas não têm um direito, como o direito de tomar a primeira vacina que for considerada segura e estiver disponível.

É fácil imaginar pessoas usando olavismo para justificar preguiça intelectual ou fraqueza moral. Outra coisa, bem diferente, é imaginá-las se sacrificando pelo olavismo.

Só quem seria estúpido o suficiente para fazer isso seriam, é claro, os olavistas e membros de outros grupos radicais nos extremos do bolsonarismo.

E, de fato, o veto à Coronavac agradou essa turma, que gosta de falar mal da China. Os doidões estavam chateados com Bolsonaro desde que o presidente indicou para o STF um moderado que sabe ver hora.

A propósito, cabe esclarecer que olavistas e similares não estão com raiva de Kassio Nunes por causa de acordão, combate à corrupção, centrão e nada disso.

Os radicais do bolsonarismo são pró-corrupção e, no fundo, querem uma boquinha. Não chiaram com Queiroz, com as manobras de Aras, com a demissão de Moro.

O que eles queriam era um golpista no STF que aceitasse, por exemplo, mentir que o artigo 142 da Constituição autoriza intervenção militar. Havia candidatos. Isso Bolsonaro não lhes deu porque precisava de um STF camarada no caso Queiroz. Como prêmio de consolação, deu-lhes os milhares de mortos e os meses adicionais de crise econômica que a falta de vacina deve causar.

O veto à vacina mostrou o quão vacilante é a recente moderação de Bolsonaro. Ele ainda faz questão de manter sua base extremista satisfeita, mesmo com custo de popularidade potencialmente alto.

Ele ainda aceita sabotar a saúde pública para fazer guerra contra governadores. Aceita o risco, cada vez maior, de tornar o Brasil um pária internacional. Os radicais ainda estão todos lá. A Abin investiga “maus brasileiros” que denunciam o desmatamento e protege “bons brasileiros” como Flávio Bolsonaro.

O veto à vacina mostrou que Bolsonaro continua cedendo aos radicais em tudo que só ferrar pobre.

Celso Rocha de Barros

Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra)

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

O presidente miliciano derrubou um governador miliciano?


Celso Rocha de Barros

O presidente derrubou um governador?

É curioso que tanta gente no mundo da Justiça esteja tomando decisões claramente ilegais 

Se o governador do Rio de Janeiro tiver caído por influência do presidente da República, a deterioração institucional brasileira deu um salto grande.

A decisão de afastar Witzel monocraticamente foi ilegal. Quem quiser saber por que, consulte o texto do professor Ricardo Mafei Rabelo Queiroz, da Faculdade de Direito da USP, no site da revista Piauí. É possível que a decisão do ministro Benedito Gonçalves, do STJ, não tenha sido uma tentativa de conseguir uma vaga no Supremo.

Mas é curioso que tanta gente no mundo da Justiça esteja tomando decisões claramente ilegais —a libertação de Queiroz, o dossiê contra os antifascistas, a perseguição a Hélio Schwartsman, o afastamento de Witzel —que coincidem perfeitamente com os interesses de Jair Bolsonaro, justamente o sujeito que vai decidir quem fica com a vaga no STF.

O afastamento de Witzel não é conveniente para Bolsonaro apenas porque o governador fluminense havia se tornado rival do presidente da República. No final deste ano, seja lá quem for o governador do Rio vai escolher o novo procurador-geral do Estado.

Como já noticiou a Folha, Bolsonaro quer influir nessa escolha para que o novo nome seja sensível aos interesses de seu esquema de corrupção familiar.

A escolha terá que ser feita dentro da lista tríplice, mas nada impede que os bolsonaristas inventem um candidato até lá e trabalhem por ele.

Se a decisão do STJ for um sintoma de aparelhamento da Justiça por Bolsonaro, pense bem no tamanho do que estamos discutindo.

Volte mentalmente até o dia da promulgação da Constituição de 1988 e tente explicar para Ulysses Guimarães que, 30 anos depois, o governador do Rio será afastado por decisão de um único ministro do STJ, com forte suspeita de que a coisa toda foi uma armação para resolver uns problemas do presidente da República com a polícia.

Depois disso, peça para o Doutor Diretas tentar adivinhar se, em 2020, o documento que ele acabou de aprovar ainda está vigente.

Longe de mim botar a mão no fogo pela honestidade de Wilson Witzel. Ele foi eleito com o apoio de Jair Bolsonaro. Ao contrário da família Flordelis, a família Bolsonaro nunca precisou do Google para achar “gente da barra pesada”. No mesmo dia do afastamento de Witzel, aliás, rodou o Pastor Everaldo, velho chapa de Bolsonaro que o batizou “simbolicamente” nas águas do rio Jordão.

Foi tudo encenação: Bolsonaro continuou católico. Everaldo também teria sido um dos responsáveis pela aproximação de Bolsonaro com o liberalismo econômico, e esse batismo tampouco parece ter sido lá muito para valer.

Mas para lidar com as acusações contra Witzel já existia o processo de impeachment, este sim, claramente previsto na Constituição e já em curso no Rio de Janeiro. Qual a necessidade de uma decisão que coloca as instituições sob suspeita?

É muito grave, mas, ao que parece, ninguém se importa. Pelo contrário, parte do mundo político vem tentando se reaproximar de Bolsonaro.

O exemplo de Witzel deveria servir-lhes de aviso: ser adotado como aliado por Bolsonaro é como ser adotado como marido pela deputada Flordelis.

Mesmo depois das repetidas tentativas de envenenamento, o establishment brasileiro parece disposto a ir com Bolsonaro para a casa de swing.

Celso Rocha de Barros

Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra)

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Na falta de golpe, Bolsonaro vai ter que trabalhar para pobre

Celso Rocha de Barros

Enquanto o golpe não voltar ao cardápio, não vai ter jeito: Bolsonaro vai ter que dar uma trabalhada pelos pobres, justo ele, que nunca gostou, nem de pobre, nem de trabalhar.

Para pensar os dilemas atuais do bolsonarismo, pode ser útil ler um ótimo livro que saiu recentemente nos Estados Unidos, “Let Them Eat Tweets”, dos cientistas políticos Jacob Hecker e Paul Pierson. O título —“Que Comam Tweets”— é uma brincadeira com o “Que comam brioches”, atribuído a Maria Antonieta.

A ideia é que, em vez de fazer concessões materiais aos pobres como a direita moderada, “populistas plutocráticos” como Donald Trump tentam satisfazer o eleitorado pobre com conservadorismo moral, racismo, homofobia e teorias da conspiração, enquanto dão aos ricos os cortes de impostos insustentáveis que eles querem.

Se isso não funcionar para sempre, há o risco de os conservadores se voltarem contra a democracia, como vem ocorrendo nos esforços para enviesar ainda mais o sistema norte-americano a favor de áreas de predomínio branco.

O interessante na comparação com o caso brasileiro é que o plano “A” de Bolsonaro já era o ataque à democracia. Os pobres que se divertissem com o conservadorismo por alguns meses, depois do golpe eles perderiam o direito ao voto e ninguém nunca mais voltaria a ouvir falar deles.

A falta de interesse de Bolsonaro pelos pobres chegava a ser chocante. É difícil achar um político brasileiro, nos últimos 15 anos, que tenha manifestado tanto desprezo pela ideia de dar dinheiro aos pobres.

Durante a campanha de 2018, por exemplo, alguém enfiou em seu programa de governo uma proposta de renda mínima. Informado pela imprensa, Bolsonaro compartilhou a notícia no Twitter com o comentário: “Meu Deus KKKKKKKKK é inacreditável”.

Carlos Bolsonaro defendeu que mulheres que recebessem o Bolsa Família deveriam ser obrigadas a fazer laqueadura. Faz pouco tempo, Bolsonaro tentou gastar recursos do Bolsa Família com publicidade oficial.

Mas, no primeiro semestre de 2020, Bolsonaro tentou o autogolpe e fracassou.

Desde então, canta “Lula Lá” e se agarra aos R$ 600 que o Congresso o obrigou a pagar aos pobres brasileiros. Bolsonaro odeia pagar os R$ 600. Não queria pagar nada, aceitou pagar R$ 200, o Congresso o obrigou a pagar R$ 600. Sua função foi só organizar a fila do auxílio na Caixa Econômica Federal, o que fez com a habitual incompetência.

Podemos apostar, nesse cenário, que o populismo plutocrático de Bolsonaro/Guedes vai dar lugar a um populismo “puro-sangue” de conservadorismo moral e intervencionismo econômico? É um cenário possível.

Afinal, o lado “liberal” do projeto bolsonarista vai muito mal. Desde que Guedes virou ministro da Economia, o Brasil privatizou o mesmo número de empresas que a Coreia do Norte.

Os novos gastos com os militares vão pesar no fiscal até alguém ter coragem de mexer com eles. Os pobres podem não saber que foi o Congresso que concedeu os R$ 600, mas os ricos sabem que foi Rodrigo Maia quem reformou a Previdência. A equipe de Guedes se desfaz diante de nossos olhos.

De qualquer jeito, o populismo plutocrático de Bolsonaro e Guedes está em crise. Se o bolsonarismo pós-Guedes der errado, podemos ter uma crise econômica terrível. Se der certo, o golpismo pode voltar a qualquer momento. O equilíbrio promete ser difícil.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Bolsonaro é um criminoso e tem que ser preso

Bolsonaro merece ser preso

Durante a pandemia, presimente tentou autogolpe e aparelhar a Polícia Federal

Celso Rocha de Barros

A edição da revista piauí deste mês traz uma matéria, assinada por Monica Gugliano, com o título “Vou Intervir!”. Ela conta a história de uma reunião de 22 de maio, no Palácio do Planalto, em que Bolsonaro teria decidido mandar tropas para fechar o STF.

O plano seria substituir os 11 ministros por 11 puxa-sacos de Bolsonaro, por tempo indeterminado. Uma quartelada vagabunda raiz, nada dessas sutilezas de lenta corrosão democrática “Steven Levitsky” de que eu vivo falando aqui. O presidente teria sido dissuadido pelo general Heleno, que, para apaziguá-lo, soltou uma nota ameaçando o STF.

A princípio, o governo poderia ter desmentido a matéria, que é baseada em depoimentos concedidos off the record. Nessa situação, cabe ao leitor decidir se confia na reputação da revista —que, no caso da piauí, é impecável.

Entretanto, entre os bolsonaristas a desconfiança com relação à imprensa é generalizada. Se o governo quisesse desmentir a matéria, poderia tê-lo feito e considerado o assunto encerrado dentro da bolha que o elegeu.

Não desmentiu.

Houve quem interpretasse que o conteúdo da reunião vazou por interesse do governo, para avisar que o golpismo ainda está vivo. Se for, foi desnecessário: era só mandar o pessoal ler minha coluna, sempre digo isso.

Houve quem suspeitasse que o general Heleno vazou para parecer moderado. Houve ainda uma suspeita de que o governo teria vazado o conteúdo da reunião de propósito, para depois desmoralizar a imprensa com um desmentido (uma gravação, por exemplo). É triste viver em um país em que essa suspeita não é absurda.

De qualquer forma, a revelação da piauí não teve repercussão política nenhuma. E a explicação é simples: em geral, só se admite em voz alta aquilo de cujas consequências práticas se está disposto a arcar.

Muito antes da matéria da piauí, todo mundo já tinha visto Bolsonaro tentar o autogolpe em 2020. Mas, se você disser em voz alta que Bolsonaro tentou um autogolpe, a solução é impeachment e cadeia. Se você não puder e/ou não quiser fazer impeachment e cadeia, é mais fácil não dizer em voz alta que Bolsonaro tentou um autogolpe.

Ainda não parece haver correlação de forças para impeachment e cadeia: o centrão está no bolso do governo, o auxílio emergencial ainda deve durar alguns meses. Enquanto for assim, a turma vai fingir que não viu o golpe, os 100 mil mortos, o aparelhamento na Polícia Federal.

Talvez essa correlação de forças não mude nunca. Nesse caso, a fraqueza natural humana fará com que muita gente racionalize que não foi tão ruim assim, “olha só como ele era democrata, até comprou o Roberto Jefferson, todos nós aqui sempre dissemos que isso era a marca do democrata, ninguém aqui nunca reclamou de quem comprava o Roberto Jefferson”.

Eu, aqui, não vou racionalizar isso, não.

O dia de trabalho de Bolsonaro durante a pandemia de 2020 se dividiu entre organizar um golpe de manhã, aparelhar a Polícia Federal de tarde e demitir o ministro da Saúde no telejornal da noite.

Se esses crimes ficarem impunes, prefiro viver com o incômodo dessa injustiça e esperar a maré virar. Se não virar, levo o incômodo comigo até o fim. Não tenho como fazer acontecer, mas deixo registrado para os leitores do futuro: em 2020, nós sabíamos que Bolsonaro merecia ser preso. Todos nós sabíamos.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Para que Bolsonaro vença, é preciso que os sobreviventes não sintam empatia com as vítimas


Bolsonaro já precificou a sua morte, leitor, e conta que ainda dá para ganhar a eleição


O Brasil deve chegar a 100 mil mortos na pandemia nas próximas semanas. É duas vezes o número estimado de brasileiros mortos na Guerra do Paraguai. Mas Bolsonaro aposta que genocídio não custa voto.

Se morrer 1 milhão de pessoas, e seus, digamos, dez parentes e amigos próximos se revoltarem contra Bolsonaro, ainda não é gente suficiente para colocar um candidato presidencial no segundo turno. Como notou o cientista político Christian Lynch, os que morreram não vão votar.

Se você adoecer e morrer, Bolsonaro perderá seu voto, mas nenhum adversário de Bolsonaro tampouco o terá. Bolsonaro já precificou a sua morte, leitor, e conta que ainda dá para ganhar eleição sem os votos de sua viúva e de seus órfãos.

Para que isso seja verdade, algumas condições precisam ser satisfeitas.

Em primeiro lugar, é preciso que os sobreviventes não sintam qualquer empatia com as vítimas. Aqui a tradição joga a favor de Bolsonaro: o Brasil, de fato, não tem qualquer tradição de empatia com pobre morto.

E Bolsonaro mente para o público que os que morreram já eram velhos, já eram doentes, já iam morrer, mesmo, não é o caso de chorar. Além disso, se você convencer o público de que só esses que morreram corriam riscos, é menos provável que as pessoas façam a pergunta que funda a empatia, “E se fosse eu?”.
Daí em diante é contar com a dificuldade humana para lidar com contrafactuais, com cenários do que teria acontecido com o Brasil se Bolsonaro não fosse o pior presidente do mundo. Fazer esse raciocínio nunca é fácil. Mas é bem mais difícil se você não conhece os fatos.

Bolsonaro tenta manter seus seguidores fiéis “protegidos” da ciência e da imprensa profissional. Para isso, tenta lhes despertar a sensação de que são os malandros que ninguém engana, os que tomaram a pílula vermelha do Matrix, que descobriram a verdade, que não serão iludidos pelo que diz a “mídia esquerdista” ou os “cientistas comprados pela China”. Não tem estelionato que dê certo se você não conseguir que o otário sinta que quem está sendo malandro é ele.

Se você está na bolha bolsonarista, você não sabe que na Argentina, onde fizeram o isolamento, morreram em todos esses meses menos do que morrem no Brasil em três dias de pandemia.

Você não sabe que na Nova Zelândia, que também fez o isolamento, não há mais casos de Covid-19, e a vida voltou ao normal.

Você não sabe que o governo Bolsonaro só gastou 11% dos recursos destinados a combater a epidemia (governos estaduais receberam 39% do prometido, municípios receberam 36% do prometido).

Sem a comparação com outros países, é mais difícil ter noção de que o longo platô de mortos —um número estável e alto de mortos por dia durante meses— vai atrasar mais a recuperação econômica do que qualquer quarentena que Bolsonaro não tivesse sabotado. Ninguém no mundo resolveu a economia antes de resolver a pandemia. Nós não resolvemos a pandemia.

Ainda é cedo para dizer se matar 100 mil pessoas custa votos no Brasil. Nos Estados Unidos, a reeleição de Donald Trump parece seriamente ameaçada. Aqui o clima anda mais para acordão. Sabe como é, você anistia 500 assassinatos, passa uns anos, os caras aparecem querendo que anistie mais 100 mil.
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Nota do copiador/colador: que fetiche é esse com os "100 mil mortos"? Esse é o número para os próximos 15 dias. A projeção é de 180 mil até 01/11 e a pandemia não estará nem perto de acabar nessa data. 250 mil é um número mais provável dentro das circunstâncias e SE criarem e disponibilizarem a vacina para todos até o começo de 2021. Na pior das hipóteses, não dá nem para estimar o tamanho da desgraça.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Jucá, aprenda com Bolsonaro como se faz um acordão com Supremo

Mais um excelente artigo de Celso Rocha de Barros. A única ressalva que faço é o fato de ele tratar Moro e a Lava-Jato como “cooptados” e “neutralizados” pelo bolsonarismo. Isso não é verdade. Moro e a Lava-jato são o pai e a mãe do bolsonarismo.


Vagas no STF servem de moeda de troca por sentenças para bolsonaristas
Jucá, Jucá, minha pobre criança, alma inocente, escoteiro idealista, aprenda com Jair Bolsonaro como se faz acordão com Supremo, com tudo.

O presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça), João Otávio de Noronha, concedeu prisão domiciliar a Fabrício Queiroz e a sua esposa, até então foragida. Noronha disse que soltou Queiroz porque ele é idoso, doente e corria risco de saúde durante a epidemia. Já tinha negado o mesmo direito a réus que não se escondiam na casa do advogado do presidente da República.

Segundo reportagem do Globo, seus colegas do STJ acham que Noronha soltou Queiroz para receber de Bolsonaro uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal). Até outro dia, os bolsonaristas usavam a decisão de soltar presos durante a epidemia como argumento para fechar o STF. Agora dependem disso para não serem presos, e não podem fechar o STF enquanto ele for a principal moeda de troca por sentenças.

Diminuiu a pressão para que Queiroz faça delação premiada e entregue o presidente da República. Se essa opção tivesse sido dada a Paulo Roberto Costa ou Marcelo Odebrecht, a Lava Jato não teria prendido ninguém.

O procurador-geral da República, Augusto Aras, também fez seu jogo. Declarou guerra à força-tarefa da Lava Jato de Curitiba, brigou por acesso a informações sigilosas da operação e agora pretende unificar a ação anticorrupção em suas próprias mãos. Se der certo, a PGR, já completamente aparelhada, vai ter o poder de melar as investigações contra Bolsonaro.

O clima é de acordão. Mas há duas grandes diferenças entre o acordão de Bolsonaro e, por exemplo, o de Romero Jucá. Bolsonaro manobrou seu acordão por dentro da onda de indignação popular. Nomeou Moro ministro, a única maneira que alguém encontrou de neutralizá-lo. Ninguém da força-tarefa de Curitiba criticou Bolsonaro antes do começo da crise que derrubou Moro.

A participação do ex-juiz em um governo que faz guerra aberta à imprensa livre enfraqueceu a aliança entre a Lava Jato e a imprensa, tão forte em 2015-2018. Cooptados pelo corporativismo, os generais tuiteiros, que tinham opiniões tão fortes sobre decisões das cortes superiores, não se manifestaram na semana passada.

Por outro lado, Jucá tentava o acordão quando as expectativas com uma “nova era da política brasileira” eram altas. Bolsonaro já reduziu tanto nossas expectativas, degradou tanto a democracia brasileira, ameaçou tantos golpes de Estado, que já tem gente achando que um acordão que o domestique pode ser o cenário menos pior.

Eu duvido. Lembre-se, a única maneira de manter Bolsonaro moderado ainda é mantê-lo em silêncio, agora por atestado médico. O que talvez descubramos em breve é que instituições que se vendem não precisam ser fechadas.

No fim das contas, vai ter muita gente para dizer que acordão é instituição funcionando. Bom, não é o tipo de instituição que Acemoglu e Robinson juram que promove o desenvolvimento, mas, vejam bem, tradição conta como instituição?

Se contar, as instituições estão funcionando que é uma beleza, da tradição de conchavos pelo alto até a tradição de autoritário que também é envolvido com o crime organizado.

Enquanto isso, os radicais do Olavo olham para os lados em busca do bode expiatório, não veem ninguém, e já começam a entender o que isso significa.


Celso Rocha de Barros
Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra)

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Paulo Guedes fracassou em tudo


Celso Rocha de Barros

Guedes foi um fracasso como moderador de Bolsonaro
Resultados econômicos não vieram e ministro tampouco foi responsável por aprovar qualquer reforma
Em 2018, Paulo Guedes disse à jornalista Malu Gaspar, da revista Piauí, que Bolsonaro havia se tornado “um animal completamente diferente”. Foi a pior avaliação de risco zoológico desde a do cara que não cozinhou direito o morcego.

Guedes não está entre os que podem dizer que aderiram ao bolsonarismo para moderá-lo. Aderiu cedo, quando Bolsonaro ainda era fraco, e serviu de álibi para que a elite o apoiasse. “Álibi”, não “razão”: pouco depois do impeachment, pesquisas mostravam Bolsonaro muito melhor entre os ricos do que entre os pobres. Paulo Skaf, a Sara Winter da burguesia, está aí para provar o quanto foi fácil convencê-los.

Mas digamos que, depois da eleição, Guedes tivesse conseguido moderar Bolsonaro e aplicar seu programa com sucesso. Teria sido preciso reconhecer que jogou certo.

Pois é, não.

Guedes como moderador de Bolsonaro foi um fracasso. Digo-lhe o mesmo que já disse para os militares: se isto aí é a versão moderada, o que foi que vocês apoiaram em 2018? Guedes ficou lá durante as ameaças de golpe, subestimou a pandemia junto com Bolsonaro (“com 4 ou 5 bilhões a gente derrota”) e talvez tenha perdido a última chance de sair com alguma aparência de dignidade quando não se demitiu com Moro.

Os resultados econômicos não vieram. O crescimento de 2019 foi muito menor do que as projeções do início do ano. Não, não estávamos voando antes da pandemia. O Comitê de Datação de Ciclos Econômicos da FGV mostrou que o Brasil já entrava em recessão no primeiro trimestre de 2020.

Guedes tampouco foi responsável por aprovar qualquer reforma. A da Previdência foi tocada por Rodrigo Maia, o marco do saneamento foi tocado por Tasso Jereissati. Na tributária, Guedes conseguiu uma façanha: propôs a nova CPMF, vetada pelo Planalto, o que faz dele o único ministro contra quem Bolsonaro já teve razão.

Diante da pandemia, Guedes foi salvo pelo Congresso, que aprovou um auxílio emergencial três vezes maior do que a proposta do governo. Ao que parece, é esse auxílio que vem sustentando a popularidade presidencial nas pesquisas à medida que a classe média lavajatista abandona Bolsonaro.

A coisa toda é uma lição para o ministro da Economia.

Em 2018, ele gostava de se referir aos períodos PSDB e PT como se fossem uma coisa só, uma era social-democrata. Isso lhe dava pontos junto aos bolsonaristas, que haviam acabado de aprender, com Olavo de Carvalho, a expressão “socialismo fabiano”.

PT e PSDB nunca foram a mesma coisa. Porém Guedes tinha razão em um ponto: o eleitorado da Nova República demonstrou preferências social-democratas. Queria capitalismo com redistribuição de renda, escolhendo, em cada eleição, a combinação que lhe agradava. A eleição de Bolsonaro, que não parecia ser baseada em nada disso, parecia ter rompido o padrão.

Mas quando a crise bateu, quando a onda da Lava Jato passou, onde chegamos? Chegamos a Guedes desesperado tentando comprar legitimidade para suas reformas ampliando o Bolsa Família e taxando dividendos.

Sem a expectativa, que sempre foi infundada, de um grande salto econômico causado pelo fim súbito e sem custos da corrupção, o eleitorado volta a ser social-democrata.

Agora é ver quem vai ter mais dificuldades de se adaptar: Guedes para ser social ou Bolsonaro para ser democrata.

Celso Rocha de Barros

Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra)

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Já houve golpe?


Celso Rocha de Barros
Bolsonaro quer militares como última instância para absolvê-lo de qualquer coisa
Eleito defendendo a prisão após a segunda instância, Bolsonaro agora defende que os militares sejam a última instância que pode absolvê-lo de qualquer coisa.

Bolsonaro encheu seu governo de militares para que todos acreditemos nas ameaças de golpe que ele faz todo dia. A última foi através de nota assinada pelo presidente, o vice e o ministro da Defesa dizendo que as Forças Armadas não são obrigadas a aceitar interferências indevidas de um Poder no outro. A nota referia-se às possibilidades de cassação de chapa presidencial pelo TSE ou de impeachment no Congresso.

Pode ser blefe, e deve ser. O comando do Exército não assinou a nota. Se tivesse assinado, o título desta coluna não teria ponto de interrogação.

Afinal, dizer "não faça isso ou eu dou um golpe" já é uma ameaça de golpe, assim como "me dê seu dinheiro ou eu te assalto" já é tentativa de assalto. Se alguém, em qualquer das instituições que fiscalizam o presidente, tiver sido intimidado pela ameaça, o golpe já aconteceu.

E é mau sinal que as instituições não se sintam confortáveis para dizer "vai lá, Jair, tente a sorte, vamos ver se você consegue dar seu golpe, veja o que vai acontecer com você".

Era o que diriam para qualquer presidente que não tivesse milhares de militares no governo. Se, por exemplo, Fernando Collor tivesse dito que pretendia armar a turma do artigo 142, teria sofrido impeachment na terça, sido preso na quinta e torturado na sexta para dizer que foi tudo um plano do Lula.

O que essas notas "não vai ter golpe, mas não derrubem o Jair" fazem é garantir imunidade ao presidente da República. Se não pode ser cassado pelo TSE, ele pode fraudar eleições. Se ele não pode sofrer impeachment, pode cometer crimes de responsabilidade dia e noite, como vem cometendo.

Se ele pode aparelhar a Polícia Federal impunemente, então não haverá mesmo denúncias contra ele. Se ele pode ameaçar a imprensa sem perder o mandato, não há nada que lhe impeça de continuar exercendo pressão até que ela faça efeito.

Pense em todos os políticos corruptos que foram denunciados nos últimos anos. Escolha aquele de quem você gosta menos, aquele contra quem havia provas mais sólidas. Ele não teria sido denunciado se pudesse jogar a carta do golpe.

Como vimos, o comando das Forças Armadas não assinou a carta. Mesmo assim, em uma República funcional, os militares desmentiriam Bolsonaro de forma clara, citando-o nominalmente, para dizer que os tribunais decidirão sozinhos sobre a chapa, o Congresso decidirá sozinho sobre o impeachment, e militar que virou político que aprenda a brigar só com as armas da política.

Se não o fizerem, serão corresponsáveis pelos abusos que Bolsonaro planeja cometer se puder intimidar as instituições com ameaças de golpe.

E, independentemente do que as Forças Armadas fizerem, é triste ver a quantidade de militares que aceitam participar desse desastre de governo. Ver um militar chefiando o Ministério da Saúde que manipula dados é triste.

Esses generais-políticos do governo querem ser poder moderador da República? Não conseguiram moderar nem o Bolsonaro. Porque, de duas, uma: ou fracassaram em moderá-lo ou, se isso aí já é uma versão moderada, foram irresponsáveis quando apoiaram alguém tão extremo em 2018.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Vídeo de reunião ministerial de Bolsonaro é um flagrante


Celso Rocha de Barros

O vídeo da reunião presidencial de 22 de abril é um flagrante.

Sergio Moro falou a verdade. Bolsonaro disse claramente que queria intervir na Polícia Federal na página 25 da transcrição da reunião: começa com “eu tenho o poder e vou interferir em todos os ministérios, sem exceção”, e termina com “pô, eu tenho a PF que não me dá informações”.

Nesse trecho, só duas áreas do governo são citadas: a economia, em que Bolsonaro diz que nunca teve problemas, e “a PF”. Supondo que Bolsonaro não estivesse indignado com Guedes por nunca lhe ter causado problemas, estava anunciando intervenção na Polícia Federal. A intervenção, como se sabe, aconteceu: o diretor da Polícia Federal caiu logo depois, o que ocasionou a saída de Moro do governo.

A defesa de Bolsonaro argumenta que a intenção era mexer na segurança pessoal do presidente. É mentira. Matéria de Andréia Sadi no Jornal Nacional mostrou que, muito pelo contrário, o chefe da segurança pessoal do presidente acabara de ser promovido. E “os amigos” não são protegidos pela segurança presidencial. Ah, os amigos de Jair.

Grande parte da reunião foi uma tentativa de intimidar Moro. Na página 56 da transcrição começa o singelo soneto “eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meus”, que termina com “se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final!”.

Para quem duvida que o recado fosse para Moro, logo depois, na página 58, o endereço de entrega está lá: quem não concordar com as bandeiras do governo que espere 2022 para ser ministro de Álvaro Dias, Alckmin, Haddad ou Lula. Dias teve votação baixa em 2018.

A única coisa que justifica sua inclusão liderando essa lista é sua tentativa de se apresentar como candidato de Moro (e o boato de que Moro teria votado em Dias no primeiro turno). No mesmo trecho, Bolsonaro manifesta seu ciúme de ministros que são elogiados por blogs como “O Antagonista”, críticos de Bolsonaro mas notórios porta-vozes de Moro.

Enfim, resta claro que o recado sobre intervir nos ministérios era para Moro, que não mandava na segurança pessoal do presidente, mas mandava na Polícia Federal. A “Segurança” a que Bolsonaro se referia não era a sua, mas a “Pública” do nome do ministério de Moro (Justiça e Segurança Pública).

Não sei se alguém ainda se importa, mas é abuso de poder, aparelhamento do Estado, tentativa de fugir da polícia e crime de responsabilidade.

E há o fascismo, muito fascismo: Damares Alves diz, na página 47, que governadores que implementam o isolamento social serão presos. Weintraub propôs a prisão dos ministros do STF na página 54. Bolsonaro propõe armar a população (sabemos que não toda, certo?) para resistir aos prefeitos na página 57.

Leia o resto da coluna e responda: esse autoritarismo todo seria para combater corrupção? Pois é, nunca é.

E, numa reunião com tantos crimes e tanto golpismo, o mais repulsivo é que ninguém se dispôs a trabalhar quinze minutos para salvar brasileiros da epidemia, a pelo menos sair da frente de quem está trabalhando, a pelo menos não prender, sabotar ou atirar em quem estiver trabalhando.

Foi uma reunião de gente ruim que desperdiça tempo, vidas e esperança dos brasileiros.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Em 2018, venceu quem fugiu da polícia


Celso Rocha de Barros
Bolsonaro foi eleito porque tinha esquema de acobertamento de escândalos
A entrevista do empresário Paulo Marinho a Mônica Bergamo, publicada pela Folha neste domingo (17), mostrou que Jair Bolsonaro e seus filhos dispunham de um esquema de acobertamento dentro da Polícia Federal durante a eleição.

Segundo Marinho, um delegado da PF avisou Flávio Bolsonaro de que a operação Furna da Onça, em que o esquema Queiroz foi descoberto, seria desencadeada. O mesmo delegado, sempre segundo Marinho, disse que "nós vamos segurar essa operação para não detoná-la agora, durante o segundo turno, porque isso pode atrapalhar o resultado da eleição".

Pense por um minuto no que isso quer dizer.

Em 2018, na "eleição da Lava Jato", o eleitorado queria dizer ao sistema político que "a corrupção é inaceitável". Milhões de brasileiros pobres votaram em um programa econômico em que nunca tinham votado, só para transmitir essa mensagem. O Brasil arriscou sua democracia, sua estabilidade social, e agora vê seus filhos morrendo às dezenas de milhares na epidemia para bancar essa aventura.

Era tudo mentira.

Jair Bolsonaro só foi eleito porque, em 2018, tinha um esquema de acobertamento de seus escândalos melhor do que o de qualquer outro político brasileiro. Conseguia segurar operações contra ele durante a campanha; os outros candidatos não conseguiam.

Pensem na delação de Antonio Palocci, divulgada às vésperas da eleição, mas pensem também nas operações contra governadores tucanos ocorridas durante o primeiro turno. Se petistas e tucanos tivessem os esquemas que Bolsonaro tinha, nada disso teria vindo à luz.

É esta a lição que o bolsonarismo trouxe para os corruptos brasileiros: "Primeiro deveríamos ter recrutado os militares e a polícia. Para o juiz era só ter dado um ministério e deixado que suas fotos do lado da gente o desmoralizassem. Sem essa frescura de PT e PSDB respeitando democracia."

Nesta segunda (18) deve ser divulgado o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril. Pelo que já vazou, não restará mais dúvida de que Bolsonaro tentou aparelhar a Polícia Federal para se proteger.

O argumento de que pretendia substituir os responsáveis por sua segurança pessoal, e não o comando da PF, foi desmontado por matéria do Jornal Nacional de sexta-feira (15): os responsáveis por sua segurança foram promovidos pouco antes da reunião.

Quando estiver assistindo ao vídeo em que o presidente confessa seus crimes contra a Polícia Federal, preste atenção no resto da conversa, no ambiente bolsonarista: na vontade de armar a população contra os governadores, na vontade de prender os ministros do STF, no ódio à democracia e à liberdade.

Observe os bolsonaristas conspirando contra a democracia enquanto acobertam seus crimes e aprenda isto: os fascistas são bandidos piores do que os bandidos comuns, mesmo no quesito "crime comum".

Ninguém nunca se tornou ditador para prender ladrão. O sujeito vira ditador para ser ladrão em paz, para saquear o dinheiro público sem que a imprensa livre, a oposição, o STF, o Congresso Nacional ou a Polícia Federal o atrapalhem.

Na entrevista de domingo, Marinho também contou que o ex-ministro Gustavo Bebianno temia que Bolsonaro tentasse um golpe quando ficasse acuado. Vejamos o que faz com a polícia batendo na porta do Alvorada.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Bolsonaro promove corrupção brasileira do furto para o assalto à mão armada



Celso Rocha de Barros:
Presidente está comprando o centrão para aprovar pautas autoritárias e, sobretudo, para evitar o impeachment
O ex-deputado Roberto Jefferson postou uma foto em que carrega um fuzil e se diz pronto para defender o Brasil do comunismo sob as ordens de Jair Bolsonaro.

Sem querer, produziu a melhor síntese do bolsonarismo até agora: o bolsonarismo é o momento em que a corrupção brasileira passou do furto ao assalto à mão armada.

Não foi, a propósito, o primeiro contato do ex-deputado com a extrema direita. Vamos lá, tente adivinhar, o que foi que Roberto Jefferson fez antes com a extrema direita? Resposta no próximo parágrafo.

Você acertou, ele roubou da extrema direita. Em 19 de março de 2010, Jefferson publicou um artigo na seção Tendências/Debates deste jornal, em que argumentava que era a ideologia esquerdista que fazia o PT roubar. Não se sabe que ideologia o inspirou nesse caso, mas o fato é que o artigo era roubado: era plágio de um artigo de Olavo de Carvalho, que escreveu à Folha no dia seguinte reclamando. Jefferson colocou a culpa em “um antigo colaborador”.

O centrão, a propósito, sempre teve uma facção armada, a bancada da bala.

O sujeito ouve “bancada da bala” e pensa, “nossa, deve ser tudo capitão Nascimento, tudo sujeito violento, mas honesto”. Não, filho. O chefe da bancada da bala, deputado Alberto Fraga, foi gravado em 2009 reclamando que um de seus assessores, Júlio Urnau, estaria, supostamente, recebendo mais suborno do que ele. Ao fim da conversa, concluía: “E eu com cara de babaca aqui, entendeu?”. Jair Bolsonaro sonha em dar um ministério para Fraga. Pensou em entregar-lhe o Ministério da Segurança Pública como forma de enfraquecer Sergio Moro. E nós com cara de babaca, aqui, entendeu?

Mas se engana quem pensa que tudo isso faz do bolsonarismo “mais do mesmo”.

Bolsonaro é muito pior do que “o mesmo”. Os outros governos compravam o centrão burlando as regras da democracia, mas preservavam a democracia.

Ao contrário do PT, por exemplo, Bolsonaro poderia, se quisesse, ter construído uma maioria parlamentar ideologicamente coesa. A esquerda sempre foi muito minoritária no Parlamento, mesmo quando vencia a eleição presidencial. Mas o atual Congresso Nacional é o mais conservador de todos os tempos.

O PSL poderia ter facilmente se tornado um partido grande, se o próprio Bolsonaro não o tivesse rachado ao meio. Partidos como o DEM poderiam ter fornecido quadros liberais para uma coalizão que se contentasse em ser conservadora dentro da democracia.

Se quisesse, Bolsonaro poderia ter montado um governo mais limpo, não por ser mais honesto –nunca, em hipótese alguma– mas porque há muitos deputados que defendem pautas conservadoras mais ou menos de graça.

Bolsonaro não quis compor uma maioria conservadora dentro da democracia.

Fez guerra ao DEM e ao PSDB o tempo todo, e ainda faz, mesmo quando eles defendem propostas do governo. Se Bolsonaro topou entregar todos os cargos que o centrão quis, mas não os que o DEM quis, é porque não está comprando votos para aprovar reformas liberais.

Bolsonaro está comprando o centrão para aprovar pautas autoritárias e, sobretudo, para evitar o impeachment. Ele sabe que a República qualquer dia desses acorda. E que, quando acordar, vai querer saber por que tem dez mil filhos a menos.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Bolsonaro, comorbidade brasileira


Celso Rocha de Barros
Nova onda de ataques ao Congresso e ao STF cria pesadelo institucional
Nas últimas semanas esta coluna defendeu a estratégia de isolar Bolsonaro até o final da crise.

O presidente da República sabotava abertamente o esforço dos governadores contra a epidemia. Não havia tempo para impeachment. Um Bolsonaro que ao menos não atrapalhasse parecia ser o melhor cenário possível. Um dia nos perguntaremos como foi que isso virou o melhor cenário possível e quem bloqueou os outros cenários.

Quando, 15 dias atrás, Bolsonaro foi impedido de demitir o então ministro da Saúde Henrique Mandetta, pareceu que a estratégia daria certo. E talvez ela tenha nos garantido semanas importantes, em que o combate dos governadores pode ter feito diferença.

Mas parou de dar certo, ou está dando bem menos certo. Nem tanto pela substituição do ministro —ainda não estão claras as posições de Nelson Teich— mas pelo desastre que é ter Bolsonaro e seu ódio à ciência de volta à conversa em uma hora dessas.

Mandetta foi demitido porque os militares no governo o abandonaram. Os generais haviam sido decisivos para que não fosse demitido 15 dias antes. Diz-se que a mudança de posição dos militares se deu pela entrevista do agora ex-ministro ao Fantástico, que teria caracterizado "quebra de hierarquia".

O argumento é ridículo. A hierarquia foi quebrada porque o topo da hierarquia enlouqueceu.

Em tempos normais, a entrevista de Mandetta talvez justificasse a demissão. Mas não são tempos normais.

Estamos na pior crise do milênio, e o presidente do Brasil é internacionalmente reconhecido como o pior gestor da crise entre os líderes dos grandes países.

Nós só não somos piada mundo afora porque ninguém acha que o que vai acontecer no Brasil vai ser engraçado.

Se há tempo para nos preocuparmos com a honra ferida de Jair Bolsonaro, certamente deveria haver tempo para discutirmos seus inúmeros e bem documentados crimes de responsabilidade.

Se a oposição aceita não propor impeachment durante a crise, é intolerável que o governo aceite perder tempo com presidente sabotando ministro.

Bolsonaro, como sempre, interpretou a concessão como sinal de fraqueza do adversário e redobrou o ataque.

Poderia ter reagido à queda de Mandetta com sobriedade e aproveitado a vitória. Em vez disso, imediatamente lançou uma nova onda de acusações contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, criando um cenário de pesadelo de crise institucional durante a pandemia.

É o pior presidente do mundo. É o pior presidente da história. E não conseguimos contê-lo a tempo de salvar as vidas dos brasileiros.

Mesmo se o novo ministro for competente, vai levar tempo para tomar pé da situação. Mesmo se uma nova acomodação com Congresso e Supremo Tribunal Federal for negociada, não vai ser em dois dias. E essas semanas que perderemos são exatamente as que, no início do processo, prevíamos que seriam as piores.

O que é possível fazer nesse quadro?

A pandemia sempre seria difícil para um país pobre como o Brasil, mas muitas forças se mostraram dispostas a combatê-la: governadores, parlamentares, ministros do Supremo Tribunal Federal, imprensa profissional, associações comunitárias, universidades e centros de pesquisa.

Nosso sistema imunológico institucional tinha chances razoáveis, e ainda está na briga. Mas enquanto enfrentarmos a comorbidade do bolsonarismo, o otimismo é difícil.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

A falta que faz um presidente


Faz falta um presidente não Jair 

Celso Rocha de Barros*

O melhor de Bolsonaro na pandemia é sua ausência na gestão da crise

A reversão da demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, na semana passada deu a impressão de que Jair Bolsonaro havia se tornado uma espécie de rainha da Inglaterra com menos experiência militar relevante. A jovem Elizabeth de Windsor, como se sabe, foi mecânica de caminhões durante a Segunda Guerra Mundial.

Parece ter havido um esforço coordenado entre os brasileiros de bom senso para manter Bolsonaro isolado até o fim da pandemia. Congressistas, militares, ministros do STF e mesmo alguns ministros do próprio governo parecem ter atuado para impedir que o presidente da República sabotasse o esforço dos governadores para achatar a curva de contágio.

Se o Brasil sobreviver à epidemia, vai ser graças aos esforços dessa turma.

Mas ainda há um risco grande de tudo dar errado. Porque não basta que o presidente da República não atrapalhe. No sistema brasileiro, é preciso que ele trabalhe, pois há coisas que só ele pode fazer.

Bolsonaro, que fique claro, continua atrapalhando o máximo que consegue. Vai às ruas para sinalizar que o isolamento é desnecessário, conspira abertamente contra o próprio ministro da Saúde, vende para seu público as mentiras vagabundas de Osmar Terra. Fala em “isolamento vertical”, mas, na hora de dizer como os velhos seriam isolados, diz que é problema das famílias. Compra briga com os chineses, grandes produtores de material médico de que precisamos desesperadamente.

No fundo, a mensagem de Bolsonaro para os doentes e parentes das vítimas é a mesma de Augusto Heleno para os congressistas um mês atrás. Bolsonaro não trabalha 15 minutos por dia para combater a epidemia. A revista britânica The Economist citou Bolsonaro como um dos quatro líderes mundiais que menosprezam a ameaça da Covid-19 (os outros são da Nicarágua, Belarus e Turcomenistão).

Tão trágica quanto o discurso e o exemplo do presidente da República é sua omissão nas áreas em que só o Poder Executivo pode agir. É o caso da economia.

Bolsonaro gasta seu tempo brigando com os governadores enquanto deveria estar liderando a conversão da indústria nacional em produtora de máscaras, remédios, respiradores. Ao invés de fazer lives com propaganda de remédio, deveria ter pressionado pela liberação mais rápida da renda básica emergencial.

Estudo do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas, mostra que as medidas tomadas até agora, por mais importantes que tenham sido, não são suficientes para preservar a renda dos brasileiros. O Brasil ainda não conseguiu garantir aos trabalhadores brasileiros a capacidade econômica de ficar em casa durante o isolamento, e isso é tarefa para a Presidência.

A iniciativa, a ousadia, a visão de longo prazo e a cobrança de eficiência que estão faltando à equipe econômica deveriam estar vindo do Planalto. Mas o Planalto não tem outro plano senão a volta ao trabalho e a aceitação da mortandade em massa. Resta torcer para que Guedes ou alguma coalizão de ministros assuma as rédeas do processo e escape da sabotagem presidencial.

De Jair Bolsonaro, o melhor que se pode esperar continua sendo a ausência. Ele é isso aí, o exato oposto do líder de que o Brasil precisa agora.

*Celso Rocha de Barros, servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra).

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Começou a quarentena de Bolsonaro


Celso Rocha de Barros

Passei a última semana com febre, em geral baixa. Nada de assustador, não sei se é Covid-19, talvez não seja, não tem teste para fazer.

Já estou melhor, estou contando isso só para explicar uma história engraçada: no pior dia, fiquei tão doidão de febre que achei que tinha visto Bolsonaro fazendo um pronunciamento moderado e pragmático. Ali eu vi que era hora de tomar um antitérmico e ir dormir.

E, de fato, dois dias depois, o presidente da República dobrou a aposta no crime de responsabilidade. Em um programa de rádio, enquanto Augusto Nunes o massageava, Bolsonaro atacou abertamente seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Disse que falta humildade ao ministro e que ele pode ser demitido a qualquer momento.

Segundo o Datafolha, Mandetta tem o dobro da aprovação popular de Bolsonaro.

A boa notícia é que a nova ofensiva de Bolsonaro é uma reação desesperada. A estratégia de colocar em quarentena a família Bolsonaro e os olavistas começou a funcionar.

Mandetta reassumiu a postura de independência. Voltou a recomendar enfaticamente que todos fiquem em casa e pediu que a população siga as orientações de seus governadores (isto é, não as da Presidência).

Já é público que o Ministério da Saúde atuará na crise ignorando o que diz o presidente da República, para sorte do Brasil. E se Mandetta sentiu que podia ser independente, é porque o clima em Brasília não é favorável a Bolsonaro.

A quarentena do presidente já era evidente na postura de militares e membros da equipe econômica, que já trabalham mais com o Congresso do que com o Planalto.

Mas foi oficialmente decretada em um post no Instagram (pois é) de Rosângela Moro, esposa do ministro da Justiça. Publicado no dia do ataque de Bolsonaro ao ministro, o texto defendia a ciência contra os “achismos” e concluía: “In Mandetta we trust”.

Sempre houve a suspeita de que Moro transmite mensagens através da conta da esposa como forma de não se comprometer.

O post foi apagado, mas foi reproduzido em todos os jornais, como a autora e seu marido certamente sabiam que seria. Moro nunca havia esboçado qualquer crítica pública a seu chefe.

Bolsonaro está isolado, mas ainda não caiu. Ainda vem causando grande estrago com seu discurso contra o isolamento.

Ainda articula contra os governadores e costura apoio na facção canalha do empresariado. Sua aprovação é declinante, mas ainda gira em torno de 30%.

Ele ainda tem poder para sabotar Mandetta e os governadores e certamente continuará tentando.

Vale perguntar também o que seria um governo Bolsonaro depois disso tudo, se for permitido ao presidente sair da quarentena.

Ninguém nunca vai esquecer o que ele fez durante a crise nem ele vai esquecer que ministros o isolaram. Bolsonaro é excepcionalmente paranoico e vingativo. Que nova radicalização ele tentará se sobreviver à crise? O que os militares pretendem fazer com ele de agora em diante?

O cenário é de um governo que está caindo, mas é sustentado pelos militares e pela própria inconveniência de derrubá-lo durante a pandemia.

O cenário é inédito, e as previsões são arriscadas. Mas se Bolsonaro continuar apostando que nunca será derrubado, uma hora ele perde.

segunda-feira, 30 de março de 2020

O presidente mandou o Brasil morrer

Daqui em diante, cada novo cadáver vai para a conta do Jair. E tem que ir mesmo. Foi ele quem matou essas pessoas quando foi à TV para matar gente.
Celso Rocha de Barros

Parecia que tinha dado certo. Na segunda-feira passada, Bolsonaro deu sinais de que passaria a apoiar o esforço dos governadores contra a pandemia. Houve alguma liberação de recursos, que não foi grande, mas foi um bom começo. Parecia que alguém tinha conseguido convencer o presidente da gravidade da situação.

Mas é o Jair.

Na terça-feira, o presidente da República foi à TV para matar gente. Voltou a dizer que a Covid-19 era só uma “gripezinha” e mandou a população voltar às ruas. Mentiu como sempre e como nunca. Mandou para a morte o grande número de idosos que ainda acredita nele. Nos dias seguintes, obrigou o ministro da Saúde, que vinha fazendo um bom trabalho, a se tornar cúmplice de seus crimes, para que nunca pudesse denunciá-los. Mandetta voltou atrás no pronunciamento de sábado, mas não se sabe o tamanho do dano que já tinha sido feito. Muita gente voltou às ruas.

A essa altura, é até difícil interpretar o que o presidente tinha em mente quando foi à TV para matar gente. Talvez tenha sido só sociopatia: talvez ele simplesmente não compreenda que a vida dos outros mereça consideração. Talvez tenha se inspirado em Trump, que vem discursando a favor da volta ao trabalho —sem data marcada, após estudos, e com a manutenção do isolamento por enquanto. Note-se que até o ideólogo Steve Bannon defende um isolamento forte que permita uma saída rápida da crise. Talvez os brasileiros morram porque o presidente da República assiste a vídeos ainda mais toscos que os de Bannon no YouTube.

Mas também é possível que Jair tenha tentando um golpe de jiu-jitsu muito além de sua faixa. Pode ter criticado o isolamento enquanto torce para que ele dê certo. Se der, o número de casos será pequeno e Bolsonaro poderá mentir que o risco nunca foi tudo isso, não precisava ter sacrificado a economia, ele bem que avisou.

Se é isso que Bolsonaro tem em mente, está jogando errado, porque todo dia ele diminui as chances de o isolamento dar certo. Seus adeptos convocam carreatas. O governador de Santa Catarina, do ex-partido de Bolsonaro, vai encerrar o isolamento. Ao contrário do governo Trump, Bolsonaro mal começou a gastar dinheiro para combater a crise, e sem dinheiro as pessoas vão acabar tendo mesmo que arriscar a vida indo trabalhar.

Daí em diante, cada novo cadáver vai para a conta do Jair. E tem que ir mesmo. Foi ele quem matou essas pessoas na terça-feira, 24 de março de 2020, quando foi à TV para matar gente.

Resta ao Brasil apoiar quem está do seu lado: os governadores e prefeitos que promovem o isolamento enquanto novos leitos são criados, mais material médico é comprado e a economia é reorganizada para sobreviver à crise. O Congresso, que aprovou a renda mínima de R$ 600 (não, não foi o Jair). A imprensa brasileira, que vive um grande momento. E, sobretudo, nossos cientistas e profissionais que estão na linha de frente e são nossa maior esperança.

Faça a lista de quem já foi atacado por Bolsonaro: são os que estão salvando vidas brasileiras. Torça para que eles tenham sucesso, Jair, dê-lhes todo o dinheiro que você tem. Não deveríamos estar falando de manobras políticas em uma hora dessas. Se você nos obrigar a falar, falaremos com raiva, e, desta vez, todos juntos.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Bolsonaro tem que sair


Derrubar Bolsonaro ajudaria ou atrapalharia o combate à epidemia?
Se não deixar a máquina federal a favor de quem trabalha para salvar vidas, presidente tem que sair
Celso Rocha de Barros

Na história mundial do presidencialismo, ninguém mereceu tanto sofrer impeachment quanto Jair Bolsonaro. Em seu ano e poucos meses de governo, conspirou abertamente contra a democracia e contra a imprensa livre, fez guerra à ciência e aos pobres, rebaixou a Presidência como ninguém.

Enquanto escrevo, sabota abertamente a política de isolamento implementada pelos governadores e defendida por técnicos de seu próprio ministério. Prefere uma contagem de corpos alta a uma economia fraca que prejudique sua reeleição. A economia vai desabar de qualquer jeito. A contagem de corpos ainda pode subir muito.

Isso quer dizer que Bolsonaro será, ou deve ser impedido no momento atual? Depende, porque ninguém sabe direito que tipo de disputa política é possível ou desejável em tempos de pandemia.

O bolsonarismo está claramente declinando. Os panelaços, a debandada de direitistas chocados com a demência presidencial, a rebelião dos governadores, o desespero do agronegócio diante dos ataques contra a China, tudo isso sugere que Bolsonaro cairia se as pessoas pudessem ir às ruas.

Mas não podem. O impeachment dependeria de um jogo de bastidores —com parlamentares, membros da elite e militares. Não é um jogo fácil, mas já há ventos soprando para esse lado. A história mostra que, se precisar derrubar, acha-se um jeito. A questão fundamental, entretanto, é outra: derrubar Bolsonaro ajudaria ou atrapalharia o combate à epidemia?

Em termos práticos: enquanto Bolsonaro for presidente, conseguiremos colocar a máquina federal a favor de quem está trabalhando para salvar vidas? Se for possível, que seja feito. Se não for possível, Bolsonaro tem que sair.

Guerras e epidemias são testes para as nações. Há muitos brasileiros se mostrando à altura do momento. Governadores de todos os partidos, dos conservadores Doria e Witzel ao comunista Flávio Dino, estão trabalhando para salvar vidas.

Economistas ortodoxos e heterodoxos, intelectuais de esquerda e de direita, demonstram uma rara convergência de propostas: é preciso aproveitar o tempo comprado pelo isolamento para equipar o sistema de saúde, usar o BNDES para converter fábricas em produtoras de equipamento médico, gastar dinheiro para sustentar brasileiros que precisem ficar em casa, organizar os setores que não puderem parar.

Há grandes divergências políticas entre essa turma toda, mas elas devem ficar para depois da crise. É hora de todo mundo baixar a bola. Nosso problema atual é que as duas coisas que podem nos ajudar —impeachment e política anticíclica— seriam muito mais fáceis de fazer se não tivessem sido utilizados erroneamente na década passada.

Foram dez anos em que todo mundo fez tudo errado, por motivos que os historiadores desvendarão. Ninguém aqui tem direito à marra. Estamos todos devendo. Vamos para a sala de reunião de cabeça baixa e com atitude humilde para pensar em uma saída.

Os bolsonaristas conseguem fazer isso? Conseguem, ao menos, ficar quietos enquanto fazemos isso? Conseguem sair da frente e deixar que a máquina federal seja disponibilizada para esse esforço? Se não conseguirem, vão ter que sair da sala. Não adianta ter um governo cheio de militares que não apareça para ajudar na hora de organizar uma economia de guerra.

segunda-feira, 16 de março de 2020

É hora do populismo de WhatsApp calar a boca

Não somos ricos como os EUA; não temos dinheiro para comprar uma segunda chance
Celso Rocha de Barros

- O melhor argumento do conservadorismo popular é que os pobres estão perto demais do naufrágio para fazer marola.

O jovem rico que passa alguns anos bebendo e faltando aula vai ter outra chance, vai ser sustentado enquanto se recupera, vai fazer cursinho por quantos anos for necessário até entrar na faculdade. O jovem pobre que tentar a mesma coisa nunca mais vai ter qualquer chance de sair da pobreza. A moça rica que engravidar na adolescência vai fazer seu aborto em uma clínica de qualidade. A moça pobre na mesma situação vai ter que largar a escola para criar filho. O direito a fazer besteira é tão desigualmente distribuído quanto a renda.

O mesmo vale para países. Se os Estados Unidos quiserem brincar de Donald Trump, é estúpido, mas eles têm dinheiro para isso. Nós, brasileiros, nunca tivemos dinheiro suficiente para brincar de Bolsonaro, e agora isso vai ficar mais claro do que nunca.

A primeira reação de Donald Trump à crise da Covid-19 foi fingir que não estava acontecendo nada. O país perdeu a chance de conter o contágio em sua fase inicial, o que teria sido importantíssimo.
Mas as instituições americanas são muito mais fortes do que as brasileiras, e os Estados Unidos são muito mais ricos que o Brasil.

Quando a coisa ficou feia, democratas e republicanos no Congresso chegaram a um acordo para iniciar um ambicioso programa de combate à epidemia. O governo tem dinheiro mais do que suficiente para aplicar tantos testes de Covid-19 quanto forem necessários, para ajudar os empregados que tiverem que faltar ou as empresas que sofrerem com a recessão. Eles são os adolescentes ricos que têm dinheiro para comprar segundas, terceiras, quartas chances.

Do nosso lado, a situação é bem diferente. Durante as três semanas em que teve início uma guerra de preços de petróleo e uma epidemia global, o Brasil ficou parado esperando o resultado de uma passeata contra a democracia convocada pelo Presidente da República.

Bolsonaro declarou que a Covid-19 era “uma fantasia” e aproveitou para dizer que a eleição de 2018 foi fraudada. Adiou o Ustrapalooza em cadeia nacional de rádio e TV, elogiando os manifestantes, feliz porque o parlamento havia recebido “um recado tremendo”. A bolsa de valores colapsou, o dólar disparou, as previsões de crescimento desse ano viraram uma piada, a Covid-19 se espalhou.

Nós não somos ricos como os americanos, não temos dinheiro para comprar segunda chance. Somos a jovem pobre que talvez não consiga abortar o golpismo com segurança.

A crise exige falar sério sobre problema difícil. Os economistas estão pensando em formas de flexibilizar de alguma forma os limites legais estabelecidos para os gastos públicos (teto, metas, etc.) como forma de combater a crise. É tecnicamente muito difícil. O Ministro da Saúde mostrou-se uma grata surpresa, admitindo desde o início a gravidade da crise e acionando o Mais Médicos. Sua tarefa também é tecnicamente muito difícil.

Por isso é hora do Brasil dar voz a burocratas qualificados, cientistas, e, sobretudo, políticos de cabeça fria. É hora do populismo de WhatsApp calar a boca. Independentemente do resultado dos exames, é hora de manter a família Bolsonaro e os olavistas em quarentena.

Celso Rocha de Barros
Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra).